01.
[ ! ] Não leia a história antes de ler as tag’s e sobre o que ela se refere. Conteúdo extremamente sensível. Se você gosta de um bom Dark Romance, seja bem vindo.
*
Nemo me impune lacessit. (Ninguém me fere impunemente.)
Aquele que ousar brincar comigo certamente pagará por isso.
***
O tribunal estava em silêncio.
Se alguém deixasse cair uma agulha, o som certamente soaria como um estrondo ensurdecedor. Em meio ao silêncio em que ninguém sequer conseguia respirar direito, o autor da ação tremia, pálido como um cadáver.
Seus olhos oscilavam descontroladamente, mas seu olhar permanecia fixo em um único ponto, sem se mover.
Era o momento exato em que a sentença que definiria sua vida seria proferida.
O homem, com as mãos juntas como se estivesse rezando, parecia prestes a desmaiar de tensão, mas mal conseguia manter a consciência. Enquanto todos os olhares no tribunal estavam concentrados, os lábios do juiz finalmente se moveram.
“……Portanto, a petição do autor do dia X do mês X do ano 20XX é julgada improcedente.”
“Ah!” Foi apenas esse curto gemido que escapou da boca do homem.
Logo em seguida, ele desabou na cadeira, cobrindo o rosto com as mãos, enquanto o juiz continuava a ler a sentença de forma mecânica.
“O escrivão do tribunal dá a sentença do réu e encerra o caso……” Houve a declaração final do juiz, mas parecia não chegar aos ouvidos do homem.
Através de seus dedos, era possível ver seus olhos arregalados. O homem, que tremia todo como uma folha ao vento de inverno, logo começou a chorar, agarrando a própria cabeça. Da boca daquele homem adulto, saíam choros e lamentações como os de uma criança.
Dominic L. Miller observava em silêncio o autor da ação, que permanecia sentado em desespero, chorando sem parar.
Como se estivesse apreciando a cena, ele relaxou os lábios e entreabriu os olhos, o que fazia sua expressão parecer quase como se estivesse sorrindo.
A maioria das pessoas não acreditaria no que estava vendo, mas era a pura verdade. Em sua vida, que era extremamente tediosa em todos os aspectos, o único momento em que ele conseguia se sentir verdadeiramente vivo era agora. Ele sentiu um leve arrepio percorrer suas veias e seu ventre esquentar sutilmente, mas parou por aí.
Pensar que esse era o limite do prazer que poderia ter o fez lembrar de como sua vida era, afinal, passava o tempo de forma entediosa. Depois de ficar sentado por um tempo, assim que confirmou que o juiz havia se retirado e o julgamento estava totalmente encerrado, ele se levantou sem pressa.
“Sr. Miller, muito obrigado. Como esperado, o senhor é o melhor advogado do leste — não, de todo o país. O presidente vai ficar extremamente feliz!” O cliente passou à frente dos outros advogados e apertou a mão de Dominic com força, com um sorriso radiante.
Dominic lançou um olhar rápido para os homens presentes como representantes da empresa, que comemoravam alegres ao acompanhar o julgamento, e depois se retirou, apenas trocando breves olhares com os outros advogados em vez de se despedir.
“O Sr. Miller já vai embora?” Ao ver as costas dele se afastando, o cliente perguntou, e os outros advogados responderam assentindo.
“O Miller sempre vai embora assim que o julgamento termina. O resto das conversas o senhor pode ter conosco.”
“Entendo……” Mesmo ouvindo isso, o homem continuou olhando para as costas dele com um ar de lamentação, murmurando como se falasse sozinho. “Pelo visto, ele realmente não é uma pessoa fácil de se aproximar.”
“Se aproximar? Do Miller? Por quê? Pra quê?” Diante da reação surpresa dos advogados, o homem deu um sorriso sem jeito para disfarçar o constrangimento.
“Não, bem… não haveria nada de errado nisso, haveria?”
“É, bom, pode ser.” Aparentemente sem escolha, um dos advogados, medindo os olhares ao redor, tomou a palavra. “O Miller não cria proximidade com ninguém. Ele nunca sequer tomou uma xícara de café com a gente, que trabalhamos com ele.”
“Será que é misantropia¹ ?” Alguém sussurrou em voz baixa.
Enquanto trocavam olhares entre si para tentar identificar a origem da voz, um deles soltou: “Na verdade, ele só não quer se misturar com pessoas comuns como nós, já que é um nobre Alfa Dominante.”
Seu tom sarcástico era bastante rude, mas ninguém o corrigiu.
No fundo, todos pensavam a mesma coisa.
Aquele homem estava subjugando a todos, exceto a si mesmo.
Percebendo o clima desconfortável que se instalou entre eles, um dos clientes tomou a frente para tentar mudar de assunto.
“Bem, chega de conversa inútil. Nós já vamos voltar para a empresa. Embora já tenhamos informado o resultado ao presidente por telefone, precisamos fazer o relatório presencialmente. Os procedimentos restantes faremos à parte. Bom trabalho a todos.”
“Imagina. É apenas o nosso trabalho.”
Atrás da cena de advogados e clientes se misturando, trocando apertos de mão e cumprimentos cordiais, o autor derrotado permanecia sentado, olhando para o nada, completamente atônito.
Seu advogado lhe dirigia palavras de consolo, mas ele não parecia ouvir absolutamente nada. Sem conseguir conter o mar de lágrimas, ele apenas continuava a chorar.
***
“Acredito que seja proibido liberar feromônios dentro do tribunal, não?” Diante da voz repentina, Dominic, que caminhava pelo corredor, olhou para o lado.
Um homem com a barba por fazer e o queixo áspero aproximou-se dele com um sorriso debochado. Dominic voltou o rosto para a frente e continuou seu caminho. O homem, praticamente correndo para alcançá-lo, inalou ruidosamente o aroma adocicado espalhado ao redor e acrescentou com um sorriso dissimulado.
“Bem, mas o julgamento já acabou, então não tem problema, certo?” Dominic não respondeu e apenas continuou andando.
Embora seu rosto permanecesse completamente inexpressivo, o homem conseguia perceber que ele o achava um estorvo.
“Se quiser falar sobre o julgamento, marque uma data para uma entrevista separada.” A voz gélida confirmou ao homem que seus pensamentos estavam corretos.
“Ah, não. Eu vi a vitória com meus próprios olhos, para que perguntaria mais sobre isso? O que me deixa curioso é outra coisa.” O homem fez uma pausa proposital antes de perguntar: “Ouvimos dizer que o escritório H&J está planejando contratá-lo. O senhor está ciente disso?”
Lançando a pergunta com sutileza, ele continuou a falar enquanto observava a reação de Dominic.
“Sendo o H&J o maior escritório de lobby atualmente, eles devem oferecer uma quantia considerável, não? Há quem preveja que será a melhor proposta do setor.”
Seu olhar, com os olhos entreabertos como se estivesse espionando, revelava a curiosidade desagradável típica de sua profissão. Dominic respondeu de forma breve, ainda em um tom frio:
“Ora, se você é um jornalista, não deveria checar os fatos por conta própria?”
Foi uma resposta fria a ponto de ser constrangedora, mas o jornalista não se intimidou nem um pouco e, pelo contrário, deu um sorriso debochado.
“E não é exatamente o que estou fazendo agora?” Parando em frente ao elevador, Dominic olhou para ele pela primeira vez.
Para o jornalista que o encarava cheio de expectativa, ele deu um sorriso sarcástico e disse: “Sem comentários.”
Ah, um suspiro escapou involuntariamente. O jornalista deixou transparecer o limite de sua paciência e resmungou com irritação.
“Não seja assim, me diga. Se for verdade, é um furo enorme.”
“Desde quando jornalistas checam os fatos antes de escrever uma matéria?”
Diante da pergunta que parecia zombar dele, o jornalista respondeu prontamente.
“A partir de agora.” Ele deu um sorriso debochado e acrescentou: “Vou tentar fazer isso a partir de agora.”
As sobrancelhas bem desenhadas de Dominic franziram por um segundo. Era evidente que a provocação do jornalista não o agradou, mas sua reação seguinte foi apenas soltar um breve “ha”.
Como se perder tempo com bobagens fosse algo completamente inútil. Bem nessa hora, o som da chegada do elevador se fez presente, e Dominic deu um passo à frente como se estivesse esperando por isso. Mesmo atrás das portas se fechando, o jornalista não desistiu e gritou.
“Se tiver algo para virar matéria, por favor, entre em contato a qualquer momento!”
Assim que disse as últimas palavras, as portas se fecharam. Com isso, o jornalista deu um solavanco de suspiro profundo e relaxou os ombros.
“Você se saiu muito bem contra aquele homem arrogante.” Sentindo dor muscular e massageando a nuca, um homem do mesmo meio dirigiu-lhe a palavra.
Ao se virar, viu um grupo de jornalistas o observando. Saber que todos haviam testemunhado como ele fora completamente ignorado há pouco fez até ele, conhecido por ter uma cara de pau, ficar com as orelhas vermelhas.
“Perto do que podia acontecer, eu me saí até que bem.”
Em resposta ao incentivo de alguém, outro homem comentou: “Pois é, fiquei com medo de que ele fosse enforcar você.”
“Ei, ainda estamos dentro do tribunal.” Quando o jornalista chamou a atenção deles num tom brincalhão, veio uma resposta do outro lado.
“Mas, vindo daquele homem, ele seria bem capaz disso, não?”
“Afinal, não existe o impossível para um Alfa Dominante.” A uma voz que concordava, acrescentou-se mais uma fala.
“Aquele homem já deve ter matado alguém, com certeza.”
Diante da fala dita em um sussurro propositalmente baixo, outro perguntou: “Um jornalista? Ou qualquer outra pessoa?”
“Independente de quem for.” Por um breve instante a ideia pareceu tentadora, mas logo o jornalista balançou a cabeça negativamente. “Pra quê? Se ele pode fazer isso legalmente de qualquer jeito?”
Se fosse Dominic L. Miller, trancar a pessoa rival na prisão pelo resto da vida seria o de menos; ele conseguiria até mesmo uma pena de morte.
Ele não precisava sujar as próprias mãos. Ainda mais contra um jornalista que só buscava escândalos, ele jamais se daria ao trabalho de fazer algo tão incômodo.
“Os Alfas Dominantes são narcisistas, não são? Eles se valorizam tanto que dificilmente cometeriam um ato impulsivo para prejudicar alguém assim, a não ser que tenham calculado friamente se haveria alguma desvantagem para eles.” Diante do que foi dito, todos se calaram.
Não havia como discordar.
Era uma verdade incontestável.
Mudar de assunto parecia uma opção melhor, e um deles puxou a conversa: “Que tal apostarmos se o Miller vai ou não para outro escritório de advocacia?”
***
Screeech!
O violinista produziu um som estridente e incômodo. Em seguida, como se tentassem abafar aquele ruído rapidamente, os outros músicos pegaram seus instrumentos e se apressaram a tocar a música.
No meio disso, um homem acenou levemente para um garçom que passava, fazendo-o se aproximar. Ele escolheu uma taça de espumante da bandeja e fez um gesto como se estivesse brindando com as pessoas reunidas.
“A mais uma vitória.”
“Parabéns, Miller.” Uma mulher ao lado dele acrescentou com um sorriso elegante.
Diante das palavras que se seguiram, Dominic apenas assentiu levemente com um sorriso ensaiado.
“Obrigado.”
“Todos achavam que esse julgamento seria bem difícil.”
Ao ouvir o comentário de alguém, a mulher que o parabenizou primeiro piscou os olhos, fingindo surpresa.
“Sério? Eu não achava. O Sr. Miller perder um julgamento é algo simplesmente impossível, não é?”
“É… pois é, haha.” O homem que puxou a conversa deu uma risada sem jeito, observando a reação de Dominic.
Ele parecia apreensivo, temendo ter desgostado o advogado, mas o próprio Dominic não tinha o menor interesse na conversa deles. Vendo-o inclinar silenciosamente a taça de espumante, o homem se apressou em mudar de assunto.
“Todos já decidiram quem vão apoiar nesta eleição? Ouvi dizer que em breve haverá uma festa de arrecadação de fundos……”
Deixando as palavras que continuavam a fluir entrarem por um ouvido e saírem pelo outro, Dominic olhou lentamente ao redor do salão de festas.
Como sempre, era uma reunião extremamente tediosa.
Sob o pretexto de ser uma festa de caridade, na verdade, a intenção de todos era fingir socializar enquanto farejavam como letrados qualquer oportunidade de ganhar dinheiro fácil. Ver as conversas focadas em sondar rapidamente qual político traria mais vantagens se fosse eleito estava deixando Dominic entediado.
Acho que vou embora.
“Bom, agora……” Foi no momento em que ele abriu a boca para se despedir brevemente.
De repente, alguém esbarrou com força nas suas costas. Com o impacto inesperado, Dominic cambaleou e acabou derramando o espumante que segurava.
“Ah.” De baixo, veio um curto exclamar, quase como um grito de susto.
Segurando instintivamente o corpo que oscilava fortemente, o primeiro pensamento de Dominic foi: ‘É leve.’ Franzindo o cenho pela sensação de vazio em seus braços, ele olhou para baixo e se deparou com os olhos do homem que levantara a cabeça.
O homem tinha cabelos castanho-claros e olhos na cor de avelã. Provavelmente seria considerado um homem de altura comum, mas como Dominic tinha mais de dois metros de altura, ele mal chegava aos seus ombros.
Com um corpo esguio e braços e pernas compridos que lembravam uma marionete, ele piscou os olhos lentamente.
Ah, no instante em que um exclamar semelhante a um suspiro escapou de seus lábios suavemente entreabertos, todo o barulho do mundo que tanto atormentava seus ouvidos simplesmente desapareceu.
Apenas alguns segundos se passaram, mas ele sentiu uma eternidade, como se o tempo tivesse parado. Por isso, quando o homem em seus braços moveu as sobrancelhas como se estivesse confuso, o barulho subitamente retornou em onda, e o tempo voltou a correr vertiginosamente, fazendo-o sentir até uma leve tontura.
“Ah, me desculpe.” O homem pediu desculpas e se endireitou.
O calor corporal que ele sentia no lugar do peso desapareceu de repente, deixando apenas uma sensação de vazio. Dominic olhou para seus braços vazios e depois moveu o olhar lentamente.
Os olhos transparentes de cor azul-celeste do homem — vendo o outro que mal chegava aos seus ombros — o encaravam de baixo para cima.
“Cometi uma indelicadeza. Eu não estava olhando direito para onde ia……” Esboçando um sorriso educado, ele tirou um lenço do bolso e aproximou a mão de Dominic.
Dominic empurrou em silêncio a mão estendida, que tentava limpar o terno manchado. Olhando para o homem que parou e piscou os olhos, Dominic de repente se sentiu com preguiça de tudo.
“Esquece.”
“Ah, com licença.” Quando Dominic estava prestes a se retirar do local, o homem o chamou novamente pelas costas.
Quando Dominic tentou ignorá-lo e ir embora, o homem o alcançou em seguida e lhe estendeu algo. Dominic olhou de relance para o pequeno pedaço de papel, e o homem disse: “Como sujei seu terno, gostaria de reembolsá-lo. Por favor, entre em contato comigo.”
Ficou claro que ele estava tentando lhe entregar um cartão de visitas, mas Dominic nem sequer deu atenção. Em vez de pegar o pedaço fino de papel, ele encarou o rosto do homem e perguntou:
“Reembolsar?”
“Sim.” Para Dominic, que repetiu a palavra lentamente, o homem sorriu. “A taxa de lavagem, ou se preferir, até mesmo um terno novo.”
O canto da boca de Dominic se curvou lentamente em um sorriso torto.
“Vai dar dinheiro? Para mim?” Ele não sorriu nem um pouco, seu olhar estava repleto de desprezo.
Sem dar mais atenção ao homem que hesitou por um instante, Dominic simplesmente se retirou do local. O homem não o seguiu mais.
Porém, Dominic sabia muito bem que ele ainda estava observando suas costas.
*
*
. Misantropia¹: a aversão, o ódio, o desprezo ou a desconfiança generalizada em relação à humanidade, à sociedade ou à natureza humana.