Capítulo 67
↫─Capítulo 67
Karlyle acordou com uma fome devoradora. Um teto branco, banhado por uma luz solar brilhante, surgiu em sua visão. As sombras tênues das cortinas dançavam brevemente sobre ele. À distância, ele podia ouvir o ganir das passadas.
Karlyle piscou devagar. Apesar do vazio incômodo em seu estômago, seu corpo parecia revigorado. Ele provavelmente só tinha acordado porque não conseguia mais dormir sem comer.
Aos poucos, seus sentidos retornaram, e a primeira coisa que notou foi o cheiro quente e convidativo de panquecas.
— Você acordou? — uma voz suave perguntou. Uma mão carinhosa deslizou por trás de seu pescoço e massageou seus músculos tensos de forma reconfortante. Karlyle inclinou a cabeça para olhar, e lá estava Ash.
— …Ash.
Ash estava vestido com uma camisa branca impecável e calças pretas folgadas. Seu cabelo estava arrumado com esmero, sua tez lisa e radiante de saúde. Seu rosto, com um rubor vivo, mas desprovido daquela fome primordial, era uma indicação imediata de que o Rut de Ash tinha chegado ao fim.
“Finalmente.”
Karlyle soltou um suspiro de alívio enquanto a ansiedade persistente que ele nem percebera que estava segurando se dissipava. Ash se inclinou, depositando um beijo leve na testa de Karlyle.
Sem hesitar, Karlyle abriu os braços e puxou Ash para um abraço macio.
— Seu Rut acabou?
Ash riu envergonhado, deslizando uma mão pelas costas de Karlyle para ajudá-lo a se sentar. Seu braço se apertou ao redor dele por um momento, apertando-o com firmeza antes de soltá-lo. Completamente faminto, Karlyle olhou ao redor para localizar o cheiro.
Dali, o aroma da comida era muito mais forte, o cheiro de panquecas americanas amanteigadas, o amargor doce das frutas frescas e o toque saboroso da carne bem passada. Ash colocou uma bandeja sobre suas coxas, apoiando-a com cuidado.
— Você deve estar faminto.
— …Tenho vergonha de admitir, mas sim.
— Não, não tenha… É natural que esteja com fome — Ash respondeu, sua voz soando fraca e cansada. O claro tom de remorso em sua voz fez Karlyle franzir levemente a testa.
— Você está bem, Ash?
— Você está bem?
Fisicamente, Karlyle se sentia muito melhor do que antes. Ele não tinha ideia de quanto tempo tinha dormido, mas, no mínimo, tinha recuperado alguma força. Dito isso, certas partes de seu corpo não estavam exatamente na melhor forma. Suas costas doíam terrivelmente, suas coxas estavam doloridas e suas partes traseiras estavam em carne viva e sensíveis.
— Eu não acho… que posso fazer isso de novo hoje — Karlyle admitiu, deixando o orgulho de lado para dizer a verdade. Se eles tivessem mais sexo, poderia ser literalmente o seu fim. Ele precisava de pelo menos um dia para se recuperar.
— Droga. Me desculpe — Ash murmurou, fechando os olhos enquanto cobria metade do rosto com a mão. A culpa praticamente se irradiava dele. — Vamos fazer você comer algo, sim?
Karlyle concordou sem hesitar. Ele estendeu a mão para o garfo, mas Ash o parou gentilmente. Em vez disso, o próprio Ash pegou a faca e o garfo e começou a cortar as panquecas.
As panquecas eram grossas e fofas, brilhando com xarope. Ao lado delas estavam ovos mexidos sedosos, mirtilos suculentos embebidos em xarope de framboesa, bacon crocante e linguiças.
Ash colocou um pedaço de panqueca no garfo e o ofereceu. Karlyle hesitou brevemente, mas sua fome era avassaladora demais. Ele abriu a boca.
A garfada que Ash lhe deu derreteu em sua língua, doce como mel. Assim que provou, sua fome o dominou incontrolavelmente. Quando olhou para Ash com um toque de urgência, Ash deu uma risadinha. Desta vez, Ash cortou um pedaço de linguiça e ofereceu a ele. Karlyle abriu a boca novamente, e Ash deslizou o pedaço para dentro sem demora. Em seguida vieram os ovos mexidos, seguidos pelos mirtilos gotejando xarope de framboesa.
Karlyle se concentrou inteiramente em comer por cerca de cinco minutos sem dizer uma palavra. Todo esse tempo, Ash observava, seus olhos transbordando de afeto. Uma após a outra, garfadas ordenadas entravam na boca de Karlyle. A comida generosamente servida desapareceu num instante.
Assim que a comida acabou, uma onda de sede o atingiu. Sem dizer uma palavra, Ash lhe entregou um copo de suco de laranja. Karlyle aceitou grato e deu um gole ritmado, saboreando a explosão refrescante dos gomos de laranja em sua língua.
Embora ainda estivesse um pouco faminto, Karlyle finalmente começava a se sentir mais vivo. Uma onda tardia de vergonha o atingiu, então ele desviou o olhar, pegando um guardanapo da bandeja. Silenciosamente, ele limpou os cantos da boca.
— Desculpe. Eu estava com mais fome do que pensava.
— Eu é que deveria me desculpar — disse Ash. Ele colocou a bandeja na mesa de cabeceira e se virou de volta para Karlyle com um olhar suplicante.
— Mas eu não sou assim normalmente, Lyle, eu juro. Espero que possa acreditar em mim. A Nat sempre diz que eu ajo como um louco durante meus Ruts. Normalmente, eu me tranco, ignoro chamadas e fico em casa sozinho. — Ash passou a mão pelo cabelo, sua expressão preocupada, antes de continuar. — Mas quando você apareceu, eu simplesmente… não consegui me segurar.
Isso significava que Ash sempre suportara seus Ruts na solidão. A revelação fez o coração de Karlyle saltar uma batida.
— …Então você nunca deixou ninguém entrar durante seus Ruts?
— Tem sido assim há pelo menos dez anos. Mas nem sempre foi assim, já que é difícil resolver totalmente um Rut sem um ômega. Em certo ponto, comecei a ter Ruts apenas uma ou duas vezes por ano.
Ash hesitou por um momento antes de estender a mão cautelosamente para segurar a de Karlyle. Karlyle deixou, oferecendo silenciosamente seu toque em troca do calor de Ash. Ele estava bastante satisfeito.
— Você… vai terminar comigo? — Ash perguntou, sua voz cheia de genuína preocupação.
A pergunta foi tão inesperadamente fofa que Karlyle não pôde deixar de rir.
— Como é?
— Antes que você tome qualquer grande decisão, só quero que saiba, eu te amo, Lyle. As coisas que eu disse durante meu Rut… eu só quis dizer cerca de metade delas.
“O que exatamente Ash tinha dito durante aquele tempo?” Uma inundação de memórias explícitas assaltou Karlyle. A última coisa de que se lembrava era do nó. Ele piscou devagar. Ash tinha dado um nó dentro dele. “Ele também fizera várias declarações possessivas. Será que nem todas eram verdadeiras?”
Os dedos de Karlyle mexiam no edredom enquanto ele perguntava baixinho:
— Você está dizendo que não quis dizer tudo o que disse?
— Eu vou ser sincero. É possível que eu tenha falado sério sobre tudo. — Então ele adicionou apressadamente, seu tom tingido de nervosismo: — Mas ainda assim, espero que saiba que não costumo agir assim. — Ele parecia genuinamente preocupado que Karlyle pudesse não ser capaz de aceitar o que tinha acontecido. Seu olhar ansioso apertou o peito de Karlyle.
Reprimindo um sorriso que ameaçava curvar os cantos de seus lábios, Karlyle falou suavemente:
— Está tudo bem.
— Sério?
— Foi cansativo… mas eu não desgostei.
Se Karlyle fosse ser completamente honesto, ele se pegava desejando que Ash dissesse “Você é meu” com mais frequência em seu dia a dia. Ele sempre achara que demonstrar possessividade sobre uma pessoa era algo tolo, mas quando Ash reivindicou Karlyle como seu, uma satisfação incomum brotou em seu peito. Isso o fazia se sentir profundamente amado.
— Mas… eu dei um nó dentro de você. — Ash parecia completamente recriminador de si mesmo enquanto franzia a testa e soltava um suspiro. — Deve ter sido doloroso. Me desculpe.
Karlyle balançou a cabeça. Não havia necessidade de Ash se desculpar tanto. Seus lábios se abriram ligeiramente, mas ele hesitou em falar. “O nó tinha sido um erro? Será que Ash não o considerava o equivalente à marcação inalcançável entre dois alfas?” Ele precisava saber.
— …Você se arrepende?
Karlyle também tinha dado um nó, apenas pela segunda vez em sua vida, e ambas tinham sido com Ash. Para ele, o nó era um ato profundamente íntimo, um ato que simbolizava seu amor incontrolável por Ash.
— Arrepender? — Ash piscou confuso. A mão que estava esfregando a testa baixou para tocar a bochecha de Karlyle. — Não. Como eu te disse, eu falei sério sobre tudo o que disse. Até sobre o nó… — Ash parou de falar, levantando-se. Inclinando-se, ele abriu a gaveta mais inferior da mesa de cabeceira e tirou uma pequena caixa. Era uma caixa de couro preto amarrada com uma fita rosa-pálido.
Karlyle congelou ligeiramente ao ver a fita, uma lembrança indesejada piscando brevemente em sua mente. Balançando a cabeça para afastá-la, ele voltou sua atenção para a caixa quando Ash se sentou ao seu lado novamente.
— Foi a minha primeira vez dando um nó. Eu sempre fui cuidadoso antes porque nunca planejei ter filhos. Parecia apenas… ser amarrado. — Sorrindo suavemente, Ash colocou a caixa na palma da mão de Karlyle. — Você abre?
Karlyle estava vacilante. As batidas de seu coração eram tão altas que ele pensou que ele poderia escapar de seu peito. Sem dizer uma palavra, Karlyle ergueu a mão e desfez o laço da fita. O nó se soltou suavemente, e ele ergueu a tampa da caixa.
Dentro havia uma chave de prata. E gravado na chave estava o nome de Karlyle. Karlyle reconheceu instantaneamente a forma.
Era a chave da casa de Ash.
— Eu sei que é um pouco tarde, mas eu pretendia que este fosse o seu presente de Dia dos Namorados. Eu mandei gravar seu nome. Isso é… o que estou tentando dizer é… — Ash fez uma pausa, firme na voz antes de continuar. — Eu queria perguntar se você gostaria de morar comigo.
— …O quê? — Karlyle mal podia acreditar no que acabara de ouvir.
As sobrancelhas pesadas de Ash caíram de tristeza. — Claro, você já deve ter conseguido seu próprio lugar agora, certo?
Ash claramente tinha mal-interpretado a reação de Karlyle. Karlyle rapidamente balançou a cabeça, segurando a chave com firmeza em sua mão.
— Não, eu ainda não comprei uma casa.
— Sério? — Ash se animou, embora surpreso. — Eu pensei que tinha te deixado tão chateado naquele dia que tinha certeza de que você já teria assinado os papéis.
— Eu estava… preocupado que você pudesse achar desconfortável morar juntos.
— Eu? Claro que não. — Como esperado, Ash não tinha dito nada abertamente sobre isso. Será que tudo o que ele tinha comprado para Karlyle tinha sido por esse motivo? Um calor subiu pelo rosto de Karlyle, seus lábios se curvando em um pequeno sorriso. — Se eu me sentisse assim, não teria comprado móveis extras, nem teria seguido você nas visitas às casas para fazer comentários bobos.
— Você fez isso?
— O Nat estava certo. Eu me comporto como um louco quando meu Rut se aproxima. Honestamente, eu estava preocupado e tive que pensar muito sobre isso também. Se morarmos juntos, você terá que passar por isso toda vez que meu Rut chegar.
Preocupado que Ash pudesse retirar a oferta, Karlyle se acalmou rapidamente. — Eu quero morar juntos — disse ele. — E estou verdadeiramente lisonjeado por você ter sido tão atencioso.
Os olhos de Karlyle suavizaram enquanto seu sorriso sutil se espalhava por seu rosto. Ele acabara de receber o presente mais valioso do mundo inteiro. Pensar que uma única chave e um simples convite pudessem fazê-lo sentir esse nível de alegria, era quase absurdo.
Encorajado por Ash se abrir tão prontamente para ele, Karlyle agarrou os fios de sua própria coragem. Ele não conseguia reprimir sua felicidade, e suas palavras transbordaram. — O nó… eu também gostei. Afinal, eu fiz o mesmo. Ash, meus sentimentos por você são tão fortes que… tudo o que você faz me deixa feliz. — Ele evitou o olhar de Ash por um momento e depois o encarou de frente. Seus lábios sorridentes se curvaram timidamente. — Eu te amo. — As palavras pareciam fazer cócegas ao saírem de sua boca.
Ash piscou, como se pego de surpresa pela confissão inesperada. Sua expressão se desfez brevemente e, em seguida, ele puxou Karlyle para um abraço apertado.
— Eu também te amo.
A risada jovial de Ash ressoou, e Karlyle assentiu enquanto segurava levemente a camisa dele. A felicidade pura do momento parecia quase irreal.
— Você é tão lindo, Lyle. Não consigo suportar te perder de vista.
Embora ele ainda não entendesse totalmente por que Ash o descrevia como “lindo” ou “adorável”, Karlyle gostava do modo como as palavras o faziam sentir. Ele simplesmente escutava em silêncio.
Ash lentamente soltou seus braços, encontrando o olhar de Karlyle. Um sorriso suave repousava em seu rosto, o calor alcançando seus olhos. — Vamos encontrar um lugar para morarmos juntos — disse Ash, entrelaçando seus dedos com os de Karlyle sobre a chave. Suas palmas se pressionaram, e o metal frio se aqueceu entre suas mãos. — Podemos escolher os móveis juntos, ter um quarto para você e um para mim… E enquanto procuramos, podemos ficar aqui. Se você concordar com isso, é claro.
As palavras de Ash pintavam uma visão do futuro deles, uma promessa de tempo sem fim que transbordava de felicidade ilimitada.
Karlyle sorriu de volta. — Eu adoraria.
Ash ergueu as mãos entrelaçadas e pressionou um beijo em cada um dos nós dos dedos de Karlyle. Karlyle respondeu aos olhos sorridentes de Ash com um sorriso próprio.
Os sorrisos que compartilhavam eram reflexos sinceros um do outro.
Exatamente como Karlyle um dia sonhara.
// Fim do Volume 03
ᯓ★ Nenhuma das situações apresentadas neste capítulo referem-se/ se baseiam em fatos reais.
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✦ Tradução, revisão e Raws: Lᥙ꧑ᥲ Hᥲrtzᥣᥱr