Capítulo 25
Deep Pivot Side Story — Capítulo 25
Bebê, Querido, Bebê
Cha Yeonwoo é teimoso até os ossos.
Uma vez que um tratamento grudava na língua dele, era como uma boneca amaldiçoada — por mais que tentassem jogá-la fora, ela sempre voltava, recusando-se a ir embora. Uma vez líder de equipe, sempre líder de equipe. Uma vez tenente, sempre tenente.
— Sim, hyung.
…Ou assim pensava Ji Seo-joon.
— Ah, é mesmo? Na quarta? Sim, hyung. Sim, sim, ah, é? Para mim e para o tenente está tudo bem. Combinado, então a gente se vê.
O calor difuso do começo do verão mal tinha começado a dar as caras. E, por causa de uma única sílaba que saiu da boca de Cha Yeonwoo, Seo-joon foi atingido pelo calor escaldante do auge do verão.
— …Yeonwoo.
Ele encarou Yeonwoo, que tinha acabado de desligar o telefone.
— Com quem você estava falando agora?
Com uma expressão tranquila e inocente, como se nada tivesse acontecido, Yeonwoo respondeu:
— Com o Cheong-oh hyung. Ele disse para a gente adiar a reunião da semana que vem em um dia.
Seo-joon duvidou dos próprios ouvidos mais uma vez. Sentiu como se o sangue do alto da cabeça tivesse descido direto para os dedos dos pés.
— Cheong-oh… hyung?
— Hã? Ah… ele disse que era para eu chamar ele assim de agora em diante.
Ji Seo-joon ardia por dentro. Desde o dia em que recebeu cravos de Jeongwoo e Yeonwoo no Dia dos Pais, e da vez em que encontrou “cirurgia de redução peniana” no histórico de pesquisas de Yeonwoo — só para ouvir: “Se a gente tirar só uns centímetros, não seria bem mais seguro para fazer amor?” —, ele não sentia um choque daquele nível.
Uma veia saltou na têmpora de Seo-joon. Ele afrouxou o maxilar cerrado e perguntou, com um sorriso:
— Para você, eu continuo sendo “Tenente”. Mas o Cheong-oh é… hyung?
Ao ver a cara dele, Yeonwoo, por algum motivo, veio correndo até ele.
— Hã, bom… quer que eu pare de chamar ele de hyung?
— Você já chamou.
Cem dias depois do fim dos Portais. Fazia quase dois meses que o mundo tinha virado de cabeça para baixo e que os humanos Ji Seo-joon e Cha Yeonwoo tinham voltado para casa — mas, para Cha Yeonwoo, Seo-joon continuava sendo “Tenente”. As únicas exceções eram na cama ou nas raras ocasiões em que Yeonwoo, num momento de generosidade, o chamava de “querido”.
Mas agora Jin Cheong-oh podia ouvir Yeonwoo chamá-lo de “hyung” — algo que Seo-joon nunca, nem uma única vez, tinha ouvido dele. O mesmo tratamento que Yeonwoo antes considerava estranho, que dizia detestar porque parecia coisa de irmãos, agora era entregue a outra pessoa sem pensar duas vezes.
Seo-joon ligou o ar-condicionado em silêncio. Era a primeira vez que o usava naquele verão. O calor que subia pela nuca chegou até a testa. Tentando não parecer mesquinho, forçou um sorriso ainda mais radiante.
— Songhee noona, Yeong-gyo noona, Cheong-oh hyung, Mingeon hyung… Todo mundo neste mundo você chama de hyung ou de noona, e eu continuo sendo “Tenente”?
Mas, vendo aquela expressão no rosto dele, Yeonwoo ficou inquieto e agarrou a manga da camisa de Seo-joon.
— Tenen… Querido… você está bravo?
— Não… não, sério, eu não estou bravo.
Seo-joon deu uma risada propositalmente leve e afundou no sofá. Só em momentos assim ele era chamado de “querido”.
— Eu não sou o tipo de cara mesquinho que fica chateado com uma coisa dessas. Continue chamando o Cheong-oh de hyung, se quiser.
Sem perceber, passou a mão pelo rosto, sem saber como sua expressão estava parecendo para Yeonwoo. Depois, adotou a voz e o sorriso mais gentis que conseguiu reunir.
— Só estou dizendo… é meio estranho, não é? Você não consegue largar a patente com o seu parceiro, mas larga com outra pessoa tão fácil. Isso não parece… antinatural?
Mas o cérebro dele, já meio perdido nas palavras “Cheong-oh hyung”, se afastava cada vez mais da razão.
— Eu sou a sua família, Yeonwoo. Sou ao mesmo tempo a sua família e o seu parceiro. Então por que eu sou o “Tenente” e o Cheong-oh ganha o “hyung”? O Cheong-oh por acaso é seu irmão? Legalmente falando, agora você é o meu filho mais velho. E eu? Não é meio engraçado que eu nunca vá ser chamado de pai nem de irmão por você pelo resto da vida?
Os olhos azuis dele tremeram.
— …Pai?
— Não é isso que importa agora… Yeonwoo, sai de joelhos e senta direito, confortável.
Yeonwoo, que de algum jeito tinha acabado ajoelhado num pufe diante dele, desdobrou as pernas sem jeito e se sentou.
— O que você acha, Yeonwoo? De toda essa situação?
Ainda com um sorriso suave, Seo-joon perguntou. Yeonwoo, sem saber o que fazer, juntou as mãos.
— Hum… desculpa. Não vou fazer de novo.
— Eu já disse, não estou bravo.
Seo-joon passou a mão pelo cabelo, sorrindo de novo.
— Não precisa pedir desculpa. Só estou perguntando o que você acha.
— Mas…
Yeonwoo murmurou, se encolhendo.
— Você é o meu parceiro, e é diferente do jeito como eu sou com os outros…
— Ah, entendi. Então comigo você mantém distância e com os outros caras vira família?
— Não, não, não é isso… Desculpa… Eu errei…
As pernas dele, que tinham descido, se dobraram de novo por instinto. De joelhos outra vez, Yeonwoo juntou as palmas das mãos.
— Yeonwoo, eu realmente não estou te dando bronca. Só estou curioso… Você dizia que não gostava de chamar alguém de hyung porque parecia coisa de família demais, e que não gostava de “querido” porque soava sexy demais. Mas agora transformou o Cheong-oh em irmão?
Como isso aconteceu, exatamente? Relaxando o rosto, Seo-joon deu um sorriso muito gentil.
— Então, Yeonwoo, quer dizer que você não gosta de transar com o seu hyung, mas com o Tenente tudo bem? Que fetiche mais estranho… não, não vira o rosto. Foi mal. Vem cá e senta direito. Por que você fica se ajoelhando desse jeito? Eu nem estou te dando bronca.
Ele pegou a mão de Yeonwoo com delicadeza e o puxou para perto. Yeonwoo foi se arrastando até ele e se sentou ao seu lado feito um cachorrinho que levou bronca, evitando o contato visual.
Qualquer um diria que ele estava levando um sermão.
Seo-joon segurou as duas mãos dele e disse, com suavidade:
— Yeonwoo, pensa bem. A gente já está junto como namorados há mais tempo do que trabalhou junto como parceiros de campo.
— Sim…
— Você age como se eu fosse tenente desde que nasci, mas sabe quando eu fui promovido? Há pouco mais de dois anos.
— Sim…
— Então, se a gente tivesse se conhecido antes disso, do que você me chamaria?
— …Segundo-tenente?
O sorriso de Seo-joon se aprofundou. Se as emoções tivessem forma física, ele seria uma chaleira fervendo naquele momento.
— Não foi isso que eu quis dizer. Quantos anos você tinha quando a gente se conheceu, Yeonwoo? Treze, né? Do que você me chamava naquela época? Do que você chamava o Ji Seo-joon que você imaginava? Chamava de hyung, não chamava?
— …….
Seo-joon fingiu não ouvir a resposta quase inaudível — “só de Ji Seo-joon…” — e seguiu com delicadeza rumo ao seu objetivo original, com o tom ainda doce.
— Se a gente se conhecesse desde aquela época, do que você me chamaria, Yeonwoo? Eu ainda nem era segundo-tenente, nem tenente.
— …….
— Você me chamaria de hyung, né?
Yeonwoo pensou por um momento e depois assentiu em silêncio. Aproveitando a oportunidade, Seo-joon acalmou a empolgação que subiu por um instante e perguntou, devagar e com gentileza:
— Então, do que você ainda estaria me chamando agora, Yeonwoo? Fala com a sua própria boca.
— …Hyung.
Yeonwoo respondeu a contragosto, virando um pouco a cabeça. Murmurou tão baixinho que quase soou como “hing”.
Respirando fundo, Seo-joon respondeu com a paciência de um monge:
— Isso mesmo, Yeonwoo… Mesmo agora, você ainda me chamaria de hyung. Yeong-gyo noona, Cheong-oh hyung, Songhee noona, Mingeon hyung… Seo-joon hyung. Certo?
Ele estava prestes a construir um argumento sólido: quando os dois se tornassem namorados, seria natural que “hyung” virasse “querido”.
— Mas eu continuo não gostando.
Só que Yeonwoo se virou de repente. Seo-joon, cerrando os molares de novo, forçou um sorriso enquanto tentava relaxar os músculos do rosto. Yeonwoo olhou para ele com uma expressão injustiçada, de cachorrinho.
— Você não lembra? Daquela vez no café, uma mulher veio pedir o seu número, lembra? Como você recusou? Deu um sorriso todo charmoso e só disse: “Desculpa”. Não disse que tinha namorado. Mesmo eu estando bem ali, do seu lado…
Por incrível que pareça, dessa vez Seo-joon sentiu que era ele quem estava levando bronca. Quando foi que eu baixei a voz e sorri todo charmoso daquele jeito? Enquanto se virava devagar de novo para ele, Yeonwoo falou com firmeza.
— Se eu te chamar de hyung, vou ser sempre só o seu irmão mais novo. Eu quero que todo mundo — qualquer um que passe por perto — saiba, só pelo jeito como eu te chamo, que a gente tem uma relação especial.
Ainda assim, Seo-joon não ia deixar aquilo passar.
— Mas isso não quer dizer que a gente tenha uma relação de mestre e escravo, Yeonwoo.
— Que… rido…
— Querido? O que é isso, clube de passatempo? Eu tenho cara de peça de cerâmica, por acaso?