↫─☫ Capítulo 10.2
- Início
- Todos Os Mangas
- Codename Anastasia (Novel)
- ↫─☫ Capítulo 10.2 - Extra. Dias Normais
Ele teve um sonho. O menino apareceu novamente. Com cabelos loiros platinados e olhos cor de vinho. Ele examinou ao redor do menino com desconfiança. Não parecia haver nada particularmente perigoso. Suas mãos pequenas e brancas também não seguravam nada. Ele suspirou aliviado. Pelo menos não parecia ser um pesadelo como da última vez.
O menino era frágil e delicado, tanto que era difícil imaginar que se tornaria o Zhenya de hoje. Talvez ele realmente não tenha nada a ver com Zhenya. Pode ser apenas uma ilusão criada por seu próprio subconsciente.
Os dois se encaravam, como se desconfiassem um do outro. Pensando bem, foi desde que o menino apareceu que ele começou a sentir uma compaixão estranha por Zhenya. Não eram nem seus ancestrais, por que continuavam aparecendo em seus sonhos para complicar sua mente? Já que o encontrou, achou que devia perguntar.
—Ei, pivete. Por que você fica aparecendo?
Não sabia se havia falado coreano ou russo. Ele falou, mas as palavras não se formaram claramente.
Mas o menino pareceu ter entendido. Pela forma como resmungou, parecia irritado. Ele não estava acostumado a lidar com crianças. Dificilmente tinha contato com crianças daquela idade. Ele não sabia como falar para não magoar o menino, ou se ele entenderia.
—Pare de aparecer, você é um incômodo.
Ele exigiu bruscamente. Foi um erro? O menino, que estava mordendo o lábio inferior e ofegando, tinha os olhos cheios de lágrimas. Os olhos azuis se enchiam de lágrimas. Ah, ele não queria fazê-lo chorar.
O menino, que estava prestes a chorar, virou-se e começou a correr. Ele não sabia por quê, mas sentiu que devia segurá-lo. O intruso devia ser expulso, mas ele se sentiu como se tivesse feito algo terrível.
Ele se apressou para persegui-lo, dizendo “Ei”. Foi quando uma mão estendida de trás agarrou seu ombro. E então, seu corpo foi suavemente virado para o outro lado.
—Hmm… Taekjoo.
Com o chamado doce, sua consciência despertou parcialmente. O peso que pressionava seu corpo, a sensação dos cabelos roçando sua bochecha, tudo era familiar. Ele estendeu a mão e bagunçou os cabelos macios. A mão foi puxada para pressionar lábios macios. Em seguida,
uma carne grossa penetrou seu interior, mexendo-o lentamente. Até essa sensação era familiar.
—Haa, Haa…. Ele gemeu docemente e abraçou firmemente a pessoa que o pressionava. O corpo que antes parecia ameaçador, agora parecia seguro e reconfortante. Abraçado assim, era como se estivesse dentro de um grande ninho.
Taekjoo.
Aquele que o chamava com tanto carinho, que se excitava por ele, que sentia o clímax dentro dele, despertava nele um sentimento de ternura inexplicável. Mesmo que o mundo inteiro, e às vezes até ele mesmo, o chamasse de monstro sem hesitar, naqueles momentos ele era apenas um ser miserável que ansiava por amor e calor.
—…Hmm, Zhenya. Ele o chamou com um gemido. Instantaneamente, a sensação agradável que se espalhava no fundo de seu abdômen desapareceu. Simultaneamente, suas pálpebras se abriram completamente.
—……?
Ele olhou ao redor, confuso. Estava exatamente como quando adormeceu. Sem cobertor, ainda vestido. Ele pensou que Zhenya tinha voltado.
Ele procurou por outra presença, mas foi em vão. Na casa silenciosa, ele ainda estava sozinho. Zhenya não o acordou; até isso era uma extensão do sonho.
Ele suspirou e passou a mão pelo rosto. Então, de repente, sentiu uma sensação pesada. Com um “não pode ser”, ele verificou sua virilha. A parte da frente da calça estava inchada, como se fosse explodir. Era inacreditável. Depois de ter um sonho tão estranho, ele acabou ficando ereto sozinho. Houve algum momento em que ele esteve tão frustrado sexualmente? A preocupação com a morte por excesso de sexo parecia coisa do passado.
Ele ia tomar banho para se refrescar. Foi quando o telefone tocou. Era uma chamada da mãe.
—Ai, por que você está chegando só agora? Bebe com moderação. Assim que destrancou a porta e entrou, os sermões da mãe começaram. Ela estava na porta da frente, vestindo um vestido de casa. Parecia que tinha visita. Ele olhou para o chão distraidamente. Viu um par de sapatos familiares. Um suspiro bobo escapou.
Passando pela mãe, ele foi direto para dentro. Logo encontrou Zhenya sentado à mesa, tomando chá. O desgraçado recostou-se e sorriu.
—Já chegou?
Incrédulo, ele soltou uma risada. Depois de deixá-lo tão preocupado, ele estava ali, apreciando um lanche. Ele acreditava que o desgraçado não tinha entrado em contato por algum motivo urgente, mas parece que não. Seus dedos, que ele pensava que estavam quebrados, estavam todos intactos.
—Ei, seu…
—Com quem você bebeu ontem à noite?
Ele estava prestes a xingar, mas Zhenya foi mais rápido. Seu tom era leve, como se fosse um comentário casual. Seus olhos estavam voltados para o prato à sua frente. Um pedaço de melão foi espetado com seu garfo. Era um movimento manso, mas de alguma forma transmitia uma sensação de pressão. Se o desgraçado não tivesse colocado um dispositivo de escuta em Kwon Taekjoo, a fonte da informação só podia ser sua mãe.
—Já fala coreano agora?
—Dá para saber isso facilmente.
O desgraçado sorriu para a mãe de repente. A mãe, sem saber do caráter sombrio do desgraçado, sorriu de volta. Vendo que o copo dele estava vazio, ela perguntou se ele queria mais chá e apontou energicamente para a cafeteira. Não era a primeira vez que sua mãe já estava no nível de linguagem corporal universal.
—Ai, por que você está parado aí? Faça companhia ao embaixador. A mãe o empurrou pelas costas. Então, foi para a cozinha, colocou água para ferver e abriu a geladeira para procurar uma sobremesa adequada.
Não tendo escolha, ele sentou-se em frente a Zhenya. Encarando o desgraçado com desconfiança, ele pegou um pedaço de maçã do prato dele. A mãe também. Ela dizia que a casca da fruta é rica em nutrientes, mas cortou-a cuidadosamente em forma de coelho. Ele mordeu a cabeça da maçã sem cerimônia e a mastigou ruidosamente.
—Bebi um pouco com um colega mais novo depois de muito tempo. E daí?
—E dormiu com esse colega mais novo?
Ele semicerrou os olhos e o interrogou. Ele conhecia bem aquele rosto. Ele estava sorrindo, mas não era um sorriso. Para a segurança do inocente Yoon Jong-woo, ele precisava explicar direito.
—Seu louco. Que imaginação é essa?
—Imaginação estranha? Não imaginei nada. Você é quem está dizendo que é estranho, Taekjoo. Será que você está com a consciência pesada?
—Não.
—O quê? Que você bebeu a noite toda com seu colega? Ou que dormiu com ele?
—Bem, não.
—Então, de onde você está vindo agora?
Ele abriu a boca e a fechou de novo. Ele tinha sido pego. Não podia responder honestamente. Ele foi para a casa do desgraçado, que estava vazia, abraçou o travesseiro com o cheiro dele, dormiu e até ficou ereto. Se o desgraçado soubesse, zombaria dele por dias. Seu orgulho não permitiria.
—Por que tenho que te dar satisfação?
O desgraçado, que o observava, deu de ombros.
—Se não quer falar, tudo bem. Tenho meus meios de descobrir.
Com aquela frase indiferente, ele imaginou Yoon Jong-woo sofrendo todo tipo de coisa nas mãos do desgraçado. Mesmo que ele viva do jeito que quer, não deve causar transtornos.
—Dormi sozinho.
—Eu perguntei onde você estava?
—Onde quer que eu estivesse, dormi sozinho. Não mexe com pessoas inocentes.
—Se ele é inocente ou não, vou descobrir.
—Ah, não faz isso. —Parece que você está na defensiva, fiquei curioso para saber o que andou fazendo enquanto eu não estava.
—…Acho que sua ausência seria melhor para a minha vida.
Por que ele se preocupou com um desgraçado desses? Ele não pensava no que fazia, nem
demonstrava remorso. Enquanto ele o encarava com insatisfação, o desgraçado fazia uma expressão de quem não entendia. Com tanta descaramento, ele não sabia por onde começar a questioná-lo.
—O que vocês dois estão conversando tão animadamente? A mãe voltou para a mesa. Ele pensou que ela tinha demorado, mas a bandeja que ela colocou na mesa era pesada. O serviço de chá herdado da família materna estava sobre ela. Ela sempre o guardava na vitrine, dizendo que era precioso. Falando nisso, a xícara de café que Zhenya tinha usado antes também era uma das que sua mãe mais estimava.
O que aquele Zhenya tinha feito?
Ele olhou para a mãe em protesto. A mãe ignorou seu olhar e ofereceu a Zhenya.
—Embaixador, prove isto também. É chá seungseol, um chá verde feito com brotos que brotam na neve no início da primavera. Ela explicou com um tom afável. Ele não entenderia nada, mesmo assim. Contra as expectativas, com a longa explicação, Zhenya olhou para Kwon Taekjoo como se pedisse uma tradução.
—É caro, então bebe tudo sem deixar nada.
Com a tradução seca, Zhenya soltou uma risada incrédula. Quando a mãe lhe ofereceu a xícara, ele sorriu, semicerrarndo os olhos. Ele segurou a xícara até a base, num gesto educado. Era irritante. A xícara já pequena parecia ainda menor em suas mãos.
—Isto é uma sobremesa que combina bem com o chá. Espero que goste. Ele também serviu chapssal-tteok (bolinho de arroz glutinoso) do tamanho de uma mordida. Acompanhou com farinha de feijão e jocheong (xarope de arroz). O desgraçado, achando estranho, inclinou a cabeça.
—…Brownie?
—Não. Tteok.
Ele disse para provar, apontando com o queixo para o prato. O desgraçado não se mexeu, como se visse uma criatura estranha. Observando, ele pegou um pedaço do prato do desgraçado e comeu. Comprado em sua loja de confiança, o tteok era mais mastigável e firme do que o normal. A textura em si parecia ser algo que um estrangeiro como ele não gostaria.
A mãe bateu nas costas dele, dizendo por que ele estava pegando a comida dos outros com a mão. Aproveitando a distração, o desgraçado espetou um pedaço de tteok com o garfo e o colocou na boca. A atenção da mãe se voltou para ele.
—O que achou? —A textura parece…
O desgraçado mastigava lentamente o tteok enquanto arrastava a frase. Então, encontrou os olhos da mãe, que estava cheia de expectativa.
—Parece a bunda do seu filho.
O que, seu idiota?
Ele estava prestes a se levantar furioso. A mãe, vendo o rosto satisfeito do desgraçado, bateu palmas.
—Nossa, parece que gostou. Ainda bem. Coma bastante. O desgraçado, vendo a mãe feliz, fez uma expressão triunfante. Era uma respiração que enlouqueceria.
—Aqui, você bebe água com mel. Quanto você bebeu? Seu rosto está um caco. A mãe estalou a língua e colocou uma caneca. Ela o repreendeu por sua aparência, cabelos desgrenhados e roupas amassadas. Ele ouvia distraidamente enquanto bebia a água com mel. Com o doce extremo, seu rosto se contraiu. Nem um remédio amargo seria tão horrível.
—Não deixe nada, beba tudo. Até o que está no fundo. Faz bem. Sob a vigilância da mãe, ele bebeu a água com mel concentrada. Por mais que tentasse, seu rosto se contraía. Ele engoliu com dificuldade, até prendendo a respiração, quando ouviu um clique inesperado. Olhando para trás, chocado, viu Zhenya, com um rosto divertido, mexendo no telefone. —Não faz isso”, ele disse com o copo na boca, mas o desgraçado não se importou. Ele sorria e tirava mais fotos. Mostrou as fotos para a mãe, que riu alto.
—Hahaha, nesses momentos, ele só cresceu em tamanho, ainda é uma criança, não é? Ah, falando nisso, quando estava arrumando a despensa outro dia, encontrei um álbum antigo. Quer ver? Enquanto perguntava, ela já estava quase de pé.
—Ah, por que isso. Deixa lá. —Ele? O embaixador adora ver fotos. A mãe ignorou a objeção de Kwon Taekjoo e foi para o quarto. Zhenya também a observava com olhos curiosos. Só Kwon Taekjoo não estava feliz.
Ele tocou levemente a perna de Zhenya por baixo da mesa. Imediatamente, o desgraçado encontrou seus olhos. Ele baixou a voz e perguntou:
—O que houve?
—O quê?
—Por que demorou duas semanas, se disse que ia voltar rápido?
—Você também está curioso sobre isso?
Ele perguntou, como se fosse uma novidade. Kwon Taekjoo ficou atônito. Ele queria saber por que o desgraçado achava que ele não se importaria.
—Seu idiota, quando você some, não sei que plano está tramando. Fico tão ansioso que não consigo viver.
—Ah, então foi por isso que mandou tantas mensagens e ligações?
Ele acrescentou, como se tivesse descoberto algo.
—Achei que você era do tipo ciumento. Talvez com transtorno de ansiedade de separação.
—Quem está…!
Ele ia contestar, mas lembrou-se de seus atos dos últimos dias. Ele tinha ido à embaixada e à residência, vasculhando em busca de notícias de Zhenya. Ele até pediu a Yoon Jong-woo que investigasse. Tudo porque o retorno do desgraçado estava demorando mais do que o esperado. Será que era ciúmes?
Não. Não pode ser. Ele negou e se defendeu.
—É porque você tem muitos inimigos. Com medo de que tivesse sido sequestrado de novo.
O desgraçado riu. Foi uma risada de zombaria, mas seu humor parecia estar melhor.
—Quem você acha que está na sua frente?
—É por isso que sou um louco. Imaginar que você, de todas as pessoas, estaria em perigo. A menos que fosse o contrário.
Bem, mesmo que fosse o contrário, também seria um problema.
Ele resmungou com desagrado. Não gostava que Zhenya estivesse em perigo, nem que ele criasse essas situações. Embora fosse hipócrita da sua parte, era o que sentia.
O desgraçado, que ouvia, riu novamente.
—Você é o único neste mundo que se preocupa comigo, Taekjoo.
Exatamente. Por que ele estava sorrindo? Não esperava que ele se sentisse culpado, mas não havia um pingo de remorso. Será que ele ia começar a sumir de vez em quando, só para variar? A reação era preocupante. E ele ainda achava que podia namorar alguém assim.
—Este é o álbum. Dá para ver que é bem velho. A mãe voltou com o álbum em questão. Estava desgastado em alguns lugares, devia ter pelo menos 20 ou 30 anos. Era a primeira vez que Kwon Taekjoo o via. Bem, para ser mais preciso, ele não se importava o suficiente para saber. Além da mãe, a família era composta por homens silenciosos. Eles não se importavam com álbuns, nem tiravam fotos. Assim, registrar os momentos da família era tarefa da mãe. Os álbuns no quarto de Kwon Taekjoo eram todos obra dela.
—É um álbum de família, então tem fotos de outras pessoas além do Taekjoo… Zhenya sorriu radiantemente e aceitou o álbum. Não era uma ocasião de negócios, para que servia aquele sorriso? Era uma expressão que nem mesmo Kwon Taekjoo tinha visto. Era bonita, mas incrivelmente fingida. A mãe, sem saber das intenções sombrias do desgraçado, também sorriu.
O desgraçado abriu o álbum. A foto do casamento dos pais apareceu. Uma foto com mais de 40 anos. Zhenya, que observava o casal jovem, ergueu a cabeça de repente. Então, olhando para Kwon Taekjoo, ele sorriu.
—Taekjoo, você se parece com seu pai.
—…É o que dizem.
—As pessoas sempre disseram que ele era a cara do pai. Embaixador, acha que ele se parece? O desgraçado acenou com a cabeça de forma precisa à pergunta da mãe. Ele ainda falava apenas russo, e a mãe, apenas coreano. Mas eles se entendiam, com poucos gestos. Uma sensação de apreensão o dominou. Esse sentimento incômodo era só dele.
O desgraçado observou a foto do pai com atenção e murmurou algo incompreensível.
—Com esses genes, não preciso me preocupar.
—Preocupar com o quê?
—Se você tiver um filho sem eu saber, ele vai se parecer exatamente com você.
Seu rosto se contraiu. Que besteira ele estava dizendo? O desgraçado devia saber que não podiam ter filhos. Isso significava que ele não se importava se ela tivesse um filho com outra pessoa?
—Se você tiver essa habilidade, talvez.
O desgraçado sorriu. Era uma frase com vários significados. Ele imaginou várias vidas sendo ceifadas por causa daquelas palavras. “Então é isso.” Ele ficou aliviado, embora achasse absurdo. Isso o surpreendeu.
A partir da página seguinte, a história da família se desenrolou. Desde o nascimento de seu irmão e dele, até os pequenos e grandes eventos da família. Zhenya examinou cada foto com atenção, como se fosse uma exploração. E, sempre que encontrava Kwon Taekjoo, ele ria.
—Parece um feijão preto.
—Feijão o quê. Eu era um bebê grande.
—É brincadeira? Você parece tão pequeno que caberia numa mão.
—Ha, seu egocêntrico. Você é que é anormalmente grande.
Não adiantava. O desgraçado, fingindo ouvir suas objeções, apenas acenava com a cabeça para as explicações da mãe, que ele nem entendia. Os dois estavam tão entretidos que perdiam a noção do tempo.
Então, ele fixou o olhar numa foto. Era uma foto do dia do atletismo no ensino fundamental. Kwon Taekjoo, com cerca de dez anos, estava com o rosto sujo, chorando copiosamente, com os joelhos e cotovelos ralados. Lembrou-se do constrangimento. A mãe, sem saber, tagarelava animadamente.
—Ah, tão fofo, não é? Ele tinha dez ou onze anos aqui. Ele não chorava tanto nem quando era bebê. Só resmungava quando estava com fome ou com a fralda molhada. Graças a isso, criar dois meninos foi relativamente fácil. Os adultos ao redor se preocupavam que ele fosse atrasado, mas felizmente ele cresceu bem. Ele sempre gostou de se exercitar desde pequeno e sua vontade de vencer cresceu muito. Provavelmente, na foto, ele estava chorando porque perdeu. —Ah, mãe, por que contar isso… —Deixa. Ele foi escolhido como representante do revezamento e treinou muito. Mas no dia, ele se envolveu numa briga com o corredor da frente e os dois caíram. Com isso, os corredores de trás alcançaram todos… Eu pensei que ele fosse desistir. Dava para ver que ele tinha se machucado até o queixo. Mas não. Ele se levantou e começou a correr de novo, ultrapassando
um a um. Claro, não foi o suficiente para chegar em primeiro. Mas não importa o quanto eu dissesse que tudo bem cair, que ele fez o seu melhor, que o terceiro lugar já era ótimo, ele não parava de chorar. Ele só ficava satisfeito se chegasse em primeiro. Se ele não começasse, tudo bem, mas se começasse, tinha que ver até o fim. Zhenya olhou para Kwon Taekjoo e sorriu. Era uma expressão que dizia “eu sabia”. Como ele, que nem sabia o alfabeto coreano, entendia as nuances?
As revelações da mãe não pararam por aí.
—E outra vez… Não sei se na Rússia também tem dever de férias. Na Coreia, eles dão várias tarefas para as crianças não ficarem à toa. Uma delas era construir um planador. Ele recusou a ajuda do irmão e fez sozinho, mas na véspera do primeiro dia de aula, um primo mais novo veio e, brincando, quebrou. Já era tarde para refazer, então eu disse que explicaria ao professor. Não adiantou. Ele ficou soluçando a noite toda e refez aquele planador. —Mãe, para com isso. É vergonhoso. —Por quê? É divertido. A mãe riu e disse ao desgraçado: —Não é, embaixador?”. Desta vez, ele também acenou com a cabeça. Ele sorriu de um jeito estranho para a mãe. Quando ele perguntou o que foi, o desgraçado encontrou seus olhos lentamente.
—Taekjoo, você devia ter se parecido mais com esta mulherzinha. Tagarelar sem parar e sorrir assim é bem fofo, não é?
—Desculpe por não ser fofo. E não se chama uma pessoa mais velha de fofa, seu mal-educado.
—Você fica com raiva por qualquer coisa, não entendo, mas é divertido.
Ele disse isso como se fosse um consolo. Mesmo com essas palavras, seu coração se sentia estranho. Certamente havia algo errado.
O desgraçado tirou fotos da infância de Kwon Taekjoo no celular. A mãe observava com satisfação. Quando ele tentou fechar o álbum bruscamente, ela bateu em suas costas.
—O que você está fazendo, seu malcriado, enquanto o embaixador está vendo? —Não, mãe, ah… A mãe, sem entender, só o repreendia por causa de Zhenya. Ela o encarou com desaprovação e fez um comentário inesperado.
—Quando ele era pequeno, era tão obediente e fofo. Mas, de repente, ele cresceu desse jeito, ficou teimoso… Eu não tenho grandes expectativas. Só queria que ele saísse do meu ninho, constituísse sua própria família e vivesse feliz. Mas ele parece não conhecer ninguém, e quando sugiro um encontro, ele só diz que não.
Ela estalou a língua abertamente. Ele olhou para Zhenya em silêncio. O desgraçado inclinou a cabeça e o encarou. Parecia que esperava uma tradução, mas ele não podia fazer isso.
Ultimamente, sua mãe vivia mencionando casamento. Nos dias em que ele estava em casa, ela mostrava fotos de alguém e insistia em encontros às cegas. Quando ele se mantinha indiferente, ela perguntava se ele estava vendo alguém e insistia para conhecer. Ele não podia dizer que estava vendo alguém. Quando as amigas da mãe se gabavam de viver para ver os netos, ele não tinha o que dizer.
Kwon Taekjoo não tinha a ilusão romântica de que ficaria com Zhenya para sempre. Se algum dia se separassem, ele nunca mais se envolveria com outro homem. Mas, no momento, ele não conseguia imaginar o fim.
Ele respondeu com a desculpa que sempre usava quando o assunto era casamento.
—Mãe também. Estou ocupado com o trabalho, como vou casar? Que mulher ia gostar? —Você vai trabalhar até morrer? Não vai morrer se viver com um pouco mais de calma. Com quem você aprendeu a só pensar em trabalho? Case e tenha um filho que se pareça com você. Você vai ganhar um tempo livre que não sabia que queria, amadurecer e ver o mundo de forma diferente. —Isso é quando tudo dá certo. A senhora passou a vida cuidando dos filhos sozinha, quase fazendo o papel de pai. Como pode recomendar a alguém um trabalho tão difícil? Se amar, ainda menos. A mãe o encarou novamente.
Não era mentira. Ele nunca havia imaginado uma vida de casado, nem tinha romantismo em relação a isso. Ele simplesmente pensava que continuaria trabalhando como agora. Nesse trabalho, a família poderia ser um obstáculo ou uma fraqueza. Assim como ele amava sua mãe, mas a preocupação dela o sobrecarregava. Para ele, a paixão pelo trabalho e o apego às pessoas queridas eram valores que não podiam coexistir. Cada um pendurado em lados opostos de uma balança, agitando sua mente constantemente. Já era difícil manter o equilíbrio, e ele não podia adicionar mais um peso a nenhum dos lados.
A mãe balançou a cabeça com desaprovação e depois olhou para Zhenya. Seu rosto exibia um sorriso gentil.
—Embaixador, o senhor não vai se casar? Um jovem com um bom emprego, talentoso, carinhoso e bonito. Deve fazer sucesso com as moças. Não está vendo ninguém? —Por que está perguntando isso de novo? É falta de educação. —Estou curiosa, só isso. Se não tiver namorada, posso apresentar uma moça legal. Mesmo com a objeção, a mãe continuou a perguntar. Como ela parecia estar lhe perguntando algo, Zhenya olhou para Kwon Taekjoo com uma expressão confusa.
—O que ela está perguntando agora?
—Nada.
—Ela está tão animada, e você diz que não é nada?
—São bobagens. Só acena com a cabeça.
Ele não parecia convencido. De qualquer forma, que falta de confiança nas pessoas. Ignorando o olhar intenso do desgraçado, ele respondeu por ele.
—Ele está vendo alguém. Então para de perguntar. —Nossa, sério? É russa também? Então essa moça está na Coreia? Por que nunca a vi? Ficar separados deve ser solitário. —Eles se viram. —Mas, você! Não fale assim. Eu já disse para não falar assim. Ela o repreendeu, como sempre. Por mais que tentasse ser cuidadoso na frente da mãe, seu tom brusco característico não mudava. Ele apenas balançava a cabeça, dizendo “sim, sim”, e bebia a água com mel que já estava morna.
Como Zhenya não respondia, a mãe continuou a conversa unilateral.
—A família não diz nada? Quando há chance de ir para o exterior, as pessoas costumam adiantar o casamento. —…Acho que não. Se a família Bogdanov soubesse da sua existência, eles tentariam eliminá-lo, não casá-lo. Era surpreendente que nada tivesse acontecido até agora. Será que eles realmente não se importavam com Zhenya? Dizem que os ricos casam cedo, mas ele era uma exceção?
Sem se cansar, a mãe começou uma investigação intrusiva.
—Falando nisso, como é a família do embaixador? Ele é filho único? —Por que isso de novo. —Por quê? Eu não posso perguntar? —…Ele tem dois irmãos mais velhos e uma irmã mais nova. —Que família numerosa. Ele respondia, mas acenava com a cabeça enquanto olhava para Zhenya.
—Os pais estão vivos? Ele não respondeu à pergunta imediatamente. Ele sabia do pai de Zhenya, Vissarion, mas não sabia nada sobre a mãe. Para Zhenya, que só observava a conversa entre mãe e filho, ele transmitiu a pergunta.
—Ela quer saber se seus pais estão vivos.
—Meu pai está.
Ele ia continuar a traduzir, mas olhou para Zhenya novamente. Se o pai estava, então a mãe estava morta? Falando nisso, ele sabia toda a história da família do desgraçado, mas não os detalhes mais íntimos. Especialmente sobre a mãe de Zhenya. O desgraçado nunca tinha falado sobre isso.
—Ela morreu?
—Já faz muito tempo.
O desgraçado respondeu com indiferença. Quanto tempo? 5 anos? 10 anos? Ou quando ele era realmente jovem? Parece que ele sabia muito pouco sobre o desgraçado. Como foi sua infância, se ele estudou, e como foram seus anos de escola. Embora tivesse certeza de que ele não tinha amigos, ele nem sabia se era verdade, ou se ele já tinha namorado alguém. Ele nunca perguntou. Ele foi muito indiferente?
Como resultado, ele passou duas semanas mais frustrantes do que nunca. Quando Zhenya cortou o contato, ele não sabia onde nem como obter notícias dele. Se a situação fosse oposta, o desgraçado teria o encontrado de alguma forma. Quanto mais se sabe sobre alguém, mais fácil é prever seus movimentos. Embora não se possa dizer que o desgraçado é normal, a comparação inevitável o deixava desconfortável.
Com o olhar fixo, Zhenya questionou.
—Por que está olhando assim?
—…Nada.
Ele desviou o olhar. Uma sensação estranha de culpa o dominou, como se tivesse feito algo errado. O fato de ele ter considerado a presença de Zhenya ao seu lado como natural, sem se esforçar para conhecê-lo. O desgraçado sempre o esperava, mas ele mesmo não aguentou duas semanas de espera. Seria isso o ditado —Quando eu faço, é romance; quando os outros fazem, é adultério”?
Enquanto ele pensava, a mãe e Zhenya estavam olhando outras fotos. A única foto de família tirada antes da morte do pai. Já fazia quase 20 anos, a foto estava desbotada.
—Este é o irmão mais velho do Taekjoo. Aqui é o pai deles. Também não tenho irmãs na minha família, então queria muito ter uma filha quando me casasse. O destino foi cruel. Além de mim, só homens. A casa era tão seca. Quando crianças, por causa do pai severo, viviam em
silêncio; na adolescência, parecia que estavam em retiro silencioso. Não sei se o senhor sabe, mas o pai e o irmão do Taekjoo eram militares. Nem todos os militares são assim, mas os dois eram iguais, calados e rígidos. Na verdade, o Taekjoo também era muito indiferente. Mas depois que o pai e o irmão se foram, ele ficou mais atencioso. Talvez para compensar a solidão da mãe. A mãe, que tagarelava, começou a chorar de repente. Foi logo depois de ver a foto da cerimônia de formatura do irmão. As lágrimas escorriam pelo rosto, e ela apressadamente pegou um lenço de papel.
—Olha só a minha vergonha. Desculpe, embaixador. Os olhos de Zhenya se arregalaram. Ele já havia contado sua história familiar ao desgraçado, então ele sabia mais ou menos. Mesmo assim, a reviravolta o surpreendeu. A mãe também parecia um pouco constrangida por ter chorado na frente de um convidado. Enxugando as lágrimas, ela dizia: —Estava tudo bem, por que estou assim?”. Ele a acalmou e fez um sinal para Zhenya ir em direção à porta.
—Ei, não dá. Melhor você ir.
—…Parece que sim.
Zhenya deu de ombros. Quando ele se levantou, Kwon Taekjoo também se levantou.
—Mãe, o embaixador vai indo. Vou só acompanha-lo até a frente. —Tudo bem. Vai lá. Embaixador, desculpe. Vá com cuidado. A mãe pediu licença a Zhenya e entrou apressadamente no banheiro. Em breve, o som da água da pia foi ouvido. Ele ficou parado por um momento e depois saiu com Zhenya.
Eles esperaram juntos o elevador chegar. Enquanto isso, sentia um olhar penetrante ao seu lado. Virando a cabeça, seus olhares se encontraram. O desgraçado, como se não se importasse com o que tinha acontecido, o examinava atentamente. Embora ele não tivesse feito nenhum gesto, Kwon Taekjoo tinha a impressão de que ele queria beijá-lo. Como estavam num local público, não podia permitir.
Ele virou a cabeça para o elevador e começou.
—O que você estava fazendo para só chegar agora? Ainda não respondeu.
—Só alguns assuntos aqui e ali.
—Que tipo de assuntos?
Ele insistiu, olhando para o desgraçado. O desgraçado ergueu as sobrancelhas, surpreso.
—Bem. Tem algo que eu não deva saber?
—Não é isso.
O desgraçado sorriu. Ele não sabia se era uma zombaria ou se ele estava feliz. Nesse meio tempo, o elevador chegou. Ele encarou o desgraçado com insatisfação e entrou. O desgraçado também o seguiu calmamente.
—Falaram sobre noivado.
Quando a porta se fechou completamente, o desgraçado falou. Ele ouviu, mas não assimilou.
—…Noivado? Quem?
—Bem, quem será?
Ele respondeu com indiferença. O desgraçado também tinha trinta anos. A razão pela qual as famílias ricas casam os filhos cedo é a união de riquezas. Isso não é exclusivo da Coreia. Se o alvo fosse a família Bogdanov, muitas famílias se ofereceriam para o casamento. Os únicos solteiros na família Bogdanov eram Zhenya e Olga, então o casamento deles devia ser um assunto espinhoso. Para aqueles que só querem expandir seu poder, o temperamento de Zhenya não importava.
Então, ele recusou? Como ele também é calculista, deve ter conhecido a pretendente. Talvez tenham até avançado no noivado. Para um casal normal, seria absurdo, mas o alvo era um desgraçado tão imprevisível. Ele pode pensar que casamento e namoro são coisas separadas.
O que teria acontecido na Rússia durante as duas semanas sem contato? Se perguntasse, ele responderia, mas, por alguma razão, ele hesitava. Ele estava curioso, mas também relutante em perguntar. Não queria se preocupar com seu orgulho vazio.
Era estranho. Ele queria que o desgraçado se cansasse e desistisse. Ele nunca esperou fidelidade ou amor puro do desgraçado. Mas, agora que essa situação surgiu, ele não se sentia bem.
—Já tenho idade para isso, é verdade.
Zhenya murmurou, observando o painel do elevador sem propósito. Sua atitude casual o irritava. Uma chama desconhecida parecia subir.
Sem demonstrar, ele riu.
—Estou curioso para saber quem vai se casar com alguém como você.
Havia um pouco de verdade nisso. Ele não conseguia imaginar uma esposa ou filhos para Zhenya. Enquanto fracassava repetidamente na imaginação, o desgraçado disse de repente: —Não fique pensando.
—Não vai mudar nada.
—Que besteira. Não pretendo ficar com um homem casado. Já disse várias vezes. Meu objetivo é viver tranquilo e morrer em paz. Detesto dramas passionais.
Ele deixou claro sua posição. Ficava com raiva do desgraçado por mencionar o noivado, e se sentia triste, mas parecia que não tinha consciência. Afinal, ele não poderia substituir isso. Não era possível abandonar a mãe e seu trabalho de forma egoísta. Ele devia libertar o desgraçado, mas pensar nisso o deixava com o coração pesado. Ele não sabia o que queria.
O elevador chegou ao estacionamento. O Bugatti de Zhenya estava, como sempre, rodeado de vagas vazias. Antes, ele andava com adesivos de estacionamento irregular, mas agora nem isso se via. A mãe deve ter falado com a administração. O desgraçado vinha visitá-la mesmo sem ele, e ela se acostumara a recebê-lo. Assim, ele gradualmente, e de forma decisiva, se infiltrava em sua rotina. Será que seria possível voltar atrás?
Sem se despedir, ele ficou hesitando perto do carro. Ainda tinha muitas perguntas. Queria perguntar por que o deixara tão preocupado. Mas com tantos pensamentos e emoções misturadas, ele não conseguia dizer nada. Com sua própria cabeça bagunçada, era difícil reclamar só com o desgraçado.
Mesmo deixando tudo de lado, ele queria ficar com o desgraçado naquele dia. Mas sua mãe o preocupava. Não por qualquer outra razão, mas porque ela tinha chorado ao falar do pai e do irmão; não podia deixá-la sozinha.
—Vai, vai logo.
—Já vou. Não é como se eu não soubesse que você é um filhinho da mamãe.
Graças à sua amizade com a mãe, Zhenya não insistiu tanto naquele dia. Mas ele ainda não conseguia gostar completamente do desgraçado por causa de suas palavras.
—Ei, quem…
O desgraçado o puxou pelo braço de repente. Ele foi puxado para um beijo. O desgraçado, com um som suave de estalo, chupou seus lábios docemente. Segurando seu rosto com as mãos grandes, ele sugou lentamente seu lábio superior levemente saliente, virando a cabeça para encaixar completamente os lábios. Ele lambeu sua língua como se fizesse cócegas,
enquanto acariciava sua bochecha com o polegar. Talvez por ser tanto tempo, ou pela adrenalina de serem descobertos? Seja qual for o motivo, todo o seu corpo se arrepiou.
Eles esfregaram as línguas macias uma na outra e depois as sugaram levemente. A saliva doce se misturou. Zhenya, vendo que Kwon Taekjoo o aceitava em silêncio, mesmo num local público, riu. Seu hálito se espalhou em seu rosto. Pressionando os lábios contra os de Kwon Taekjoo, que estava manso, ele os separou lentamente.
Seus olhares se encontraram. O desgraçado, com os olhos cor de vinho rolando lentamente, ainda imerso na longa ressonância, de repente olhou para baixo. Porque a barra da camisa estava sendo puxada. Percebendo a direção do olhar, Kwon Taekjoo retirou a mão rapidamente.
—Taekjoo. Você parece estar com saudades, não é?
O desgraçado inclinou a cabeça novamente e esfregou os lábios em sua orelha. A pele quente se esfregava suavemente.
—Ficou com o corpo ansioso enquanto eu não estava?
Ele perguntava enquanto baixava os lábios da orelha até o pescoço. A respiração ficou um pouco mais difícil.
—Se estiver com pressa, podemos fazer aqui dentro.
Ele o empurrou, dizendo “Vai”. O desgraçado, como se esperasse, riu e enterrou o rosto no cabelo de Kwon Taekjoo. Então, inspirou fundo, como se sentisse seu cheiro.
—Por quê?
Ele fez uma expressão estranha, e o desgraçado apenas sorriu sem motivo. Era impossível saber o que ele pensava.
—Vai entrar. A saudade de hoje, eu vou cobrar com juros depois.
Ele não conseguia entender por que ele dizia aquilo. Enviando um consolo ao seu eu futuro, ele o expulsou como se fosse chutá-lo.
—Sai, vai logo.
O desgraçado, como se estivesse sendo empurrado, entrou no carro. O motor ligou. Ele se afastou e observou o desgraçado partir. O Bugatti, que deslizava sem hesitar para a saída, parou de repente. Ele pensou que algo tinha caído, mas ficou parado por um bom tempo. Em
seguida, seu telefone tocou. O remetente era, como sempre, o desgraçado.
—Por quê, o que foi?
Taekjoo. Você está me mandando ir ou ficar?
—Por que você está brigando comigo?
Se você fica me olhando com cara de cachorro faminto, é difícil não se comover. Dá vontade de te levar para casa e te encher de leite até você explodir.
—Seu louco.
Ele ergueu o dedo médio para o desgraçado. Mesmo que tivesse desligado o telefone, parecia ouvir a risada alta do desgraçado. Ele se virou primeiro e foi para o elevador. Com o desgraçado por perto, não havia tempo para emoções.
Só quando chegou à porta da frente é que recuperou a razão. Ele respirou fundo e abriu a porta. A mãe já tinha se recomposto e estava arrumando os copos e pratos. Ela nunca foi grande, mas naquele dia suas costas pareciam ainda mais frágeis. Ele se aproximou silenciosamente e a abraçou por trás. Ela perguntou o que foi, segurando seus braços.
—…Nada. —Foi por causa das fotos, me lembrei de repente. Normalmente não sou assim. Ele acenou com a cabeça em silêncio. A mãe acariciou seus braços.
—Está tudo bem, filho. —Hmm. Esfregando a bochecha na nuca da mãe, ele a abraçou com mais força.
Ele hesitou ao entrar em casa. Como se tivesse encontrado algo, ele examinou o interior rapidamente. Não havia sinais de outras pessoas. Era a mesma coisa quando acendeu a luz.
Mesmo assim, ele foi até o banheiro e abriu a porta. O banheiro estava completamente seco, sem umidade. Não havia um fio de cabelo no chão, e os produtos de banho estavam exatamente no lugar. Saindo, ele examinou a cozinha e a sala. Todos os móveis e objetos estavam como quando ele saiu. Apenas uma marmita estranha na geladeira.
Ele também foi ao quarto. A cama larga e os lençóis que a cobriam estavam como se nada tivesse acontecido. Sua longa experiência como agente secreto o tornava especialista em apagar seus rastros.
Mas ele não conseguiu esconder completamente o odor. Parecia que tinha tomado banho com
os mesmos produtos de Zhenya e ventilado o local, mas o cheiro de Kwon Taekjoo ainda pairava no ar. Era tão fraco que ele mesmo não notou.
—De onde você estava vindo agora?
—Por que tenho que te dar satisfação?
Os lábios de Zhenya se curvaram. O rosto embaraçado de Kwon Taekjoo veio à mente.
—Se não quer falar, tudo bem. Tenho meus meios de descobrir.
—Dormi sozinho.
—Eu perguntei onde você estava?
—Onde quer que eu estivesse, dormi sozinho.
A imagem dele, tentando se manter orgulhoso sem saber que havia sido pego.
Ele sentou na cama. O colchão ondulou suavemente. O cheiro de Kwon Taekjoo se intensificou. Ele pegou o travesseiro próximo e enterrou o rosto. Como esperado.
—…Ha, Taekjoo.
Ele riu como se não pudesse acreditar. Depois de ficar tanto tempo e com tanta saudade, ele não sabe dizer uma única palavra sobre ter esperado. Ele se lembrou de Kwon Taekjoo olhando para seu carro enquanto ele partia. Uma sensação insuportável o dominou.
Jogando-se na cama, ele esfregou a cabeça no travesseiro. Seus olhos se fecharam naturalmente. A respiração profunda e a expiração que se seguiam eram extremamente relaxantes e doces. Finalmente, sentiu que tinha voltado para casa.
—……?
Ele acordou vagamente ao se virar. Uma sombra se movia sobre seu rosto. Parecia que alguém estava sentado na beira da cama. Apesar do intruso inesperado, seu corpo não entrou em estado de alerta. Pelo contrário, relaxou. Porque até na sombra sentia uma familiaridade.
Ao abrir as pálpebras, viu Kwon Taekjoo. Ele nunca dormia profundamente e acordava facilmente por causa de seus sentidos, mas naquele dia ele não notou que ele tinha chegado. Será porque estava completamente adaptado à presença dele em seu espaço? O instinto pode ter reconhecido a situação como absolutamente segura.
Kwon Taekjoo estava sentado na cadeira ao lado da cama, apenas o observando em silêncio. Ele vestia um moletom, como se tivesse vindo de casa. O capuz estava puxado sobre a cabeça, e ambas as mãos estavam enfiadas no bolso da frente. Quando ele estava ali, por que estava assim, não se sabia.
—Alguém entra no quarto e você nem acorda. Se eu fosse um assassino, o que faria?
—Você acha que eu não distinguiria?
—Que fraco.
Ele resmungou e se levantou de repente. Então, ajoelhando-se na cama, subiu nela. Zhenya, apoiando a parte de trás das coxas de Kwon Taekjoo, observou em silêncio enquanto ele montava em seu corpo.
—Na verdade, minha missão na Rússia ainda está em andamento, e a busca por —Anastasia era apenas um disfarce. O verdadeiro alvo era você, e agora que te tenho…
—Então eu morreria.
Ele respondeu com um sorriso. A mão que já estava nas nádegas de Kwon Taekjoo apertou a carne firme.
—Taekjoo, eu mataria você primeiro.
Ele fez uma expressão de desânimo. Zhenya puxou seu braço suavemente. Kwon Taekjoo, pela primeira vez, se deixou levar. Ele enfiou a mão dentro do capuz, amassou sua orelha fria e o beijou naturalmente. Kwon Taekjoo também respondeu ao beijo sem hesitar.
Ele só chupou o lábio inferior carnudo, soltou, e depois o puxou novamente, sugando-o. Sua língua macia se chocou com a dele. Não era impressão; quando ele lambeu o lábio superior, o desgraçado enfiou sua língua. Quando ele tocou a ponta da língua, o desgraçado se grudou, enrolando-se completamente em sua língua. As carnes vermelhas se misturavam densamente, fazendo sons de estalo. Sua boca parecia adoçar.
Ele separou os lábios por um momento e disse: “O que é isso?”.
—O quê.
Ele examinou Kwon Taekjoo, que fingia não saber. O que teria acontecido durante sua ausência? Ele estava estranhamente proativo no contato físico.
Ele o tocou novamente. Seus lábios secos foram pressionados e soltos. A temperatura corporal
e a textura eram reais, não era um sonho.
—Você disse que ia ficar com sua mãe.
Zombando, ele perguntou se ele tinha vindo beber leite. Normalmente, ele teria uma reação de nojo, mas Kwon Taekjoo não mostrou nenhuma reação. Certamente havia algo diferente.
Para entender a situação, ele piscou lentamente. A sombra dos cílios longos tremia em seus olhos cor de vinho. Kwon Taekjoo, olhando para ele de cima, baixou o rosto lentamente. Ele fechou os olhos, esperando um beijo. Mas Kwon Taekjoo mordeu a ponta do nariz de Zhenya, não seus lábios.
Uma risada incrédula escapou de Zhenya.
—Taekjoo?
—O quê?
—O que está acontecendo? Do nada, você está agindo como se quisesse aninhar um filhote.
—Que expressão…
—Será que você estava com saudades? A ponto de vir dormir na minha cama?
Kwon Taekjoo, que tinha uma mão no bolso, puxou algo e o jogou. Uma caixa pequena bateu no ombro de Zhenya e caiu. Era uma camisinha.
—Eu ia tentar aguentar, mas estava tão acumulado que não deu.
—Ah, sim?
—Pensei em aproveitar bem antes que você se tornasse um homem casado.
Parece que ele estava mais preocupado do que deixava transparecer. Finalmente, sua mente, cheia de dúvidas, se clareou. Ele riu, e Kwon Taekjoo, irritado, agarrou seu colarinho. Então, o beijou com força. Ele era tão inábil. Uma sensação de formigamento surgiu em seu peito. Seus lábios, constantemente mordidos e atritados, doíam, mas o canto de sua boca se erguia sem parar.
Ele decidiu deixá-lo pensar o que quisesse, com seus mal-entendidos.
—Não me deixe pensar em nada. Minha cabeça está cheia.
Terminando o beijo, que parecia uma mordida, ele resmungou frustrado. Não havia nada mais parecido com uma mariposa. Sorrindo, ele ergueu o capuz irritante. Então, alisou o cabelo abundante, como se o bagunçasse, e o puxou de repente. Seu pescoço longo e liso se curvou sem defesa. Sem hesitar, ele abriu a boca e mordeu a pele quente.
—Haa… Haa…. Suas coxas abertas tremiam. Tanta força ele fazia que os músculos se contraíam visivelmente. Ele girava lentamente três dedos, alargando a circunferência do orifício. Pressionava o interior periodicamente, enquanto o polegar acariciava suavemente o períneo. Virando o pulso, amassava os testículos. Quando pressionava o centro, eles se dividiam em duas partes esbranquiçadas, como ovos dentro do corpo. Ele os apertava e os provocava. Então, os sugava com a boca. Um testículo era sugado e liberado repetidamente. A área sensível era arranhada pelos dentes e esfregada na mucosa, aumentando a excitação. O pênis ereto, roçando na testa e nos cabelos do desgraçado, era intensamente estimulado.
—Ah, Haa, Haa…. Ele empurrou o ombro de Zhenya com as pernas, como se pedisse para parar. Mas o desgraçado, firmemente posicionado em sua virilha, não se mexeu. A consciência da posição do desgraçado o deixava mais tenso, e todo o seu corpo formigava. Seu pênis ereto tremia fielmente ao estímulo. A glande, vermelha de sangue, ofegava, dilatando a uretra com dificuldade. Tão apertado que ele queria gozar primeiro.
Sua mão trêmula se moveu em direção ao centro. Mas Zhenya foi mais rápido. Depois de lamber o orifício, o períneo, o escroto e o pênis, ele mordeu a glande e a chupou. Só isso fez a cintura de Kwon Taekjoo saltar. A glande coberta de saliva pulsava com a antecipação.
Com os cotovelos, ele prendeu as coxas de Kwon Taekjoo e segurou seu pênis com as duas mãos. Então, com os polegares, abriu a uretra. O fluido pré-ejaculatório que se acumulava dentro transbordava. Observando, ele estendeu a língua e lambeu o orifício aberto.
—Ha, Haa, Haa…! Haa, ah, Haa, ah…! Instantaneamente, o corpo de Kwon Taekjoo foi eletrocutado. Seus joelhos se contraíam, seus dedos se arqueavam, rasgando os lençóis.
Ele cutucava a uretra com insistência, virando a cabeça. Com o estímulo intenso, o fluido pré-ejaculatório escorria como água. A resistência de Kwon Taekjoo aumentou. Sua parte inferior, pressionada por Zhenya, se contraía, e ele se erguia, empurrando a cabeça do desgraçado. Quando o desgraçado sugou a glande e a soltou, os membros de Kwon Taekjoo relaxaram. Seu peito subia e descia ofegante.
Zhenya soltou a mão que segurava seu cabelo. Então, mordeu seus dedos, que tremiam com o calor não dissipado.
—Taekjoo, você disse que queria chorar. Por que está me atrapalhando?
—Ha, ha, Haa, quando foi que eu… seu idiota.
—Viu só? Você sempre pede e depois finge que não.
Resmungando, ele estendeu a mão para a gaveta ao lado. Logo, suas mãos seguravam algemas de couro e um fino vibrador de silicone. Eram objetos que ele nunca tinha visto.
—Se você não disser a verdade, quero te torturar até você confessar. É normal.
Como se fosse um princípio psicológico, ele afirmou. Ele algemou os pulsos de Kwon Taekjoo sem cerimônia.
—O que está fazendo? Não vai soltar?
—Quando você for sincero.
Ele impôs a condição e, com as duas mãos, percorreu lentamente o corpo de Kwon Taekjoo. O dedo mindinho de Zhenya pressionou seu mamilo. Seu peito pareceu vibrar. Sua cintura tremeu. O desgraçado desceu até o abdômen e as coxas. Então, com os polegares, esfregou a parte interna das coxas e voltou para a virilha. Quando seu pênis foi envolvido pela mão do desgraçado, todo o corpo de Kwon Taekjoo se contraiu.
—Uma vez pensei em te amarrar assim e interrogar. Qual era a sua verdadeira identidade, de onde veio, o que estava fazendo. Queria perguntar ao seu corpo. Se tivesse falhado em te enganar, teria feito isso. Os humanos têm um forte instinto de autopreservação; quando a dor é grande, eles contam tudo.
Ele parecia feliz por finalmente realizar esse pensamento. Sorrindo, ele acariciava seu pênis e, de vez em quando, o beijava. Então, ele puxou a glande para o lado e abriu a uretra. O orifício vermelho, molhado de fluido e saliva, se contraía com dificuldade. Observando a cena com interesse, ele pegou o vibrador de silicone. O vibrador estava coberto de gel, como se escorresse uma saliva viscosa. Com a ponta fina como um cotonete, ele o pressionou contra o orifício. A ansiedade de que fosse penetrar a qualquer momento fez todo o seu corpo se contrair. Quando ele pressionou a ponta redonda contra o orifício, a cabeça de Kwon Taekjoo se inclinou para trás.
—Ah, isso… ah, Haa…. Ele segurou o pênis trêmulo, acariciou-o com o polegar, e lentamente girou o vibrador de silicone para dentro. O vibrador, que estava preso na entrada estreita, deslizou pelo gel e cutucou a uretra. Kwon Taekjoo rangeu os dentes. Todo o seu corpo se sacudiu.
—Hut, ah… ah…. —Taekjoo.
Ele abraçou o corpo que tremia entre o prazer e a dor, mordendo abdômen, flancos e peito. As marcas de dentes nítidas causavam dor por toda parte, o que, paradoxalmente, tornava a dor no pênis menos intensa.
Sugando o peito de Kwon Taekjoo, que naturalmente se inchava, ele mexeu o vibrador na uretra. Com o mamilo sendo sugado e a uretra estimulada, Kwon Taekjoo começou a se debater.
—Isso… Haa! Isso, ah, Haa, ah, huh!
Os gemidos se misturavam com a saliva não engolida. Seus olhos, antes nítidos, se turvaram.
Cada vez que o ponto de estimulação arredondado roçava a uretra, uma vontade intensa de urinar surgia. Era tão agudo e formigante que ele mal respirava. Melhor seria gozar logo.
Mas Zhenya não o deixava. Depois que Kwon Taekjoo relaxou por um momento, ele enfiou o vibrador completamente. O ponto de estimulação, ao entrar, inchou a base do pênis e pressionou a próstata. Toda a sua pélvis vibrou. A sensação desconfortável se espalhou rapidamente para a parte interna das coxas.
—Ha, Haa, tira, Haa… me dá. Tira….
Ele se debateu desesperadamente. Torceu os ombros, balançou a cabeça. Zhenya segurou seu rosto para que ele olhasse para a frente. Seus olhos e orelhas estavam vermelhos de desejo. Havia até um brilho úmido em seus olhos. Os lábios de Zhenya se curvaram num longo arco. Suas pupilas cor de vinho se contraíram.
Pressentindo a tragédia, Kwon Taekjoo franziu a testa. Como esperado, Zhenya dobrou suas pernas sobre o peito e se deitou sobre ele. Totalmente pressionado, o sangue subiu ao rosto de Kwon Taekjoo. O desgraçado esfregou seu pênis no orifício já aberto, observando-o gemer. Kwon Taekjoo, com dificuldade, encontrou seus olhos. Era um olhar de reprovação e súplica. Era hipnotizante.
—Ha, Taekjoo.
—Ha, hã… ah, hut, hã, Haa! Sorriu e enfiou o pênis, que estava na entrada, com força. O orifício se abriu com dificuldade, engolindo a carne grossa. A cada contração, parecia que a pele ia se rasgar. Sua visão escureceu várias vezes.
—Parece que você estava com muita fome, não é?
Com a pressão tão forte, ele mesmo franziu a testa. Recuperou o fôlego e enfiou-o de uma só vez. Kwon Taekjoo gritou e se debateu. Por um instante, pareceu que o vibrador que bloqueava seu orifício dianteiro subiu e desceu ligeiramente. Curioso, ele tocou a parte exposta, e todo o pênis tremeu visivelmente.
Observando a situação, ele esfregou o pênis no interior. O pênis de Kwon Taekjoo se contraiu junto, pressionando a uretra. Ele o empurrou com todo o corpo, enojado. O ponto de estimulação do vibrador criava uma sensação de corpo estranho na uretra. Talvez ele pudesse fazê-lo expelir o vibrador sem tocá-lo. Uma curiosidade estranha surgiu.
Em outras ocasiões, ele teria provocado Kwon Taekjoo, evitando o ponto de prazer. A noite era longa, não havia pressa.
Mas, depois de tanto tempo sem um sexo diferente, sua paciência se esgotou. O sadismo instintivo levantou sua cabeça.
Ele intencionalmente colou seus abdomens. Com isso, o pênis de Kwon Taekjoo ficou completamente pressionado entre os dois. Com os abdomens colados, ele moveu a parte inferior lentamente.
—Ah, Haa! Só aquele movimento superficial fez todo o corpo de Kwon Taekjoo se contrair. Seu pênis, extremamente sensível, foi pressionado e esfregado nos músculos abdominais, sendo intensamente estimulado. Um fluido desconhecido escorria de seu pênis, molhando seu abdômen. Ele fingiu pena.
—Está escorrendo. Não seria melhor chorar de uma vez?
Zombando, ele golpeou um ponto específico sem aviso. Todo o seu abdômen vibrou. Seus membros rígidos tremiam como folhas.
—Ha, ah…! Haa…. O rosto de Kwon Taekjoo estava prestes a desmoronar. Zhenya, encarando-o com impaciência, continuou a cutucar o mesmo local. Cada vez que seu pênis roçava, a sensação de queimação se espalhava como uma corrente. Pontas dos dedos, dos pés, raiz dos cabelos, tudo formigava. Seu pênis, constantemente esfregado e amassado entre os dois, também sentia uma vontade intensa de urinar.
—Haa, ah… po, rra, quero gozar.
—Goze à vontade.
—Seu louco, como… ah, Haa!
Sua boca se fechou com força enquanto os xingamentos se misturavam com a raiva. Ele pressionava os lábios repetidamente enquanto levantava seu interior mais fundo. Queria enfiar a língua também, mas seria mordido. Contentando-se em beijar os lábios e as bochechas, ele repetiu a penetração profunda.
—Haa, Haa… ha, hã, ah, Haa, Haa…! Algemado, tudo o que Kwon Taekjoo podia fazer era gemer. Gemidos profundos escapavam a cada penetração. Ele tentou suportar rangendo os dentes, mas era impossível. Com o estímulo intenso, sua cabeça se curvava para trás. A respiração se acumulava nos pulmões e escapava com dificuldade.
Zhenya acelerou os movimentos da cintura. O gel esbranquiçado grudava na superfície do pênis. A parede interna morna, constantemente moída, parecia estar se moldando ao formato do seu pênis. Uma sensação familiar, mas que nunca se tornava familiar.
Por mais que tentasse se defender, ele abria seu interior violentamente e sugava a carne doce. A parede interna, totalmente moldada, amolecia, como se estivesse sendo devorada.
—Ah, Haa, ah, Haa, Haa, ah, ah, Haa…! Zhenya parou os movimentos de repente. Seu pênis, com a glande apenas encaixada, esticava um fio de gel. Então, se quebrou, grudando na nádega de Kwon Taekjoo. Kwon Taekjoo, que gemia sem parar, tremeu. Recuperando o fôlego, seus olhos úmidos olharam para baixo.
—Zhenya…. Ele o chamou com uma voz ofegante, cheia de desejo. Não haveria maior alegria. Ele se atirou em direção a Kwon Taekjoo.
—Ah, Haa, Haa, hã, Haa…! —Haa, Haa, Taekjoo….
Golpeando a parede interna que se contraía lentamente, ele ejaculou. Com a sensação de choque, Kwon Taekjoo tremeu. Sussurrando seu nome, ele o beijava onde quer que seus lábios tocassem. A pele suada de Kwon Taekjoo se arrepiou. Quando ele enfiou a língua no canal auditivo, Kwon Taekjoo gemeu com uma voz cansada. Ao mesmo tempo, seu abdômen, que estava em contato, ficou molhado.
—…Rápido.
Kwon Taekjoo esfregou a testa no ombro de Zhenya. Sua respiração ofegante fazia cócegas em seu pescoço. Enquanto esfregava os lábios em sua orelha quente, ele soltou as algemas.
Imediatamente, levou um soco no ombro. Ele riu, mesmo sendo chutado. Mas ele não permitiu que ele gozasse sozinho.
Ele agarrou o tornozelo de Kwon Taekjoo. Seu corpo deslizou sem forças. Ele mordeu o tornozelo liso e soltou, depois mordiscou sua panturrilha. Deixou marcas de dentes até a coxa. Kwon Taekjoo resmungou, perguntando o que ele estava fazendo. Sem se importar, ele continuou a morder a parte interna da coxa, sugando a pele macia. Só isso fez o pênis de Kwon Taekjoo tremer. Algo que parecia esperma escorria de sua uretra. O vibrador também já estava meio fora.
—…Haa. Quando ele tentou puxá-lo lentamente, Kwon Taekjoo se assustou. A uretra se contraiu. Acariciando todo o pênis para acalmá-lo, ele lambeu a glande. Esfregando suavemente a língua na uretra, ele puxou o vibrador coberto de fluido. A cada ponto de estimulação que saía, a cintura de Kwon Taekjoo se contraía. Quando a ponta saiu, o esperma que não havia sido ejaculado jorrou.
Kwon Taekjoo cobriu o rosto com as mãos e xingou. Ele acariciou seu pênis dolorido e beijou suas mãos várias vezes. Até que Kwon Taekjoo desistisse e aceitasse seus beijos.
Ele se assustou e abriu os olhos. A visão se tornou nítida lentamente. Será que tinha desmaiado de novo? Há quanto tempo estava deitado, o travesseiro parecia plano. Seu peito e barriga estavam colados à cama. Com os pulmões comprimidos, a respiração não fluía bem. Ele se virou. Todos os seus músculos pareciam gritar.
—Ah… estou morto. Até sua voz de lamento estava rouca. Era vergonhoso. Ele não deveria ter provocado o desgraçado. Ele se arrependeu do que tinha dito enquanto era atormentado a noite toda. Tentou retirar, mas o desgraçado não ouvia. Como quando fez fisioterapia naquela outra ocasião, seu corpo foi dobrado de várias maneiras.
Ainda era sábado ou já era domingo? Que horas seriam? Será que o NIS tinha contatado? Curioso, ele não tinha coragem de se levantar. Esfregando a cabeça no travesseiro, ele se enrolou. Por hábito, tocou o lugar ao lado e ainda havia calor. Parecia ouvir o som da água. Depois de gastar tanta energia, ele ainda tinha forças para se mover.
—Aquele cara não é humano. Resmungando, ele ia dormir mais um pouco, quando o telefone tocou. Não era do quarto. Será que devia ignorar? Pensando por um momento, ele se levantou com dificuldade. Se fosse uma chamada da sede, as consequências seriam só suas.
A cada passo, a sensação dentro das nádegas era estranha. Suas coxas doíam, e seu interior, tão mexido, era indescritível.
O telefone estava na mesa da cozinha. Zhenya devia tê-lo colocado ali. Ele o pegou e verificou o remetente. Era um número não cadastrado. Assim como há alguns dias, seria telemarketing? Enquanto hesitava, a vibração diminuía.
Ele verificou as chamadas perdidas. Felizmente, não havia contato da sede. Apenas uma mensagem de Kang Chan-woo, com o local e horário do encontro de colegas, e um pedido insistente para comparecer. Depois que Zhenya voltou, ele se concentrara tanto nele que tinha esquecido.
Voltando ao topo, ele observou o número que ligara há pouco. O final do número parecia familiar. Quem era? Enquanto tentava lembrar, a tela mudou e a chamada chegou. Era o mesmo número.
Desta vez, ele atendeu sem hesitar.
—Alô. Alô? Kwon Taekjoo?
Só de ouvir isso, ele soube quem era. Já havia mais de dez anos. A voz de uma pessoa também ganha profundidade e ressonância com o tempo.
Mesmo assim, ele reconheceu.
Sou eu. Yoo Nahyun.
Como eles ficaram tão próximos?
Yoo Nahyun dizia que gostava da indiferença de Kwon Taekjoo. Kwon Taekjoo não negava os boatos de que namoravam. Ele também não se distanciava de Yoo Nahyun. Era mais porque ele não se importava com os boatos. E porque ninguém saía perdendo com eles.
Naquela época, ele não tinha ninguém especial, nem se importava com ninguém. Por isso não via necessidade de se explicar. Quando as pessoas o viam como namorado de Yoo Nahyun, as fofocas sobre ela diminuíam. Mesmo que ela recusasse avanços indesejados, ninguém a criticava abertamente. Se ela não comparecesse a encontros ou eventos, não havia problemas. Todos achavam que era por causa do namoro. De vez em quando, reclamavam que ele monopolizava a namorada. Isso devia ser confortável para ela.
Para Kwon Taekjoo também era a mesma coisa. Andar com Yoo Nahyun reduziu os incômodos. Às vezes, era mais confortável do que estar com os amigos. Yoo Nahyun nunca fazia perguntas pessoais ou se intrometia. Nunca pedia favores excessivos. Pelo contrário, guardava lugar na sala de aula ou na biblioteca, pegava livros e artigos para os trabalhos e,
quando conseguia provas antigas, compartilhava, ajudando-o muito. Ela dizia que era para uma competição amigável, mas talvez fosse a maneira dela de agradecer.
Mas não havia nenhum clima de namoro entre eles. Pelo menos, era o que Kwon Taekjoo pensava. Ele nunca viu Yoo Nahyun como mulher. No dicionário de Yoo Nahyun, namoro não parecia ter lugar. Talvez a ambição de sucesso. Pelo que ele se lembrava, ela sempre estava olhando para frente. Ele descobriu o motivo mais tarde.
—Na verdade, fui criada num orfanato.
Foi quando Yoo Nahyun se inscreveu para um programa de intercâmbio. Se não houvesse imprevistos, a seleção dela era certa.
Naquela época, Kwon Taekjoo estava prestes a se alistar. Talvez por isso, ela quisesse desabafar. Era a primeira vez que ouvia isso, e como ele via fotos de família na carteira dela, ficou surpreso.
—Eu vi uma foto de família sua antes.
—Sim. Fui adotada.
Yoo Nahyun respondeu com indiferença, balançando o copo de soju vazio. Embora surpreso, ele não demonstrou. Apenas encheu o copo dela em silêncio.
—Meu pai adotivo era bombeiro.
—Por que passado?
—Ele morreu em serviço. Quando eu estava no ensino médio.
Ele acenou com a cabeça. A situação de Kwon Taekjoo na época não era muito diferente. Yoo Nahyun também sabia disso.
—Quando soube que seu pai também morreu em serviço, senti uma afinidade enorme. Sei muito bem o que acontece com uma família quando se perde o chefe de repente.
Talvez Yoo Nahyun tivesse se aproximado por isso. Não porque o visse como rival, nem porque ele fosse indiferente a ela, mas porque ele era alguém de um ambiente semelhante que alcançou os mesmos resultados.
—Aparentemente, fui filha de uma mãe solteira. Fui entregue a um orfanato ao nascer e vivi lá até os sete anos. Meu pai adotivo vinha regularmente fazer trabalho voluntário. Ele era muito quieto, mas muito carinhoso. Gostava muito de mim. Não sei, talvez tenha sido impressão
minha. Às vezes vinha com os colegas do corpo de bombeiros, outras vezes com minha mãe adotiva.
Yoo Nahyun, lembrando do passado, sorriu. Era o rosto de alguém sonhando. Era a primeira vez que ele a via sorrir daquele jeito.
—Gostei da minha mãe adotiva desde o início. Quando via TV, queria ter uma mãe, e ela era exatamente como eu imaginava. Gentil, carinhosa, comunicativa, atenciosa. Quando soube que eles seriam meus pais, chorei tanto de alegria. Chorei tanto que eles se preocuparam se eu estava com medo. Assim, nos tornamos uma família, e quando eu estava no ensino fundamental, minha mãe engravidou do meu irmão. Foi uma criança preciosa, depois de 10 anos de casamento. Todos diziam que eu era uma bênção. Depois que fui adotada, houve muitas coisas boas na família. Eu também era muito feliz. Nunca tinha sido uma existência bem-vinda antes. Parecia que eu tinha me tornado uma pessoa completamente diferente. Ansiosa para ter outra família, não conseguia dormir. Queria fazer muitas coisas pelo meu irmão.
De repente, veio à mente a história clichê de ‘criança adotada que perde espaço quando o filho biológico nasce’. Yoo Nahyun balançou a cabeça.
—Depois que meu irmão nasceu, meus pais continuaram a me apoiar e a me amar. Meu irmão também era muito fofo e gostava de mim. Uma família ideal, que só existia na minha imaginação, se tornou realidade. Eu era tão feliz a cada dia…
Yoo Nahyun, que falava com êxtase, suspirou fundo de repente. Havia um arrependimento naquele suspiro.
—Então meu pai morreu. Houve um grande incêndio num prédio comercial. Ele foi resgatar pessoas presas e não conseguiu sair. Foi como se metade do meu mundo tivesse desabado. Tristeza, desespero. Mas a infelicidade não terminou ali.
O que teria acontecido? Ele estava curioso, mas não se intrometeu, esperando a continuação.
—Fiquei de luto o tempo todo. Queria fazer aquilo. Havia muitos velórios, parentes, colegas do meu pai, amigos, vizinhos… Na véspera do enterro, um ex-colega apareceu. Perguntou se eu era a filha mais velha, e eu, sem saber, disse que sim. Ele contou uma história estranha.
Ele inclinou a cabeça. Não conseguia imaginar o que viria.
Yoo Nahyun riu, como se ainda achasse absurdo. Seu rosto mostrava várias emoções.
—Na verdade, eu era filha biológica do meu pai falecido. Ele tinha uma amante, que me teve, e como não podia me criar, me entregou ao orfanato. Meu pai, ao saber, continuou fazendo
trabalho voluntário para me ver. minha mãe adotiva, sem saber, sugeriu a adoção.
—…O quê?
—Como ele estava bêbado, não havia credibilidade. Não sabia o quão próximo ele era do meu pai. Mas não podia simplesmente ignorar.
O que teria acontecido? Se o ex-colega estivesse certo, o marido falecido, tendo uma esposa infértil, teve um filho de um caso e, escondendo-a, a adotou. Uma bomba caiu na homenagem à vida altruísta e dedicada do falecido. Verdade ou não, era impossível imaginar como a mãe adotiva e Yoo Nahyun se sentiram. Ele não sabia o que dizer.
—Não fiz teste de paternidade. minha mãe disse que não era necessário, que não faria. Disse para não desonrar o falecido, que ele não era assim, que devíamos acreditar. Talvez devesse ter feito. Depois de ouvir aquilo, as coisas não puderam ser como antes. Sentia que minha mãe ficava desconfortável comigo, e eu me sentia culpada com ela e meu irmão.
Yoo Nahyun bebeu o copo de uma vez. Respirou fundo. Quando falou de novo, sua voz estava mais animada.
—A partir daí, decidi que precisava ser independente. minha mãe já teria dificuldades criando meu irmão sozinha. Eu, pelo menos, não queria ser um fardo.
Só então ele entendeu por que Yoo Nahyun sempre trabalhava tanto. E por que se esforçava para manter notas altas.
—Às vezes penso se teria sido diferente se meu pai não tivesse morrido. É inútil. Mas quanto mais penso, mais quero criar máquinas que possam ser enviadas a locais perigosos para resgatar pessoas. Para que não haja mais sacrifícios como o do meu pai.
De uma forma ou de outra, ele foi quem lhe deu uma família. Yoo Nahyun parecia sentir falta da época em que ele estava vivo. Talvez para sempre.
—Contei à minha mãe que provavelmente iria como intercambista.
—O que ela disse?
—Ela me elogiou, disse que estava orgulhosa. Mas o coração humano é assim. Queria que ela pedisse para eu não ir, que sentisse minha falta.
Yoo Nahyun riu sem graça. Seu olhar permaneceu no copo vazio.
—Acho melhor ser feliz o suficiente. Se fosse, não sentiria isso. Aquele tempo, que nunca mais
voltará, era tão bom que nada pode preencher. Sempre me sinto perdida e vazia. Como se estivesse sozinha no mundo.
Yoo Nahyun, que resmungava, ergueu a cabeça e disse “Então”. Seus olhares se encontraram. Seus olhos castanhos pareciam transparentes. Por causa das lágrimas.
—Kwon Taekjoo, fica do meu lado.
—…Taekjoo?
Ele foi chamado e voltou a si. Zhenya, que tinha acabado de tomar banho, estava atrás dele. Totalmente nu.
—Seu louco, veste alguma coisa.
—Já não é novidade.
Ele deu de ombros e foi em direção à geladeira. Seu pênis, balançando, estava mais vermelho do que o normal, talvez por causa do banho ou do atrito da noite. As marcas de ter colocado e tirado a camisinha várias vezes também estavam escuras, como anéis, o que era bastante erótico. Sem falar nas marcas de unhas em suas costas largas e braços. Ele olhou para as próprias unhas. Mesmo curtas, estavam assim.
Zhenya pegou uma garrafa de água na geladeira e bebeu. Enquanto isso, seu olhar permanecia fixo em Kwon Taekjoo.
—Mas, quem era?
Ele fez uma expressão de quem não sabia, e o desgraçado apontou com o queixo para o telefone. Ele deve ter ouvido a chamada. Podia dizer que era a mãe ou algo do trabalho. Para evitar problemas, seria melhor. Mesmo assim, ele respondeu. Não havia o que esconder.
—Um colega da faculdade.
—Um colega da faculdade? Já faz mais de dez anos que você se formou.
—Sim.
—O que ele quer agora, depois de todo esse tempo?
—…Bem, não está errado, mas por que você faz tudo parecer estranho?
—Porque você ouve com malícia. Ou porque está com a consciência pesada.
Ele o provocou e perguntou quem era. Não havia nada que Zhenya pudesse imaginar, e não havia razão para esconder, mas ele não podia dizer o nome de ninguém. A vida normal do colega seria arruinada.
Ele mudou de assunto, dizendo que estava com fome. Zhenya, com um olhar de desaprovação, colocou água para ferver por hábito. Provavelmente ia fazer macarrão. Normalmente ele reclamaria, mas naquele dia ele pediu jjajangmyeon picante para distraí-lo. O desgraçado, como sempre, disse que aquilo não era comida. Ele riu, pensando em fazê-lo provar.
À pergunta de Yoo Nahyun se ele iria ao encontro, ele disse que provavelmente sim. Não era por segundas intenções ou nostalgia. Ele só achava que devia vê-la uma última vez.
—Ah, é aqui. Kwon Taekjoo levantou a mão. Os passos de Yoon Jong-woo, que vinha correndo animado, desaceleraram. Porque, à frente de Kwon Taekjoo, estava sentado um estrangeiro alto, de costas para a entrada. Ele pensou que podia ser, e o mau pressentimento se confirmou. O louco russo, Zhenya, era quem o olhava.
—Ve, veterano…? Com dificuldade, ele moveu os olhos e olhou para Kwon Taekjoo. Ele tinha vindo correndo depois do trabalho, porque Kwon Taekjoo ia pagar um churrasco. Ele não foi avisado de que haveria outra pessoa. Se fosse um humano normal, não se importaria.
Mas Zhenya era diferente. Se soubesse que ia comer com ele, Yoon Jong-woo nunca teria vindo.
—Senta. Estou com fome. Kwon Taekjoo, sem dar muitas explicações, bateu no lugar ao lado. Yoon Jong-woo, segurando a alça da bolsa, só olhava para Zhenya. E se ele fugisse agora? Seria agarrado? O desgraçado ficaria ofendido e quebraria seu pescoço? Imaginando cenários violentos, ele se sentou hesitante. Zhenya o encarava. Encarar aqueles olhos cor de vinho o intimidava. As pupilas das pessoas são tão visíveis assim?
—O que você vai comer? —Não posso só ir embora? —Por quê? Você estava tão feliz por eu pagar o churrasco. —Perdi o apetite. Não estou com fome. Acho que estou com indigestão! —Se está com indigestão, tem que comer para passar. Filé? —Não, com a companhia, é melhor eu ir. Involuntariamente, ele implorou. Kwon Taekjoo, fingindo que não ouvia, chamou o garçom e pediu um monte de coisas.
Logo, a mesa estava cheia de acompanhamentos. Durante todo esse tempo, Zhenya não tirou os olhos de Yoon Jong-woo. Por mais que tentasse desviar, era impossível ignorar aquele olhar. Será que é assim que se sente diante de um tigre? Ou preso num tanque com um tubarão. Suas pernas tremiam.
—Em vez de ficar se encarando, se cumprimentem. São amigos. —…Que? —Vocês têm a mesma idade. Kwon Taekjoo acrescentou com indiferença. Yoon Jong-woo sabia que Zhenya tinha a mesma idade que ele. Sempre pedia para investigar. Mas ‘amigos’… Era a coisa mais absurda que já ouvira. Isso nunca poderia acontecer. Um aviso instintivo.
—Veterano, por que está fazendo isso comigo? Ele agarrou o braço de Kwon Taekjoo e o sacudiu. Era um gesto desesperado para que o deixasse ir. Então, Zhenya o encarou com mais intensidade. Algo o irritou. Yoon Jong-woo, assustado, fechou a boca. Até os lábios se contraíram. Suas mãos ficaram quietas sobre os joelhos.
—Então é você? O colega mais novo que bebeu com o Taekjoo?
Ele pensou que o louco russo tinha aquela voz. O tom era diferente de tudo que já ouvira. Parecia um pouco mais fino, mas era único. A entonação lenta e distorcida era uma característica do russo? Como não falava russo, não sabia. Não fazia ideia do que Zhenya dissera. Só sorriu, imitando Kwon Taekjoo.
Kwon Taekjoo, com um sorriso forçado, o avisou.
—Ei, não olhe assim. Ele está assustado.
—O que eu fiz?
—Com alguém que você acabou de conhecer, tenha o mínimo de educação. Sorria, seu idiota.
—Não gosto dessa cara de bobo.
Ele só conseguia rolar os olhos. Zhenya continuava a olhá-lo com desconfiança. Dizem que um sorriso não ofende, mas na Rússia não funciona. Seu olhar frio transmitia todas as negativas. Ele estava numa cama de agulhas.
Kwon Taekjoo, dizendo algo a Zhenya, colocou os pratos de milho com queijo, salada de frutas e jeon de batata no lado oposto. Não eram os acompanhamentos favoritos de Kwon Taekjoo, mas ele não era do tipo que se dava ao trabalho de mover as coisas. Será que o louco, mesmo
sendo estrangeiro, não podia comer comida picante?
Observando com curiosidade, Kwon Taekjoo de repente envolveu seu pescoço.
—Jong-woo, me faz um favor. —Não faça. —Ei, não é para isso que serve um colega mais novo? Me ajuda só desta vez. —Sabe quantas vezes já ouvi esse —só desta vez? tenha um pouco de consciência. Enquanto discutiam, ele olhou para Zhenya. Era impossível ignorar o olhar intenso.
—Vocês dois parecem muito próximos, hein?
Mesmo sem entender, ele sabia que Zhenya o detestava. Seus olhos azuis eram afiados como uma lâmina.
—Veterano, pede para ele parar de me olhar assim. Parece que não gosta de mim. —Não seja assim, vocês dois se deem bem. —Não. Quando eu sair daqui, vou esquecer que ele existe. Vou viver sem saber. —Só por hoje. —Não quero. —Não vai dar. Kwon Taekjoo murmurou, como se estivesse em apuros. Um mau pressentimento.
—O que quer dizer com —não vai dar? —Você tem que fazer companhia a ele hoje. O rosto de Yoon Jong-woo perdeu toda a expressão. Ele balançou a cabeça, achando que tinha ouvido errado. Kwon Taekjoo acenou com a cabeça. Ele riu alto. Então, franziu a testa e sussurrou.
—Que besteira é essa? —Ei, me ajuda. Só meio dia. Ok? —Não, ele não é criança. Por que eu tenho que cuidar dele? Ele apontou para Zhenya, que franziu a testa. Só aquela reação já o fez recuar. Meio dia com aquele homem? Era impossível.
Kwon Taekjoo continuou a persuadir.
—Se aquele desgraçado me seguir, vai dar problema. —Onde o veterano vai? —Eu? Vou ver uns colegas da faculdade. —Então leva ele. Mostra como é o louco russo. Diz que ele é o embaixador russo. Ele vai ser o centro das atenções. —Ah, não brinca.
—O veterano é que está brincando. —Só hoje, por favor. Ok? Eu compro qualquer item de jogo que você quiser. —Deixa disso. Sabe quanto custa? —Cinco bilhões, no máximo. —Cinco bilhões? Ha, veterano. Itens de jogo não são dinheiro virtual, são dinheiro de verdade. —Eu sei. —E quando o senhor disse que gastar 5 mil wons era desperdício? —É, mas eu tenho um dinheiro que não me custou nada. Aquele desgraçado me deu de gorjeta. Dinheiro sujo é melhor gastar assim, menos culpa. Que história era essa? Será que ele estava falando sério? De repente, veio à mente um item raro que valia o salário dele. Um item que custava o preço de um carro. Kwon Taekjoo ia comprar? Ele não acreditava, mas, vindo de Zhenya, parecia confiável.
Passar meio dia com um louco russo em troca de itens especiais. Seu nível subiria, e sua posição no jogo mudaria.
Mas valia a pena arriscar a vida? Pensando, ele balançou a cabeça.
—Ah, não sei. O veterano vai fazer o que tem que fazer, por que eu tenho que me sacrificar? —Só tenho você em quem confiar… —Pare de confiar em mim! Por favor, não confie! Não quero! Ele gritou. Sem mais argumentos, Kwon Taekjoo desistiu.
—Ha, não tem jeito. Ele deixou os ombros caírem e suspirou. Colocando a carne na chapa, parecia cansado. Yoon Jong-woo não se importou. Já estava acostumado a ser manipulado por Kwon Taekjoo. Hoje, ele só queria comer o churrasco.
O problema era a atmosfera hostil criada por Zhenya. Seu olhar não se desviava de Yoon Jong-woo. Se seu olhar fosse uma faca, ele estaria sendo dissecado.
Com medo de dar motivo, ele não pegava nenhum acompanhamento, apenas chupava os pauzinhos vazios.
—O que foi? Come, está pronto. Kwon Taekjoo cortou a carne e ofereceu. Lembrando-se, pediu um garfo ao garçom. Colocou-o na frente de Zhenya. O garfo, que parecia de criança, contrastava com o tamanho do desgraçado. Claro, até aquele garfo poderia acabar com sua vida.
Ignorando os pensamentos, ele comeu a carne. Ela derreteu na boca. O sabor era excelente.
—Come bastante. Kwon Taekjoo empilhou carne na frente de Yoon Jong-woo. Ele mesmo mal comeu. Yoon
Jong-woo se ofereceu para grelhar, mas ele recusou. Ele fez um ssam para ele, mas, com o olhar de Zhenya, colocou-o na própria boca. Seu comportamento era como o de um animal com ciúmes do dono.
Depois de grelhar por um tempo, Kwon Taekjoo se levantou. Yoon Jong-woo agarrou sua roupa.
—Onde vai? —Ao banheiro e fumar um cigarro. —Então vou também. —Não precisa me seguir ao banheiro. Come. Kwon Taekjoo o dispensou. Antes de sair, disse algo a Zhenya em russo. Zhenya acenou com a cabeça, relutante. Então, examinou Yoon Jong-woo com desprezo. Pareceu até estalar a língua.
Logo, só os dois ficaram na mesa. Sem conversa. A carne queimava, mas ele não ousava tocar. Só olhava para o banheiro, esperando Kwon Taekjoo voltar.
Mas o tempo passava e ele não aparecia. Ele mandou uma mensagem.
[Veterano?]
[Por que está demorando tanto?]
[Estou sufocando.]
[Desculpa, Jong-woo. Me faz um favor.]
[O quê?]
[Veterano?]
[Não, certo?]
[Vou voltar logo, fica de olho nele.]
[Ah, se ele sumir de repente, me liga.]
[Pense que é prevenção de terrorismo, proteção civil.]
Com essa última mensagem, ele parou de ler. Tentou ligar, mas ele não atendeu.
—Não acredito!
Ele se levantou e gritou. Todos olharam. Zhenya também o olhou estranhamente. Receber um olhar de “Você está louco?” de um louco era uma sensação estranha. Com o que ele teria convencido Zhenya para ficar?
Com os olhares, ele se sentou. Suava em bicas. A carne queimava como seu coração. O garçom perguntou se podia desligar o fogo. Ele queria pedir para o desligarem também.
O garçom foi embora, e um silêncio mortal se instalou. Zhenya, de braços cruzados, o observava. Ele olhava para a janela. Não via nada.
—A propósito, tenho uma pergunta.
Zhenya falou de repente. Ele se assustou. Ele usava um inglês fluente, com sotaque americano. Mas, com a pronúncia e entonação russas, parecia outra língua. Talvez a impressão de elegância viesse de sua aparência vistosa.
—Sim? Para mim? O que… fale.
Mesmo sendo da mesma idade, era impossível ser à vontade. Sua voz tremia. Zhenya perguntou com uma expressão de desconfiança.
—Quando o Taekjoo me chama, ele sempre usa a palavra coreana —saekki. O que significa?
A pergunta inesperada o deixou sem reação. Como responder com segurança? Ele engoliu em seco.
Lembrando do comportamento de Kwon Taekjoo, a resposta era óbvia. Quando entrou, ele era um chefe difícil. Raramente se viam, e quando acontecia, não havia conversas inúteis. Ele pensava que era calado. Engano. Quando se tornaram próximos, ele brincava e cuidava dos outros. Só no trabalho ele era diferente. Usar —saekki era um sinal de intimidade.
Mas com Zhenya, era mais xingamento do que intimidade. Eles começaram com uma má relação. Por mais que o odiassem, ele não o acharia fofo.
A resposta estava clara. O problema era que não podia dizer a verdade. O louco não se importava com o que os outros pensavam, mas não ia gostar de ser xingado.
Ele bebeu água para ganhar tempo. Como responder?
—Procurei no tradutor e diz que significa —baby. Não é isso?
Ele quase cuspiu a água. Com a explicação, tossiu por um tempo. Zhenya franziu a testa.
Melhor assim? Pelo menos não era um xingamento. Sem saber o que fazer, ele arriscou.
—Sim, é quase isso. É um apelido carinhoso entre pessoas muito próximas.
Kwon Taekjoo poderia ter problemas, mas ele precisava sobreviver. Afinal, foi ele quem o colocou nessa situação.
—Hmm… baby.
Zhenya murmurou e recostou-se. Seus lábios sorriam, como se estivesse pensando em algo.
Ele andou rapidamente. Embora tivesse deixado Zhenya com Yoon Jong-woo, não estava tranquilo. “Não tinha jeito”, ele se justificou. Se dissesse que ia ao encontro, Zhenya não ficaria quieto. Ele o impediria de ir ou atrapalharia de um jeito inesperado. Ele o seguia até zonas de operação; não havia garantia de que não apareceria no encontro.
A natureza de Yoon Jong-woo, que buscava segurança, faria com que ele se adaptasse. Mas Zhenya era imprevisível. Ele pediu a Zhenya que protegesse Yoon Jong-woo, dizendo que ele estava em perigo. Depois de convencê-lo de que só assim ele poderia trabalhar tranquilo, ele aceitou. Lembrando-se do rosto do desgraçado, sentiu um aperto na consciência. Precisava voltar o mais rápido possível.
O encontro era num bar tradicional perto da faculdade. Parece que alugaram o local inteiro. Não havia música, só o som de conversas animadas. Ao entrar, alguns colegas olharam para ele.
—Ah, quem é esse? Kwon Taekjoo? Nossa, ele veio mesmo. Faz tempo. Vários cumprimentos. Alguns vieram apertar sua mão. O ar estava cheio de álcool. Ele sorriu e perguntou como estavam. Em vez de apertar as mãos, ele deu tapinhas.
Cerca de trinta pessoas estavam presentes. Yoo Nahyun estava no fundo, conversando. Seus olhares se encontraram. Ela sorriu. Ele acenou levemente com a cabeça.
Ele foi levado a um lugar vazio. Assim que sentou, recebeu uma bebida. Bebeu de um gole e colocou o copo na mesa. O copo foi cheio novamente.
—Por que você sumiu? Achamos que você tinha morrido. Sério. Depois que você foi para as forças especiais, não tivemos mais notícias. Como ninguém sabia que seu número mudou?
As perguntas se acumulavam. Ele sorriu. Mudou de número várias vezes ao entrar no NIS. Mesmo os colegas diziam que era exagero, mas ele preferia ser meticuloso. Num mundo onde informações pessoais vazam, descuido pode revelar sua identidade.
Mais algumas bebidas e o clima esquentou. Todos queriam saber como ele estava. Eles já tinham conversado bastante.
—O que você faz? —Um pouco de tudo. —Trabalha em algum lugar? Ou tem negócio próprio? —Kwon Taekjoo, você nem se formou, ouvi? Fiquei chocado. Achava que você estaria numa grande empresa. —É, acabou assim. —Você devia ter o diploma. Nesta era de currículos. —Meu trabalho não exige currículo. Talvez militar? Depois do serviço, você ficou? —Esse cara, olha o corpo. Deve fazer trabalho físico. Eles tocavam suas coxas e braços. Esses eram os momentos mais difíceis. Sempre perguntavam o que ele fazia. Ele dava respostas vagas, e eles pediam cartões de visita. Talvez por isso suas relações se tornaram escassas.
—Você é trabalhador autônomo? Por que não responde? Sem resposta, eles concluíram que ele fazia algo embaraçoso. Quem comparece a reuniões de ex-alunos geralmente tem um trabalho socialmente reconhecido. Ou gosta de confraternizar. Ele não era desse tipo. Só Yoo Nahyun o faria ir.
—É mais ou menos. Arrisco a vida todos os dias. Ele riu, para não estragar o clima. Eles acharam que era piada e riram.
—Casou? —Não. —O que fez até agora sem família? Eu já tenho dois filhos. —É. Trabalhando muito, a idade chegou. —Você vive para trabalhar? —Parece que sim. Ele riu de novo. Os outros eram casados ou estavam prestes a se casar. Mostravam fotos de família e da noiva. Era a idade. Ao ver vidas normais, ele se lembrava de como a sua era especial. Parecia que ele estava seguindo uma trajetória diferente. Imaginar o fim não o deixava feliz.
—Mas você deve estar vendo alguém, não? As mulheres não devem deixar. —Pelo jeito que anda, dá para ver que tem namorada. —…Tenho. —Se tem, tem. Por que essa enrolação? Há quanto tempo?
—Um ano, talvez. —Já está na hora de casar. O que ela faz? —Funcionária pública. —Ah, sim. Idade? —Quatro anos mais nova. —Uau, a diferença de idade que dizem ser perfeita! É bonita? —Bem… objetivamente. —Nossa, ele está enfeitiçado! Pessoal! A namorada do Kwon Taekjoo não é apenas bonita, é —objetivamente bonita! Alguém gritou. Gritos e aplausos.
—Ei, quero ver como ela é. Tem foto? —É! A gente vê e diz se é objetivamente bonita. Todos pediam para ver. Ele jogou um ppeongtwigi (petisco) neles.
—Não tenho, seus idiotas. Alguns tentaram pegar seu telefone, mas ele os impediu. Mesmo com a pressão, ele não cedeu. Sem sucesso, eles desistiram.
Depois, a conversa mudou para a faculdade, ex-alunos, professores e atualidades. No meio das risadas, seus olhares se encontravam. Queria cumprimentá-la, mas era difícil se levantar.
Todos estavam atentos ao reencontro. Se ele fizesse algo, iriam provocá-lo. Yoo Nahyun ia se casar, e ele tinha namorada, mas isso não importava.
As notícias de Yoo Nahyun vieram dos outros.
—Yoo Nahyun foi estudar no exterior depois de se formar, fez mestrado em Massachusetts. Você conhece a empresa M, Taekjoo? Ela é pesquisadora sênior lá. —Conheceu o marido na empresa. É estrangeiro. —Ela é muito boa. Depois de casar, vai fazer doutorado. Estou curioso para ver até onde ela vai. —Que bom. —Mas vocês dois não se falam? Na faculdade, viviam juntos. A pergunta fez o silêncio. Yoo Nahyun também olhou para ele.
—Já disse. Tive que cuidar da minha vida. Ele cortou a conversa e mudou de assunto. Yoo Nahyun também voltou a conversar. Sem mais o que dizer, eles apenas observaram.
Algumas horas depois, lugares vagos apareceram. Os que ficaram estavam bêbados. O ar estava pesado. Ele saiu para tomar ar. Seus pulmões se encheram de oxigênio.
Pensou em fumar. Olhou para a loja de conveniência. A porta do bar se abriu, e alguém saiu. Yoo Nahyun. Ele a observou, e ela se aproximou. Ofereceu-lhe um cigarro. Ele pegou um.
—Faz tempo. Uns dez anos? —Sim, mais ou menos. Fumaram um cigarro em silêncio. A conversa começou depois.
—Como você está? —Corrido. —Sua mãe está bem? —Sim. —Ainda solteiro? Ela não fala nada? Ela deve querer que você case. —Só de olhar, já fala em casamento. —Então por que não casa? Ouvi dizer que está vendo alguém. Objetivamente bonita. —Você também vai me zoar? Ele se irritou, e ela riu. O riso parecia o mesmo.
—Não, pensei que, se você a apresentasse, sua mãe pararia de encher. Sua namorada se incomoda? Todos achavam que a namorada era mulher. Ele também achava, até um ano atrás.
—Não é isso. Eles já se conhecem. Quase melhores amigos. Ela vê minha mãe mais do que eu. —Então é mais estranho. Sua namorada não está pronta para um pedido? Kwon Taekjoo, você está sendo insensível? —O que eu fiz? —É surpreendente que você não saiba. —Estamos bem assim. Ela também não parece pensar em casamento. —Você perguntou? —Preciso perguntar? —Mesmo que pareça óbvio, às vezes não é. Você é um pouco indiferente? Era um conselho de amor ou uma reclamação antiga? Era absurdo.
—Casar não prova o amor. Cada um ama de um jeito. Por que casamento é a única resposta? Se gosta, é só ficar junto. —……. Yoo Nahyun ficou em silêncio. A cinza do cigarro voou.
—Que reação é essa? —Nossa. Kwon Taekjoo, falando sobre amor… Estou vendo coisas. —Não, quem falou em amor? É só uma opinião geral. —Se não ama sua namorada, por que suas orelhas estão vermelhas? —O que tem minhas orelhas?
Ele agarrou as orelhas. Estavam quentes. Por causa da bebida?
Ele pegou o maço de Yoo Nahyun. Acendeu outro. Ela riu.
—Muda de assunto. —Por quê, é divertido. —Vou entrar? —Tá bom, tá bom. Yoo Nahyun o segurou. Então, falou sobre si mesma.
—Vim para organizar minha vida na Coreia. —Você vai morar fora? —Sim. Meu futuro marido é americano. —E sua família? —Depois que me formei e fui estudar, me afastei. Voltei duas vezes. No aniversário da minha mãe e na formatura do meu irmão. Agora, penso neles como parentes distantes. Assim ninguém se magoa. minha mãe e meu irmão parecem mais confortáveis. Ela disse que viria ao casamento e ajudaria no pós-parto, mas não sei. Ele apenas acenou. Já estava decidido. Ele sempre ouvia em silêncio, sem se intrometer. Yoo Nahyun se sentia à vontade para desabafar.
Yoo Nahyun se virou para ele. Examinou-o da cabeça aos pés. Sorriu.
—Por quê. —Você ficou mais bonito, Kwon Taekjoo. Parece mais homem. Sempre tive curiosidade. Queria te ver antes de ir para os EUA, mas também tinha medo. Se meu primeiro amor tivesse virado um tiozão barrigudo? —Devia ter virado. Ele brincou sem humor. Yoo Nahyun o bateu nas costas. Disse para deixar uma boa lembrança na Coreia.
O vento soprou. Eles ficaram em silêncio. Sorrisos suaves. Quem compartilhou um momento pode se lembrar.
—Você já contou sobre mim ao seu futuro marido? Que fui rejeitado onze vezes? Ele ficou curioso. Quer que você vá ao casamento. —Que travessura. Brincadeiras de infância. —Parecia brincadeira? Eu sempre fui séria. —O que é isso? —Não é brincadeira. Fingi que era para não ficar estranho depois de tantas rejeições. Ela estalou a língua. Não sabia se ela realmente pediu onze vezes. Mas ele nunca levou a sério. Ela era amiga, rival, alguém com uma dor semelhante. Nunca a viu de outra forma.
Mas não era como se ela não tivesse atrativo. Comparada às outras mulheres, ela era assim. Por que ele não a viu?
—A última vez foi no funeral do seu irmão? Foi quando ele se alistou. Uma ligação tarde da noite. Seu coração gelou. Lembrou-se da última chamada com seu irmão. O mau pressentimento se confirmou.
Sua mãe estava fora de si. Só murmurava. Pedia um milagre.
Não funcionou. Seu irmão voltou como um cadáver gelado. Nem seu corpo estava intacto. Sua mãe desmaiou. Ele não podia fazer nada.
Colegas foram ao velório. Yoo Nahyun estava lá. Ela ficou depois de todos. Não se aproximou. Ele a viu ao amanhecer.
Yoo Nahyun lembrou:
—Eu só queria ficar ao seu lado. Sabe o que você disse? —……. Ele não lembrava. Foi há muito tempo. Ele tentou esquecer.
—Disse que só restava eu para sua mãe, então não podia. Queria que eu encontrasse alguém que me priorizasse. Que não podia ser você. Entendi. —……. —A pessoa que você está vendo agora, como ela é? Foi amada? Ela não depende de você? Você não precisa estar sempre ao lado dela? Ele não pôde responder. Não se aplicava a Zhenya. Sua situação não mudou. Por que Zhenya sim e Yoo Nahyun não?
—Se for assim, parabéns. Se não for, parabéns também. Ela riu.
—É alguém que derrubou o teimoso Kwon Taekjoo. Será? Zhenya era tão carente quanto Yoo Nahyun, talvez mais. Por isso, ele sempre queria estar perto, seguindo-o para onde quer que fosse. Ninguém mais faria isso. Com tantos segredos, viagens e pouco descanso, quem entenderia?
Ele até deixou tudo para trás e veio para a Coreia. Onde não tinha interesse, sem saber o idioma. Só para ficar ao lado de Kwon Taekjoo. Seria mais fácil prendê-lo. Mas ele não faz isso. Com medo de ser odiado. A persistência, tão inadequada, era comovente.
Seu coração se agitou. Sentiu que tinha feito algo horrível a Zhenya. De repente, sentiu saudades.
—Ei, Kwon Taekjoo! Ei… acorda. Não sei onde você mora. Ele sacudiu Kwon Taekjoo, que estava dormindo de bruços. Não houve resposta. Garrafas vazias de soju rolavam pela mesa. A maioria ele tinha bebido. Ele só ia beber um pouco, mas Kwon Taekjoo começou a exagerar. Bebia em silêncio. Devia estar preocupado.
Sobravam seis pessoas, incluindo eles. Já passava das 3 da manhã. Estavam bêbados, mas conseguiam ir para casa.
Só Kwon Taekjoo era o problema. Ninguém sabia onde ele morava. E não podiam esperar ele acordar.
Ele precisava ver sua identidade. Procurou em seus bolsos. Acabou tocando suas coxas.
—Hmm… Zhenya… Kwon Taekjoo murmurou. —Zhenya” era um apelido? Ele pegou seu telefone. Era a única coisa. Sem carteira.
Ele suspirou. Tentou desbloquear o telefone, mas tinha segurança. Não era impressão digital ou íris. Sem esperanças.
De repente, o telefone vibrou. Ele se assustou. Uma chamada de —Zhenya desgraçado.
—… Desgraçado? Não é namorada? Ele atendeu, mas a segurança apareceu. A vibração parou e recomeçou. Chamadas perdidas acumulavam.
—Ah, droga. Ele se irritou.
O telefone de Yoo Nahyun tocou. O táxi tinha chegado.
—Alô? Ah, sim. Já vou. Não havia escolha. Ele teria que arrumar um quarto.
—Pessoal, meu táxi chegou. Eu levo ele, me ajudem a colocá-lo no carro. Os colegas ajudaram. Mesmo três homens tiveram dificuldade. Ele estava mole.
—Não vai dar. Segura cada parte. Sob comando, eles seguraram seus braços e pernas. Yoo Nahyun pegou as coisas.
O taxista abriu a porta.
Nesse momento, ouviu-se um barulho distante. Um carro acelerando. O Bugatti apareceu e parou na frente do táxi.
Um estrangeiro alto saiu do Bugatti. Cabelos loiros platinados, rosto bonito. Sem expressão, ele se aproximou. Sua sombra cobriu o grupo.
—Me dá.
O homem disse algo em russo e puxou Kwon Taekjoo.
—Qu, quem é você? —Espera! Eles tentaram resistir, mas foi inútil. Quatro homens não conseguiram segurá-lo. Yoo Nahyun perdeu o telefone.
O homem carregou Kwon Taekjoo no ombro e foi para o carro. Tudo era bruto, mas ele colocou Kwon Taekjoo no banco do passageiro com cuidado. O homem contornou o carro e sentou ao volante. Sem explicação, ele foi embora.
—O que foi… —Quem é aquele? —Será que devíamos deixá-lo ir? Será que é agiota ou traficante de órgãos? —Se fosse, teria colocado no porta-malas. Não trataria assim. —É verdade… —Mas era russo? —O que ele tem a ver com o Kwon Taekjoo? Cada um fazia perguntas. O taxista também perguntou se devia chamar a polícia. Yoo Nahyun olhou para a direção do Bugatti.
—Aquele rosto… parece familiar. Um colega que trabalhava como jornalista inclinou a cabeça. Ele pesquisou no telefone. Como era russo, procurou por autoridades. Logo, ele ofegou.
—É o embaixador russo! —O quê? Todos olharam para a estrada vazia. Era como um sonho.
Seu corpo balançava. Não era uma vibração agradável. Sua cabeça doía. Gemendo, ele abriu os olhos. Viu o rosto de Zhenya. O desgraçado parecia irritado. Seus olhos estavam afiados. Sem o sorriso malicioso. Será que era um sonho?
—Zhenya… Sua voz estava rouca. Ele bebeu demais. Fechou e abriu os olhos, mas a visão não clareava.
Sede. E muito calor. Com os pulmões comprimidos, mal respirava. Como se estivesse sob uma rocha. Ele chamou Zhenya novamente. O desgraçado, sem responder, colocou suas pernas sobre os ombros. Então, inclinou o corpo e ergueu seus joelhos. Seu corpo se dobrou, quase flutuando. Apenas sua cabeça tocava a cama. O sangue subiu ao seu rosto. Ele bateu no braço de Zhenya, pedindo para descer.
—O quê… Haa… Haa… muito, fundo… ah.
Zhenya, sem se importar, enfiou o pênis lentamente até o fim. Com o peso do desgraçado, seu interior se abriu e se encheu. Seu escroto se colou às suas nádegas. Ele esfregou a área unida, tentando penetrar mais fundo. Sua respiração foi cortada.
—Espera, espe… ah, Haa, ah, ah…!
Ele cravou as unhas na mão do desgraçado. Mesmo assim, o desgraçado esfregou seu interior. Seu pênis, totalmente preenchido, mexeu-se violentamente. Com a sensação avassaladora, Kwon Taekjoo se tensionou. A entrada e a parede interna se contraíram, apertando o pênis.
Zhenya começou a puxar seu pênis. A parede interna, grudada no pênis, foi arrastada. Suas nádegas tremeram. Seu orifício estava tão dormente que ele mal sentia. Ele fechou os olhos e se contorceu. Foi inútil. O desgraçado puxou seu pênis até o fim. Então, após uma breve pausa, enfiou-o de uma só vez. A parede interna se abriu.
—Ah, Haa, Haa… ah, Haa, Haa, doi… ah, ha, Haa….
Cada vez que o desgraçado penetrava, seu interior vibrava. Sua visão escurecia, sua respiração falhava. Mas a sensação de penetração era estranhamente nítida. Era impossível não sentir.
Com as penetrações profundas, um som de ar escapava. Fluido escorria.
—Ah, Haa, Haa… ah, por que, Haa! Ha, por que de novo, Haa, os olhos… ah, Haa!
O desgraçado esfregava seu interior. Ele não entendia por quê. Como ele tinha encontrado o desgraçado? Ele estava com Yoo Nahyun, bebendo. A partir do meio, não lembrava. Será que ele voltou andando? Ou Zhenya o procurou?
Mas não havia tempo para pensar. O desgraçado inclinou o corpo, colocando todo o peso. Seu joelho se enfiou sob a cintura de Kwon Taekjoo. Seus braços envolveram suas costas, segurando seus ombros. A parte de trás de suas coxas tocou seu peito. Seu corpo estava dobrado e imobilizado. A área de união estava exposta.
—… Nhh. Uma dor intensa em sua cintura. Ele não conseguia se mexer. Parecia que ia ser esmagado. Ele rasgou os lençóis. O desgraçado penetrou sem parar.
—Ah! Ah, Haa, Haa, ah… Haa, ah…! —Taekjoo….
Ele o pressionou ainda mais, beijando seu rosto e pescoço. Chamando seu nome, ele remexia seu interior sem piedade. Seus órgãos pareciam estar sendo moídos. A parede interna, viscosa, se grudava ao pênis do desgraçado. Ele se movia para dentro e para fora, raspando. A sensação de queimação se espalhava.
Chegando ao limite, Kwon Taekjoo bateu no braço de Zhenya. Não fez efeito. Zhenya mordeu sua orelha e esfregou seu interior. Kwon Taekjoo, em agonia, bateu em seu ombro novamente.
—Haa, ha… porra, só faz o que quer… Haa, Haa. —…Taekjoo?
Percebendo algo estranho, Zhenya parou. Ele segurou a mão de Kwon Taekjoo e olhou para seu rosto. Kwon Taekjoo resmungava incoerentemente.
—Haa… se for sumir, some de vez, para de me confundir. —Não sei o que está dizendo. Quem devia estar com raiva sou eu. Você está tramando algo?
Zhenya zombou. Foi Kwon Taekjoo quem o enganou para ir ao encontro. Ele o traiu completamente. Só para ir a uma reunião.
Mas Kwon Taekjoo não demonstrou remorso. Pelo contrário, estava mais irritado. Não era só o álcool; havia sentimentos antigos. Talvez o que ele acumulou tenha explodido. Sua respiração ofegante, ele beliscou a bochecha de Zhenya. Seus olhos estavam cheios de mágoa.
—Ei, Taekjoo. Você chegou bêbado e…
—Noivado?
A palavra inesperada surgiu.
—Esquece, seu idiota.
—…O quê? É por causa disso?
—Não importa o que você diga, não vou desistir. Mesmo que você fique sozinho, não tenho escolha.
Ele não entendia o que ele queria dizer. Não havia sujeito nem objeto. Ele ficou sem palavras. E ele só desabafou por estar bêbado. Ele era direto e rápido, mas péssimo em desabafar. Achava que ele não se importava com o noivado.
A voz de Kwon Taekjoo, antes firme, se enfraqueceu.
—Você, pelo menos, não pode ficar do meu lado? Você, pelo menos….
Ele murmurou e parou. A mão que segurava a bochecha de Zhenya caiu. Kwon Taekjoo, que tinha feito um escândalo, desmaiou de novo. Um hálito quente escapou de seus lábios entreabertos.
—Imprevisível.
Zhenya resmungou. Beijou sua bochecha e seus lábios. A eletricidade estática percorreu seu corpo. Com beijos suaves, ele reiniciou os movimentos.
—Durma bem, por enquanto.
Os dois ficaram unidos o resto da noite.
Ao recuperar a consciência, ele moveu os dedos. Um suspiro pesado e um gemido baixo escaparam ao mesmo tempo. Cada pedaço do seu corpo doía, sem exceção. Sua cabeça também estava enevoada. Ele enterrou o rosto na roupa de cama e se demorou um pouco mais. Mas as vibrações contínuas insistiam em atrapalhar seu descanso.
Sem conseguir nem abrir os olhos, ele tateou a cama. Mesmo aquele movimento mínimo fazia os músculos de todo o corpo gritarem. Gemendo, procurou o celular, que continuava barulhento. Só depois de um bom tempo ele veio parar em sua mão.
Com esforço, ele ergueu as pálpebras. Depois de algumas tentativas fracassadas, conseguiu enfim desbloquear a tela. Ele achou que fosse algum alarme tocando sem parar, mas era o mensageiro da rede social explodindo. As mensagens não lidas deviam passar de trezentas. A maioria vinha do grupo dos colegas de turma.
As enviadas por Yoon Jongwoo deviam chegar a cinquenta. Só de chamadas perdidas eram mais de cem. Umas vinte eram de Yoon Jongwoo, da mãe e de Yoo Nahyun; o restante estava registrado como “aquele desgraçado do Zhenya”.
— …Que droga.
Ele começou conferindo as mensagens de Yoon Jongwoo. Ele havia reportado a situação a
intervalos de quase dez minutos desde que Kwon Taekjoo saíra do local. Os contatos se tornaram mais frequentes logo depois da meia-noite.
Sunbae, ainda vai demorar?
O senhor Egveni descobriu que o senhor mentiu ㅠ
A cara dele não está boa.
Atende o telefone ㅠㅠ
Dava para sentir a aflição de Yoon Jongwoo nas letras. Na última mensagem estava escrito: “o senhor Egveni sumiu de repente”. Foi exatamente nessa hora que o celular de Kwon Taekjoo pegou fogo.
Em seguida, ele entrou também no grupo dos colegas de turma. A primeira coisa que viu foi algo sobre um embaixador russo. Um arrepio percorreu sua espinha. Num instante sua cabeça clareou e seus olhos se arregalaram. Ele voltou ao topo e leu, uma por uma, todas as mensagens acumuladas.
Os colegas que ficaram até o fim comentavam sobre a aparição de Zhenya. Estavam tentando colocar um Kwon Taekjoo bêbado num táxi quando, bem nessa hora, um Bugatti apareceu, e o estrangeiro deslumbrante que desceu dele simplesmente o levou embora. Alguém chegou a procurar e postar o perfil oficial de Zhenya. Logo abaixo, pelo visto, travaram uma acirrada batalha entre si sobre se a profissão de Kwon Taekjoo era diplomata ou segurança. Houve até um sujeito perspicaz que questionou por que, sendo de qualquer forma uma relação profissional, ele se envolveria até nos compromissos particulares.
Só com aquilo já dava para entender a situação em linhas gerais. Ele arrancou os cabelos inocentes e lamentou. Não devia ter bebido tanto.
“É a pessoa que derrubou aquilo que o teimoso Kwon Taekjoo dizia que jamais aconteceria.”
Conversar com Yoo Nahyun havia deixado sua mente complicada. Ele não parava de pensar em Zhenya, e várias coisas que vivera recentemente lhe vinham à cabeça, embrulhando seu estômago. Fazia apenas um ano que estavam juntos, e não eram um casal que houvesse prometido a vida inteira. Além disso, Zhenya não fazia caso algum de coisas como noivado ou de encontrar outra pessoa. Ele sempre fora assim. Não era como se ele não soubesse — pelo contrário, era justamente o que ele desejava, então deveria estar contente, mas não conseguia. Um monstro, e ainda por cima carinhoso de forma indevida, que porra. Era detestável ao extremo.
— Filho da puta.
Xingando, ele se levantou. E então segurou a cintura, gemendo de dor. Não conseguia botar força na coluna, a ponto de suspeitar que uma articulação tivesse saído do lugar. Bastava se mover um pouco para tudo ranger e latejar.
Cada vez que despertava vagamente, lembrava-se de Zhenya montado em seu corpo. Mesmo quando Kwon Taekjoo desmaiava e adormecia, ele sempre terminava as coisas do jeito que bem entendia, mas ontem parecia ter passado dos limites.
Cambaleando, ele saiu do quarto. No caminho, no espelho, um rosto de cadáver ficou pendurado. O estado de seu corpo era deplorável. Seria mais rápido procurar um lugar sem marca de dentes. De tanto ser mordido e sugado, havia muitos pontos com hematomas arroxeados. Os lábios, além de rachados, estavam inchados; e a região dos olhos parecia em carne viva. Ele tocou nos mamilos, que ardiam mesmo parados, e gemeu sem querer.
— Ai…
Ele costumava morder e chupar como um cachorro, mas quando ficava emburrado, mordia como se estivesse determinado a isso. Nessas horas, não dava para saber se estavam fazendo sexo ou se acasalando como bichos.
— Aonde foi esse maldito?
Com a intenção de ao menos dar uma palmada nas costas dele, olhou em volta. Por algum motivo, a casa parecia completamente vazia. Ele abriu a porta silenciosa do banheiro e chegou até a varanda. Mas Zhenya não estava em lugar nenhum. Não era como se ele fosse trabalhar por ser dia de semana, mas hoje era, indubitavelmente, domingo. Muito menos iria à embaixada ou visitaria sua mãe deixando o próprio Kwon Taekjoo para trás. Ou teria ido sozinho a alguma loja de conveniência de novo?
Primeiro, tomou um banho. Só de receber o jato d’água, a parte interna da pele formigava. Por mais que experimentasse aquilo várias vezes, aquela sensação era a única com que não conseguia se acostumar.
Terminou o banho mais devagar que o habitual e saiu. A casa continuava fria e vazia. Pegou o celular com a intenção de ligar para Zhenya. Bem nessa hora, a vibração tocou. Mas não era uma ligação de Zhenya. Na tela apareceram as três sílabas: “Yoo Nahyun”. Se ela tivesse esbarrado em Zhenya de madrugada, teria levado um belo susto. Ele precisava verificar se não houvera nenhum dano. Tocou o botão de atender.
— Sim.
— Kwon Taekjoo, você está vivo?
— Se estivesse morto, eu responderia?
— Sua voz parece a de quem vai bater as botas. A resseca não é brincadeira, hein?
— Ligou só para conferir isso?
Nesse momento, sentiu movimento do lado de fora da porta. Esticou o pescoço e olhou para o corredor que levava à entrada. Não demorou e cruzou olhares com Zhenya, que estava entrando. Ele não disse nada em especial. Apenas encarou fixamente Kwon Taekjoo e seguiu pelo corredor em direção à cozinha. Um ar gelado, difícil de nomear, pairava no ambiente. Parecia ter ficado emburrado de novo.
— Não. É que vou sair do país de novo depois do feriado. Achei que seria difícil te ver antes disso. Vou mandar o convite, então traga sem falta aquele seu amor “objetivamente bonito”, combinado?
— Sei lá…
Ele olhou de relance para Zhenya. Enquanto guardava as compras que trouxera, ele encarava Kwon Taekjoo de volta. Havia um descontentamento evidente em seu rosto.
— Depende. Se o trabalho não estiver corrido nessa época.
— Diga que é o casamento do seu único amigo de infância e implore. Parece que você é muito querido pelo seu chefe; um pedido desses ele não atenderia?
— Que história é essa agora?
— Ora essa. Que chefe vai pessoalmente buscar um subordinado bêbado? E ainda fica ligando até tarde da noite. E num fim de semana.
— Não, isso tem toda uma explicação… Houve uma emergência na embaixada, porque eu esqueci de anexar um documento importante e não enviei…
Ele deu uma desculpa desajeitada. Nem ele mesmo sabia o que estava dizendo. Forçava a cabeça embotada a funcionar enquanto se atrapalhava. Como não lhe ocorria nenhuma saída afiada, chegou a se contorcer de agonia.
Zhenya, que observava aquele comportamento bizarro, franziu o cenho e cruzou os braços.
— Você não tem nada com esse chefe, tem?
— Ter o quê?! Ainda está bêbada?
— Não, é que, do meu ponto de vista, o olhar daquele homem não me pareceu nada normal. Se você não tem intenção, é bom tomar cuidado.
— Ei, se for para falar besteira, desligue logo.
— Que sujeito antiquado. Você pode não ter, mas não se sabe quanto ao seu chefe, então grave bem esse conselho enquanto te dou.
— Se for para falar bobagem, desligue. Boa viagem.
— Não se esqueça de vir ao meu casamento, hein?
Ela desligou depois de dizer só o que queria até o fim. O ambiente ficou silencioso num instante. Afastando o celular do ouvido, ele olhou para Zhenya. Ele já havia desviado o olhar e estava absorto em organizar as compras. Ele sempre pedia para parar de comprar lámen, mas ele trazia sem falta, toda vez.
Sentindo-se estranhamente constrangido, ficou rondando por perto. De qualquer forma, era fato que o enganara, então achava que devia dar alguma desculpa ou pedir desculpas.
—Ei, sobre ontem…
—Você me fez de idiota com que facilidade.
—Não, é que…
—Foi divertido? A ponto de me esquecer completamente?
—Eu ia só dar sinal de vida e voltar.
—Para isso, você estava caindo de bêbado. E nem atendia o telefone. Ah, ou não atendeu de propósito?
Todo enroscado, ele ironizava o quanto podia. Por causa de quem ele tinha bebido daquele jeito? Ficou bastante indignado, mas não tinha argumentos. Enganar Zhenya não fora um erro acidental.
—Eu já tinha dito que ia, não dava para voltar atrás. E fazia dez anos, eu também queria vê-los pelo menos uma vez.
—De quem você sentia tanta saudade? Daquela mulher com quem acabou de falar?
—Que imaginação é essa? Não é nada disso.
—Não é? Então por que mentiu?
—Ora, porque você ia entender mal, esquisito, como está fazendo ago…
Ele explicava ativamente, mas ele de repente balançou a cabeça. Parecia que não iria escutar. Também parecia que não havia necessidade de explicações detalhadas.
—Taekjoo. Não se engane. Você é livre puramente porque eu fiz assim. Fui eu quem te soltou, por enquanto.
Dizem que o ser humano não muda com facilidade, e ele ainda solta ameaças desse tipo. Ele fingia que era uma enorme consideração aquilo que, entre amantes, deveria ser evidente. Para ele, mesmo uma disposição tão óbvia exigia esforço, paciência e concessões que nunca existiram antes.
—Quero dizer que, mesmo que você não tente me enganar de forma ridícula, estou preparado para aceitar ao menos um pouco de manha.
A frase seguinte, de alguma forma, soou como se o estivessem persuadindo.
—Onde eu estou, quem eu encontro, o que estou fazendo. Se quiser se apegar obsessivamente e me prender, faça isso.
—…O quê?
—Seja um noivado sem sentimento, seja um casamento. Se não gostar, arme um escândalo às claras. Vou achar bonitinho.
—Que porra de besteira é essa, do nada?
—Você disse que era inconcebível. Não disse também que me mataria se eu sumisse ou desaparecesse por vontade própria?
—Eu… eu?
—Você me ameaçou de forma variada, em todo tipo de idioma.
As duas orelhas dele ficaram em brasa. O coração começou a bater rápido. Que tipo de vexame ele teria feito? Suas pupilas vagavam, perdidas. Num instante, o calor subiu até a nuca. Era um sinal de que estava raramente perturbado.
Zhenya, em tom arrastado, revelou ainda mais das atrocidades da noite anterior, perguntando se era só aquilo.
—Você passou a noite inteira chorando e se agarrando em mim, pedindo que eu olhasse para você.
—N-não me faça rir! Não pode ter sido assim.
—Não, foi você mesmo, Taekjoo.
Ele afirmou com certeza e deu um passo à frente. Ele não queria mostrar o rosto que certamente estava afogueado. O olhar de Zhenya, que descia nitidamente sobre ele, também era constrangedor demais. Quando desviou o olhar e o empurrou, ele, ao contrário, enlaçou sua cintura e o puxou. Segurou seu queixo e virou seu rosto de volta para a frente. Seus olhos se encontraram tão perto que suas barrigas quase se tocavam. Ele encarou as pupilas de Kwon Taekjoo, nas quais ele mesmo estava gravado, como se fosse lambê-las.
—Não se aflija. Eu não vou sumir. A única vez em que não estarei ao seu lado será quando você estiver morto.
Ele apertou as duas mãos que seguravam Kwon Taekjoo. “Dói”, disse ele, mas a restrição não afrouxava.
—Então, a não ser que você queira que eu te mate com as minhas próprias mãos, nem imagine uma coisa dessas.
Até uma confissão romântica ele precisava fazer de um jeito tão sombrio assim? Achou tão absurdo que acabou rindo. Talvez pensando que ele estivesse zombando, o rosto de Zhenya se tornou visivelmente descontente. Ele puxou as duas orelhas dele e lhe deu um beijo estalado. O rosto dele, antes cheio de insatisfação, se abriu de repente. Quando os lábios se chocaram repetidas vezes, até uma expressão de perplexidade encheu as pupilas cor de vinho. Sempre que era ele quem tomava a iniciativa do contato físico, ele mostrava uma reação assim, pura. Por isso, mesmo que todos o chamassem de monstro, para ele não podia ser senão uma criança celestial.
—Você…
Estava tudo bem assim? Não se sentia solitário ao lado dele? Não teria se cansado, por acaso?
No instante em que ia perguntar, um celular tocou. Não era o telefone do próprio Kwon Taekjoo. Ele apontou com o queixo para o celular de Zhenya, que não parava de tocar. Mas ele apenas
sentou Kwon Taekjoo sobre a mesa e ficou esperando, quieto e fervoroso, a próxima ofensiva de afeto. Não parecia ter a menor intenção de atender. Sem alternativa, ele mesmo conferiu o celular dele. Na tela havia um número desconhecido. Não parecia ser uma ligação nacional. Enquanto hesitava em atender, a ligação caiu.
Embora a ligação fosse para ele, Zhenya não se importava nem um pouco. Apenas dizia “Taekjoo” e colava os lábios em seu pescoço. Ele inclinou levemente a cabeça e abraçou a cabeça dele. Com os dedos longos, acariciou os cabelos macios cor de marfim e afagou languidamente até o couro cabeludo. A respiração de Zhenya se aprofundou ainda mais. Ele, que esfregava o nariz afiado no pescoço e na orelha dele, deleitando-se com seu cheiro, de repente enrolou a língua em seu pomo de adão saliente. O ponto sensível ficou quente e úmido, e logo seu humor se animou. Amassando as orelhas de Zhenya como quem as esmaga, ele, em vez de acalmá-lo, acabou por incitá-lo.
Nesse instante, a vibração tocou de novo. Ao olhar de relance, era aquele mesmo número. Fosse quem fosse, parecia ter algum assunto urgente. Quando ia apertar o botão de atender, Zhenya de repente mordeu seus lábios e se pendurou. Parecia um protesto silencioso para que não atendesse. Ele riu e inclinou a cabeça de leve. Então, tapando a boca dele, que ia se atirar de novo, ele afinal atendeu a ligação.
— Alô?
— …Hm? Quem é?
Quem perguntava, sem rodeios, quem era, era uma jovem que falava russo. Um forte déjà-vu o invadiu. A outra pessoa parecia sentir o mesmo, pois perguntou de volta, surpresa.
— Taekjoo?
Aquela voz era, sem sombra de dúvida, de Olga.
—Taekjoo! Quanto tempo.
Olga abriu a porta com um largo sorriso. Zhenya passou por ela e entrou primeiro. Olga também não deu sequer um olhar ao próprio irmão.
—Quando você chegou?
—Ontem à noite. Aquele sujeito não disse nada?
—Nem uma palavra.
—Eu sabia. Ontem à noite ele me largou aqui e foi embora sozinho, dá para acreditar? E
ignorou todas as minhas ligações.
Ela resmungou bastante. Ele não tinha o que dizer. Teve a convicção infundada de que Zhenya deixara Olga sozinha justamente para ir buscar o próprio Kwon Taekjoo. Além disso, desde aquela madrugada até o sol a pino, não houve momento algum para ouvir notícias de Olga, de tanto que transaram.
Pigarreando sem necessidade, ele mudou de assunto.
—Por que você veio de repente?
—Como assim, por quê? Ele é do meu sangue, afinal; vim ver como ele se vira sozinho, a milhares de léguas daqui.
—Ele é criança? Que falta de vergonha. Se mandaram ele para cá, não era com ele que deviam se preocupar, e sim com este país.
—É exatamente o que eu disse. Quê, soou diferente? Lá em casa estão preocupados que aquele ser humano apronte de novo e cause um atrito diplomático. Não aconteceu nada ainda, né?
Então mandaram sabendo. Era evidente que mandaram de propósito, sabendo. A essa altura, o descaramento parecia ser tradição de família.
—E, já que estou aqui, é bom também ver o Taekjoo e conhecer que tipo de lugar é esse país chamado Coreia.
De algum modo, o verdadeiro objetivo parecia estar na segunda parte.
Ele entrou na residência oficial com atraso. A primeira coisa que lhe chamou a atenção foram as malas de viagem escancaradas de qualquer jeito no chão da sala de estar. Eram três, do maior tamanho. Não dava para saber quantos dias ela pretendia ficar. Era como se mais um estorvo tivesse sido acrescentado.
—Ei, e o almoço?
—Estou esperando.
—Pediu o quê?
—Sim.
—Como?
—É só pedir, existe algum método especial?
Olga fez uma expressão de quem não entendia por que ele perguntava aquilo. Ela teria dominado em um dia aquilo que Zhenya só aprendeu a duras penas depois de um ano morando na Coreia? Ou seria, inesperadamente, fluente em coreano?
—Sente-se, por ora. Quer comer alguma fruta?
Ela farfalhou uma grande sacola de loja de conveniência e tirou frutas. Eram laranja, melão, abacaxi, uva, tudo em embalagens pequenas. Comprou demais para quem estava sozinha. Havia mais três ou quatro sacolas daquele tamanho. Uma loja de conveniência não se chama assim à toa, mas fazer compras como se fosse para vários dias era igual nos dois irmãos.
—Achei que, como a Coreia é um país quente, as frutas seriam mais gostosas, mas parece que não é bem assim?
—É porque você comprou em loja de conveniência. Diga-se o que se disser, fruta a gente tem que ver e comprar pessoalmente no mercado tradicional.
—É mesmo? Então vamos lá também.
“Também”, ela disse. A nuance era estranha. Antes que ela entendesse mal e se decepcionasse à toa, ele deixou sua posição bem clara.
—Não estou dizendo que vou junto. Não tenho tempo para brincar com você.
—Está fingindo estar ocupado? Ouvi dizer que ontem você encontrou os amigos e bebeu. E agora está aqui, à toa, desse jeito.
—Ontem e hoje é fim de semana.
—Pois é. Não vá me dizer que teme que eu roube até seu horário de trabalho? Dizem que os funcionários públicos coreanos saem às seis da tarde. E que, com o horário flexível como o do Taekjoo, dá para ajustar o tempo com flexibilidade.
Quem teria lhe ensinado uma coisa dessas? Pelo menos, não parecia ter sido Zhenya. Porque ele, o tempo todo, estava de braços cruzados, encarando a própria irmã com desagrado.
—Na verdade, eu não tinha grandes expectativas ao vir, sabia? A Coreia é um país tão pequeno. Mesmo no mapa parece um grão de feijão, e ainda por cima está partido ao meio. Mas é bem desenvolvida, hein? As condições de higiene e o serviço são bons, e as pessoas são refinadas. As ruas parecem congestionar mais que em Moscou.
—Vive dizendo grão de feijão, grão de feijão. Quem visse acharia que vocês são gigantes. É o povo de vocês que é arrogante por natureza, ou é a personalidade de vocês que é dessa laia?
—O que é pequeno é pequeno; como se deve chamar? Enfim, achei curioso não parecer um país em guerra.
—Ora, é praticamente o fim da guerra. Agora estamos num estado de tensão militar por hábito.
—Hum. Que complicado. Bastava um dos lados varrer o outro; não sei por que arrastam tanto isso.
Olga deu de ombros como se fosse algo sem importância. Mesmo parecendo normal em comparação a Zhenya, de vez em quando ela lembrava, assim, que era uma pessoa da família Bogdanov.
—Ah, as comidas também são realmente deliciosas. Assim que cheguei, comi churrasco coreano à vontade. Sempre quis visitar o palácio antigo de outro país pelo menos uma vez, e como estava em abertura noturna, fui logo ontem.
Achou que ela tinha aproveitado bem o pouco tempo. Por outro lado, ficou em dúvida sobre quem a teria acompanhado. Zhenya não poderia ter feito uma gentileza dessas. Ele ainda continuava seu protesto silencioso contra Olga.
—Aliás, tirei fotos também. Quer ver?
Olga, igualmente indiferente ao olhar de Zhenya, estendeu o celular. Só as fotos tiradas no palácio pareciam somar umas centenas. Aos olhos de Kwon Taekjoo, cenário, enquadramento e pessoa pareciam todos a mesma coisa. Claramente não eram selfies; teria ela contratado até um fotógrafo? A não ser que fosse trabalho, ele duvidava que alguém tirasse fotos dos outros com tanto empenho.
Enquanto ouvia as várias impressões de Olga, o interfone tocou. Olga disse “chegou” e se levantou num salto. Parecia ter chegado o almoço que ela dissera ter encomendado. Ele a seguiu sem desconfiar.
A porta de entrada se abriu, e quem entrou não foi outro senão Yoon Jongwoo. Ele, que cumprimentava com um sorriso bobo e frouxo, estremeceu assim que deu de cara com Kwon Taekjoo.
— S-sunbae. O senhor estava aqui?
— O que você está fazendo aqui?
— Ah, é que…
Ele revirava os olhos, procurando uma desculpa. Bem nessa hora, Olga se adiantou.
—Bem-vindo. E aquilo que pedi ontem?
—Ah, aqui. Como não sabia do que você gostaria, comprei todos os famosos por enquanto.
—Uau, que gentileza. Entre.
Ela fez Yoon Jongwoo entrar de bom grado. Ele olhava a residência com estranheza enquanto seguia Olga até a mesa. Logo, ao encontrar Zhenya sentado ali, estremeceu de antemão.
—Haha, o senhor Egveni também estava aqui…
Ele se esforçava para sorrir, mas a voz sumia.
O que Yoon Jongwoo trouxera era gimbap. Pareciam ter sido raspados todos os gimbaps famosos: os recheados com um único ingrediente, como pepino ou ovo; os grelhados com cobertura de ovo batido; os que se comem mergulhados em molho de mostarda.
— Yoon Jongwoo.
— …Sim?
— Explique. Como vocês dois se conhecem?
— A gente virou amigo. Ontem, é que… ela disse que era a primeira vez na Coreia. Então eu a acompanhei um pouco.
Só então todas as peças do quebra-cabeça se encaixaram. Que Olga tivesse comido churrasco coreano assim que chegou, que tivesse ido ver o palácio à noite, e até as centenas de fotos — tudo fez sentido. Ele se preocupara com o que aconteceria entre os dois ao deixar Zhenya aos cuidados de Yoon Jongwoo, mas parece que era preocupação à toa. Ao ver Yoon Jongwoo sorrindo sem parar para Olga, até o sentimento de culpa em relação a ele desapareceu por completo.
— Eu mandei virar amigo desse desgraçado, não da irmã dele.
Ao ouvir a provocação, ele engoliu os lábios, sem ter o que dizer. Mas, de repente, Zhenya, que estava ao lado, ergueu discretamente o queixo. Estufou o peito e, do nada, ficou orgulhoso. Não dava para entender a razão.
Ao ver aquela cena, Yoon Jongwoo ficou inquieto e observou a reação de Kwon Taekjoo. Parecia saber de alguma coisa.
— Ei.
— Sim?
— Por que você não consegue me encarar?
— E-eu, quando?
— A-agora, é o que está fazendo.
— Ah, pare de me zoar!
— Você sabe por que esse desgraçado está assim, não sabe?
— N-não sei!
— Sabe, sim.
— Não sei, eu disse!
— Você sabe.
— …Ai, francamente. O senhor Egveni está tão contente; deixe assim, por favor.
— Preciso saber o que é para deixar assim. Fica incômod…
—Uau! Isso aqui é realmente delicioso. Vocês dois também provem.
Enquanto ele insistia demoradamente, Olga o fez comer gimbap sem aviso. Era generosa também na mão; não dava para saber quantos pedaços ela enfiava de uma vez. Mastigando a duras penas a comida na boca, ele encarava Yoon Jongwoo fixamente. Yoon Jongwoo apenas baixava os olhos e mexia as bochechas. Mesmo intimidado sob aquele olhar cortante, ele assentia com empenho para Olga, que perguntava se estava gostoso. O rosto, mais do que sorrir bobamente, tinha os próprios músculos completamente relaxados. Enfim.
Quanto tempo teria passado? O celular, até então silencioso, tocou. Era uma ligação da mãe. Ele tocou o botão de atender imediatamente.
— Sim, mãe. Estou indo agora. Precisa comprar alguma coisa?
Ela disse que ia começar a preparar o jantar e perguntou se havia algo que ele quisesse comer. Como a ressaca ainda não passara, ele desejava um caldo refrescante. Enquanto pensava num prato apropriado, Yoon Jongwoo se intrometeu de repente.
— Mãe, como vai? Sou eu, o Jongwoo.
— Ah, é o Jongwoo? Você está com o Jongwoo?
— …Estou, mais ou menos.
Ele empurrou Yoon Jongwoo, que grudava no celular. Só nessas horas ele era sociável e incomodava. Sua mãe ficou muitíssimo contente ao ouvir a voz dele depois de tanto tempo.
— Não seja assim, traga o Jongwoo junto. Faz tempo que não lhe faço uma refeição.
— Ah, é fim de semana. Ele também vai querer descansar; quem ia querer ir à casa do chefe?
— Não é nada disso, mãe! Hoje estou livre!
Ele levantava a voz, sem saber a hora de sair de cena. Nem arregalar os olhos em advertência silenciosa adiantava. Até sua mãe tomou o partido de Yoon Jongwoo.
— Ele mesmo disse. Traga sem falta, viu? Vou fazer o galbijjim de que o Jongwoo gosta.
— Muito obrigado, mãe. Nos vemos daqui a pouco!
— Isso, até logo. Ah, se der tempo, traga o senhor embaixador também. Falei com ele por telefone hoje de tarde, mas não sei se ele entendeu direito.
Ah. Um suspiro escapou do fundo de seu peito. Quando ela teria falado com Zhenya de novo? Teria sido quando ele estava desmaiado na cama dele? E ele não teria dito alguma obscenidade impronunciável? Ele olhou fixamente para Zhenya. Ele fez uma expressão inocente, como se perguntasse por que estava sendo olhado assim. Não conseguia entender por que os dois se empenhavam tanto em ligações nas quais nem se entendiam.
Suspirando, ele disse que estava bem.
—Quem era ao telefone?
Assim que ele terminou a ligação, Olga lembrou-o de sua existência. —Quem é, para sua voz mudar tanto assim?, demonstrando uma curiosidade vigorosa.
Ah, ela também estava aqui. E o que fazer com ela?
Ele encarou Zhenya de novo. Ele parecia não ter pensamento algum. Aquele que largara a própria irmã numa residência oficial onde nem ele mesmo estivera muitas vezes não parecia disposto a cuidar dela hoje. Se dependesse só de sua vontade, gostaria de largar todos e ir sozinho. Mas já dissera que a levaria, e sua mãe prepararia a comida conforme o número de pessoas, então não podia. Também não era o caso de deixar sozinha, por mero incômodo, uma pessoa vinda de longe — ainda por cima com uma doença crônica.
Ficou subitamente exausto. Suspirou fundo, a ponto de o chão afundar.
De repente, uma sacola de compras voou em sua direção. Ele a agarrou sem pensar. Se não tivesse, ela teria batido em seu corpo. Já nem sabia quantas eram. Cansado a ponto de estar enjoado, ele tentou dissuadir Olga.
—Ei, vamos logo.
—Ora essa, fui convidada; como posso ir de mãos abanando? Uma pessoa tem que ter decência.
—Você não foi convidada; está se enfiando por acaso.
—Aquele é bonito. Mostre-me aquele também.
Quando ele acertou o ponto central, ela o ignorou abertamente e se concentrou só nas compras. Ele entendeu por que Zhenya disse que, se era para levar “aquilo”, ele iria na frente.
Só para decidir a roupa e os acessórios levou duas horas. Por causa do cabelo e da maquiagem, esperou mais uma hora e meia no salão. Ela agia como se fosse a uma festa, e não comer uma refeição de graça.
Quantas lojas de luxo teriam percorrido? Yoon Jongwoo, que se oferecera como carregador, entregou seus dez dedos logo cedo. Como, se deixado por conta, ela seria capaz de carregar até com a boca, ele foi pegando um por um, mas suas mãos também não tinham mais folga.
—Pare de comprar e vamos, por favor. Não tem nem onde colocar tudo isso.
—Hmm. Faltam tantas marcas. E o estoque todo já foi embora.
Sem escutar o que os outros dizem, ela só solta lamentos absurdos. Malditos aristocratas. Tomado de irritação, ele resmungou sozinho. Yoon Jongwoo, ao lado, riu e disse que soava como elogio e xingamento ao mesmo tempo. Esse desgraçado não tem amor-próprio.
—Hum, como não sei qual é o tom de pele dela, me dê este, este e aquele também.
Por fim, Olga quis comprar todos os lenços, que diferiam apenas na cor. Não podendo mais assistir àquilo, ele arrancou o cartão que ela estendia.
— Não. Esse não. Obrigado por nos mostrar os produtos.
—Não, por quê… A gente ainda nem viu os sapatos.
Olga olhou para trás, com pesar, para os lenços que não conseguira comprar. Se ela pretendia comprar até sapatos, quase não jantariam. Ele rejeitou o pedido de ao menos deixá-la presentear um vinho e seguiu para casa.
Ao chegar ao estacionamento subterrâneo, viu o Bugatti de Zhenya, que chegara antes. Hoje também, sem falta, ocupava três vagas. Olga, que reconheceu o carro do irmão, estalou a língua ferozmente.
—Estacionou de forma nojenta. Precisam instalar umas serras elétricas nas faixas do estacionamento. Para cortar na hora o que passar da linha. Só assim ele não estacionaria desse jeito.
E assim ela provava, mais uma vez, ser uma pessoa da família Bogdanov. Foi bom que Yoon Jongwoo não soubesse russo.
Com tanta bagagem, mal couberam no elevador. Ele destravou a fechadura com o dedo mínimo e, com esforço, abriu a porta de entrada. Olga soltou uma exclamação.
—Esta é a casa do Taekjoo? Eu até imaginava que seria assim, mas é realmente aconchegante.
Aquela casa “aconchegante” tinha nada menos que 158 metros quadrados.
—Deve ser a casa de vocês que é desnecessariamente grande.
Enquanto ele resmungava, sua mãe abriu a porta interna e veio ver. Ela devia estar cozinhando, pois usava um avental com rendas. Parecia novo. O vestido de casa que usava por baixo também era algo que ele nunca vira. Se ele tivesse trazido apenas Yoon Jongwoo, ela não teria se arrumado tanto.
Olga se adiantou com tato e entregou à mãe o buquê de flores que comprara primeiro. Era tão gigantesco que ela quase desaparecia enterrada nas flores.
—Como vai? É um prazer conhecê-la. Obrigada pelo convite.
— Seja bem-vinda. Ai, só de ter vindo eu já agradeço; para que isso tudo? Taekjoo, esta é a irmã do senhor embaixador, não é? É bela como uma fada.
Sua mãe se alegrou com os olhos brilhando. A Zhenya ela chamou de anjo, e a Olga, de fada. Será que pensaria assim mesmo sabendo em que família aqueles dois nasceram e cresceram?
Yoon Jongwoo, quase esmagado pela bagagem, enfiou a cabeça de leve.
— Mãe, eu também cheguei.
— Ai, meu Jongwoo, entre também. Quanto tempo, hein? Por que ficou tão difícil ver seu rosto? Se quiser comer, venha quando quiser. Seu rosto está pela metade.
— Eu sempre quis vir. Se um certo alguém não me olhasse feio…
Ele murmurou as últimas palavras tão baixinho que quase não se ouviam. Nem isso ele conseguiu terminar, sob o olhar fixo de Kwon Taekjoo.
— Entrem. O senhor embaixador esperou um bom tempo.
Ele foi até a sala seguindo a mãe, que parecia animada. Zhenya, como de costume, estava sentado à mesa saboreando os quitutes. Ela devia estar ocupada com a comida, mas mesmo assim descascara pera com esmero para alimentá-lo. Às vezes parecia que ela o considerava mais precioso que o próprio filho. Nem com um genro adorável ela seria assim.
—Chegou bem cedo, hein.
Zhenya reclamou enquanto mastigava a pera doce. Ao ver aquela cara impassível, ele rangeu os dentes sem querer.
—Se você sabia que ela era assim, devia tê-la impedido na hora, desgraçado.
—Eu impedi.
—Devia ter impedido com mais empenho, desesperadamente.
—Você está zangado de forma estranha de novo.
Perplexo, ele espetou a pera. Ele segurou a mão dele e roubou a pera, comendo-a de uma vez. Como estava cortada exatamente no tamanho de uma mordida, era fácil de mastigar. A polpa se esfarelava crocante e umedecia sua boca refrescantemente. A energia perdida na longa espera e nas compras parecia jorrar de novo. Quando ele disse “está gostoso”, ele calmamente
espetou a pera restante e a serviu diante de sua boca. Mais do que uma demonstração de afeto, parecia estar apreciando uma brincadeira interessante e curiosa. Que importava? Bastava ser fofo.
Enquanto desfrutava daquela atmosfera macia como havia tempos não fazia, recebendo o que ele lhe dava, sua mãe, ao passar, bateu em suas costas.
— Esse menino, vive roubando a comida do senhor embaixador.
— Não, ele está me dando…
— Em vez de ficar aí em pé, ajude pelo menos a pôr a mesa.
— …Eu ia fazer isso.
Ele se sentiu injustiçado, mas era fato que roubara a comida. Ele pretendia pôr a mesa logo, mas, tendo levado a bronca antes, era apenas uma desculpa esfarrapada.
Junto com Yoon Jongwoo, ele pôs os talheres, serviu o arroz e carregou diligentemente os pratos que a mãe separava. Ele repetira várias vezes que comeriam algo simples, mas a mesa logo ficou cheia.
Nesse meio-tempo, Olga passeou pela casa por conta própria. Quando encontrou um Kwon Taekjoo criança dentro dos porta-retratos que a mãe expunha, ela gargalhou abertamente. Nem hesitou em apontar o dedo. Mesmo vendo aquilo, sua mãe só a elogiou, dizendo que ela parecia ter uma personalidade alegre.
Servida toda a comida preparada, sentaram-se de frente uns para os outros à mesa de seis lugares. Na indução portátil fervia o yeonpotang. Sempre que comia com Zhenya, sua mãe punha à mesa um caldo claro com peixe ou frutos do mar. Era porque Zhenya gostava de “ukha”, uma sopa de peixe russa.
— Vamos, não preparei grande coisa, mas comam bastante.
— Uau. Quando foi que preparou tudo isso, mãe? Achei que hoje fosse Chuseok.
Yoon Jongwoo fez graça. Olga estava ocupada, de olhos arregalados, admirando os pratos multicoloridos. E não era à toa: não havia nada feito às pressas. Os jeon estavam decorados com pimenta e coroa-de-rei, e o prato de peixe tinha fatias de omelete coloridas por cima. Até as castanhas, o nabo e a cenoura do galbijjim tinham sido moldados em formatos redondinhos. Por mais que olhasse, achou que trouxera aqueles três estorvos à toa.
Ele disse “bom apetite” e ia dar a primeira colherada. De repente, sua mãe se levantou. Parecia
ter esquecido algo. Ao voltar logo em seguida, colocou um garfo diante de Zhenya. Em casa só havia garfos de fruta. Além de não apreciarem comida ocidental, Kwon Taekjoo e o irmão usavam hashi desde pequenos. O garfo parecia totalmente novo. Ela devia tê-lo comprado especialmente pensando em Zhenya. Zhenya sorriu sem fazer barulho. Sua mãe também riu, satisfeita.
Yoon Jongwoo e Olga observaram a cena com estranheza. Se nem o próprio Kwon Taekjoo se acostumava com aquele espetáculo, imagine os dois.
Sua mãe, que ia oferecer galbijjim a Olga, soltou um “ah, é mesmo”.
— Onde eu estava com a cabeça. A irmã dele também deve ser desajeitada com os hashi, e eu não pensei nisso. O que faço?
Ela se atrapalhava como se tivesse cometido um grande erro. Olga percebeu a situação com tato e afastou a preocupação da mãe.
—Ah, dá para fazer assim também.
Como quem exibe, ela espetou um pedaço de costela com os dois hashi. Mas não conseguiu levá-lo até seu prato. A carne gordurosa escorregava pelos hashi e caía de volta no prato, ou caía sobre a mesa e rolava para qualquer lado. Cada vez que isso acontecia, Yoon Jongwoo e a mãe soltavam um “eita” e lamentavam. Zhenya, em contrapartida, apenas ria do desafio acirrado e do fracasso da própria irmã. Ele deu um tapinha no braço dele.
—Ei, dê esse garfo a ela.
—Por que eu?
—Assim ela vai conseguir comer direito?
—Isso também não é da minha conta.
—Se deixarmos assim, minha mãe vai sair para comprar um garfo agora mesmo. Não vamos criar incômodo para ninguém.
Dizendo “está bem”, ele pegou um dongeurangttaeng e o colocou sobre o arroz de Zhenya. Disse também: “para você, basta eu dar assim”. Fez aquilo sem pensar muito, mas um silêncio curioso se instalou. Ao levantar a cabeça, todos já estavam encarando o próprio Kwon Taekjoo. Zhenya também apenas olhava fixamente o dongeurangttaeng sobre seu arroz, como se tivesse sofrido algo estranho.
—…O que foi? Que é?
—Nada. Então eu uso este.
Olga deixou escapar um sorriso curioso e pegou o garfo depressa. Sua mãe também disse, com o rosto satisfeito, para começarem a comer.
Nos intervalos da refeição, ele escolhia e colocava apenas os acompanhamentos que Zhenya podia comer. Ele, que sempre falava disso e daquilo, estava estranhamente quieto. Até o refogado de anchovas com gochujang, que ele lhe deu pensando que aquilo talvez estivesse bom, ele levou à boca em silêncio. Seu rosto ficou vermelho num instante e ele bebeu água, mas não implicou, como de costume, perguntando se ele fizera aquilo de propósito.
Olga comia bem, aos pouquinhos, as comidas exóticas. Ao contrário de Zhenya, ela também sabia apreciar o picante. Yoon Jongwoo explicava, nos intervalos, os ingredientes principais, o sabor geral e os componentes nutricionais dos pratos. Sobre a mesa, coreano, russo e inglês se misturavam naturalmente.
—Eh!
Olga, que descobriu algo durante a refeição, apontou o dedo abertamente para aquilo. Era kimchi. Aos outros, que ficaram curiosos sobre a razão, ela contou que, ao ver kimchi pela primeira vez, achou que estivesse estragado e quis jogar fora. As risadas irromperam e a reunião ficou ainda mais rica. As línguas que os conectavam eram diferentes, mas não havia dificuldade em compartilhar aquele momento.
Sua mãe, sem parar de dividir e oferecer comida, observava as quatro pessoas com satisfação.
— Não sei há quanto tempo não havia essa animação por aqui.
— Se a senhora me chamar, eu venho todo dia, mãe.
Yoon Jongwoo se insinuava enquanto se servia de mais arroz. Sua mãe se alegrou, dizendo que ele podia vir à vontade, e serviu novamente sua sopa.
— Então eu venho mesmo, sem cerimônia, hein?
Yoon Jongwoo, que respondia de bom humor, de repente estremeceu. Deixando de lado Kwon Taekjoo, que o encarava continuamente com censura, até Zhenya o fitava friamente. Teria ele cometido alguma gafe? E, mesmo que sim, não havia como Zhenya, que não sabia coreano, ter entendido.
Depois de colocar a tigela de sopa diante de Yoon Jongwoo, a mãe perguntou a Zhenya se queria mais. O olhar afiado dele se desfez como por mentira. Yoon Jongwoo ficou estupefato.
— Não é da boca para fora, então venha sempre. Também é solitário comer sozinho, e você é bem-vindo a qualquer hora. Pode vir sem o Taekjoo saber, também. Certo?
— Sim, mãe.
— O senhor embaixador também. De agora em diante, e mesmo depois que seu mandato terminar, apareça de vez em quando.
Sua mãe expressou uma saudade precoce e pediu repetidamente. A mão de Kwon Taekjoo, concentrado na refeição, hesitou.
Em geral, o mandato de um embaixador é de cerca de dois anos. Pelo padrão, restava um pouco menos de um ano. Mas ele nunca havia pensado no que aconteceria depois. Depois que passasse mais um ano a partir de agora, Zhenya continuaria aqui, ao lado do próprio Kwon Taekjoo, como agora? Ele também não iria querer, às vezes, voltar ao lugar de onde originalmente veio?
—Não se aflija. Eu não vou sumir. A única vez em que não estarei ao seu lado será quando você estiver morto.
Não havia como dar uma certeza maior que aquela, e mesmo assim, estranhamente, ele não se tranquilizava. Sem necessidade, seus pensamentos se multiplicaram de novo.
Os hóspedes indesejados só se levantaram depois de tomarem até o chá do pós-jantar. A essa altura, o relógio se aproximava da meia-noite. Sua mãe, que normalmente já teria ido dormir cedo, saiu até o lado de fora da porta para despedir-se de todos.
— Vão com cuidado e voltem sempre. Jongwoo, cuidado ao dirigir à noite.
— Sim, mãe. Comi bem e me diverti muito.
Já haviam dito lá dentro “fique bem” e “vá bem”, e ainda assim trocaram mais uma vez cumprimentos ruidosos. Olga segurou as mãos da mãe e soltou o comentário inquietante de que se veriam de novo em breve. Ele afastou a moça de sua mãe e a empurrou para dentro do elevador. Sua mãe insinuou, empurrando-o pelas costas, que os acompanhasse até o estacionamento. Não eram crianças; ele achou aquilo extremamente incômodo, mas, sem alternativa, embarcou no elevador.
Olga e Yoon Jongwoo estavam ocupados conversando entre si. Na maior parte, Yoon Jongwoo explicava o que Olga tinha curiosidade em saber. Pelo que ouviu de relance, falavam sobre o painel eletrônico instalado no elevador.
Ele fixou os dois olhos no painel. Sentia um olhar fixo às suas costas, mas era constrangedor reagir de qualquer forma. Diante de Yoon Jongwoo, obviamente, e mesmo diante de Olga, que sabia de tudo, ele hesitava em demonstrar sua relação com Zhenya. A distância entre eles não chegava a um palmo. Aquela situação, em que seus corpos quase se tocavam, o deixava consciente e, por isso, sem jeito. O tempo até chegarem ao estacionamento pareceu longo como nunca.
Ao descer do elevador, viu primeiro o carro de Yoon Jongwoo. Yoon Jongwoo, o individualista número um do mundo, que fugia primeiro mesmo quando comparecia por acaso a alguma confraternização, não ia embora e ficava se enrolando.
—Foi divertido hoje. Graças à senhorita Olga, ganhei até um jantar delicioso.
— Que história é essa? Ela veio por sua causa.
Achando aquele comportamento bajulador irritante, ele estragou o clima. Yoon Jongwoo rebateu com todas as forças.
— Foi a senhorita Olga quem disse primeiro que queria provar gimbap, viu? Se não fosse assim, eu nem teria ido à residência, e não teria recebido o convite da senhora.
— Está se esforçando à toa. Se é assim, agradeça a mim. Se minha mãe não tivesse me parido, você teria trocado uma palavra sequer com ela?
— O senhor está falando sério?
— É você que devia parar com isso e sumir daqui.
Ele fez menção de dar um chute em seu traseiro. Yoon Jongwoo, mesmo recuando a contragosto para o banco do motorista, cumprimentou Olga com toda a reverência.
—Senhorita Olga, volte bem para casa.
Olga acenou com um sorriso radiante. Fisgado por aquilo, ele demorou um bom tempo só para encontrar a maçaneta da porta. Se Yoon Jongwoo tivesse nascido na era Joseon, será que não teria tido o fígado arrancado, fosse pela tartaruga do conto ou pela raposa de nove caudas?
—Então até amanha, Taekjoo.
Enquanto ele estalava a língua olhando para o desagradável hoobae, Olga se despediu de repente. Ela agiu com tanto descaramento que, por um instante, ele achou ter ouvido errado.
—Ei, por que amanha? Não vou te ver. Eu trabalho, já disse.
Ele negou a plenos pulmões, mas ela nem fingiu ouvir e embarcou no Bugatti. Que genes eles teriam para serem todos igualmente arrogantes? O sangue era, de fato, denso e assustador.
Ele se virou bruscamente para Zhenya. No entanto, ele também estava encarando o próprio Bugatti. Parecia que não era só o próprio Kwon Taekjoo que estava descontente com a situação de hoje.
—Não se preocupe, Taekjoo. Eu mando aquilo de volta ainda hoje à noite.
Ele demonstrava uma hostilidade explícita em relação à própria irmã. Como não parecia mesmo ser da boca para fora, ele acabou por dissuadi-lo.
—Agora é tarde para isso… Além do mais, ela disse que veio preocupada com você.
—Quem?
—…Não me diga que ela veio só a passeio.
Mesmo defendendo Olga, ele próprio não tinha certeza. Zhenya soltou um riso baixo de escárnio. Ele apontou o Bugatti com o queixo, mandando-o entrar.
—Vá.
—Vá?
Ele repetiu as palavras alheias tal e qual, perguntando de volta. Sua pronúncia teria soado estranha? Parecendo zombaria, ele franziu o cenho de antemão.
—O que foi.
—É que fiquei pensando se as pessoas costumam dizer “vá” desse jeito.
O que ele teria feito de errado? Por causa daquele modo de falar peculiar dele, que desviava do ponto central, sua perplexidade apenas dobrou.
—Vá logo. Estou cansado.
Ele o apressou em tom irritado. Ainda assim, ele ficou um bom tempo encarando fixamente Kwon Taekjoo e, de repente, estendeu a mão. Ele desviou a cabeça daquele que tentava segurar seu queixo. Também afastou de leve o braço dele.
—…Estão vendo.
—Que exigente.
Ele reclamou, sem falta. Por fim, disse “vou indo” e virou-se primeiro. Só quando ele chegava perto do elevador, o Bugatti finalmente deu partida. Em seguida, os dois carros deixaram lado a lado o estacionamento subterrâneo. Ele esperou até que aquelas luzes desaparecessem por completo e então entrou no elevador.
Em casa, sua mãe estava arrumando a cozinha. Mesmo tendo lavado a louça antes, havia muito o que fazer, a começar pela organização dos pratos. Ele a mandou descansar, empurrando-a à força para dentro, e terminou a arrumação em seu lugar.
Quando tomou um banho rápido e voltou para o quarto, já passava da meia-noite. Sem cerimônia, jogou o corpo sobre a cama. Enquanto se movia não percebera, mas só então uma fadiga viscosa o assaltou. Parecia ter havido tantos acontecimentos durante o fim de semana que era vergonhoso ter sentido tédio até pouco tempo. Ainda que isso se devesse à folga de que desfrutava depois de muito tempo.
O que restava de pesar era não ter conseguido, afinal, passar um tempo decente com Zhenya. Sentiu até uma estranha ansiedade, temendo que uma emergência o arrastasse de novo. Ele teria chegado bem em casa? Que tal ligar para ele? Foi no instante em que, pensando nisso, pegava o celular. De súbito, a vibração tocou.
Abra a porta.
Era uma mensagem enviada por Zhenya. Por via das dúvidas, ele conferiu o horário de envio, mas era mesmo de agora há pouco.
— …Que é isso.
Meio incrédulo, ele se levantou. No apartamento, o que se podia chamar de porta era apenas a porta de entrada. Sem abandonar a desconfiança até o fim, ele tentou ligar para ele enquanto caminhava devagar até lá. Sem falta, ouviu-se uma vibração tênue do lado de fora da porta. Atordoado, ele destravou a fechadura e abriu a porta. Pela fresta que se abria, viu Zhenya de pé, imponente. Baixando a voz para não acordar a mãe, ele perguntou:
—O que houve? Esqueceu alguma coisa?
—Eu já não disse para não olhar para mim como um cachorro abandonado?
Zhenya, que soltava palavras sem sentido, de repente estendeu as duas mãos e segurou o rosto de Kwon Taekjoo. E então empurrou-o para dentro e o beijou. A sensação fria dos lábios chegou primeiro, e em seguida um hálito morno se infiltrou. Batendo nele de leve, ele sussurrou
baixinho:
—Primeiro vá para o meu quarto.
Ele segurou o braço de Zhenya e passou pelo corredor escuro e pela sala. Nem por um instante respirou sem cuidado. A distância até seu quarto pareceu infinitamente longa. Achou que nem nas operações de infiltração seu coração ficara tão apertado assim.
Só depois de fechar a porta do quarto silenciosamente é que respirou. Ele repreendeu Zhenya, que até então se deixara segurar quietinho.
—Você me assustou, desgraçado. Por que faz uma coisa dessas do nada?
—Taekjoo, porque você disse para eu não ir.
—Quando eu disse isso?
—Se você diz “vá” com uma cara tão sofrida assim, deixando escorrer o apego, isso significa “vá”?
—Não fiz isso.
—É sempre assim.
Ele zombou em tom cortante. Não sabia o que o próprio Kwon Taekjoo tinha feito. Ele é que vivia culpando os outros, atribuindo as razões a eles.
Ele de repente girou o braço que estava sendo segurado e pegou a mão de Kwon Taekjoo. Então a puxou para perto de seus lábios e provocou, de leve, os ossos salientes do dorso de sua mão, fazendo cócegas.
—Você estava com cara de quem não conseguiria dormir sozinho. Como dever de namorado, não devo dar-lhe ao menos um leite morno para fazê-lo dormir?
—O quê? Nã…
Os lábios se uniram de novo, engolindo o resto de suas palavras. Uma língua quente e macia se misturou rudemente à língua enrijecida pela tensão. Ele a pressionava como se fosse tapar sua garganta e, logo em seguida, a sugava com tanta força que a raiz da língua doía. Mesmo que ele torcesse a cabeça para escapar, ele o seguia num instante e o beijava.
Quando recobrou a consciência, estava caído sobre a cama. A cama, perfeita para uma pessoa dormir sozinha, era estreita ao extremo. De tanto se debater, bateu o cotovelo repetidamente
na parede e na cabeceira. Ainda assim, o beijo obstinado não dava sinal de parar. Ele resistiu ferozmente e, em certo momento, relaxou a força. Continuar recusando só estimularia um desejo inútil de conquista. Era mais acertado acompanha-lo moderadamente e acalmá-lo.
Acariciando suavemente com o polegar o dorso da mão de Zhenya, que segurava seu rosto, ele misturou a língua docemente. Ele, que até então só o pressionava pela força, foi ficando um pouco mais dócil. Naturalmente, ele virou o corpo. E então, com um pouco mais de folga, lambeu a língua de Zhenya. Enquanto tomava suavemente o lábio superior dele, puxando-o, também deslizou lentamente a mão pelo tronco robusto. Então ele começou a soltar um hálito doce e agradável.
Ele sugou o lábio inferior de Zhenya, a ponto de fazer barulho, e o soltou. Em seguida, foi descendo os lábios ponto a ponto ao longo do queixo afiado. Quando beijou a parte interna de seu pescoço, o corpo dele ondulou de leve. Mordiscando continuamente seu pescoço, ele foi levantando aos poucos a barra da camisa. Subiu, deslizando pegajosamente no sentido inverso, pelo abdômen e o peito bem definidos. Zhenya ergueu a cabeça para ajudar a tirar a própria roupa. Bagunçando os cabelos dele, raramente desalinhados por terem ficado presos na gola, ele tomou e soltou repetidamente sua orelha quente. Ele respirou languidamente e agarrou com força as duas mãos cheias das nádegas de Kwon Taekjoo.
Ele segurou aquelas mãos e as afastou discretamente. Em seguida, foi descendo os lábios ao longo dos lábios, do queixo, do pomo de adão, do vão do peito e do abdômen. Quando beijava abaixo do umbigo, o sexo dele já estava discretamente pressionado sob seu queixo. Ele esfregou abertamente com a ponta do nariz aquele pedaço de carne que se contorcia de expectativa. Os cantos da boca de Zhenya se curvaram para cima.
—Que ocasião é essa para você fazer algo tão admirável?
—Você disse que ia me dar leite morno.
Como quem o fuzila com os olhos, ele abriu o zíper da calça e tirou o sexo grosso. O pedaço de carne, que enrijecera fielmente durante o beijo, saltou e bateu em sua bochecha. Ele franziu o cenho de antemão com aquela sensação de peso. Ao ver aquele rosto sorridente, era evidente que ele fizera de propósito.
—Vou só comer. Enfiar não pode.
Ele advertiu claramente e, abrindo a boca, engoliu de uma vez desde a base. Só com isso, o membro inteiro pulsou como um peixe vivo. Apertando de leve a lateral do sexo com os lábios, ele foi subindo lentamente até a glande. No caminho, estimulava com a ponta da língua as partes salientes, como veias e tendões. A respiração de Zhenya ficou visivelmente mais áspera. Seu abdômen também ondulava de forma grande e perceptível. Cobrindo com a língua a uretra que, ruborizada, se abria e fechava sem parar, ele tomou o mastro com a boca inteira.
Diante do prazer intenso, a cabeça de Zhenya se inclinou levemente para trás. Seu queixo também se afiou discretamente.
Sua boca ficou completamente cheia, sem folga alguma. Ele engoliu o sexo dele até que sua garganta fosse pressionada e depois o cuspiu lentamente. Quando só restava a glande, ele a sugou de propósito, com estalos. Também cutucou de leve a uretra com a ponta da língua. Sua língua ficou escorregadia num instante, e um gosto metálico se espalhou. Sem se importar, ele tomou de novo o sexo dele. Segurou-o de modo que uma das bochechas se avolumasse e moveu a cabeça lentamente. O pedaço de carne sensibilizado era esfregado entre os dentes duros e a mucosa macia, sendo estimulado de maneiras variadas. Em pouco tempo, o sexo dele ficou lustroso como se estivesse coberto de xarope. Ao olhar de relance, as bochechas dele também estavam ruborizadas como pêssegos.
Zhenya estendeu a mão e acariciou os cabelos densos de Kwon Taekjoo. Desceu assim e amassou de leve até as orelhas. Um arrepio fino subiu por sua pele. Quando ele, tomado de um prazer intenso, apertava com força o lóbulo de sua orelha, até a penugem atrás dela se arrepiava.
—Haa, Taekjoo. Nada mal…
Ele, que ia dizer algo lambendo os próprios lábios, de repente cerrou os molares. Junto, um gemido suave se misturou à sua respiração excitada. A pele branquíssima se tingia lindamente.
Guardando nos olhos cada uma das mudanças dele, ele também começou a esfregar seu próprio sexo. Apenas ver aquele homem gemendo suavemente já era estímulo suficiente. Seu sexo formigou num instante.
Ele passara todo aquele tempo apenas cutucando até a metade do membro enorme, mas de repente o empurrou fundo até o fundo da garganta. O sexo dele estremecia, deleitando-se com o aperto úmido da garganta. Por causa disso, ele engasgou e explodiu em tosses secas várias vezes. Sempre que sua garganta era forçada para trás, a náusea também subia. Ainda assim, aguentando firme, ele baixou a cabeça profundamente e sugou o sexo inteiro. Cada vez que o pedaço de carne bloqueava sua respiração, seu baixo-ventre latejava.
—Nnh…
Diante da sucção profunda e ágil, a cabeça de Zhenya se inclinou aos poucos para trás. Sua parte inferior também se movia com ímpeto, colando-se a seu queixo. Ele tentou pressionar as coxas trêmulas dele, mas foi inútil. Assim que cuspia metade do sexo, ele o empurrava para cima e era de novo completamente envolvido pela mucosa. Ele revirava abertamente sua boca a ponto de os dedos que o pressionavam serem dobrados para trás. A saliva fervia nas duas bochechas. Parte dela descia pela garganta junto com o sexo dele, e outra parte escorria copiosamente acompanhando o sexo que era retirado. Aos poucos, seu queixo começou a
doer.
Quando os movimentos de Kwon Taekjoo se tornaram lentos, Zhenya de repente segurou sua cabeça. E então empurrou sua parte inferior para cima, rápido, “vuf, vuf”. Esfregando o sexo no céu da boca áspero, ele o assaltou sem descanso. Diante da penetração impiedosa, ele abriu bem a boca e agarrou as coxas dele. O sexo dele, que ia e vinha para além da garganta batendo forte em sua úvula a ponto de dar ânsia, de repente foi cravado com força contra o interior de sua bochecha. Em seguida, algo pegajoso foi lançado de uma vez. Ele engoliu sem cuspir.
Ele, que observava aquela cena com satisfação enquanto arfava, estendeu as duas mãos.
—Venha cá.
Enfiou as mãos sob as axilas de Kwon Taekjoo e o levantou como quem segura uma criança. E então lambeu demoradamente todo o lábio dele, molhado de saliva e sêmen.
—Meus lábios vão rachar, desgraçado.
Ele resmungou que ele não conhecia limites. Ele, sem se importar, estalou beijos na cabeça de Kwon Taekjoo e naturalmente o transferiu para um dos braços. Então envolveu com a mão o sexo dele, que ainda não gozara. Bastou mover os dedos de leve, apenas acariciando, e a boca de Kwon Taekjoo se fechou por conta própria.
Roçando o sexo dele de leve para incitar sua excitação, ele colava os lábios continuamente em sua testa. Não demorou e Kwon Taekjoo começou a se contorcer.
—Este quarto tem um bom isolamento acústico? Parece que você nem trancou a porta.
Zhenya sussurrou enquanto espremia o sexo de Kwon Taekjoo. Diante do fato em que nem pensara, Kwon Taekjoo estremeceu de antemão. Então ele, de propósito, girou e esfregou lentamente a glande, oferecendo-lhe um estímulo ainda maior. Ele tentou tarde demais segurar o braço dele, mas não conseguiu detê-lo. Não fazia senão gemer com a cabeça enterrada no pescoço dele. Como parecia impossível conter os gemidos, ele acabou por morder violentamente o pescoço dele. Ele disse, em tom bastante instável, para não o provocar. E então, erguendo com os dedos o queixo de Kwon Taekjoo, beijou-o de repente.
Ele amassava seu peito por cima da roupa e amassava seu sexo desordenadamente. Dentro das bocas unidas, um hálito turvo e gemidos irromperam repetidamente. O desejo de que aquele momento passasse logo e o desejo de desfrutá-lo mais colidiam. Tudo o que Kwon Taekjoo podia fazer era agarrar-se a Zhenya com o corpo inteiro e gemer.
Por fim, o corpo de Kwon Taekjoo, que estremecia aos poucos, se enrijeceu de uma vez.
—Nnh… ah…
—Shh.
Ele gozou aos jorros na mão de Zhenya. Zhenya acariciou seu baixo-ventre com bastante ternura e continuou a confortá-lo. Diante de uma exaustão terrível, seus membros ficaram frouxos. Suas pálpebras também pesaram.
Preciso mandar Zhenya embora. Se minha mãe vir, com certeza vai se assustar.
Enquanto se preocupava com aquilo, ele adormeceu profundamente.
— Taekjoo. Menino! Não vai levantar?
Diante do som que o despertava, ele se levantou de um salto. Seu campo de visão, que se abriu de repente, encheu-se com o rosto da mãe. Seu coração despencou. Aterrorizado, ele olhou em volta.
— Mãe, i-isso é…
Ele tentou explicar por que Zhenya estava dormindo ao seu lado, meio despido. Mas ele não estava à vista.
— …Aonde ele foi?
— Hã? Quem?
— Ele veio ontem.
— Do que você está falando, afinal?
Atordoado, ele examinou o próprio estado. Estava vestido corretamente e, talvez por ter dormido profundamente a noite toda, seu corpo também estava bastante leve. Teria sido tudo um sonho?
— Você tem que ir trabalhar. Vou pôr a mesa, então se apronte logo e venha.
Sua mãe saiu, e ele olhou o quarto ao redor, atordoado. Em lugar nenhum havia sinais de que Zhenya estivera ali. Mas era vívido demais para ser um sonho.
Ele puxou o travesseiro e cheirou. Sem falta, sentiu o cheiro de Zhenya.
—Taekjoo, minha zainka.
E a voz que sussurrara a noite inteira, também. Não fora um sonho.
Ele passou no quartel-general e saiu cedo do trabalho. Além de continuar sem ter o que fazer, era para ir ao Cemitério Nacional antes do feriado.
Bem no instante em que saía do escritório, encontrou Yoon Jongwoo no corredor. Talvez estivesse justamente indo procurar Kwon Taekjoo, pois veio correndo de uma vez.
— Sunbae? Aonde vai?
— Ah, para casa.
— Que casa?
— Casa é casa, que casa haveria de ser.
Ele disse que o feriado estava chegando.
— Ah, vai visitar os túmulos? Ainda bem que desta vez passa o feriado na Coreia.
— Pois é. Desta vez não vou comer songpyeon no meio do deserto.
— Songpyeon no deserto?
— É uma história. Vou indo.
— Ah, espere…
Ia despedir-se e ir embora, mas Yoon Jongwoo o segurou de novo. Pela maneira como se enrolava, parecia ter algo a dizer. Pensando bem, também tinha algo nas mãos.
— O que foi.
— É que… hoje o senhor não vai encontrar o senhor Egveni?
— Por que eu encontraria?
— Porque são melhores amigos?
— Quem disse que somos melhores amigos?
— Parece que ele vê sua mãe com frequência, e vocês pareciam bem mais próximos do que eu imaginava.
Se até o lerdo Yoon Jongwoo percebia, ele devia ter relaxado bastante. É possível que, no dia em que ficou com Zhenya, tenha ouvido alguma coisa dele. Porque, ao contrário de Kwon Taekjoo, ele não tentava esconder a relação dos dois. Claro que, mesmo assim, ele jamais imaginaria que eram amantes.
Ele ficou de braços cruzados.
— E daí?
— É que… entregue isto ao senhor Egveni. Ou, se por acaso encontrar a senhorita Olga, pode entregar diretamente a ela.
Ele estendeu o que segurava o tempo todo. Pareciam biscoitos. Certamente, a não ser que tivessem trocado contatos, não parecia haver como Yoon Jongwoo entregar pessoalmente.
— Não é grande coisa; é que a senhorita Olga também tinha curiosidade sobre as sobremesas coreanas. Comprei às pressas alguns doces populares.
— Que esforço, que esforço.
— Só porque é entre nós, mas a senhorita Olga não parece a encarnação de uma elfa?
Existe elfa que anda com uma arma amarrada na coxa? Ficou perplexo.
— Você também, viu. Não se dedique tanto a uma menina que veio só passear, rapaz.
— Eu, o quê?
— Está na cara, e ainda finge que não sabe.
— Não é isso, viu? Eu só quero, com sinceridade, divulgar a Coreia.
— Que grande patriota apareceu. Não dão prêmio a funcionários públicos assim?
Ironizando, ele arrancou o pacote da mão de Yoon Jongwoo. Disse também, de propósito para que ele ouvisse, que ia comer tudo sozinho.
— O senhor não belisca doces.
— Grave bem esse conselho enquanto te dou. Aqueles irmãos, tirando o rosto, são um
cadáver.
— Então o senhor também sai com o senhor Egveni pelo rosto dele?
—…
De repente, ficou sem o que dizer. Não é que fosse totalmente falso, mas também não podia concordar.
— Este moleque está se atrevendo. Saia da frente.
Ele empurrou Yoon Jongwoo para o lado e seguiu andando. Yoon Jongwoo, que o seguiu por um trecho, pediu novamente que ele fizesse aquele favor. Fingindo ouvir e não ouvir, ele foi até o estacionamento. Ao entrar no carro, guardou bem o pacote de doces que recebera sob o banco do carona.
Precisava buscar a mãe, então passou primeiro em casa. Ele estacionou e desceu, e bem nessa hora o elevador desceu. Assim que a porta se abriu, ia entrar, mas deu de cara com quem descia. Uma exclamação lhe escapou de antemão porque não era outro senão Zhenya.
—Quando você chegou?
—Agora mesmo.
—E já está indo?
—O tal do assessor está fazendo um escândalo, dizendo que hoje eu tenho que aparecer sem falta. Quer se exibir, alegando que é feriado.
Não era para se exibir; devia estar realmente ocupado. Porque, na época dos feriados, também aumentam os eventos oficiais na embaixada. Por mais que fosse um embaixador que só brincava e comia, ele tinha de comparecer pelo menos às ocasiões que consolidavam a cooperação pacífica entre os dois países. A não ser que quisesse cair em desgraça e ser repatriado à força.
Ia entrar no elevador, mas Zhenya bloqueou seu caminho. Ele voltou a segurar a barra de segurança da porta que ia se fechar. Uma das mãos já estava na cintura de Kwon Taekjoo.
—E se eu não for?
—Que história é essa. Vá logo e volte.
—Você fez de novo aquela cara de pesar.
—Não fiz.
Ele afastou a mão dele de sua cintura. Ele esfregou o nariz na orelha e na bochecha de Kwon Taekjoo.
—Taekjoo. Já sumiu o cheiro.
—É porque tomei banho. Vá logo.
Ele empurrou as costas de Zhenya, mandando-o para fora. No instante em que a porta ia se fechar, ele enfiou os dois braços sem hesitar e segurou o rosto de Kwon Taekjoo. Assustado, ele tentou apertar o botão de abrir, mas o rosto dele avançou e o beijo veio primeiro.
—Hm… Ei, seu, seus braços…
Ele desviou a cabeça, tentando impedir, mas ele, sem se importar, esfregava os lábios. Pressionando a língua de Kwon Taekjoo, que não parava de reclamar, ele sobrepôs a sua e lambeu de uma vez. Sendo tomado sem defesa, ele mal conseguiu apertar o botão de abrir e impedir que a porta se fechasse. Quando ele beijou o quanto quis e se afastou, ele acabou lhe dando um tapa.
—Você vai se machucar, desgraçado.
—Machucar? Com uma coisinha dessas? Você se preocupa tanto assim comigo.
Ele se gabou, rindo à toa. Enfim, mesmo quando ele se preocupava, era esse o resultado. Dizendo “vá”, ele o empurrou e apertou o botão de fechar. Ele não foi embora até que as duas portas se encostassem completamente. Nem se estivesse mandando sozinha uma criança de cinco anos ele faria assim. Quem se preocupava mais com quem? Sentindo-se estranhamente incomodado por dentro, coçou o peito inocente.
Enquanto subia, ajeitou as roupas, que já haviam se desalinhado. Também limpou os lábios molhados esfregando o dorso da mão.
— Mãe. Cheguei.
Ele levantou a voz ao entrar em casa. Ouviu a voz da mãe vindo da cozinha. Estaria ela ao telefone? Foi para lá sem desconfiar, mas viu uma nuca nada bem-vinda.
—Taekjoo. Chegou cedo, hein?
Olga se virou segurando uma xícara de chá. Tanto Zhenya quanto ela entravam e saíam da
casa dos outros com naturalidade demais.
—Enfim, nem parece que não são irmãos.
—Ah, é? O que quer dizer com isso? Não me diga que está falando de mim e daquele sujeito? É uma indelicadeza.
—Não, vocês são realmente parecidos.
Quando ele afirmou aquilo categoricamente, ela fez uma expressão desagradável. Parecia ter sofrido um insulto enorme. Não sabia ao certo, mas Zhenya provavelmente reagiria da mesma forma. Até nesse ponto eram parecidos.
Mas a indumentária de Olga, irritada, não era comum. Ela, que sempre preferia roupas coloridas como um pássaro de mil cores, hoje usava um vestido preto e até um chapéu preto com véu.
—Você… por que está vestida assim?
—Como assim, por quê? Quando se vai a uma homenagem, a etiqueta é seguir o código de vestimenta. Comprei às pressas; está bom?
Ele olhou para a mãe com um olhar de “não me diga”. Sua mãe sorriu satisfeita, sem entender.
— Ela disse que, já que veio, queria cumprimentar seu pai e seu irmão. A mocinha tem muito afeto, igualzinho ao senhor embaixador.
Sei. Ela deve querer é ficar melancólica vestindo um vestido de luto.
Ao olhá-la com desagrado, ela o apressou fingindo não entender.
—Prepare-se logo. Disseram que não se pode chegar muito tarde lá.
Os papéis se inverteram completamente. Sua cabeça começou a doer.
—A Coreia tem muitos biscoitos gostosos, hein? Nem tinha expectativas, por ser um país cujo alimento básico é o arroz.
Olga abria e provava os doces sem parar. Nos intervalos, oferecia também à mãe. Alguns ela colocava diretamente em sua boca. As duas sentaram-se lado a lado no banco de trás e mantiveram uma conversa harmoniosa que nem sequer se compreendiam. Era tão calorosa que Kwon Taekjoo não tinha espaço para se intrometer. Ele apenas cumpria o papel de motorista das duas.
Ele abriu a janela silenciosamente. Era para tirar o cheiro característico dos biscoitos. Não tinha propriamente uma mania de limpeza, mas as migalhas que, além de cair, voavam por toda parte, o incomodavam. Mesmo indicando discretamente, Olga não se importava. Dizendo que o cabelo dela voava, ela até fechou a janela de volta. Era o problema dos malditos aristocratas.
—E então, nada aconteceu durante este ano? Por via das dúvidas, eu verificava vez ou outra os tópicos internacionais.
Olga perguntou enquanto abria o último biscoito. Procurar notícias de um parente de sangue nos tópicos internacionais — não havia nada de comum naquela família.
—Sim. Desde que veio para a Coreia ele nunca feriu ninguém, e, embora às vezes aja como um lunático, ele obedece bastante bem.
—…Aquele ser humano deve estar perto de morrer.
Ela murmurou em tom despreocupado. Ao entregar à mãe o biscoito recém-aberto, exibiu um sorriso da mais absoluta pureza. Ele ficou bastante curioso para saber se aquilo também era característica do sangue Bogdanov.
—Se não for isso, ele deve ter encontrado um excelente domador, não é?
Olga sorriu maliciosamente, olhando pelo retrovisor.
—Uma criança dessas, o que sabe…
—Aquele sujeito que saiu ontem à noite sem avisar — onde ele esteve até o amanhecer? Isso eu sei, sabia? Estranhamente, tanto ele quanto o quarto dele tinham o mesmo perfume.
Ela esticou a cabeça de propósito para a frente e fungou. Logo se ouviu junto a seu ouvido o som de ar escapando. Um sorriso maldoso se espalhou também pelo rosto de Olga.
—Este cheiro de agora.
—…Nariz de cachorro também é tradição de família?
—Sou do tipo sensível a cheiros. Quando nos encontramos no Azhinoki, o cheiro daquele sujeito exalava de Taekjoo. Ou seja, eu já sabia havia tempos que vocês dois estavam se pegando.
—Se pega…
—Mas, se vocês vão exalar esse cheiro suspeito e não conseguem passar uma noite separados, por que não moram juntos logo?
Não havia nada que ela não fosse capaz de dizer diante da mãe. Não sabia se na Rússia não existia o conceito de educação e respeito, ou se eram os irmãos Bogdanov que eram assim.
Bem nessa hora chegaram ao estacionamento e ele parou o carro.
—Chegamos, desça.
—Ora essa. Você é inesperadamente vergonhoso.
Olga gargalhou abertamente. Sua mãe riu junto sem entender o motivo. Ele se sentiu sem nenhum aliado.
Terminado o estacionamento, ele pegou o cesto de flores e a bebida e seguiu para a área dos túmulos. Olga vinha atrás devagar, guardando nos olhos a paisagem ao redor.
—Aqui é um cemitério comum?
—Parecido. É onde são enterrados os que morreram em serviço.
—Ah, entendi. Dizem que o pai do Taekjoo era militar? E o irmão também. Deve ter sido uma morte honrosa.
—Não existe morte honrosa.
Ele cortou o assunto categoricamente. Seu rosto já havia endurecido. Olga inclinou a cabeça e disse —É mesmo?.
—Eu achava que Taekjoo fazia esse trabalho para viver com honra e morrer com honra.
—Eu só faço. Aconteceu de virar assim, e agora eu nem saberia o que fazer se não fosse isso.
—Hum. Quer dizer que é uma vocação? Como um destino, e às vezes como um jugo do qual não se pode escapar.
Será? Mesmo que lhe perguntem por que justo um trabalho tão duro, ele não sabe responder. Porque nunca pensou especificamente na razão. Sempre foi algo que fez com naturalidade, e agora se tornara uma rotina, como comer e dormir. Assim como não se pode viver sem comer e sem dormir, se largasse o trabalho, parecia que não estaria vivendo.
Enquanto conversavam, chegaram ao túmulo do pai. Ele serviu uma taça de bebida diante da
lápide e depositou o cesto de flores. Sua mãe esfregava e limpava incessantemente a lápide já limpa, conversando baixinho com o pai. Olga, que observava aquela cena por um bom tempo, abriu a boca.
—Mesmo assim, parece que seus pais se davam bem em vida?
—Sei lá, deve ser o normal?
—É normal sentir tanta saudade de alguém que já morreu e não existe mais? Eu achava que isso só existia em romances. Porque, lá em casa, é algo impensável.
Olga, que assentia repetidamente, trouxe à tona uma história inesperada.
—Recentemente aquele sujeito esteve na Rússia. Era o aniversário da morte da mãe dele.
—Foi… quê?
Era a primeira vez que ouvia aquilo. Zhenya dissera que ia à Rússia por causa de um assunto, mas não pronunciara uma única palavra sobre o aniversário de morte da própria mãe. Mesmo depois de voltar, apenas disse que surgira a conversa sobre o noivado.
—Você não sabia? Bem, aquele ser humano não é do tipo que fala de si mesmo.
—Quando sua mãe faleceu?
—Minha mãe?
Olga fez uma expressão perplexa, como se tivesse recebido uma pergunta estranha. Depois, remontando ao rumo da conversa, soltou uma exclamação de compreensão.
—Ah, o Taekjoo não sabe de nada, né? Eu e meus irmãos temos mães diferentes. A mãe deles morreu antes mesmo de eu nascer, e minha mãe se casou com meu pai depois disso. Por isso também há uma grande diferença de idade entre nós.
—Então a mãe dele morreu quando ele era criança?
—Isso.
—Então é por isso…
Ele imaginou se aquela carência teria criado o “psikh” que era Zhenya.
—O que é “por isso”?
—Se era criança, ele também devia ter um grande desejo de maternidade. E devia detestar ser separado dela.
—Hum… será? Nenhum dos meus irmãos chegou a sentir o toque de uma mãe. A mãe deles não era uma pessoa de forte instinto materno. Como Taekjoo sabe, nossa família faz casamentos arranjados há gerações. Com a mãe deles foi assim também. Ela era uma pessoa independente, e dizem que não tinha apego a um casamento sem amor, a uma família formada sem afeto. Por isso nunca estava em casa, e parece que preferia ficar sozinha a passar tempo com a família. Diziam que ela e meu pai fizeram um pacto de que, se ela desse à luz três filhos, cumpriria seu dever conjugal. E, de fato, ela morreu pouco depois de aquele sujeito nascer. No mar, durante uma viagem de iate. Como nem o corpo foi recuperado, dizem que não puderam sequer construir um túmulo. Logo depois disso, meu pai se casou com minha mãe. Falou-se muito ao redor. Diziam que meu pai teria matado a mãe deles para se casar com a minha. Porque ele conquistou, com mais um casamento arranjado, uma imensa fortuna e poder.
Ela deu de ombros, como se fosse natural que tais boatos circulassem. Tanto Zhenya quanto Olga falavam de assuntos que lhes diziam respeito com indiferença, como se fossem coisas alheias.
—Não é algo para se gabar por aí, mas meu pai também tem um histórico impressionante com mulheres. Mesmo assim, ele é rigoroso quanto à linhagem legítima, e a cada nascimento nosso fazia sem falta o teste de paternidade. Além das duas esposas oficiais, nunca teve filhos com outras mulheres. Graças a isso, não temos nenhum irmão bastardo.
Quanto mais ouvia, mais se surpreendia. Ele teria crescido assim e, por isso, não teria apego à família, teria uma vida sexual promíscua e passaria a gostar de ficar sozinho? Como nem todos os irmãos são assim, a personalidade certamente tinha, em algum grau, algo de inato. Mas, se tivesse crescido numa família minimamente normal, talvez ele nunca fosse chamado de “psikh”.
Lembrou-se, de repente, de que Zhenya o provocava chamando-o de filhinho da mamãe. Ele achava curiosos o senso de responsabilidade, o dever e a culpa que Kwon Taekjoo sentia em relação à mãe. Também estranhava que sua mãe vivesse só olhando para Kwon Taekjoo. Assim como a história familiar de Zhenya era inusitada para o próprio Kwon Taekjoo, para ele devia ser o mesmo.
—Eu não sabia; ele não falava nada.
—Bem, não é uma história boa. Meu pai não celebra o aniversário da morte dela. Não sei o que fazem os outros irmãos. Aquele sujeito, todo ano nessa época, larga até o que está fazendo e se enfia no Azhinoki. Não sei se, à sua maneira, ele está honrando a mãe morta, ou se é porque seu coração fica agitado.
Nem mesmo Kwon Taekjoo conseguia adivinhar os pensamentos de Zhenya. Mas a confusão que ele devia sofrer a cada aniversário de morte da mãe biológica estava vívida diante de seus olhos. Ele apenas sentia pena daquele homem que nem sabia o nome daquele sentimento.
—Parece que meu pai só nos considera como cavalos de corrida. Neste aniversário também, sabendo que aquele sujeito voltaria naturalmente, ele empurrou até um noivado. Ele não te contou isso também, por acaso?
—Ouvi mais ou menos.
Olga assentiu repetidamente e complementou.
—Como Taekjoo sabe, aquele sujeito tem uma péssima reputação, não é? Que família em sã consciência iria querer se aparentar? Por isso, durante um tempo não se falou nada de noivado ou casamento. Mas parece que desta vez encontraram um partido adequado. Só porque é entre nós, mas aquela família também não é fácil. E a pessoa mencionada como noiva também não tem uma personalidade dócil.
Não é fácil, disse. Que tipo de pessoa seria? Sendo noiva, obviamente seria mulher. A idade seria parecida com a de Zhenya?
Havia muitas coisas que ele queria saber, mas não perguntou. Não queria demonstrar que se importava. Não, ele não queria nem admitir isso para si mesmo. Era infantil, mas era assim.
—Não tem curiosidade de saber o que ela faz e como aquele sujeito reagiu?
—Bem…
—Hum. Aquele sujeito nunca leva a sério o que meu pai diz. E mesmo que meus irmãos queiram mandá-lo fazer algo, ele não se move de graça, jamais. Por isso, achei natural que ele fosse se rebelar, mas, inesperadamente, ele disse tranquilamente que aceitava. Achei estranho ele receber humildemente a vontade da família. Não era isso. Ele acabou aprontando.
—Aprontando? O quê…
—Prepararam o noivado às pressas, com medo de que aquele ser humano mudasse de ideia. Mas os próprios envolvidos não apareciam. Quando já pensávamos que tudo fora cancelado, ficou tumultuado lá fora. Ao sair, os dois haviam chegado, sim, mas com uma aparência de quem travara um combate corpo a corpo. Os carros estavam todos amassados, a ponto de nos perguntarmos como haviam rodado até ali, e eles apareceram acompanhados de uma fileira de policiais de trânsito, dá para acreditar? Depois verifiquei as câmeras da estrada, e eles praticamente brincaram de carrinho de bate-bate. Na verdade, os dois se conhecem desde a infância, porque as famílias têm contato frequente. As personalidades são completamente iguais, então a relação era péssima. A ponto de serem praticamente inimigos.
Ficou ainda mais curioso sobre a noiva. Uma Zhenya mulher. Só de imaginar, sua cabeça latejava.
—E não parou por aí. Aquele louco apareceu com dinamites, dizendo que num dia tão bom não deveria haver ao menos uma salva de tiros? A cara dos adultos foi um espetáculo. Que pena não poder lhe mostrar.
Era uma expressão de pesar genuíno. Ela chamava Zhenya de louco sem hesitar, mas parecia ter apreciado bastante a atitude dele.
—Ele avisou que, se da próxima vez tentassem usá-lo à vontade, aí ele começaria com fogos de artifício. Aquele sujeito é do tipo que faz o que diz, não é? E não seria impossível que já tivesse deixado um míssil pronto para lançamento em algum lugar. E assim tudo acabou em pizza, enfim.
Ele escutava calado e cobriu os olhos com a mão. Não havia fundamento para dizer que Zhenya fizera aquele escândalo por causa do próprio Kwon Taekjoo. Ele apenas detestava ser preso a algum lugar, então dera um corretivo à família que tentava impor um noivado ignorando sua vontade.
Devia ser exatamente isso, mas suas orelhas ardiam sem motivo. Como se ele mesmo estivesse lá com ele, procurou um lugar para se esconder.
Sem saber de nada disso, ele andara intimamente amuado. Como Zhenya trouxera o assunto do noivado com tanta indiferença e, por causa daquilo, chegara tarde sem avisar, ele achou que fosse apenas isso.
—Onde eu estou, quem eu encontro, o que estou fazendo. Se quiser se apegar obsessivamente e me prender, faça isso.
—Seja um noivado sem sentimento, seja um casamento. Se não gostar, arme um escândalo às claras. Vou achar bonitinho.
Lembrou-se do rosto dele, sutilmente contente. Sentiu-se sem graça e envergonhado à toa.
—Taekjoo, já que viemos até aqui, tire só uma foto minha.
Nesse momento, Olga lhe estendeu o celular. Ela já havia até aberto uma sombrinha de renda.
—Você quer tirar fotos diante de um túmulo?
—Eu estou doente, ora. Não sei nem o que será de mim amanhã; tenho que registrar e guardar cada instante como lembrança.
Ela lhe impôs uma culpa estranha. Sem alternativa, ele apertou o obturador duas vezes e jogou o celular de volta. Não tremeu, e o rosto saiu inteiro e perfeito. Mesmo assim, Olga fez um escândalo, mandando-o tirar de novo com esmero.
No fim, teve de tirar dezenas de fotos no mesmo lugar. Depois de tanto ajudar, ela disse que não havia nada aproveitável. Se ela não fosse mulher, ele teria querido lhe dar um cascudo.
—Bem, mesmo assim você se esforçou, então vou te dar isto.
Como recompensa, ela tirou algo da bolsa e lhe entregou. Era a foto de um menino. Ele olhou sem pensar e soltou uma exclamação baixa.
—Ah? Este garoto…
O menino da foto era idêntico àquela criança que aparecia com frequência em seus sonhos. Ele vagamente presumira que fosse Zhenya, mas, como nunca vira uma foto da infância dele, não tinha certeza.
—Este é o Zhenya, aquele sujeito?
—Sim. Por acaso já o viu?
—…Não.
—Bonito, né?
—Bem…
—Nunca vi na vida uma criança tão bonita. Por isso ando com ela; não há nenhum outro sentido.
Ela traçou uma linha, dizendo para que ele não pensasse coisas estranhas. E então enfiou a foto no bolso do paletó de Kwon Taekjoo por conta própria.
—Para mim também é preciosa, é a única cópia, mas fique com ela.
—Não precisa.
—Ora, pegue quando lhe dão. É para você olhar isto e acalmar o coração quando aquele sujeito o irritar. Por incrível que pareça, é bem eficaz.
Ela levantou o polegar, garantindo o efeito. Ele achou tão absurdo que deu uma risadinha.
Olga logo se virou para as lápides enfileiradas densamente.
—Não é que eu tenha vivido mais que Taekjoo, mas, por sempre ter um pé na morte, eu entendo. As pessoas sempre querem ser felizes e desejam que só aconteçam coisas boas, mas, na verdade, que graça teria a vida se fosse só isso? Às vezes é preciso experimentar a tristeza, a depressão, a dor e o sofrimento para saber quão preciosas são a sorte e a felicidade comuns que vêm depois.
Nesse sentido, é digno de pena, disse ela, continuando.
—Aquele sujeito é uma pessoa desprovida de emoções. Para ele, no mundo só existe o que é interessante e o que é insípido; não existe o alegre, o feliz, o triste, o doloroso. Na verdade, é a primeira vez que ele dedica atenção a um mesmo objeto por tanto tempo. Eu achava que ele viveria assim a vida toda e morreria, mas pensei que talvez ele pudesse mudar.
—Por que essa grandiloquência toda?
—Porque é uma reviravolta e tanto. O herói que foi resgatar a bela acabou capturado por Koschei. Mas eu gosto deste final. Sei que é um pedido excessivo, mas cuide bem dele. Peço que pelo menos Taekjoo tenha compaixão daquele monstro.
Terminado o pedido, Olga seguiu a mãe até o túmulo do irmão. Sozinho, ele tirou a foto de dentro do paletó e olhou. O Zhenya da infância não tinha expressão alguma. Era idêntico à figura que vira em sonhos. Ele deu um toquezinho naquela bochecha de aparência teimosa.
Mesmo sem que lhe pedissem, ele já sentia, de forma absurda e transbordante, uma ternura melancólica. Havia outros objetos para se preocupar e lamentar; nem ele mesmo conseguia entender a si próprio.
De repente, pensou em Zhenya. Ele tirou o celular, pensando em ligar para ele. Bem nessa hora, a vibração tocou. Era Zhenya.
O sol começou a se pôr. O vento também ficou bastante gelado. Ele mandou a mãe e Olga de volta primeiro e ficou sozinho esperando Zhenya. Ele havia acabado de avisar aquele homem, que ligara assim que terminou o trabalho, para vir até ali.
Não demorou e ouviu-se, atrás do estacionamento, o característico ruído de motor. Ao virar a cabeça, viu Zhenya caminhando, com as longas abas da roupa esvoaçando. Tirando o rosto, estava todo preto, do pescoço à ponta dos pés. Quando ele riu de leve, ele, que já chegara diante de seu nariz, fez uma expressão de estranheza.
—Por que está rindo?
—Porque parece um “jeoseung saja”.
—O que é isso?
—Uma coisa parecida com você.
Ele continuou com a mesma cara de quem não sabe. Ele não se deu ao trabalho de explicar. Apenas apontou com o queixo os dois lírios que ele segurava e disse: “o que é isso”.
—Você disse que é um lugar para homenagear os mortos. Onde estão enterrados os de seu sangue.
—Ah. Mas o que fazer? Agora é tarde e não dá para entrar.
Zhenya deu de ombros como se não fosse nada. Inclinou os lírios que segurava e os entregou a Kwon Taekjoo.
—Não há remédio. Taekjoo, eu os dou a você.
—Que romântico de arrepiar. A primeira flor que recebo é uma oferenda fúnebre.
Resmungando, ele enterrou o nariz nos lírios. Um cheiro perfumado exalou intensamente. Nunca recebera flores de presente, exceto nas cerimônias de matrícula ou formatura. Mesmo que lhe tivessem sido empurradas por acaso, seu humor não estava nada mau.
Enquanto manuseava as flores, que nem sequer estavam embrulhadas, ele começou a falar.
—Ali estão dormindo meu pai e meu irmão. Ambos me confiaram nossa mãe. Como se soubessem que eles próprios não poderiam fazê-lo. Agora minha mãe só tem a mim.
—Para que dizer o que eu já sei?
—Porque acho que estou sendo muito mesquinho. Você não pode ser sempre a minha primeira prioridade. Eu não consigo, como você, abandonar tudo e olhar só para você. Minha mãe talvez seja uma desculpa. Porque, mesmo me preocupando com ela, não largo o trabalho que ela detesta. Eu não consigo desistir nem do trabalho, nem da minha mãe, nem de você. Eu sou assim, um sujeito estragado.
Ele estendeu a mão e segurou a manga de Zhenya. Ele demonstrou, raramente, um ar de surpresa. Como não estava olhando para seu rosto, não podia ter certeza.
—Ao meu lado, sua escassa paciência vai continuar sendo posta à prova. Mesmo assim, quero que você, você, ao menos você, não se canse e continue esperando. Eu não quero ser abandonado nem por você. É egoísta, mas é assim.
Ele ergueu a cabeça e olhou para Zhenya. Ele estava com o rosto bastante perturbado diante da situação inesperada.
—…Taekjoo?
—Estou fazendo manha, agora. Você mandou. Disse que eu podia.
O rosto de Zhenya, um tanto atordoado, suavizou-se de uma vez. Um monstro irremediável, e ainda por cima bonito. Ele o beijou com ímpeto, como se fosse se atirar sobre ele. Não teve constrangimento algum, mesmo num estacionamento a céu aberto, totalmente exposto. Os dois lábios foram pressionados com força e se separaram lentamente. Uma expiração parecida com um suspiro escapou.
No instante seguinte, seus dois braços foram bruscamente agarrados. E, antes que pudesse recuar, foi puxado de volta por Zhenya. Seguiu-se um beijo pungente, como o de amantes que se reencontram após muito tempo. Depois de roubarem completamente o fôlego um do outro, separaram-se, ainda assim com pesar.
—Taekjoo. Faça como você quiser. Eu também farei assim. Eu vim até aqui para te capturar, e agora, todos os dias e a cada instante, continuo te perseguindo. Continuarei fazendo isso daqui para frente. Às vezes fico irritado, mas uma coisa é certa. Nunca tive, em toda a vida, diversão maior que esta.
Ele encarou tranquilamente as pupilas cor de vinho dele. Dentro delas, apenas o próprio Kwon Taekjoo estava refletido, inteiro. A situação de suas próprias pupilas não deveria ser diferente.
Era o instante em que, brincando com o queixo de Zhenya, ia beijá-lo novamente. O celular, que estivera silencioso o tempo todo, tocou. Teve um mau pressentimento. Conferiu de relance o remetente da chamada. Sem falta. Soltando um suspiro pesado, ele tocou o botão de atender.
— Sim, é o Kwon Taekjoo.
Ele ouviu calado o que o interlocutor dizia. A ligação terminou logo. Porque era uma convocação do quartel-general, mandando-o correr para lá imediatamente. Ele bem que estranhara aquele silêncio todo.
Constrangido, coçou a parte de trás da orelha.
—Ei, escuta…
—A mulher pequena vai se preocupar de novo.
Ele murmurou como quem fala sozinho e puxou sua mão. E então, fingindo beijar o dorso da mão, mordeu seus dedos. Doeu bastante, e ele franziu o cenho. Só depois de deixar uma nítida marca de dentes sobre a articulação, ele soltou a mão que segurava.
—Não é meu passatempo, mas vou dar um jeito de inventar alguma desculpa.
Por algum motivo, ele se ofereceu para ajudar e fez um gesto com a cabeça, mandando-o ir tranquilamente. Desconfiado, ele recuou lentamente.
—Volto logo?
—Até já.
Deixando para trás Zhenya, que sorria maroto, ele entrou no carro. Mas, mesmo depois de ligar o motor e virar a frente do carro, não partiu de imediato. Só depois de piscar as luzes traseiras duas vezes, como quem se despede de novo, ele saiu em disparada. Era a fofa despedida de um homem taciturno. De Zhenya, que observava, irrompeu um riso denso.
Mais um dia comum, e ainda assim, jamais comum, estava passando.
↫────☫────↬
Fim do Volume Extra Normal Days
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna