↫─☫ Capítulo 08
↫─☫ Checkmate – 08
O ombro foi bruscamente agarrado. Em seguida, o corpo girou por completo. Ao encarar aquele sujeito de frente, ficou sem ar. Os dois olhos dele estavam gelidamente congelados como cristais de gelo.
— Espe…!
Nas mãos dele, a pele artificial foi arrancada. Não houve tempo sequer para reagir. Ao desaparecer até o último baluarte que o ocultava, de repente sentiu-se despido. As pupilas azuis de Zhenya se contorceram com intensidade fora do comum.
O confronto tenso durou só um instante; agarrado pela gola, foi arrastado até bem diante do rosto dele. Pela diferença de altura, os calcanhares se ergueram. Com a garganta comprimida, sem querer agarrou a mão de Zhenya. Era gélida, de forma alguma parecia a mão de uma pessoa. Após relancear a mão que se sobrepunha desesperada ao dorso da sua, Zhenya voltou a fitar Kwon Taekjoo. Aquele olhar era bastante afiado.
As pupilas de Kwon Taekjoo, que sustentavam precariamente um semblante gélido, rolaram lentamente para o lado. Por sobre o ombro de Zhenya, viu a mãe. Se, naquela situação, ela por acaso despertasse, a coisa se tornaria incontrolável. Era justamente o que ele não queria de forma alguma.
Repeliu de vez a mão de Zhenya. Empurrou também o ombro dele com toda a força. Descuidado, o sujeito, empurrado para trás, ajeitou a respiração em silêncio. Então torceu a cabeça e encarou Kwon Taekjoo. Na testa antes lisa, uma grossa veia saltara.
Chegou o que tinha de chegar. No instante em que percebeu o perigo, foi violentamente empurrado. As costas bateram primeiro na porta, e soou um estrondo. Um impacto correspondente atingiu o corpo inteiro. Na visão trêmula, viu a mão dele se erguer. Por reflexo, fechou os olhos com força. Foi tão fugaz que não houve margem para outra reação. Prevendo uma dor terrível, todas as células do corpo se encolheram, tensas.
Mas, por mais que o tempo passasse, não sentiu nada. Não era possível.
Ergueu lentamente as pálpebras. A situação estava exatamente igual à de antes de fechar os olhos, num estado de iminência. A mão de Zhenya continuava erguida como se fosse esbofetear Kwon Taekjoo a qualquer instante, e a atmosfera hostil também não mudara. A única coisa diferente era que o rosto dele se contorcera.
A mão de Zhenya tremia, como que hesitante. Ele próprio parecia não compreender aquela situação. Havia um ar de considerável perplexidade diante do próprio gesto, dissociado da mente.
Kwon Taekjoo também olhou Zhenya, atônito. Isso porque nas pupilas dele turbilhonavam diversas emoções. Raiva, hostilidade, perplexidade e, ainda, ressentimento. Ressentimento? Os olhos de Kwon Taekjoo se arregalaram mais.
Nesse instante, a mão parada de Zhenya avançou de supetão.
— …!
Achando que desta vez, sim, levaria o golpe, virou a cabeça. Mas a dor que pressentira não veio. Apenas foi de novo empurrado para trás. Em seguida, o pescoço foi bruscamente apertado. Tentou de novo afastar a mão de Zhenya, mas o sujeito não se moveu nem um pouco. Franzindo o cenho, fuzilou-o com o olhar. Na curta distância, os olhares se entrelaçaram densamente.
— Não me faça matar você com minhas próprias mãos.
Contraindo até o nariz, rosnou. Para uma ameaça, soava um tanto estranha. E não era só isso. Num instante, a mão que apertava o pescoço afrouxou, e, de repente, o rosto dele se aproximou. Nas pupilas onde toda sorte de emoções se contorcia mesclada, também surgiu um calor estranho. Os sinais não eram bons. Depressa, ergueu a mão e empurrou o queixo dele.
— Filho da puta, não vai sair de perto?
Diante do gesto que o barrava, o sujeito fez uma expressão de contrariedade. A força que insistia teimosamente e a força que recusava travavam um combate silencioso. Será que aquele sujeito de fato esquecera onde estava e quem jazia na cama?
— Droga, solta isso! Não é hora pra ficar assim com você.
Ao empurrá-lo com firmeza, o sujeito ergueu o canto da boca e riu de canto. Então indicou de leve, com a cabeça, a cama da mãe.
— E se eu te virar de bruços ali em cima, vira hora?
— Doido…!
Gritou horrorizado e logo baixou a voz. Às pressas, verificou primeiro a mãe. Ela continuava imóvel. No instante em que, aliviado, abrandou a postura, o sujeito, sem mais nem menos, arrastou-o para o banheiro acoplado ao quarto. Diante do mau pressentimento, resistiu com o corpo inteiro. Se ficasse trancado ali a sós com aquele sujeito, algo vexatório lhe aconteceria. Mas o sujeito empurrou com truculência Kwon Taekjoo, que tentava resistir.
Assim que foi arremessado contra a parede, a nuca foi pressionada. Com o peito completamente colado ao azulejo gélido, os pulmões se comprimiram sem limite. Debateu os membros para escapar das garras dele. Quanto mais o fazia, mais fortes ficavam a contenção e a pressão dele.
O sujeito, de forma arbitrária, agarrou o cós da calça de Kwon Taekjoo. Com a força brutal que o puxava, o quadril recuou. A fivela do cinto, incapaz de suportar a força aplicada, arrebentou-se. Com isso, a pele nua das costas, na altura da cintura, ficou completamente exposta. O sujeito, que se lançava cegamente, estacou por um instante.
Sobre a cintura pousou um olhar denso, impossível de ignorar. Ele parecia estar olhando a pele cauterizada a laser.
— …E olha só.
Murmurou baixinho. A espinha ficou subitamente gelada.
No instante seguinte, o cós da calça foi de novo agarrado. Somando-se a indignação, sentiu uma força ainda mais bruta do que antes. Tentou de todo jeito impedir, mas foi em vão. Enquanto a calça e a cueca eram puxadas para baixo de uma vez, as nádegas ficaram à mostra. Em seguida, ouviu-se atrás dele o som de um zíper descendo. O mau presságio que fervilhava por dentro se concretizava.
Lívido, agitou os dois braços desesperadamente. Empurrando a parede com as pernas, tentou de algum modo resistir. Mas não havia como conter aquele sujeito fora de si. Só foi de novo empurrado contra a parede e prensado até ficar achatado. Espremido entre a parede e o sujeito, era como se o corpo estivesse encaixado à força numa engrenagem.
Ainda que fosse de esperar que se esgotasse por conta própria, ergueu repetidas vezes o cotovelo e empurrou o sujeito. Também continuava empurrando a coxa dele, que se colava firme. Temendo que escapasse o menor som, mantinha a boca bem cerrada. Sem qualquer sinal audível, uma infinidade de gestos acirrados se sucedeu. Num instante, o corpo inteiro ficou encharcado de suor.
Foi por essa hora.
— …!
De repente, o lado de fora da porta ficou tumultuado. Os detetives distribuídos por todos os cantos do hospital pareciam ter percebido algo suspeito. Tendo talvez descoberto os colegas caídos na saída de emergência, davam a impressão de que iriam invadir o quarto a qualquer momento.
Se fosse pego agora, ficaria irremediavelmente com todas as acusações às costas. O lado do promotor Seok provavelmente ainda não recebera as fotos, e o original passível de ser aceito como prova estava com o próprio Kwon Taekjoo. Ainda por cima, estava grudado justamente ao alvo com quem se suspeitava que ele estivesse em conluio. Era desesperador.
Por fim, ouviu-se o sinal da porta do quarto sendo aberta com cautela. Ainda assim, Zhenya não recuou docilmente. Apenas cravou de novo em Kwon Taekjoo o olhar que por um átimo se voltara para fora da porta. Mil pensamentos cruzaram-lhe a mente. Agora era mesmo tudo ou nada. Por mais que tentasse ser otimista quanto ao que viria, só se chegava ao pior dos resultados.
Escolha a mim.
De súbito, um murmúrio baixo chegou-lhe ao ouvido. Fosse por ser uma situação tão urgente, talvez tivesse ouvido mal. Ainda assim, o coração pulsou com uma sensação totalmente diferente de tudo até então. No momento de vida ou morte, era como se uma corda de salvação tivesse descido.
Estendeu a mão para trás e cobriu o dorso da mão de Zhenya, que agarrava suas nádegas. Zhenya apenas contemplava fixamente a mão de Kwon Taekjoo sobreposta à sua. Só havia um jeito de escapar da crise atual. Se funcionaria ou não, isso ele não sabia. Não restava senão tentar.
Descerrando os lábios que mantinha firmemente cerrados, implorou.
— …Por favor.
Na voz, um suspiro se misturou involuntariamente. Mas de Zhenya não veio reação alguma. Cerrando com força até a mão que se apoiava na parede, insistiu mais uma vez.
— Por favor.
Logo em seguida, com o punho cerrado sendo agarrado, o corpo girou para trás. O olhar, que se cravara com amargura no chão, fixou-se em Zhenya. Ainda que não fosse hora para isso, o cenho contraído dele e as pupilas atarefadas em confirmar a veracidade cravaram-se em seu campo de visão.
— Depois não vá dizer o contrário. Foi você quem me agarrou.
Nas garras da mão dele, que apertava o braço com mais força, percebeu-se uma inquietação que não lhe assentava. O sujeito apenas perscrutava seus olhos com desconfiança e cobrava Kwon Taekjoo, que não respondia.
— Responda. Diga que foi você quem se agarrou a mim.
Nenhum dos dois tinha outra saída. Assentiu com a cabeça, como quem diz “pense o que quiser”. Então a mão, que parecia prestes a lhe quebrar o braço, enfim se afastou.
Por fim, a maçaneta da porta do banheiro desceu devagar. Os detetives pareciam espreitar a situação para irromper de fora. Zhenya agarrou de supetão aquela maçaneta e a puxou para dentro sem cerimônia.
— Uaaah!
Ao abrir-se a porta sem aviso, os detetives perderam o equilíbrio e tombaram em massa. Um deles ele golpeou a nuca com o cutelo da mão; outro, chutou-lhe o rosto e deixou-o desacordado. No último detetive, que atrapalhado apontava a arma, torceu completamente o pulso para trás.
Após dominar os três com gestos concisos, Zhenya virou-se para Kwon Taekjoo. Foi antes mesmo de ele conseguir arrumar a calça direito. Fazendo um sinal com a cabeça, como que dizendo “vamos”, saiu primeiro do banheiro. Enquanto prendia o gancho e o seguia, virou-se uma vez para trás. Fosse pelo tumulto de instantes antes, o rosto da mãe estremecia aos poucos. Parecia prestes a abrir os olhos a qualquer momento. Antes disso, precisava sumir. Sacando a Colt de dentro do casaco, deixou o quarto às pressas.
— É por ali!
— Leste, ala leste do hospital!
Assim que saíram para o corredor, tudo era barulho. Do lado oposto, um grupo de policiais vinha correndo. Zhenya não abrandou os passos largos que dava. Apenas sacou a Colt do peito e puxou o gatilho sem cerimônia. Não houve nem tempo de detê-lo, dizendo “que é isso num hospital”. Diante do disparo repentino, os policiais se esconderam apressados atrás da parede.
Aproveitando a brecha, correram lado a lado pelo corredor. Ainda que não houvesse combinação alguma sobre o que fazer, ajustaram o ritmo por instinto. Contendo Zhenya, que apontava a Colt assim que surgia uma pessoa à frente, fugiram evitando ao máximo o confronto físico. Zhenya, mesmo estalando a língua contrariado, atendeu à contenção com relativa docilidade. Aquele sujeito lhe parecia estranho. Era um sujeito que, mesmo quando fingia ser colega, ficava de braços cruzados só observando Kwon Taekjoo em crise. E esse sujeito o ajudava sem exigir qualquer preço. Fosse por ser inesperado demais, o peito continuava a martelar de forma desnorteante.
Quanto teriam corrido? A escada de baixo ficou tumultuada. Os policiais que haviam recebido o pedido de reforço pareciam chegar em massa, um após o outro. Não podiam continuar assim no hospital. Além de se tornar cada vez mais um rato encurralado, estava causando dano a civis inocentes.
— Seu carro, onde você deixou?
Zhenya indicou com a cabeça uma esquina que logo surgiu. Assim que dobraram a curva seguindo o sujeito, viram-se de novo em confronto com policiais. Contra eles, que advertiam que atirariam se se mexesse, arremessou uma granada de fumaça. Num átimo, uma fumaça esbranquiçada jorrou, e a área virou um pandemônio. Aproveitando aquela confusão, saíram pela saída de emergência do meio do caminho.
O som frenético de rádios, as vozes das pessoas e o ruído de passos se misturavam, e a escada ressoava com estardalhaço. De cima, de trás e de baixo, o cerco se fechava incessantemente. Parecia não haver senão furar algum dos pontos e passar. Após uma respiração funda, desceu correndo a escada de baixo. Logo cruzou com detetives que subiam. Contra eles, que estremeceram e sacaram primeiro as armas, atirou-se de corpo. Um amontoado de gente rolou escada abaixo, varrido por Kwon Taekjoo, até o patamar. Zhenya, que vinha atrás, ergueu Kwon Taekjoo. Então chutou os que, apesar de gemer segurando a cabeça, a cintura e as pernas, tentavam contra-atacar, quebrando-lhes até a vontade de resistir.
Desceram o resto da escada. Diante da porta de emergência, ficou parado um instante espreitando os sinais de presença e depois adentrou o corredor. Logo, de novo, o som de muitos passos os seguiu. As passadas dos dois também se alargaram.
Foi quando, como que fugindo, dobraram acompanhando o corredor. Surgiu uma janela frontal, e o campo de visão se abriu de súbito. Por ser vidro reforçado, era em si equivalente a uma parede sem saída. Tentou voltar de imediato, mas uma equipe tática já posicionada barrou o caminho.
— Parado!
— Se não se render, atiramos!
Fuzis já carregados miraram os dois em uníssono. Furar a barreira como antes daria em virar peneira.
O que fazer. Ergueu docilmente os dois braços e refletiu. Então Zhenya se aproximou disfarçadamente. Àquele pequeno movimento, os canos das armas se retesaram ao mesmo tempo.
— Segure firme.
Sussurrou apenas o suficiente para Kwon Taekjoo ouvir. Ao olhar Zhenya, intrigado, o braço do sujeito enlaçou de supetão sua cintura. No mesmo instante, algo que o sujeito lançou grudou na janela frontal. Não só Kwon Taekjoo, mas também os olhares da equipe tática em confronto seguiram simultaneamente aquele pequeno objeto. Que é aquilo? Foi mais ou menos quando todos fizeram, como que combinado, uma expressão pateta.
Ao redor do pequeno adesivo surgiram rachaduras, e de repente todo o vidro reforçado se estilhaçou em padrão radial. Em seguida, conduzido por Zhenya, disparou em direção à janela parcialmente destruída. No instante em que tocou o sujeito, os cacos de vidro se despedaçaram um a um. Meio abraçado pelo sujeito, atirou o corpo no vazio. No campo de visão de cabeça para baixo, viu uma mangueira de incêndio desenrolando-se em toda a sua extensão.
A equipe tática correu tardiamente até a janela. Nesse meio-tempo, os dois pendiam da mangueira de incêndio, balançando à altura do segundo andar. Sem que se pudesse dizer quem primeiro, saltaram para o gramado. Assim que a equipe tática confirmou que os dois estavam ilesos, despejou balas sem hesitação.
Esquivando-se da saraivada de projéteis, correram abrindo caminho pela vegetação. Logo conseguiram chegar perto do portão dos fundos. Zhenya, que chegou primeiro, de repente lançou-lhe algo. Ao pegá-lo de supetão, viu que era um capacete de motocicleta. Ficou involuntariamente perplexo.
— Você não veio de carro?
— Eu nunca disse que era carro.
O sujeito, sem mais nem menos, deu a partida. Depressa, enfiou o capacete na cabeça e sentou-se atrás.
— Droga, hoje vou trilhar direitinho o caminho do além.
Enquanto resmungava insatisfeito, a motocicleta disparou sem aviso. O corpo, que não conseguiu manter o equilíbrio, colou-se às costas de Zhenya. Os policiais que os perseguiam abriram fogo apressados. Dezenas de projéteis voaram, mas a motocicleta deslizava à vontade, desviando com flexibilidade de todos eles. Assim, arremeteu em direção ao portão dos fundos.
Mas não seria fácil. Do lado de fora do portão dos fundos, viaturas em espera barraram a passagem. A motocicleta, que descia a ladeira, ganhava velocidade progressivamente. Por mais avantajado que fosse seu porte, colidir com um automóvel não tinha chance de vitória. Por outro lado, se freasse a essa altura, não venceria a velocidade em que corria e acabaria capotando.
Na situação de iminência, ergueu o guidão. Então a roda dianteira se levantou e, num instante, a motocicleta inteira flutuou no ar. O átimo suspenso no vazio desenrolou-se como em câmera lenta. Chegou a ver o policial dentro da viatura, atônito, arregalar os olhos.
Por fim, a motocicleta, com um estrondo, pousou sobre o teto da viatura. O giroflex se espatifou irremediavelmente. Assim, prensando o teto, desceu até o chão. Felizmente, o motor não morreu, e os pneus continuaram intactos. Mantendo a velocidade, adentrou a avenida. Com o vento que os fustigava, os cabelos e as roupas esvoaçavam em desalinho. Por ser uma via exclusiva, deslizava como num número de acrobacia por entre os veículos que corriam ainda mais rápido.
Como a qualquer momento poderia ser atirado ao chão, abraçou com força a cintura de Zhenya. Então o olhar dele, antes voltado só para frente, desceu até o braço de Kwon Taekjoo.
A paz não durou muito. Logo, ao longe, uma sirene ecoou. Ao voltar os olhos na direção do som, viu na pista oposta três ou quatro viaturas policiais vindo em fila. O veículo da equipe tática que os seguia desde o hospital também apertava o cerco por trás.
Enquanto olhava, aflito, ora para a frente, ora para trás, a motocicleta se aproximou bem ao lado de um caminhão-caçamba. Ainda que parecesse prestes a ser atingido pela carroceria a qualquer momento, seguia indiferente, ajustando a velocidade e correndo. Por isso, o lado da polícia também não conseguia se aproximar imprudentemente.
Pouco depois, a via exclusiva terminou, e à frente surgiu um amplo cruzamento. Estava prestes a abrir o sinal para seguir em frente. As viaturas que vinham do lado oposto, como se fossem investir aproveitando o momento, reorganizaram a formação. Se parasse no sinal, a via de fuga seria bloqueada pelo veículo da equipe tática que perseguia por trás. A calçada que começava no ponto onde a via exclusiva terminava, por causa das árvores, não tinha largura suficiente para uma motocicleta passar. Fazer a conversão à esquerda ignorando o sinal traria grande risco de colidir com os outros veículos que seguiriam em frente sem hesitar. Era um beco sem saída.
Mas a corrida de Zhenya não parou. Pelo contrário, ele levou a velocidade ao máximo. O sujeito disparou por entre os veículos que aguardavam o sinal de seguir em frente. Logo, a luz do semáforo à frente ficou verde. Os carros que ameaçavam a faixa de retenção aceleraram em uníssono. Ao mesmo tempo, a motocicleta de Zhenya, disparando, cortou de lado, num longo traço, a frente dos carros que seguiam em frente. Para evitar tombar pela força excessiva da curva, inclinou a motocicleta. Parecia que o corpo tocaria o asfalto a qualquer instante. Fechando os olhos com força, abraçou Zhenya ainda mais forte.
Os carros que iam seguir em frente pisaram bruscamente no freio, buzinando estridentes. Num piscar de olhos, o meio do cruzamento se emaranhou num caos, e até os policiais ficaram sem poder se mexer. Deixando aquele tumulto para trás, dispararam sem hesitação pela faixa de conversão à esquerda, agora vazia.
Ainda que o momento de crise tivesse passado, não conseguia relaxar a força dos braços que abraçavam Zhenya. Os membros formigavam. Diante da situação em que a vida era repetidamente forjada, todos os pelos do corpo se eriçaram e a pele até se arrepiou. As pontas dos dedos pareciam tremer um pouco.
Mal recuperava o fôlego quando, acima da cabeça, ouviu um ruído familiar. Era o som das hélices de um helicóptero. O helicóptero que surgira por trás logo alcançou a motocicleta. E não só: a cada acesso, grande ou pequeno, que atravessavam, viaturas policiais se juntavam uma a uma.
— Pare. Se não parar, atiramos.
A viatura que os seguia advertiu repetidamente. Ao ignorar e continuar correndo, todos, sem exceção, baixaram os vidros. Era sinal de que o fogo seria aberto. De repente, Zhenya girou bruscamente o guidão para a esquerda. Então a motocicleta cruzou a linha central e começou a trafegar na contramão.
Os carros que vinham do lado oposto buzinaram furiosos. Parecia que os tímpanos iam estourar. Enquanto as viaturas hesitavam, a via se prolongou num viaduto. Sobre a linha central surgiu também um separador. Agora, ainda que quisessem cruzar, não podiam.
Mas, sob o helicóptero, não era possível fugir por completo. Mesmo que despistassem uma equipe a duras penas, logo viria uma equipe de reforço do outro lado.
Não seria melhor se render? Fitou Zhenya, aflito. Sem se saber o que ele pretendia, o sujeito não reduziu nem um pouco a velocidade. Apenas disse “segure firme”. Encostou a testa nas costas do sujeito e apertou bem as mãos. Por um instante, sentiu vontade de deixar acontecer o que tivesse de acontecer.
No instante em que a velocidade atingiu o auge, a motocicleta arremeteu contra a grade da beirada. Pressentindo o fim, fechou os dois olhos. Agora só restava a queda vertiginosa.
Com um violento som de atrito, a grade se rasgou. A motocicleta e os dois, sem apoio onde pisar, foram empurrados para fora do viaduto.
Na via, cujo fluxo era tranquilo, formou-se um congestionamento repentino. O helicóptero descreveu uma ampla curva e examinou a situação sob o viaduto. Por causa da fumaça que subia da cena do acidente, a visão não se garantia bem. Só depois de um bom tempo compreendeu a situação. Os destroços da motocicleta e a grade bloqueavam a via. Os carros das quatro faixas estavam todos presos na pista.
Mas, por mais que vasculhassem os arredores, o alvo não aparecia. Só aumentavam os motoristas que saíam para ver o que acontecera. Era um verdadeiro pandemônio.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna