Capítulo 68 - Fim
Foram dias infernais.
Diziam que os ômegas masculinos sofriam com enjoos matinais particularmente fortes, mas os de Hayul eram especialmente severos. Desde o momento em que descobriu que estava grávido, não houve um único dia em que não tivesse de conviver com ânsias. Mesmo que não quisesse admitir a gravidez, era obrigado a senti-la em cada fibra do corpo.
Ele mal conseguia suportar o cheiro de comida e só conseguia comer frutas, sorvete e pudim.
Mesmo tomando todos os remédios para enjoo que diziam ser bons, nenhum fazia efeito. Natasha aparecia todos os dias, administrava diferentes tipos de soro e fazia exames de sangue, mas não havia absolutamente nada de errado com a saúde de Hayul. O bebê em seu ventre crescia vigorosamente.
Apenas Hayul, a mãe, estava sofrendo em agonia. Foi então que ele percebeu mais uma vez como sua mãe tinha sido incrível por fugir enquanto estava grávida dele.
— Está ouvindo o batimento cardíaco do bebê?
Foi a primeira vez que Hayul ouviu os batimentos cardíacos da criança, mas não sentiu nada de especial. O coraçãozinho batia com uma força surpreendente, e ele apenas pensou que o bebê provavelmente seria saudável, assim como ele. O único que se emocionou a ponto de tremer foi Oleg Kirov, que o acompanhava.
— Meu Deus! É tão lindo! Olhe só aqueles pezinhos minúsculos se mexendo. O rosto se parece com o do Jin. Hahaha. Pelo jeito enérgico, parece que puxou o Pavel, então talvez seja um menino. Mas, olhando para aquela cabecinha tão bonita, talvez seja uma menina. Não importa, não é mesmo?
— Senhor Oleg, ainda estamos na fase em que só é possível ver o saco vitelino.
Como Natasha havia dito, por mais que olhasse, aquilo não passava de um pequeno grão para Hayul. Oleg Kirov, porém, continuava falando sem parar.
— É uma criança preciosa. Muito preciosa. Como os céus nos deu um presente desses, então acho que, de agora em diante, eu também deveria começar a viver fazendo boas ações.
Oleg acabou derramando lágrimas outra vez. O apelido de velho tigre da família Kirov não combinava nem um pouco com ele; aquele homem chorava com uma facilidade impressionante. Oleg ficou colado ao lado de Hayul, protegendo-o tanto na ida quanto na volta do hospital. Era um guarda-costas mais confiável do que dezenas de seguranças.
Hayul ouvira dizer que o primeiro casal de mutantes a surgir na Coreia, o casal Baek, era seguido por paparazzi e jornalistas aonde quer que fossem, mas naquele país não havia nada disso. Que sujeito teria coragem de seguir algum membro da família Kirov?
Mesmo que, por algum acaso, algum paparazzi ganancioso por dinheiro resolvesse persegui-los, a equipe especial de segurança contratada por Pavel provavelmente daria um jeito nele sem deixar nem vestígio.
Graças aos homens enormes, parecendo ursos, que os acompanhavam vestidos impecavelmente de terno, aonde quer que fossem, as pessoas até lançavam olhares curiosos, mas, assim que cruzavam os olhos com Hayul, geralmente desviavam o olhar às pressas.
Seguindo o conselho de Natasha para que tomassem o máximo de cuidado durante o início da gravidez, Oleg e Pavel fizeram de tudo para garantir o bem-estar e o conforto de Hayul.
Segundo Viktor, o sistema de pareamento havia entrado em contato depois de tomar conhecimento da gravidez do segundo casal de mutantes oficialmente reconhecido no mundo, mas eles recusaram tanto a visita do sistema quanto todos os pedidos de entrevistas da imprensa.
Aquilo era ótimo. Se houvesse algum paparazzi rondando por perto, talvez Hayul tivesse pegado uma arma pessoalmente e resolvido a situação.
Em casa, nenhum convidado entrava além das pessoas autorizadas. O castelo já era naturalmente isolado, mas até mesmo os conhecidos de Oleg Kirov ou o próprio presidente, que costumavam aparecer ocasionalmente, cessaram completamente as visitas. O Castelo Kirov foi totalmente isolado para garantir a segurança de Hayul.
O tempo passou como água corrente. O longo inverno siberiano finalmente terminou, e a tão esperada primavera chegou. O clima esquentou, mas a condição física de Hayul piorava cada vez mais. Quanto mais o bebê crescia, mais intensos se tornavam os enjoos.
Ele praticamente não conseguia comer e precisava viver ligado ao soro. As tonturas também ficaram tão fortes que até mesmo frutas e pequenos lanches precisavam ser dados enquanto permanecia deitado na cama. Quando começou a se cansar das frutas que vinha comendo no lugar das refeições, Pavel apareceu com morangos coreanos que havia conseguido sabe-se lá onde.
— Perguntei por aí e me disseram que o companheiro do presidente Baek adorava comer morangos quando estava grávido.
Pavel contou que havia ligado pessoalmente para Baek Doha, o presidente do Grupo Baek, para perguntar.
Depois de saber da gravidez de Hayul, Yoo Seolwoo, companheiro do presidente Baek, ficou tão feliz como se fosse uma notícia da própria família. Ele também havia passado seu contato, dizendo que estaria disposto a ajudar sempre que precisassem. Mesmo pelas fotos, ele parecia uma pessoa gentil e bondosa. E, pelo visto, era realmente muito atencioso.
Pavel sentou-se ao lado de Hayul e, depois de lavar uma cesta cheia de frutas vermelhas, suculentas, retirou pessoalmente os cabinhos dos morangos e começou a alimentá-lo. Hayul apenas abria a boca como um filhote de passarinho para receber os morangos e soltava pequenos suspiros de prazer. Eram doces, levemente azedinhos e deliciosos.
— Está delicioso.
— Consegue comer?
— Acho que consigo continuar comendo se for isso.
— Que bom.
Pavel sorriu e colocou mais um morango na boca de Hayul. Enquanto mastigava o morango doce e levemente azedinho, um pouco do suco escorreu pelo canto da boca, e Pavel o limpou com um lenço. Quanto mais comia, mais maravilhado ficava. Como podia existir uma fruta tão deliciosa?
Depois de tanto tempo, o apetite de Hayul finalmente voltou, e ele acabou comendo sozinho a cesta inteira de morangos que Pavel havia trazido. Assim que terminou os morangos, sentiu vontade de tomar um sorvete bem gelado.
— Traga sorvete.
Mal pediu e Pavel se levantou de um salto para buscar o sorvete de baunilha que Hayul mais gostava. Ele mesmo o alimentou com uma colher e limpou cuidadosamente o sorvete que escorria pelos cantos da boca. O aroma cítrico de Pavel, misturado ao cheiro de baunilha e morango, espalhava-se agradavelmente pelo ambiente.
Desde que Hayul engravidou, Pavel fazia absolutamente tudo o que ele pedia. Se, no meio da noite, Hayul dissesse que estava com vontade de um determinado sorvete, Pavel ia pessoalmente até o supermercado, que ficava a uma hora de carro, para comprá-lo.
E Hayul também passou a pedir, sem o menor constrangimento, coisas que normalmente teria vergonha até de mencionar. Por causa dos enjoos, estava extremamente sensível e não conseguia resistir quando tinha vontade de comer alguma coisa. Suas oscilações de humor eram tão extremas que, de repente, explodia de raiva e, pouco depois, já estava rindo. Às vezes ficava extremamente deprimido e passava longos períodos olhando fixamente pela janela. Outras vezes, estava assistindo TV e começava a chorar sem nem perceber.
Não havia outro jeito de dizer: estava completamente maluco. Todos os tipos de sintomas que jamais experimentara na vida vieram de uma vez. Nem mesmo Hayul entendia porque estava daquele jeito. Tão difícil quanto os enjoos eram essas oscilações de humor.
As empregadas que já haviam dado à luz o consolavam, dizendo que era assim mesmo durante a gravidez. Ele até já havia pensado na possibilidade de ter um filho, mas, se soubesse que seria tão difícil, teria desistido da ideia desde o começo.
— Você emagreceu tanto, em tão pouco tempo. Parece que vai quebrar.
Depois de alimentá-lo com o sorvete, Pavel olhou para a mão de Hayul, onde estava a agulha do soro, e murmurou com olhos preocupados. Mesmo que tivesse perdido um pouco de peso, seu pulso não estava a ponto de quebrar. Seu pulso continuava firme e saudável.
— Se eu soubesse que você sofreria tanto assim, não teria deixado você engravidar.
— Você acha que um bebê não teria sido concebido só porque você evitou?
— É verdade.
Como havia comido um pouco mais porque recuperara o apetite, a parte inferior do abdômen começou a doer. Quando Hayul franziu a testa e segurou a barriga, Pavel imediatamente começou a acariciá-la.
— Olhe só como sua barriga está redondinha. É triste ver você com dor… mas é fofo.
Ele parecia comovido ao ver Hayul sentindo dor, mas logo acrescentou:
— É uma gracinha.
Na realidade, sua barriga nem sequer estava saliente. Oleg e Pavel olhavam para a barriga de Hayul todos os dias e comemoravam, dizendo que o bebê estava maior naquele dia, mas, por enquanto, a barriga de Hayul continuava completamente plana. Como sempre, os dois faziam um tremendo alarde.
Talvez por causa do toque do pai, seu estômago embrulhado se acalmou instantaneamente. Será que aquele grão de feijão já sentia o toque do pai?
— Ei. Parece que o Jack gosta do seu toque. Minha barriga se acalmou.
Como o bebê na imagem do ultrassom parecia um grãozinho de feijão, Hayul dera a ele o apelido de Jack. Era o mesmo “Jack” da história de João e o Pé de Feijão. Assim como o pé de feijão de Jack, o bebê em seu ventre também estava crescendo rapidamente.
— É mesmo? Então vou ter que fazer carinho nele todos os dias. Jack, não dê muito trabalho para a mamãe e cresça forte e saudável.
Como se realmente entendesse a voz de Pavel, sua barriga se contraiu.
— Que incrível! Será que o Jack entende mesmo?
— Nosso bebê deve ser um gênio.
Era uma fala típica de pais completamente bobos pelo próprio filho. Hayul caiu na risada ao perceber o quão ridículos estavam sendo.
Ele, um ex-assassino das forças especiais que um dia fora chamado de “Anjo da Morte”, e Pavel Kirov, conhecido como “Cão Louco” e atuava nas sombras como o fiel cão de guarda do presidente russo, estavam tendo uma conversa daquelas.
O fato de haver uma criança crescendo dentro de sua barriga ainda era difícil de acreditar, mas ver Pavel acariciando seu ventre enquanto dizia aquelas coisas era uma verdadeira comédia. Como será que tudo aquilo tinha acontecido?
Na época em que atuava como atirador de elite sob o comando de Marco, Hayul jamais imaginara que teria um futuro assim. Imaginar que ele sofreria uma mutação e se tornaria um ômega, se casaria com um Alfa Real e ainda engravidaria… Se existisse um filme com uma história parecida, ele teria zombado, perguntando que tipo de fantasia absurda era aquela.
‘Aquele Alfa Real que eu odiara tanto, que acabei matando por puro desespero… Agora estava com o rosto repousado na minha barriga.’
— Acho que consigo ouvir o coração do nosso Jack.
Pavel sorriu amplamente, o rosto radiante. Para Hayul, aquele rosto não era o do Cão Louco dos Kirov, mas simplesmente o de um pai bobo e apaixonado pelo primeiro filho. Os olhos azuis de Pavel encararam diretamente Hayul, que o observava.
— Eu te amo, hyung.
Ele sussurrou languidamente, com um sorriso no rosto. A barriga de Hayul se contraiu mais uma vez. Seu coração também disparou de repente. Não era trapaça se declarar com aquela expressão enquanto descansava o rosto na barriga de outra pessoa? Pavel levantou cuidadosamente a mão de Hayul, onde a agulha do soro estava inserida, e beijou a parte interna do pulso dela.
— Obrigado. E me desculpe. Seria bom se um Alfa Real pudesse ter filhos. Por que alguém tão frágil quanto você precisa passar pela gravidez e pelo parto?
Pavel grávido e dando à luz? Hayul não conseguia nem imaginar. Não conseguia formular a imagem de Pavel sofrendo com enjoos e com a barriga crescendo. Além disso, embora Oleg e Pavel sempre tratassem Hayul como se ele fosse uma peça de cristal delicada demais, que poderia se quebrar com um simples toque, no departamento de obstetrícia do hospital não havia gestante tão robusta quanto ele. Mesmo entre os homens ômegas, a maioria tinha um porte pequeno e franzino.
— Você perdeu cinco quilos, mas ainda está saudável. Como sempre teve uma constituição muito resistente, não deverá ter problemas até o parto. Se fosse outro gestante ômega, provavelmente já teria sofrido um aborto espontâneo ou desenvolvido alguma doença grave.
Foi o que disse a médica obstetra que insistiu em atender Hayul assim que soube do primeiro caso de gravidez de um ômega mutante na Rússia.
— De quantas semanas está a gestação do seu cônjuge?
Certa vez, um ômega masculino sentado ao lado na sala de espera perguntou a Hayul. Pelo visto, presumira naturalmente que ele fosse um Alfa esperando pelo parceiro que estava grávido.
— Oito semanas. E sou eu quem está grávido.
Ao ouvir aquilo, tanto o homem quanto as outras gestantes que estavam na sala de espera ficaram completamente surpresas.
— Desculpe. É que você é tão robusto que presumi que fosse um Alfa.
Foi o pequeno incidente pelo qual o homem que fizera a pergunta acabou se desculpando.
— Você é tão pequeno e frágil, hyung. Como vai conseguir dar à luz sendo tão fraco? Eu nem posso dar à luz no seu lugar.
Diante de Hayul, que tinha um porte tão robusto a ponto de provocar aquele tipo de confusão, Pavel só conseguia sentir pena. Por um breve momento, parecia que seu estômago havia se acalmado, mas logo a náusea voltou. O momento de paz havia acabado. Quando Hayul começou a ter ânsias novamente, Pavel se levantou num salto e trouxe água com limão. Beber água gelada com limão ajudava um pouco quando ele sentia que ia vomitar.
Pavel observava inquieto enquanto Hayul bebia a água e voltava a engasgar. Seus olhos azuis transbordavam preocupação e carinho. Hayul se perguntava se existia algum Alfa Real no mundo que fosse capaz de olhar até mesmo para o próprio parceiro tendo ânsias daquela maneira, com uma expressão tão cheia de ternura.
Como Alfas Reais e Ômegas Reais geralmente se casavam por meio de casamentos arranjados destinados à reprodução da linhagem, a gravidez de uma Ômega Real era considerada uma obrigação natural. Se o Ômega Real escolhido como esposa não pudesse ter filhos, o Alfa Real costumava se divorciar e procurar outro parceiro. Um Ômega Real que fosse abandonado por não poder dar à luz acabava se tornando motivo de chacota para a sociedade.
Na relação contratual de um casamento arranjado, o Alfa Real era a parte dominante, enquanto o Ômega Real inevitavelmente permanecia na posição de submissão. Essa era a lógica daquele mundo. Uma regra de uma sociedade profundamente injusta.
Mas, na relação entre Pavel e Hayul, era Hayul quem estava na posição dominante. Como o relacionamento deles era baseado no amor, e não na conveniência, a questão de quem era dominante e quem era subordinado era irrelevante. Pavel amava Hayul loucamente e o tratava com um carinho quase obsessivo. E Hayul também amava Pavel. Por isso, Jack, que crescia em seu ventre, não era fruto de um contrato, mas a concretização do amor entre os dois.
Era isso que dava a Hayul forças para suportar aquele período terrível. Embora estivesse sofrendo como nunca, ele jamais culpou o bebê em sua barriga.
Talvez a gravidez tivesse despertado nele um instinto maternal repentino, mas tudo o que desejava era que o pequeno Jack, ainda do tamanho de um grão, crescesse forte e saudável e viesse ao mundo em segurança.
Para uma boa educação pré-natal, ele visitava exposições de arte com Viktor, ouvia música clássica e se esforçava para ver e ouvir apenas coisas belas e agradáveis. Hayul havia sepultado seu passado como assassino e queria mostrar apenas a beleza do mundo a Jack.
Com esse esforço, o tempo passou, e a barriga antes lisa de Hayul começou a crescer. Era engraçado ver que, embora seu corpo não tivesse um grama de gordura, apenas sua barriga se projetava. Pavel achava fofo e adorava tocar e acariciar aquela barriga protuberante.
Depois de alguns exames, descobriram que Jack era uma menina. Disseram que só seria possível saber se ela era uma Alfa Real ou não depois do nascimento, mas Oleg e Pavel disseram que isso não importava. Mesmo que ela tivesse uma constituição de Sub Beta como Hayul, uma criança da família Kirov jamais seria menosprezada.
Quanto mais a barriga crescia, mais pesado ficava o corpo de Hayul e mais desajeitado se tornava seu andar. As roupas que costumava usar já não serviam, mas Locke e as empregadas ficaram animadíssimos e começaram a providenciar todo tipo de roupa para gestante.
Oleg Kirov saía para a cidade todos os dias e voltava carregado de coisas para o bebê. Roupinhas, sapatos, carrinhos, brinquedos… Tudo se acumulava aos montes no quarto da criança. Assim, cercada pelas bênçãos de todos naquele belo castelo rodeado por uma floresta verdejante, a criança que estava prestes a nascer crescia forte e saudável dentro da barriga de Hayul.
Os terríveis enjoos continuaram até o sétimo mês de gravidez. Diziam que eles, normalmente, melhoravam depois do terceiro ou quarto mês, mas os enjoos de Hayul eram particularmente persistentes. Só quando a primavera e o verão passaram e o outono chegou foi que Hayul conseguiu voltar a ter uma vida normal.
Já havia chegado ao ponto em que nem as roupas conseguiam esconder sua barriga saliente, e seus movimentos haviam ficado mais lentos. Ainda assim, só o fato de os enjoos e a náuseas terem diminuído já fazia Hayul sentir que finalmente conseguia respirar.
Mesmo com a barriga enorme, ele passou a caminhar diariamente pela floresta e a sair de carro para acampar. É claro que viajar sozinho estava completamente fora de cogitação. Até para passear pela floresta perto do castelo, os seguranças o acompanhavam, e Pavel ou Oleg sempre permaneciam ao seu lado.
E, quando acampavam, não era simplesmente uma questão de montar uma barraca, estender um saco de dormir e passar a noite. Eles levavam uma autocaravana gigantesca. E, naturalmente, a autocaravana não havia sido alugada. Fora comprada. Assim que Hayul mencionou a ideia de acampar, Oleg apareceu com uma autocaravana que trazia até mesmo as palavras “Olga Jin Kirov” gravadas nela.
“Olga Jin Kirov” seria o nome da criança que estava prestes a nascer. Foi desejo de Pavel que o nome da criança levasse os sobrenomes de ambos. O padre da igreja disse que a regra era a criança receber o sobrenome do Alfa Real, mas Pavel insistira firmemente.
Embora Pavel e Hayul fossem ambos ateus, Oleg tinha sugerido que, já que haviam escolhido o nome da criança, seria melhor procurar um padre e receber uma bênção. Por isso, em um determinado dia, os dois foram juntos até a igreja ortodoxa da cidade. Assim que ouviu o nome da criança, o padre tentou impedir a decisão, dizendo que aquilo não era permitido.
— Quero que nossa filha tenha tanto o meu sobrenome quanto o do hyung. Quem vai dar à luz é ele, então seria injusto colocar apenas o meu sobrenome. E regras podem ser recriadas, não podem?
Diante da postura firme de Pavel, o padre não conseguiu mais contestar.
Então, um paroquiano idoso, conhecido por ser extremamente conservador, tomou a palavra:
— O jovem senhor da família Kirov pretende rejeitar até mesmo as próprias regras deste país?
— Se eu rejeitar regras mofadas, alguém vai me punir por isso? Ou o senhor pretende me punir?
O idoso ficou sem palavras. Apenas revirou os olhos e pigarreou. Quem ousaria punir o jovem herdeiro dos Kirov? Era uma família que possuía um poder absoluto, a ponto de nem mesmo o Estado poder facilmente tocar.
— Desafiando a vontade dos céus ao se casar com uma aberração como essa e ainda conceber uma criança imunda, além de quebrar as regras transmitidas por gerações… Vocês serão punidos pelos céus.
Mesmo assim, o velho acabou despejando maldições sobre Pavel e Hayul.
Se bem que, a regra sobre sobrenomes era insignificante diante de tudo aquilo. O próprio casamento de Pavel e Hayul já era ilegal. E o fato de um Alfa Real e um Sub Beta terem concebido uma criança também era.
Por ter vivido como um Sub Beta durante tanto tempo, Hayul conseguia entender por que o velho havia reagido daquela maneira. Para aqueles idosos, a união entre Hayul e Pavel devia parecer uma catástrofe capaz de fazer o céu e a terra desabarem. Hayul crescera ouvindo todo tipo de coisa carregada de ódio e desprezo, por isso não se importava. Mas Pavel, ao que parecia, não conseguia suportar aquilo.
— Hyung, saia por um momento.
Ele pediu a Hayul com a voz baixa e grave. Diante daquele pedido, Hayul não teve escolha senão se retirar.
Assim que Hayul saiu, Pavel liberou seus feromônios. Foram ouvidos sons de pessoas sufocando, angustiadas. Ele rosnou como uma fera enfurecida, dizendo que não toleraria mais insultos à sua esposa e à sua filha. Ele até suportava insultos dirigidos à ele, mas quando se tratava de Hayul, perdia a razão facilmente.
Depois disso, o padre e os anciãos da vila apareceram no castelo Kirov trazendo vinhos, peles, frutas e vegetais colhidos por eles mesmos. Até o velho que havia amaldiçoado Hayul, dizendo que sofreria punição divina, agora sorria e o abençoava: “Que a misericórdia e as bênçãos de Deus estejam com você.” E foi embora depois de lhe oferecer suas bênçãos.
Depois disso, continuaram aparecendo regularmente e convidando-os para ir à igreja nos fins de semana, mas, depois daquele episódio, Pavel e Hayul nunca mais foram à igreja.
A autocaravana chamada Olga Jin Kirov, batizada com o nome da criança que estava para nascer, parecia um pequeno quarto de hotel. Quando saíam para acampar, não podiam ir muito longe por causa dos riscos. Alugavam todo um camping próximo ao Lago Baikal e partiam para passar uma noite ali.
É claro que três equipes de segurança, formadas pelos mais habilidosos ex-integrantes das forças especiais, também os acompanharam. A autocaravana, por sua vez, também era um veículo blindado. Todos os veículos destinados exclusivamente aos membros da família Kirov eram blindados.
— Se acontecer alguma emergência, vai sair uma metralhadora do para-choque? Ou será que ele também lança mísseis?
Hayul perguntou brincando, mas Pavel reagiu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
— Segurança em primeiro lugar.
Enquanto falava com um sorriso no rosto, Pavel tinha uma pistola presa no coldre pendurado no peito, e uma submetralhadora estava instalada na parede do autocaravana, pronta para ser disparada a qualquer momento. Quando Hayul tentou se levantar, apertou por engano um botão embaixo do apoio de braço. Uma espécie de gaveta de metal deslizou para fora debaixo do assento. Era um arsenal com vários tipos de armas armazenadas. Hayul ficou estarrecido.
— Você espera que eu vá acampar com uma criança em um veículo como este?
— Não faz mal deixar tudo preparado com antecedência.
Uma autocaravana cheia de armas escondidas em todos os cantos. Era algo completamente diferente da ideia comum que Hayul tinha de um veículo de camping. Por mais que a segurança nunca seja demais, os homens da família Kirov exageravam. Diziam que, desde a chegada de Hayul ao castelo, a segurança ao redor fora reforçada e o número de guarda-costas aumentado. Não para os homens da família Kirov, mas exclusivamente para Hayul.
Só de imaginar quantos agentes de segurança seriam acrescentados quando Olga nascesse, Hayul já se sentia cansado.
‘Naquela altura, será que eles vão criar um exército particular só para Hayul e Olga, em vez de simplesmente uma equipe de segurança exclusiva?’
Pavel era perfeitamente capaz de fazer algo assim.
Como foi que acabei me envolvendo com uma família dessas?
Como foi que as coisas chegaram a esse ponto? Era apenas uma reclamação de alguém que tinha tudo e, ainda assim, não tinha resposta para a própria pergunta. Fosse como fosse, no fim das contas, quem havia escolhido Pavel tinha sido o próprio Hayul.
A paisagem do lado de fora da janela estava completamente vestida com as cores do outono. Árvores cobertas por folhas vermelhas e amarelas passavam rapidamente diante de seus olhos.
Era o primeiro outono que Hayul passava na Rússia. Quando chegou, odiou o país por causa do frio intenso e da neve, mas agora estava completamente adaptado. Diferente das grandes cidades americanas onde vivera, aqui era tranquilo, acolhedor e pacífico. Tudo fluía de maneira serena e lentamente. Se não fosse pelo inverno rigoroso, era realmente um lugar lindo e agradável.
— O tempo está ótimo.
Era um dia em que tudo estava perfeito. O sol brilhava, o vento era quente, as árvores estavam vestidas de vermelho e amarelo, e o céu era azul. Olga, dentro da barriga, também parecia estar de bom humor, pois se mexia vigorosamente. Mesmo quando ainda era do tamanho de um grão de feijão, seu coração já batia com força, e, conforme crescia, seus movimentos também ficavam mais ativos e vigorosos. Segundo sua mãe, Hayul também se mexia daquele jeito quando estava na barriga dela. Olga era igual.
Era uma tarde agradável, os enjoos haviam passado, com o estômago tranquilo e o humor leve Hayul sorria relaxadamente enquanto observava a paisagem pela janela do carro e acariciava a barriga protuberante.
Pavel estava tão exigente quanto antes no caminho para o acampamento, e continuou autoritário, recusando-se a deixar Hayul levantar sequer um dedo mesmo depois de chegarem ao destino.
— Não, hyung. Não carregue nada pesado. Sente-se e descanse.
Toda vez que Hayul tentava fazer alguma coisa, Pavel o impedia, dizendo para sentar e descansar. A barriga estava grande, mas seu corpo estava até mais leve do que no início da gravidez.
Sem outra opção, Hayul ficou largado dentro do autocaravana até Pavel chamá-lo para comer. Era o churrasco que Hayul queria tanto. Pavel arregaçou as mangas e assou a carne na grelha com habilidade. O cheiro da carne assando estava incrível.
Pavel colocou diante de Hayul a carne bem assada, os legumes e as linguiças. Como sempre, desde o início da gravidez, Hayul só precisava ficar sentado e aceitar a comida que recebia. Pavel observava satisfeito enquanto Hayul mastigava alegremente cada pedaço.
— E aí?
— Está delicioso.
— Coma bastante.
— Você não vai comer?
— Daqui a pouco.
Só depois de terminar de assar toda a carne foi que Pavel colocou sua própria porção num prato e se sentou ao lado de Hayul. Mesmo vestido de maneira mais esportiva, Pavel não perdia a elegância. A jaqueta corta-vento preta jogada displicentemente sobre o corpo chegava a parecer uma jaqueta de couro de alta qualidade.
Enquanto estavam assim, Pavel de repente disse:
— Ah, é mesmo.
Então colocou uma música para tocar no tablet. Uma música clássica para a educação pré-natal de Olga começou a preencher o ambiente. Os dois terminaram de comer enquanto ouviam uma sonata para piano de Chopin e, depois, tomaram café quente enquanto contemplavam o lago Baikal sob o pôr do sol avermelhado.
Hayul ficou por alguns instantes absorto diante daquela paisagem natural. A brisa suave era agradável, então Hayul fechou os olhos por um instante. Ouviu o som do vento. O barulho da água batendo suavemente, o canto dos pássaros, o chamado de algum animal desconhecido, o cheiro da lenha queimando e das folhas secas, o odor de água misturado ao aroma cítrico de Pavel — tudo se misturava e invadia suas narinas.
No instante em que reconheceu o cheiro de Pavel, Olga se mexeu dentro da barriga. Parecia estar feliz por sentir o cheiro do papai.
— Estou feliz.
Ao ouvir o sussurro baixo de Pavel, Hayul abriu os olhos. Pavel, que observava o lago, desviou o olhar e o fitou. Com olhos mais azuis que o lago, mais nítidos que o céu de outono, ele sorriu para Hayul.
— Estou tão feliz que parece um sonho. Na verdade, ainda tenho medo de que, quando eu acordar, você tenha desaparecido, hyung.
— Com esse corpo, eu nem conseguiria fugir.
Com uma barriga tão grande dessas, mesmo que tentasse fugir, até onde conseguiria chegar? Além disso, agora nem pensava mais em fugir. Ele havia se acostumado completamente àquela vida tranquila.
Pavel estendeu a mão e acariciou a bochecha de Hayul.
— Você é lindo, meu hyung.
— Com essa barriga, não pareço um girino?
Mesmo sendo seu próprio corpo, Hayul se sentia estranho toda vez que tomava banho e nem queria se olhar no espelho.
Pavel soltou uma risadinha.
— Mesmo parecendo um girino, você continua lindo.
Dizendo isso, Pavel aproximou o rosto e deu um beijinho na bochecha de Hayul.
— Eu não conseguiria viver um único dia sem você.
— Tá.
Quando Hayul respondeu com indiferença, os lábios de Pavel tocaram os seus. Os lábios se colaram firmemente. Pavel deslizou a língua pelos lábios de Hayul e sussurrou:
— Eu te amo.
Dessa vez, Hayul também murmurou displicentemente:
— Tá.
Dezenas de vezes por dia, Pavel sussurrava que amava, e responder a cada uma delas já estava ficando cansativo. Ele chupou o lábio inferior de Hayul e o soltou, insistindo:
— Você também me ama, hyung?
Quando Hayul não respondeu, Pavel mordeu seus lábios com mais força.
— Hm?
— Eu te amo. Eu disse que te amo. Já chega. Vamos fazer isso só uma vez por dia, combinado?
Enquanto Hayul resmungava irritado, Pavel abriu bem a boca e envolveu seus lábios. Havia um sorriso nos lábios de Pavel enquanto ele os beijava e sugava com avidez. Como fazia muito tempo que não trocavam um beijo tão apaixonado, Hayul logo ficou excitado. Os lábios de Pavel, que o sugavam, eram doces como mel. Até os feromônios que exalavam em sua respiração estavam docemente intensos.
Como Hayul havia passado sete meses sofrendo com os enjoos da gravidez, sexo estava fora de cogitação. Pavel também acabou sendo obrigado a passar por um período de abstinência. Hayul sequer sentia desejo sexual por causa dos enjoos, mas imaginava o quanto devia ter sido difícil para Pavel, um Alfa Real no auge da vida.
— Nhg, hm. Uhn.
Hayul gemeu suavemente e abraçou Pavel. Pavel, com os lábios ainda colados, acariciava cada parte do corpo de Hayul. Ele abriu o zíper da jaqueta de Hayul e enfiou a mão por dentro da roupa, acariciando sua pele nua. Cada lugar tocado pelas mãos de Pavel fazia Hayul estremecer. A mão de Pavel, que acariciava sua lateral, deslizou pela barriga protuberante de Hayul e depois subiu até o peito.
O mais estranho era que, com a gravidez, até seus mamilos haviam ficado inchados. Por ser homem, seu peito não chegou a aumentar de tamanho, mas os mamilos haviam crescido e adquirido uma coloração mais escura, tornando-se extremamente sensíveis. Chegava a arrepiá-lo só de o jato de água do banho tocar neles.
— Hm.
Como a ponta dos dedos roçou seu mamilo, Hayul estremeceu os ombros. Seu corpo inteiro tremeu diante do prazer vertiginoso. Com uma mão, Pavel acariciava sua barriga; com a outra, provocava seu mamilo.
Os lábios unidos não se separavam. Boca contra boca, colados firmemente, enquanto respirações quentes iam e vinham. Diante daquela sensação prazerosa que não experimentava havia tanto tempo, Hayul também sugava avidamente os lábios de Pavel. Então, como se estivesse faminto, começou a morder os lábios de Pavel. Pavel prendeu entre os dedos o mamilo que formigava mesmo ao ser tocado tão de leve e o esfregou.
— Ah, aaah. Ah!
O corpo de Hayul se arqueou violentamente, e um gemido escapou. Ao mesmo tempo, Olga, dentro de sua barriga, de repente deu um chute forte.
— Huff!
Foi um movimento tão intenso que lhe tirou o fôlego. Pavel também deve ter sentido os movimentos violentos de Olga, pois se sobressaltou, afastou os lábios e tirou a mão da barriga de Hayul. Mesmo depois disso, Olga continuou se mexendo, obrigando Hayul a ofegar, sem conseguir sequer respirar direito.
— Está bem. O papai não vai mais fazer isso. Desculpa.
Pavel ergueu as duas mãos como se estivesse se rendendo e pediu desculpas a Olga, dentro da barriga. Mesmo ofegando de dor, Hayul deixou escapar uma risadinha. Felizmente, os movimentos logo diminuíram e a paz voltou a reinar na barriga de Hayul.
Graças a Olga, os dois passaram uma noite comportada, apenas de mãos dadas. O céu noturno sobre o lago Baikal, observado enquanto se aqueciam diante da fogueira, era tão bonito que fazia escapar uma exclamação de admiração. Era uma paisagem maravilhosa que Hayul jamais esqueceria, nem mesmo no momento de sua morte.
Quando Hayul chegou ao nono mês de gravidez, o outono já havia passado e o inverno terrível voltara.
Neve.
Aquela neve irritante caía em abundância naquela noite de inverno cruelmente fria. Hayul abriu os olhos de repente ao sentir algo úmido escorrendo entre suas pernas. Ao se levantar e afastar o cobertor, viu que suas pernas estavam completamente molhadas.
‘Será que fiz xixi?’
Mesmo com o corpo pesado por causa da gravidez, fazer xixi na cama daquele jeito era demais. Surpreso e constrangido, Hayul se levantou depressa, tirou o lençol molhado, arrancou as roupas e começou a fazer uma pequena confusão.
Pavel não estava ao seu lado. Provavelmente estava trabalhando no escritório. Oleg Kirovv também estava na casa de um parente. Depois de tirar a calça e a cueca molhadas, sentiu um líquido quente escorrer novamente por trás
‘Está saindo por trás… Então não é urina. Será fluído?’
No instante em que pensou nisso, sua barriga se contorceu de repente. Hayul teve que agarrar a barriga e desabar no chão diante de uma dor aguda. Era uma dor tão intensa que nem conseguiu gritar.
Pálido como um fantasma, Hayul tremia enquanto apertava o botão de chamada ao lado da cama. Até Pavel e os empregados ouvirem o chamado e correrem para o quarto, Hayul teve de se arrastar pelo chão, coberto de suor frio.
— Hyung!
Pavel correu até Hayul e verificou seu estado.
— Você está bem? Por que está tão molhado entre as pernas? O que está acontecendo?
— A bolsa rompeu. Precisamos ir ao hospital, rápido!
Uma empregada de meia-idade, que já tinha experiência com gravidez e parto, reconheceu imediatamente o estado de Hayul e exclamou.
— Chamem uma ambulância.
— É mais rápido ir de carro do que esperar a ambulância.
Dizendo isso, Pavel ergueu Hayul nos braços e começou a correr. Hayul balançava desajeitadamente nos braços de Pavel, apenas ofegando.
Quando abriram os portões do castelo, uma rajada de neve entrou violentamente. O vento também estava forte. Um dos seguranças, avisado com antecedência, trouxe o carro até a frente do castelo, e Pavel colocou Hayul rapidamente no banco. Locke e a empregada de meia-idade também entraram no carro.
Durante o trajeto até o hospital, Hayul experimentou um verdadeiro inferno. A barriga se contorcia sem parar, acompanhada por uma dor como se estivessem enfiando uma faca dentro de seu abdômen. Parecia que ia morrer.
Não. Naquele momento, ele simplesmente queria morrer. Nunca havia sentido uma dor daquelas em toda a sua vida. Como já havia passado até mesmo pelos treinamentos infernais das forças especiais, Hayul tinha certeza de que conseguiria suportar a dor do parto. Mas aquilo não era uma dor que um ser humano pudesse suportar.
— Está tudo bem, está tudo bem, Sr. Jin. O senhor precisa aguentar.
A empregada continuava murmurando palavras de encorajamento, enquanto Pavel apertava firmemente a mão de Hayul ao seu lado.
— Hyung. Aguenta só mais um pouco. Por favor, aguenta só mais um pouco.
A mão de Pavel, que segurava a de Hayul, tremia levemente. Sua voz também tremia. O Cão Louco dos Kirov, que jamais se deixava perturbar em nenhuma situação, estava tremendo. Ele parecia tão angustiado que dava a impressão de estar sofrendo junto com Hayul, repetindo sem parar coisas como: “Está tudo bem. Está tudo bem. Vai ficar tudo bem”.
Os feromônios de Pavel fluíam para o corpo de Hayul através das mãos entrelaçadas. Cada vez que Hayul ofegava, o aroma dos feromônios de Pavel também penetrava suas narinas. Graças a isso, seu coração se acalmou um pouco. Ele não estava ansioso, só sentia uma dor capaz de fazê-lo desejar morrer.
O carro avançava pela estrada coberta pela neve, atravessando a vasta paisagem branca enquanto os flocos rodopiavam violentamente.Tudo ao redor era branco. Até mesmo a visão diante dos olhos de Hayul parecia ficar branca, acompanhando a paisagem do lado de fora. Então, em determinado momento, sua consciência se apagou.
— Jin. Jin! Hyung, chegamos.
Não demorou muito para que a voz desesperada de Pavel o trouxesse de volta à consciência. No instante em que voltou a consciência, a dor voltou com tudo, e Hayul mordeu os lábios com força, tremendo violentamente. Seu corpo balançou no ar. Pavel devia tê-lo carregado nos braços novamente, correndo. Assim que Pavel o deitou na cama, a equipe médica entrou correndo.
— A bolsa rompeu.
Hayul ouviu a voz da empregada e, em seguida, a voz de Natasha chamando por ele.
— Jin. Está me ouvindo? Eu vou cuidar para que seu bebê nasça direitinho, então não se preocupe.
O rosto de Natasha apareceu diante de seus olhos. Hayul, sem conseguir emitir um som, apenas balançou a cabeça.
— Vai ficar tudo bem. Eu te amo, hyung. Eu te amo.
Pavel permaneceu grudado ao lado da maca, repetindo várias vezes que o amava. Seus olhos azuis estavam úmidos.
‘Será que ele está chorando? O Pavel Kirvv, de todos os homens, está chorando?’
Hayul decidiu que precisava provocá-lo por causa disso mais tarde. Com esse pensamento, perdeu a consciência novamente.
***
Quando abriu os olhos novamente, viu o teto branco do quarto do hospital. Pavel estava ao seu lado. E, junto dele, estava também o rosto de Oleg Kirov. A dor terrível que sentira antes de perder a consciência havia desaparecido. Em seu lugar, restava uma dor leve na parte de baixo do abdome. Pelo menos era algo que conseguia suportar.
Pela agulha espetada em seu braço, parecia que havia passado por uma cesariana. Como a dor estava amortecida, provavelmente também tinha recebido anestesia. Embora tivesse aberto os olhos, Hayul ainda não estava totalmente consciente e apenas piscava, atordoado.
— Meu filho. Você sofreu tanto. Realmente passou por muita coisa.
Oleg Kirov acariciou a mão de Hayul enquanto derramava lágrimas.
— Obrigado, hyung. Obrigado por acordar em segurança.
Hayul olhou para Pavel e moveu os lábios ressecados com dificuldade para perguntar:
— E a Olga?
— Está bem. Nasceu perfeitamente saudável.
Assim que Pavel terminou de falar, Natasha apareceu diante de Hayul carregando um bebê pequeno nos braços.
— Olá, papai. Eu sou a Olga.
O bebê recém-nascido era tão pequeno e frágil. Era impressionante que, mesmo sendo tão pequena, já tivesse olhos, nariz e boca perfeitamente formados. A criança, que ainda não conseguia abrir os olhos, se remexeu enquanto fazia biquinho com os lábios minúsculos, como se estivesse dizendo: ‘Olá, papai?’
Natasha sorriu e colocou cuidadosamente o bebê nos braços de Hayul. Hayul também estendeu os braços e segurou aquela criaturinha tão pequena que praticamente não pesava nada.
‘Uma vida tão pequenina nasceu de dentro da minha barriga.’
Uma emoção profunda, impossível de expressar em palavras, tomou conta dele e apertou sua garganta. A ponta de seu nariz também ardeu. Sentimental como estava, Hayul se lembrou da mãe, que havia morrido há muito tempo, e também da infância que passara na favela.
Se sua mãe pudesse ouvi-lo, ele gostaria de dizer: “Obrigado por não ter desistido de mim e por ter me dado à luz. Como você pediu em seu leito de morte, eu sobrevivi até o fim e construí uma família.”
— Olá?
Ao cumprimentar a criança enquanto acariciava sua bochecha com o dedo, Olga se remexeu. Para sua vergonha, lágrimas se acumularam em seus olhos, e Hayul rapidamente fungou e enxugou o canto dos olhos.
***
O castelo Kirov, antes tão silencioso que parecia uma tumba, tornou-se um fervilhar de agitação. Agora, a senhora daquele castelo era a pequena Olga. Tudo passou a girar em torno dela.
Oleg Kirovv, que vivia fazendo drama, dizendo que em breve ia bater as botas, rejuvenesceu completamente. Dizia que precisava viver pelo menos até Olga se casar e passou a cuidar ainda mais da própria saúde. Não. Na verdade, ficou ainda mais vigoroso do que o próprio Hayul.
Como Hayul sempre tivera uma saúde excelente, sua recuperação após o parto também foi rápida. Olga também era extremamente saudável. Como havia nascido do corpo de uma mãe com uma constituição mutante, todos estavam preocupados, não apenas Hayul. Felizmente, a criança era saudável. Ela cresceu rapidamente sem nunca pegar um resfriado, mesmo no rigoroso inverno siberiano.
Logo depois de nascer, Olga tinha uma constituição de Sub Beta, assim como Hayul, mas, depois dos cem primeiros dias, começou a apresentar características de Alfa. Segundo Natasha, havia grandes chances de que, quando ficasse um pouco maior, a criança se tornasse uma Alfa Real. Hayul pensou que aquilo era uma coisa boa. Pelo menos a criança não seria uma Sub Beta como ele.
Na aconchegante sala de estar, onde a família estava reunida sobre confortáveis tapetes de pele, Olga permanecia deitada, agitando os braços e pernas curtas. Seus olhos eram de um azul intenso, iguais aos de Pavel, enquanto o formato dos olhos lembrava Hayul. Tinha uma aparência que parecia ser uma mistura de Pavel e Hayul de maneira igual, de modo que qualquer pessoa saberia, só de olhar, que ela era filha dos dois.
— Boô, aboooô!
— Isso, isso. É o vovô. Ouviu? Olga chamou o vovô.
Desde a época em que Hayul estava grávido de Olga, Oleg Kirov já era exageradamente empolgado, mas depois que a criança nasceu ficou ainda pior.
— Bôôô.
— Isso. O vovô está aqui!
Oleg, com seu corpanzil enorme, ficou de quatro e foi se aproximando de Olga, até chegar perto dela.
— Raaaawr!
Olga soltou uma gargalhada aguda, claramente adorando. Oleg também ficou ainda mais animado e, como um tigre, começou a andar de quatro ao redor de Olga, rugindo:
— Raaaawr! Raaaawr!
Era uma cena e tanto. Dava até pena não ter mais gente ali para assistir. Parece que nem o velho tigre Oleg Kirov conseguia resistir quando estava diante da netinha que tanto amava.
Os empregados que observavam a cena também caíram na risada. Hayul riu, e Pavel, sentado ao seu lado, também.
Do lado de fora, uma tempestade de neve castigava tudo, mas dentro do castelo reinavam apenas o calor e a paz. Aquela pequena criança havia trazido a primavera para um reino congelado pelo inverno. Tudo aquilo parecia um sonho.
Hayul estremeceu diante da felicidade que apertava seu peito. Estava feliz. Verdadeiramente feliz. Será que algum dia, em toda a sua vida, ele havia sido tão feliz assim? Sua vida havia sido passada correndo atrás da sobrevivência, atormentado pela pobreza, pela solidão e pelo medo.
Era algo que ela jamais poderia ter imaginado, nem mesmo quando ficava deitado no chão frio por horas, em emboscadas para assassinar alvos. Aqueles eram tempos desprovidos de esperança. Dias em que seu único objetivo era sobreviver. A solidão e o vazio que ocasionalmente a atingiam como uma onda gigante.
Pavel, que sorria enquanto observava Oleg brincar com Olga, passou um braço ao redor dos ombros de Hayul. Era uma mão quente. Uma mão grande e quente que sempre a envolvia com força.
Sentindo aquele calor, Hayul deu uma pequena risada.
Ele decidiu esquecer o passado e se concentrar no presente. Porque Pavel Kirov estaria ao seu lado até o último instante de sua vida.
Essa felicidade profunda estava destinada a durar para sempre.
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Fim…