Capítulo 01
🩸 Blood Poker 01
Era verdade o que Joy dissera sobre o guiding consumir a estamina de forma drástica. Ao retornar ao dormitório, Seunghyun desabou na cama logo após o banho, caindo em um sono profundo. Depois de passar metade do dia dormindo, havia uma mensagem de Jaeil em seu celular. Dizia que passaria para buscá-lo em algum momento e insistia para que ele comesse bastante.
Ele havia pulado o almoço de tanto dormir. Para não perder o horário do jantar, Seunghyun moveu o corpo com diligência.
O refeitório, além de vazio, emanava uma atmosfera sombria. Provavelmente era devido ao incidente de hoje.
Após se servir, Seunghyun sentou-se à mesa e, sem querer, acabou ficando apenas encarando a comida. Por causa do pedido para “comer muito”, ele se serviu de mais arroz do que o habitual, mas algo estava estranho. Ele se sentia ridículo por estar ali, olhando emburrado para os alimentos. Como podia não ter apetite diante de coisas tão gostosas?
Na verdade, era por causa da dor. O incômodo corpo estranho, que antes era ignorável e só surgia quando ele despertava, estava aumentando gradualmente. Agora, a região abaixo do apêndice xifoide estava pesada e com uma ardência latejante.
“Será que é indigestão?”
No entanto, a sensação era nitidamente diferente de uma queimação estomacal. Tudo o que ele havia comido foi o mingau leve que Jaeil preparara. A essa hora, a fome já deveria estar batendo, mas essa dor bizarra chegava antes do apetite. Ele ergueu os talheres para tentar comer ao menos um pouco. De repente, todo o seu abdômen latejou com um peso enorme.
— Hum…
Colocando a colher de volta na bandeja, Seunghyun massageou a barriga em movimentos circulares. Ele analisou a sensação detalhadamente. Parecia que uma massa viscosa, como uma água-viva, flutuava dentro de seu ventre. Não tinha pontas nem arestas afiadas, mas cada vez que colidia com a parede abdominal, causava uma dor latejante. Com o rosto rígido de desconforto, Seunghyun apenas rolava os olhos. Por ser um sintoma que experimentava pela primeira vez na vida, suas experiências passadas não ofereciam solução alguma.
A dor intensificava-se com o passar do tempo. O ciclo da dor tornou-se anormalmente rápido. O que fazer? Ele ponderava se deveria ir à farmácia quando o celular vibrou. Só havia uma pessoa que ligaria naquele horário, então Seunghyun esqueceu a dor por um momento e pegou o aparelho às pressas.
— Sim, Esper.
[Você está bem?]
Era uma pergunta por cortesia, então ele deveria apenas responder que sim.
— Ah…
Enquanto olhava fixamente para a bandeja, escolhendo as palavras, a dor subiu novamente. Por algum motivo, ao ouvir a voz do homem, o latejar parecia oscilar ainda mais.
— Minha barriga está um pouco… ah…
Um gemido acabou escapando de seus lábios.
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Talvez pelo grande incidente da ocorrência do Onycube, o refeitório estava deserto. Jungyeol, que estava na patrulha noturna, decidiu fazer uma refeição rápida por ali mesmo. Caminhando com uma postura desleixada e uma das mãos no bolso, ele foi até uma mesa e quase arremessou a bandeja sobre ela.
Com uma postura totalmente relaxada, enquanto mastigava uma colherada de arroz e um acompanhamento que parecia minimamente aceitável, um homem de pele muito clara entrou em seu campo de visão. Ele achou o rosto familiar e lembrou-se de tê-lo visto algumas vezes de longe. O nome era Ji Seunghyun? O Guia de classe A cujo índice de compatibilidade com Ha Jaeil era incrivelmente alto.
Mesmo com Jungyeol apoiando o queixo na mão e o observando fixamente, o homem não percebeu, talvez pela distância entre eles. Uma das sobrancelhas de Jungyeol arqueou ao ver a montanha de arroz na bandeja alheia. O rapaz não parecia alguém de muito apetite, o que era inesperado.
— …….
Jungyeol inclinou levemente a cabeça, apreciando as ações dele como se assistisse à TV. O arroz que ele mastigava trouxe um sabor adocicado. Ele pensou que o outro ia comer, mas parece que não. Enquanto Jungyeol engolia mais uma colherada, o homem apenas encarava a comida com as sobrancelhas franzidas.
Jungyeol arqueou as sobrancelhas para cima. Parecia que ele não estava se sentindo muito bem. De fato, tendo lidado com Ha Jaeil, que era conhecido por ser difícil de guiar, seria exaustivo para qualquer um que não tivesse uma estamina excepcional.
A propósito, como aquele sujeito conseguiu dar conta de Ha Jaeil? Rumores maldosos circulavam de que ele era um guia impotente e incapaz devido à sua origem. De repente, a curiosidade surgiu. Para um novato, apenas colocar a mão sobre o coração não seria o suficiente. E aquele bloco de gelo do Ha Jaeil certamente não transaria com ele… De qualquer forma, era óbvio que o garoto tinha um potencial considerável escondido.
Observando com olhos semicerrados o rosto prestes a se contorcer de dor, Jungyeol sentiu um súbito desejo lascivo. Tipos com aparência limpa como Ji Seunghyun eram ótimos porque reagiam exatamente conforme eram provocados. Por ter a pele clara, parecia fácil deixar marcas, e a linha do pescoço era bonita, parecendo ter uma “pegada” boa. Enquanto escaneava lentamente a silhueta de Ji Seunghyun, Jungyeol mordeu levemente o lábio inferior.
“Será que ele tem experiência com homens? Por que um cara desses tem que ser logo o encarregado do Ha Jaeil? Se fosse eu, usaria o guiding como desculpa para devorá-lo na hora.”
— …….
Ji Seunghyun não fazia ideia das fantasias que se passavam na mente de Jungyeol. A cabeça dele estava cheia de pensamentos depravados e explícitos. O tédio de antes transformou-se rapidamente em deleite. Jungyeol o observava como se o lambesse por inteiro. Ele o estudava obsessivamente para que, quando o dia de se cruzarem chegasse, pudesse colocar as mãos nele sem erros.
Massageando a barriga constantemente devido ao desconforto, Seunghyun pegou o celular. Após uma breve chamada com alguém, seu rosto ainda estava carregado de mal-estar. Cerca de cinco minutos depois, ele olhou com pesar para a bandeja quase intacta e se levantou.
Os olhos de Jungyeol, que ainda comia desinteressadamente com o queixo apoiado na mão, baixaram subitamente. Foi por causa de Seunghyun, que se agachou de repente, apoiando-se na mesa. Um suspiro baixo escapou de Jungyeol enquanto ele inclinava levemente a cabeça.
— Hum…
Não era apenas um problema de condicionamento físico?
Não havia nem dez pessoas no refeitório ao todo. Ninguém além de Jungyeol, que o vigiava, percebeu Seunghyun desabando silenciosamente. Pensando que era a oportunidade perfeita para ao menos tocar em sua mão, Jungyeol limpou a boca e se levantou. Seria ainda melhor se pudesse apalpá-lo aqui e ali sob o pretexto de verificar seu estado. Jungyeol era mestre em arquitetar esse tipo de coisa.
— Você está bem?
— ……?
Seunghyun, que gemia com o olhar baixo, ergueu a cabeça ao notar a presença. No momento, ele não conseguiu controlar sua expressão. Embora nunca tivessem se cumprimentado formalmente, ali estava Go Jungyeol, de quem ele ouvira falar até cansar através de Joy e Rowan.
O homem que eles descreviam como uma cobra, extremamente ardiloso e sombrio. Eles o avisaram tanto para ter cuidado, pois nunca se sabia quando iriam se encontrar, que ele quase podia ouvir as vozes deles agora. Seunghyun balançou a cabeça diante da gentileza de intenções incertas.
— Minha barriga dói um pouco, mas estou bem.
Fazendo força na mão apoiada na mesa para se levantar, Seunghyun acabou caindo sentado na cadeira novamente. Ele achou que era apenas dor abdominal, mas uma tontura repentina o atingiu, quase o fazendo cair.
— Sua cor não está boa. Se estiver difícil, quer que eu o ajude?
— Não. Obrigado.
— Ah, eu sou Go Jungyeol. Achei que devia me apresentar.
Jungyeol estendeu a mão. Ele deu um motivo difícil de recusar. Após olhar fixamente para a mão grande do homem, Seunghyun finalmente estendeu a sua. Ele julgou que seria melhor terminar logo com os cumprimentos.
— Sou Ji Seunghyun.
No entanto, Go Jungyeol não era um oponente fácil. Assim que Seunghyun estendeu a mão, a mão do homem se fechou sobre a dele, invadindo habilmente até o pulso. Seunghyun franziu a testa e encolheu os ombros. A intenção de acariciar suavemente a parte interna do pulso em vez das costas da mão era claramente impura, e o local do toque ardeu como se dezenas de agulhas o estivessem furando. Era uma dor estranha que ele nunca sentira antes. Jungyeol, não perdendo o momento em que Seunghyun tentou soltar a mão, agarrou-a novamente com força, exibindo uma expressão de extremo interesse.
— …Uau.
Quando Seunghyun demonstrou seu desagrado, ele finalmente relaxou a força voluntariamente, erguendo um dos cantos da boca de forma maliciosa.
— Só de segurar sua mão você já está guiando?
— …….
— Interessante.
O olhar de Seunghyun, que massageava o pulso com o rosto emburrado, de repente se voltou para trás de Jungyeol. Seu semblante sombrio iluminou-se instantaneamente. No entanto, embora tenha aberto a boca, Seunghyun não conseguiu emitir som algum. Ele apenas segurou a barriga diante de uma dor espasmódica.
A julgar pela expressão de Seunghyun, Jungyeol franziu a testa, pois era óbvio quem estava atrás dele. Ele se virou com um olhar desleixado. Sua previsão foi certeira. Ha Jaeil, com um rosto assustador como se fosse desferir um soco, o cumprimentou. Sua respiração estava pesada, como se tivesse vindo correndo.
— Bom dia. Subtenente.
A voz que pronunciava cada palavra como se as mastigasse era sinistra. O olhar que parecia já ter desferido vários golpes, mesmo sem ter erguido as mãos, era um bônus. Jungyeol, percebendo perfeitamente a ameaça implícita, ergueu o queixo com uma cara de injustiçado.
— Não faça essa cara. Alguém vai pensar que eu ia devorá-lo. Hein?
— …….
— A propósito, o serviço do seu Guia é impressionante…
Jungyeol tentava provocar Jaeil agora que o encontrara, mas Jaeil nem sequer o notou. Ele estendeu as mãos rapidamente para amparar Seunghyun, que o olhava desesperadamente antes de tombar para frente.
↫────☫────↬
Daniel, que viera após o chamado de Jaeil, tocou a testa de Seunghyun, que estava em seus braços, e segurou sua mão.
— Desde quando ele está assim?
— Não sei exatamente. Ele desmaiou assim que nos encontramos.
Daniel assentiu levemente e coçou o queixo. Após hesitar por um momento pensando no que fazer a seguir, ele estendeu as mãos para Jaeil.
— Me dê ele aqui.
— ……?
— Eu vou carregá-lo.
Jaeil piscou. No olhar voltado para as pontas dos dedos de Daniel, havia mais cautela do que estranheza.
— Por quê?
— Você não pode tocar no Seunghyun agora.
— ……?
— Apenas me dê. Eu explico no caminho para o hospital.
Sendo uma ordem médica, não havia como não obedecer. Sem esconder a expressão de relutância, Jaeil entregou Seunghyun a contragosto. Daniel, ao receber Seunghyun na mesma posição que Jaeil, logo declarou desistência.
— Ih, pesado. Vou ter que carregar nas costas.
Após deitá-lo no banco de trás, Daniel disse para irem ao hospital especializado em paranormais. Jaeil deu a partida imediatamente. Daniel, que suava frio por ter carregado Seunghyun sozinho, relaxou no banco do passageiro. Após espiar para trás para ver se Seunghyun estava bem, ele começou a explicação sem nem ter tempo para recuperar o fôlego.
— Ele tem dor abdominal, febre alta, mas as mãos estão frias.
— …….
— É um sintoma típico de intoxicação.
Jaeil, que dirigia, olhou de soslaio em silêncio.
— Normalmente, um guia deve purificar e devolver a energia que recebe, ou simplesmente deixá-la fluir. Mas colocar tanta energia em um corpo que nem sequer formou um dispositivo de purificação adequado… é inevitável que ele se encha de veneno.
— …….
— A energia costuma fluir naturalmente através do guia. Para purificar, é necessário treino para retê-la. Conseguir fazer isso em tão pouco tempo é, de qualquer forma, impressionante.
Diante das palavras de Daniel, Jaeil, que virava o volante, lançou uma pergunta hesitante:
— Por que não posso tocá-lo?
— Ah, é que ele acabou de aprender o guiding e vai acabar guiando contra a própria vontade, o que pioraria os sintomas. Além disso, a compatibilidade de vocês é tão alta que, quando ele estiver inconsciente, vai ser ainda pi… or…
O final da frase de Daniel foi perdendo força. A pergunta de Jaeil fora estranha. Daniel observou furtivamente a expressão de Jaeil. No rosto indiferente, não havia nada a ser lido.
— E então?
O tom de voz que apressava a continuação era, de alguma forma, frio.
— Vamos ao hospital, ele toma o antídoto e deve sofrer por uns dois dias. Está começando agora, então ele vai sentir bastante dor.
— …….
— Ele precisa aprender a criar o dispositivo de purificação ou aprender a deixar a energia fluir intencionalmente. Ele tem que dominar um dos dois antes de guiar novamente.
As pontas dos dedos de Daniel tamborilaram na alavanca de câmbio de Jaeil. Com 45%, Jaeil aguentaria até hoje, mas era um valor que precisaria de cuidados amanhã.
— Um guia de backup virá de Locan para dar suporte. Não será o mesmo que os gêmeos, mas não estamos em posição de escolher. Você entende o que quero dizer, Jaeil?
— …….
Ele nem esperava uma resposta. Daniel, considerando um alívio o fato de ele não ter se recusado terminantemente, voltou o olhar para fora da janela.
↫────☫────↬
O silêncio se instalou assim que a enfermeira que aplicou o antídoto saiu. Uma sombra caía sobre as costas do homem sentado imóvel à cabeceira de Seunghyun.
— …….
O olhar silencioso pairava sobre as bochechas, a ponte do nariz e a testa de Seunghyun, que mesmo dormindo parecia sentir dor, franzindo o cenho e respirando pesadamente. Jaeil tentou tocar o cabelo molhado de suor frio, mas lembrou-se das palavras de Daniel e recuou a mão.
Disseram que ele sofreria muito por estar com a estamina baixa e por ser sua primeira intoxicação. Também foi prescrita a restrição temporária de contato com Espers, já que ele estava absorvendo energia sem medida.
— …….
Ele o parabenizou pelo primeiro guiding. Jaeil podia imaginar Ji Seunghyun ficando desanimado. Apoiando o tronco no encosto da cadeira, Jaeil entrelaçou as próprias mãos. “Deveria ter parado no momento certo.” Por ter aceitado todos os seus mimos, acabou estragando as coisas. O arrependimento tardio o atingiu. Ele sentiu que ele mesmo agira com ganância por ser o primeiro guiding. Pensava ser racional, mas parece que se deixou levar novamente.
Foi quando Jaeil sentiu um aperto no peito e respirou fundo. Seunghyun, que estava deitado de barriga para cima, virou o corpo em direção a Jaeil. Sob as pálpebras que se ergueram lentamente, pupilas lânguidas se revelaram. O olhar turvo dirigiu-se imediatamente a Jaeil. Como se estivesse voltado para lá desde que estava de olhos fechados.
— …….
— …….
Assim que Seunghyun abriu a boca, Jaeil balançou a cabeça.
— Não pode.
Diante da recusa de Jaeil, os olhos de Seunghyun se arregalaram em um ritmo calmo e depois caíram melancolicamente.
— Por que não pode?
Umedecendo os lábios secos com a língua, Jaeil desviou o olhar e disse:
— Porque você está sofrendo.
Seunghyun tinha um rosto de quem não entendia absolutamente nada. Ele encarou Jaeil fixamente e balançou a cabeça.
— Não quero.
Ele estendeu a mão, soltando uma frase birrenta:
— Vem cá.
Por um momento, Jaeil quase se deixou levar pelo comando suave, mas não podia ceder. Firme em sua decisão, Jaeil colocou as mãos nos bolsos.
— …Apenas durma hoje.
— …….
A mão suspensa no ar tremeu pateticamente antes de se fechar em um punho. Ao mesmo tempo, Seunghyun fez um bico, prestes a chorar.
— Então só vou segurar sua mão.
— …….
Como Jaeil apenas o observava em silêncio, ele engoliu em seco, com a garganta apertada.
— Se nem isso puder… vou segurar só dois dedos.
— …….
Os olhos de Seunghyun estavam marejados.
— Então só as unhas.
— …….
A voz embargada saiu de forma dolorosa. Aquilo parecia algo visceral para ele.
Jaeil estava determinado a não ceder, não importa o que ele dissesse. Ji Seunghyun adoecera por tê-lo acolhido com mais pressa do que seu próprio ritmo permitia. Mesmo ofegando de dor agora, ele insistia teimosamente em guiar até a morte. Jaeil baixou o olhar. Ele não olhou para Seunghyun, focando apenas em suas pernas longas e esticadas.
Diante da atitude inabalável, Seunghyun inflou as bochechas, segurando o choro. No entanto, o limite chegou rápido e, tanto quanto ele reprimiu, as lágrimas transbordaram, molhando seu rosto rapidamente.
— Você é muito mau…
— …….
Talvez por estar com o corpo doente, a reação não foi violenta. Normalmente, ele teria se agarrado a ele independentemente da recusa, mas parecia que seu corpo estava realmente sofrendo.
Em compensação, sua boca continuava ativa, tagarelando sem cansar. Ele tentou persuadi-lo dizendo que o abraçaria várias vezes se ele chegasse perto, ou que pedia desculpas se tivesse feito algo errado. Quando isso não funcionou, ele não hesitou em lançar pragas: “Você é muito mau”, “Como alguém pode ser tão frio?”, “Acha que estou fazendo isso só por mim? Seu malvado. Idiota.” O “Ha Jaeil mais cruel do mundo”, segundo as palavras de Seunghyun, apenas ouvia tudo em silêncio. Ele não se abalou nem um pouco.
Após desabafar seu ressentimento contra Jaeil com uma voz fraca por um longo tempo, ele fechou os olhos, exausto.
— …….
Somente após ouvir a respiração regular, indicando que o remédio estava fazendo efeito, Jaeil desencostou do assento. Seu olhar fixou-se nos dedos pálidos estendidos sobre o lençol. Ele hesitou, temendo que até mesmo olhar pudesse prejudicá-lo.
“Porque você está sofrendo.”
Morder a parte interna da bochecha fez um suspiro profundo escapar de Jaeil. A mão que estava no bolso saiu e dirigiu-se à ponta dos dedos de Seunghyun. Jaeil roçou levemente sua unha na de Seunghyun.
Após as unhas se tocarem e se desencontrarem algumas vezes, o polegar e o indicador de Jaeil pressionaram firmemente uma articulação do dedo de Seunghyun e se afastaram lentamente.
↫────☫────↬
O sonho de Ji Seunghyun, em vez de cenas nítidas, era expresso por cores e imagens. Isso se devia ao fato de seu subconsciente apagar deliberadamente e desesperadamente as formas que tentava expressar. Uma noite azul próxima ao cinza. Esse era o tipo de sonho mais frequente de Seunghyun. Era apenas uma paisagem monótona com horizonte infinito, céu, nuvens e estrelas, mas ele acordava todas as manhãs limpando os olhos molhados.
Mesmo meses após a partida de Seok Jiwon, Seunghyun ainda tinha dificuldade em pronunciar seu nome e sofria ao lembrar das memórias com ele. O garoto que o pai de Seunghyun trouxera por não conseguir ignorar a piedade. Seok Jiwon, dois anos mais velho que Seunghyun, assumiu o papel de seu guardião após a morte do pai deste e tornou-se seu refúgio.
Ele era como um amigo para ser chamado de irmão, e tinha muitos lados sensíveis para se depender como um pai. Eles compartilharam a dor de perder entes queridos para os Ony e sobreviveram juntos ao árduo Distrito 13.
Seunghyun implorara, enterrando a testa no peito dele que esfriava:
“Irmão. Me leva com você.”
Seok Jiwon, que acariciou sua nuca até o último suspiro, acabou não concordando.
Seunghyun só percebeu plenamente quando as cinzas dele se espalharam pelo céu: Seok Jiwon, apesar de não terem o mesmo sangue, era sua família. No momento em que admitiu esse fato, Seunghyun foi tomado por uma dor imensa e indescritível. A tristeza de perder a família uma vez já era suficiente. Para alguém que tinha tão pouco, uma segunda vez era cruel demais. Ele não tinha mais nada para aguentar sozinho.
Foi por isso. Ele decidiu tratar as memórias dolorosas como pensamentos triviais. Decidiu agir como se nada importasse, como se nada fosse importante. E também colocou seu eu passado e impotente, que não pudera proteger quem amava, no fundo do seu subconsciente.
— …….
O olhar de Seunghyun, com a sensação de distanciamento ainda presente, voltou-se vagamente para o teto desconhecido. Onde seria ali? Mais do que curiosidade, as imagens que acabaram de vasculhar sua mente o preocupavam.
No sonho da noite azul que Seunghyun costumava ter, não havia vida. Mas desta vez, a imagem estava muito estranha. Havia um homem olhando silenciosamente para o céu noturno em uma vasta planície. Suas costas largas e sua grande estatura eram impressionantes. Assim que a ideia de que ele se parecia com alguém passou por sua mente, seu ventre latejou de dor.
— Ah…!
Um gemido escapou involuntariamente. Encolhendo o corpo e segurando o abdômen, Seunghyun sofreu por um longo tempo. Ele costumava aguentar bem a dor, mas parecia que sua mente e corpo haviam relaxado com a vida confortável contínua. Respirando de forma áspera e ofegante, Seunghyun reconstruiu a situação de pouco antes de perder a consciência.
Desmaiou na frente dele de novo. Ele já mostrara tantos lados feios que nem se surpreendia mais.
— …….
Na verdade, era um problema o fato de ele se sentir aliviado por ter sido com ele. Graças à dor que não era contínua, Seunghyun conseguiu recuperar a consciência e se levantou com dificuldade. Olhando ao redor, parecia ser um hospital, mas o espaço amplo e as instalações luxuosas para uma pessoa só eram estranhos.
Ele viu o celular sobre o criado-mudo. Ao estender a mão, o olhar de Seunghyun fixou-se nas costas de sua própria mão. Seguindo o cateter, seus olhos observaram por alguns segundos o soro de composição desconhecida.
Baixando o olhar, Seunghyun verificou a hora primeiro. Já era manhã e o horário de trabalho havia passado há muito tempo. Havia mensagens de Joy e Daniel, mas ele queria entrar em contato com o homem primeiro. Seunghyun mudou de ideia sobre ligar e abriu a janela de mensagens. Ele não queria interromper Jaeil, caso ele estivesse treinando ou ocupado.
[Eu lhe causei problemas novamente. Obrigado.]
Em menos de um minuto após apertar o botão de enviar, o celular vibrou em sua mão. Ele se assustou e ficou olhando para o nome “Ha Jaeil” antes de atender a chamada.
— Sim. É o Ji Seunghyun.
[Você está bem?]
— Sim. Estou bem. Minha barriga dói, mas estou melhor que ontem.
Ouviu-se um suspiro do outro lado da linha.
— Desculpe. Eu não sou tão fraco assim.
[…É mesmo?]
Pelo tom de voz, ele parecia não acreditar.
[O médico dirá a você, mas ele disse que dói porque a energia não conseguiu sair e se acumulou no seu corpo.]
— …Ah.
Então a sensação viscosa na barriga era por causa da energia que recebeu do homem. Saber que havia um motivo para as sensações que ele não conseguia interpretar e que o deixavam confuso o deixou, na verdade, aliviado. Seunghyun assentiu.
[Parece que o guiding ainda é demais para você. Desta vez, como a situação era urgente, parece que todos forçaram a barra, mas você não precisa mais fazer isso daqui para frente.]
Então, agora que Rowan também não está aqui, quem vai guiar Ha Jaeil? Seunghyun, que ouvia as palavras do homem em silêncio, piscou. Embora ele provavelmente não quisesse dizer isso, as palavras do homem soaram como uma rejeição, trazendo uma onda de tristeza.
— Mas…
Seunghyun não percebeu que estava sendo teimoso novamente, sem pensar em seu próprio corpo.
— Eu… quero fazer.
Diante da voz carregada de melancolia, a voz do homem soou um pouco depois.
[Eu sei.]
— …….
[Como essa é a prescrição médica, espero que você se recupere primeiro.]
“Não guiar?” Ele achou que finalmente estava sendo útil, mas perdeu as forças. Como não havia ninguém olhando, ele deixou transparecer seu rosto desanimado. Seu olhar murcho vagava pelo chão. Então, como se lembrasse de algo, seus olhos brilharam.
— O Esper está bem?
Desta vez, a resposta não veio imediatamente. Seunghyun massageou a barriga que ainda latejava enquanto segurava o celular no ouvido. Ele estava pronto para perguntar os valores se ele dissesse que estava bem. Uma voz baixa fluiu pelo telefone até seu ouvido.
[Por enquanto, seria melhor se você não se preocupasse comigo.]
Era uma sensação estranha, como se ele o estivesse confortando, mas ao mesmo tempo estabelecendo um limite.
— …….
O sentimento de não conseguir dizer que faria isso também era estranho. Enquanto Seunghyun hesitava, a porta do quarto se abriu e a equipe médica entrou. Seunghyun anunciou a visita deles em vez de responder.
— O médico chegou. Preciso desligar.
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Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna