Capítulo 43
Daisy e Maxim não trocaram uma única palavra durante toda a viagem de carruagem.
O silêncio era sufocante. Daisy manteve deliberadamente o olhar fixo na paisagem que passava rapidamente pela janela. Mas sempre que olhava de volta, inevitavelmente encontrava os olhos de Maxim, que pareciam magneticamente atraídos por ela.
‘Por que ele fica me encarando? Tem algo errado com a minha aparência?’
Ela verificou o próprio reflexo no vidro da janela. Considerando o pouco sono que teve ultimamente, sua maquiagem estava surpreendentemente boa — até lhe dando uma qualidade delicada, quase etérea.
‘Será que está, justamente agora, sentindo um súbito remorso?’
Que desprezível. Só de olhar para ele, sentia uma irritação inexplicável. Se tinha algo a dizer, por que não falava logo?
Maxim finalmente falou quando chegaram ao Palácio Real.
— Você está usando eles. Gostou?
— O que?
— Os sapatos.
— Ah… sim. — Daisy respondeu sem entusiasmo.
— São lindos. —O elogio a pegou de surpresa. — Combinam perfeitamente com você.
— Obrigada.
Os sapatos não têm culpa. Daisy deu uma resposta automática.
A celebração de boas-vindas foi realizada no grande salão de baile do Palácio Anexo.
Ao chegar, Maxim primeiro se desculpou, explicando que tinha muitas figuras da realeza para cumprimentar, antes de desaparecer na multidão. Daisy naturalmente acompanhou a tia, atuando como guia.
É absolutamente deslumbrante.
🌸🌸🌸
O palácio parecia um mundo completamente diferente. Quem diria que um dia ela pisaria nesses corredores? Vinte e três anos de vida não eram muito, mas, como dizem, é preciso viver para realmente entender. Esse ditado se mostrou verdadeiro.
É só uma casa. Precisa mesmo ser tão enorme?
Mesmo no enorme quarto principal, Daisy usava apenas um canto, espaço suficiente para se deitar. Claro, ultimamente, com Maxim ficando fora com tanta frequência, ela vinha se esparramando pela cama inteira, rolando como bem entendia.
— O Palácio Real não mudou nada, — observou a tia. — Tudo parece exatamente igual.
— Faz algum tempo desde sua última visita, não é?
— Acho que faz quase dez anos. Na época em que o falecido Grão-Duque ainda estava vivo, Sua Majestade costumava nos oferecer hospedagem durante aquelas longas temporadas de caça.
Diziam que os olhos dos idosos brilhavam mais intensamente quando relembravam as glórias passadas. Era a primeira vez que Daisy via sua tia parecer genuinamente feliz.
Enquanto isso, Daisy permanecia profundamente irritada, especialmente depois de reencontrar Maxim após tanto tempo.
‘Mesmo que estejamos nos divorciando, ele não deveria pelo menos explicar onde anda passando as noites? É o mínimo de educação com alguém que divide a casa.’
Como ele podia se dizer alta nobreza sem ter o mínimo de decência? Qual era o sentido de todos aqueles cumprimentos vazios e formalidades ocas?
E teve a audácia de comentar o quanto os sapatos combinavam com ela.
Ainda assim, Daisy era profissional. Embora se aproximando da aposentadoria, estava atualmente de serviço e não podia deixar sentimentos pessoais afetarem seu desempenho.
Pelo menos a tia está feliz. Isso é o que importa.
Daisy pretendia suportar o tempo que lhe restava em Waldeck, servindo à tia que finalmente havia ficado ao seu lado.
Que adorável.
Depois de uma década ausente, a tia retornava ao palácio para uma ocasião tão gloriosa. O quanto ela devia estar orgulhosa. Orgulho importava para a nobreza, então Daisy sorriu calorosamente para a tia, cujo rosto brilhava de satisfação.
‘Ela está tão animada. Como uma criança em uma loja de doces.’
Antes do retorno de Maxim, Daisy percebeu que as reclamações da tia provavelmente vinham da solidão.
— Honestamente, não reconheço uma alma, — lamentou a senhora viúva, observando a multidão da alta sociedade. — Devo estar ficando velha.
‘Já que cheguei até aqui, posso muito bem agradar essa mulher solitária.’
— E daí se a senhora não conhece ninguém? — disse Daisy em voz alta. — Pode passar o tempo comigo. Vou ficar ao seu lado e acompanhá-la com toda dedicação.
— Que bobagem,— retrucou a senhora. — Que diversão há em ficar com uma velha? Você deveria se misturar com os outros. É assim que se garante o futuro.
— Mas eu também não conheço ninguém, — protestou Daisy.
— Você não mencionou que seu pai estaria presente?
Verdade. O Conde Thereze certamente estaria ali. Havia se esquecido. Ao se dar conta, Daisy sentiu a cabeça latejar.
— Não sou muito próxima do meu pai, — disse cuidadosamente. — Ele geralmente me repreende sempre que nos encontramos.
— Eu não faço o mesmo? — respondeu a tia, divertida.
— Mas tudo o que a senhora diz é para o meu bem. As broncas do meu pai… não são nem de longe tão valiosas quanto seus conselhos.
— Você certamente melhorou na arte da bajulação, — provocou a viúva. — Embora isso me deixe um pouco melancólica, — continuou ela. — Me faz sentir uma relíquia esquecida.
— Mas a senhora não é a pessoa de mais alta posição aqui?
— Menina, não diga coisas tão perigosas! Este é o Palácio Real, há anciãos reais presentes. —A viúva fez um gesto displicente, e Daisy se inclinou, falando em tom conspiratório.
— Então, excluindo a Família Real, a Casa Grã-Ducal é a de posição mais alta entre a nobreza, certo? E dentro da nossa casa, a senhora está acima de mim, correto?
— Bem, naturalmente. — respondeu a viúva.
— Portanto, para mim, a senhora é a pessoa mais distinta aqui.
— Ah, pare com essas bobagens, Daisy, — repreendeu, embora o canto de sua boca se tremesse, mal contendo o prazer. Ela estava claramente encantada, mas mantinha a aparência de desaprovação.
Naquele momento, uma mulher com uma roupa ostentosa se aproximou do outro lado do salão. A julgar por sua atitude, ela pretendia agir com familiaridade com elas.
— A senhora conhece ela? — perguntou Daisy em voz baixa.
— Não. Já faz tanto tempo desde que estive na capital. Não reconheço ninguém, — admitiu a viúva, visivelmente desconcertada.
A mulher estava vestida de forma elaborada demais para uma dama nobre adequada, provavelmente uma jovem que não fazia parte da alta sociedade há uma década.
— Lady Gladys, — sussurrou Daisy rapidamente. — Ela é a amante do Conde McCarthy e anfitriã do salão mais badalado atualmente. Gosta de fingir familiaridade com todo mundo, então apenas a cumprimente educadamente.
— O quê? — a tia sussurrou de volta, assustada. Antes que pudessem discutir mais, Lady Gladys chegou até elas.
— Parabéns, Vossa Graça, pela magnífica vitória do Grão-Duque.
A viúva e Daisy sorriram graciosamente, como se nada tivesse acontecido.
— Ouvi dizer que as damas de Waldeck vieram à capital. Que honra conhecê-las pessoalmente.
— O prazer é nosso, Lady Gladys.
— Minha nossa, a senhora me conhece? — Lady Gladys pareceu genuinamente surpresa.
— A reputação do seu salão chegou até Waldeck. Como não conheceria?
A viúva havia recuperado rapidamente sua compostura e elegância natural.
Daisy sentiu satisfação por ajudar a restaurar a confiança da tia. Lady Gladys trocou mais algumas gentilezas antes de se despedir para buscar champanhe.
— Impressionante, Daisy. Como você sabe dessas coisas? — A viúva parecia admirada.
— Eu estudei antes para me preparar para esta noite.
— Você estudou?
— É sempre bom estar informada caso surjam situações inesperadas.
Rose, furiosa porque Daisy não tinha conseguido nem sequer seduzir Maxim direito, havia obtido perfis detalhados das mulheres na lista de rivais. Daisy havia memorizado cada detalhe e, já que estava nisso, também adquiriu e estudou perfis das principais figuras da alta sociedade.
Claro, isso tudo foi antes de Maxim von Waldeck se revelar o adúltero sem-vergonha que aparentemente era.
— Na verdade, tem algo que eu queria perguntar, — disse Daisy, hesitante.
— Sim?
— Se Max… se envolvesse com outra mulher, qual seria a melhor forma de eu reagir?
A viúva ficou em silêncio, claramente surpresa com a pergunta abrupta.
‘Fui direta demais? Não quis chocá-la, mas estou realmente curiosa.’
— Não há necessidade de se preocupar com essas coisas antecipadamente, — disse a tia finalmente. — Não acredito que isso aconteça tão cedo.
— Como assim? — perguntou Daisy, confusa.
— Olhe ali.
Daisy seguiu o olhar da tia e encontrou Maxim encarando diretamente para ela do outro lado do salão. Assustada, desviou rapidamente o olhar.
— Ele não consegue tirar os olhos de você. Isso tornaria bem difícil correr atrás de outra pessoa, não acha? — observou a viúva casualmente.
— Eu… não saberia dizer, — respondeu Daisy.
Ela fala com tanta naturalidade porque não conhece a história toda.
Um sentimento amargo surgiu dentro dela, mas não queria estragar o agradável clima da noite.
‘Por que ele continua encarando? Está preocupado que eu faça alguma cena?’
Bem, seja lá o que aquele canalha estivesse pensando, que diferença isso faz agora? Daisy decidiu não pensar mais nisso.
Continua…
Tradução e Revisão: Elisa Erzet