⌀ — Capítulo 1.1
↫─Capítulo 1.1 – Depois
[Que tal o Tennessee vir junto também? Se for cansativo demais viajar até Michigan, eu entendo.]
Amber observava Tennessee, que parecia o tipo de homem que conseguiria viver muito bem a vida sem qualquer problema enquanto limpava uma arma, e então voltou a atenção para o celular.
[Se você não vier, seu pai pode chorar.]
— …
Após pensar um pouco, Amber começou a digitar uma mensagem.
[Elizabeth. …Eu tenho um parceiro agora.]
Bzzzz-
Assim que enviou a mensagem, seu celular tocou com urgência. Amber foi rapidamente para o banheiro, sem notar o olhar de Tennessee que o seguia.
Os pais adotivos de Amber. Para Tennessee, Elizabeth e David eram apenas isso. Ele não tinha sentimentos específicos por eles. Por fora, eram bons pais e cidadãos decentes, mas Tennessee fundamentalmente não confiava nas pessoas.
Conhecendo a coleção de pornografia infantil de um clérigo respeitado e os desvios sexuais de um bilionário autoleito que doava centenas de milhões, Tennessee achava que qualquer um poderia se tornar assim.
Para ele, pessoas boas eram bastante incômodas. Ele preferia aqueles que eram abertamente babacas. No entanto, os pais adotivos de Amber eram o epítome de cidadãos decentes, então toda vez que chegava perto deles, sentia uma rejeição contra aquela santidade e retidão.
Apesar do desconforto, se não fossem cidadãos cumpridores da lei, Tennessee talvez já tivesse tirado a vida deles.
— Bem-vindos.
Elizabeth abriu a porta e os cumprimentou calorosamente.
Au, au!
Os cachorros, ao avistarem Tennessee, correram até ele. Amber, que saiu tentando segurá-los, cumprimentou com um aceno de cabeça. Tennessee também acenou para a família reunida à porta.
Ele estava disposto a levar um tiro se necessário, mas, ao menos na visão de Tennessee, Elizabeth e David não carregavam uma pistola na mão.
Tennessee achava que o motivo de não ter sido processado imediatamente era porque eles sabiam que o relacionamento começara com a investida de Amber, e seu palpite estava quase todo certo. Eles há muito compreendiam que Amber era quem estava na posição vulnerável da relação.
Quando Amber revelou sua identidade sexual para a família, ele deu a entender seus sentimentos por Tennessee. Elizabeth sabia o quanto Amber confiava e se importava com Tennessee. No entanto, quando recebeu a mensagem recente,
[Elizabeth. …Eu tenho um parceiro agora.]
[Fico feliz que esteja feliz. Quem é?]
[Tennessee.]
Ela sentiu tanto a alegria de ver aquela paixão de longa data finalmente dar frutos quanto preocupação.
Elizabeth e David viam Tennessee como “o benfeitor que conectou Amber à família Daxley e alguém que faz um trabalho perigoso”, e um ponto de interrogação surgiu sobre a cabeça deles.
Por isso, queriam ter certeza de que seu filho jovem não estava sendo manipulado, sofrendo lavagem cerebral ou recebendo um tratamento injusto e, mesmo que Tennessee pudesse ver através deles, ele decidiu fazer o seu papel.
— É uma foto bonita.
Tennessee falou gentilmente, olhando para uma foto exibida em um porta-retratos digital.
— É do Natal?
Embora não tivesse obrigação alguma, Tennessee decidiu usar todo o seu charme. Ele não queria arruinar um relacionamento que poderia ser tranquilo com um pouco de esforço por causa de algum desconforto. E sentia que devia isso àqueles que criaram Amber daquela forma.
— Sim, uma das nossas tradições de família é…
— …pendurar os enfeites inquebráveis juntos. O Amber me contou.
A foto do porta-retratos digital mudou para a árvore. Olhando para a árvore decorada com vidros e plásticos coloridos, enfeites comemorativos caros e os desenhos tortos de Cody, Tennessee sorriu. Foi um esforço consciente, mas a curva suave dos lábios do belo jovem parecia natural.
— Parecia uma tradição muito significativa para o Amber. Ele falava disso com frequência.
“Sério?” David, que sabia que Amber era indiferente e desatento com todos, exceto com Tennessee, arregalou os olhos.
— Nós conversamos bastante. Soube que vocês foram em uma viagem em família para a Flórida.
Assim que a conversa começou, David, que já havia baixado a guarda, começou a pegar o uísque.
Embora não demonstrasse com frequência, Tennessee conseguia ver que o pilar da vida de Amber eram seus pais, e não apenas um mero parceiro, e David parecia satisfeito, mesmo enquanto acenava com a mão em negação.
— Você bebe com frequência?
— Não, tomo uma cerveja de vez em quando, mas não gosto particularmente.
Amber já havia ultrapassado há muito tempo um metro e oitenta de altura e era um filho orgulhoso e independente para eles, mas Tennessee não conseguia afastar a sensação de que estava sendo tratado como um genro prestes a se casar com a filha caçula deles.
— O que o David disse?
Quando Tennessee saiu do banheiro, Amber estava parado ali. Ele tinha corrido enquanto preparava espaguete com almôndegas com Elizabeth.
— Nada.
— E a Elizabeth?
— Ainda nada.
— Desculpe, eu não sabia que eles ficariam tão tensos.
— Não importa.
Embora Tennessee visitasse a casa de Amber ocasionalmente, era a primeira vez que era convidado formalmente e olhava ao redor do local.
Sob a varanda coberta, onde a luz do sol entrava brilhante, havia um sofá confortável com sinais de uso. O batente da porta que conectava a varanda à sala de estar tinha marcas claras de arranhões de garras de cachorro e linhas horizontais. Era onde as alturas de Annie e Cody eram marcadas conforme eles cresciam.
Os dedos de Tennessee traçaram as marcas ásperas e fundas. Em meio à caligrafia desordenada das crianças, uma escrita pequena e organizada se destacava.
-R. A. Daxley. Abençoou nossa lar com sua presença-
De repente, Tennessee pensou que a felicidade que ele e Amber tanto desejavam poderia ser algo assim.
── ⋆⋅☆⋅⋆ ──
Embora seu corpo não estivesse totalmente curado, Tennessee saía com frequência sob o pretexto de que suas pernas estavam bem. Se ele estivesse saindo para caminhar ou fazer compras, Amber não ficaria tão agitado.
Mas Tennessee tinha arrumado o cabelo com dedicação excessiva e estava vestindo um terno depois de muito tempo. Embora fosse bom ver seu belo parceiro, não era agradável que ele não mostrasse aquele visual para ele e continuasse saindo sem dizer uma palavra.
— Onde você vai?
As palavras implícitas eram: “Em um dia tão bonito, por que não passar um tempo comigo? Por que está me deixando sozinho e indo a algum lugar sem dizer nada?”.
— Empresa de defesa.
— Por quê?
— A trabalho.
— Trabalho?
A expressão de Amber se contorceu. Aquele homem estava possuído por um fantasma do dinheiro? Ele tinha bastante dinheiro e não gastava muito, então por que estava trabalhando tanto? Se esperasse alguns anos, Amber cuidaria dele e o sustentaria. Por que não ficar em casa?
Ou ele realmente estava indo trabalhar?
A expressão de Amber mudou de inúmeras formas.
— O que é isso na sua mão?
Tennessee carregava uma maleta na mão esquerda. Apesar do questionamento persistente, Tennessee respondeu concisamente.
— Documentos.
— Que horas você volta?
— Às três.
Eram onze da manhã agora. Às três, eles nem poderiam almoçar juntos.
— E depois? Você vai ficar em casa depois disso?
— Vou.
Inconscientemente, Amber tentou encontrar sinais de mentira em Tennessee. Tennessee parecia tão bonito como sempre, encarando Amber com uma expressão fria. Como se perguntasse se havia mais alguma questão.
Mesmo sabendo que era um pavor irracional, Amber sentia o medo de que Tennessee pudesse ir embora de repente e nunca mais voltar.
Tennessee não precisava de muito para partir. Provavelmente apenas uma arma, as chaves do carro e algum dinheiro. Ele poderia facilmente deixar para trás coisas com histórias ou pessoas como ele.
Ele se lembrou de voltar para uma casa vazia em Chicago um dia.
— Não vá.
“Ou me leve com você.”
Amber pensou que poderia parecer um tolo, mas não se importava. Era melhor ser visto como um garoto tolo do que ver Tennessee ir embora.
Um momento de silêncio caiu logo em frente à entrada. Checando a hora, Tennessee olhou para Amber, visivelmente tenso, e pegou o celular. Então fez uma ligação. Escutando em silêncio, os ouvidos de Amber captaram uma palavra de forma particularmente alta.
— Surgiu um imprevisto hoje, então não poderei ir.
A expressão de Amber se iluminou.
Encerrando a ligação de forma sucinta, Tennessee colocou a maleta no chão e começou a tirar o terno camada por camada. Ele não vai! Uma flor desabrochou no rosto de Amber.
— Vista-se também. Vamos sair.
Tennessee, agora sem camisa, mudou para um moletom. Amber não entendia, mas estava feliz por estar com Tennessee. A ansiedade avassaladora que o invadira momentos antes se dissipou. A fera dentro de Amber se contorceu em confusão e depois se sentou. Mas suas presas continuavam intactas.
Após confirmar que Tennessee se sentara no banco do motorista, Amber afivelou o cinto de segurança.
— Aonde vamos?
— Abrigo de animais.
— …?
De repente, dezenas de perguntas surgiram, mas Amber as guardou para si por enquanto.
— Vamos parar para pegar algo para beber no caminho.
Amber pensou em um drive-thru, mas Tennessee parou em um drive-in. Havia um espaço interno, mas era possível estacionar e comer dentro do carro se quisesse. Quando morava em Michigan, Amber visitava redes de drive-in com frequência. Ele esteve em algumas com Tennessee também.
Naquela época, Tennessee, que ficava a maior parte do tempo no exterior, tirava férias, então tinha muito o que fazer nos Estados Unidos, mas nunca apressava Amber. Quando Amber lhe oferecia um pedaço de sua comida, ele experimentava.
Olhando para trás, era uma lembrança carinhosa. A recordação emergiu silenciosamente.
Eles pediram cola, burritos e batatas com chili. O olhar de Tennessee pousou brevemente sobre Amber, que parecia de bom humor. Sempre que estavam juntos, o humor de Amber costumava ir até o topo do céu. Amber parecia tentar manter a compostura, mas, infelizmente, Tennessee conseguia ver através dele.
— Por que o abrigo?
— Você gosta de cachorros?
Amber não respondeu imediatamente. Em Michigan, eles tinham vários cachorros. Um Labrador Retriever de cor chocolate viveu por dezesseis anos e faleceu, e agora eles tinham um Pitbull e um Chihuahua. A propósito, o líder dos cachorros era o Chihuahua.
Para ser honesto, Amber achava os cachorros um fardo. Eles abanavam o rabo e mostravam afeto mesmo que ele não tivesse feito nada por eles, sempre faziam contato visual quando ele se virava, e ele não conseguia atender às expectativas deles.
— Você quer ter um?
Ele não pôde deixar de perguntar novamente.
— O quê? Em Chicago? É por isso que estamos indo ao abrigo agora?
Tennessee assentiu. Amber começou a explicar que ter um cachorro não era algo para se fazer por impulso, que era preciso o ambiente certo, conhecimento sobre cachorros e responsabilidade.
— Não estou dizendo que devemos pegar um hoje.
Tennessee temia ficar soterrado pela falação de Amber. Desde a infância, Amber era um garoto atrevido. Parecia ser a personalidade inerente de Amber, pois, mesmo agora, ele ocasionalmente tentava se impor.
Tennessee não achava isso particularmente desagradável.
Amber conseguia sentir que Tennessee pensava bastante sobre aquilo. Não era uma sugestão impulsiva. Eles tinham capacidade financeira.
Mas ele se perguntava se eles atendiam aos requisitos no quesito responsabilidade.
Tendo experimentado o inferno de se separar e reencontrar muitas vezes, embora o amasse profundamente, Amber não podia deixar de fazer uma avaliação objetiva e fria.
— Você gosta de cachorros, Tennessee?
Agora era a vez de Tennessee pensar. Enquanto Amber levava uma batata à boca, Tennessee falou.
— Eu queria tentar criar um.
Era a segunda vez? Ele mencionara que havia um cachorro grande no local onde fora adotado. Tennessee apenas mencionou que fora adotado e devolvido repetidamente, sem nunca entrar em detalhes. As orelhas de Amber se ergueram.
— Eles não me deixavam tocar nele.
O que estava na coleira não era o cachorro, mas o jovem Tennessee. Tennessee se lembrou de sua infância. Embora não colocassem literalmente uma coleira nele, Tennessee se sentia assim. Era uma vida parecida com a de uma prisão.
Pouco tempo depois, ele roubou dinheiro e fugiu. Vagando pelas ruas, cometeu seu segundo assassinato. Ele matou porque não queria morrer, mas o segundo assassinato foi tão repugnante quanto o primeiro, se não mais. Ele estava no início da adolescência. Não conseguia lembrar exatamente.
↫─☫ Continua….
ᯓ★ Nenhuma das situações apresentadas neste capítulo referem-se/ se baseiam em fatos reais.
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✦ Tradução, revisão e Raws: Lᥙ꧑ᥲ Hᥲrtzᥣᥱr