⌀ — Capítulo 13.1
↫─Capítulo 13.1 – Aqui Está
[Ryker Amber Daxley, esperei muito tempo. Achei que você ao menos passaria em casa uma vez. Tanto sua mãe quanto eu achamos que já esperamos o suficiente. Como você não veio nem para o aniversário do Cody?]
Quando o seu nome completo é usado, significa que você está encrencado. Amber leu a longa mensagem de texto de David.
Naquela época, Tennessee não estava em boas condições, então ele não pôde ir. Se uma situação semelhante surgisse novamente, ele faria a mesma escolha, mas aquilo ainda pesava em sua mente. Enquanto ele suspirava, outra longa mensagem chegou. Desta vez era de Elizabeth.
[Eu te dou três dias, quer venha voando ou andando, dê um jeito de vir para Michigan. Eu preciso jantar com você esta semana.]
Ele entendia a raiva deles.
Mas sentia que deveria pedir a opinião de Tennessee. Sem ele, Tennessee poderia não dormir bem. Viajar de Illinois para Michigan e voltar no mesmo dia também não era fácil.
Amber estava perdido em pensamentos. Se dissesse que viria de manhã e iria embora à noite, já podia imaginar David dizendo: ‘Por que vir se não vai ficar nem um dia?’
Ele tinha que ir.
Quando explicou a situação, Tennessee acenou com a cabeça em resposta.
― Devo te levar?
― Está tudo bem.
Na verdade, ele estava mais preocupado com Tennessee não conseguir dormir do que com a viagem de oito horas de ida e volta.
― Se você não conseguir dormir, não force. Leia um livro ou algo assim.
Amber, que fez as malas de qualquer jeito, não pôde deixar de lembrá-lo até mesmo na porta.
― Fiz a comida de que você gosta, então coma. Ou tem o bife que embalamos da churrascaria na geladeira, então coma aquilo.
― Certo.
― Não pule refeições.
― Certo.
― Eu vou ligar, então atenda. Se estiver ocupado, pelo menos me mande uma mensagem.
― Certo.
Tennessee respondeu a cada um dos seus longos lembretes.
― Você precisa jantar, está bem?
― Entendi.
Depois de quinze minutos de ranzinzice, Amber se virou com um rosto que mostrava que não suportava ir embora. Mesmo ao entrar no carro, ele disse:
― Eu deveria simplesmente não ir?
― …
― Não, eu vou cancelar.
Amber sentia que Tennessee parecia estranhamente satisfeito sempre que percebia que Amber tinha um bom relacionamento com seus pais adotivos. Na verdade, Tennessee era bastante generoso com a família de Amber, aceitando o lado emocional de David e a abelhice de Elizabeth. Se fosse outra pessoa, já teria terminado com um buraco de bala na testa.
― Estou indo, Tennessee.
Forçando-se a dar passos que não queriam se mover, Amber se despediu.
No início, ele pensou que era o som do vento. Amber, dormindo em seu quarto na casa de seus pais pela primeira vez em muito tempo, franziu a testa enquanto recuperava lentamente a consciência. Ele ouviu um choro. O som de alguém puxando o fôlego entre um soluçar e outro.
“De quem era aquele choro? Era ele dormindo? Não, ele não chorava mais daquele jeito”. Quando seus pensamentos chegaram a esse ponto, Amber abriu os olhos. Voltando seu olhar para fora, ainda era uma noite escura.
Amber se sentou. O choro, que ele pensou ser uma alucinação auditiva, continuou. Amber se levantou e saiu para o corredor. O choro vinha do quarto de Annie.
Amber abriu a porta cuidadosamente. Quando chamou o nome dela, um soluço assustado veio de debaixo do cobertor.
― Annie?
― …Ryker?
Annie, que estava soluçando debaixo do cobertor, colocou a cabeça para fora. Seu nariz estava completamente entupido.
― O que houve?
― …Não é nada.
― Como assim não é nada?
Annie, que tinha se tornado uma estudante do ensino fundamental e até tinha um namorado, tinha começado a esconder mais coisas ultimamente. Mas era uma boa garota sem arestas, então se você ouvisse, ela se abriria. Exatamente como Tennessee tinha lhe ensinado, Amber observou silenciosamente Annie, e ela confessou com o rosto cheio de orgulho.
― …Tem algo no armário.
“Ora essa. Um monstro no armário?”
― Annie, você está no ensino fundamental.
― Eu sei. Mas o que posso fazer se estou com medo?
Amber teve que se esforçar para não mostrar um sorriso torto. Bem, Annie era jovem, e o medo às vezes não podia ser explicado racionalmente, algo que Amber sabia melhor do que ninguém.
Quando Amber se sentou, Annie se agarrou a ele. Parecia que o cheiro de lágrimas passava raspando.
― Ryker, olhe o armário para mim.
Limpando as lágrimas dela, Amber de bom grado abriu o armário. Claro, estava apenas cheio de roupas.
― Não é porque sou uma criança, é porque assisti a um filme de terror.
Enquanto Annie dava desculpas com um rosto envergonhado, Amber afagou sua cabeça quente e olhou para o armário. Amber nunca tinha temido um monstro no armário quando criança. Era natural. Aquele lugar era um refúgio para ele.
Ele se espremia no pequeno espaço, prendendo a respiração, esperando os passos de Hurston passarem. Com uma porta de madeira frágil entre ele e o mundo, ele chorava até adormecer.
Para ele, o armário era o último refúgio. A maioria das crianças não usa o armário como seu último refúgio. A maioria temeria o monstro no armário. Ele percebeu que tinha vivido muito tempo sem saber que aquela era a infância comum que os outros desfrutavam.
― Não tenha medo.
E Amber adicionou: ― Mesmo que haja algo, não vai sair. Não se preocupe.
― O quê?
Mesmo depois de confirmar que não havia nada, Annie olhou para cima com olhos assustados.
― O monstro deve estar se escondendo no armário porque também está com medo.
Agora que pensava nisso, Hurston devia saber que ele estava se escondendo lá. Não importa o quanto tentasse, ele não conseguia parar seus ombros trêmulos, sua respiração fraturada. Ele não tinha como não saber.
Mas quando sentia um medo de esmagar o cérebro, Hurston devia aproveitar o momento com grande prazer. Ele devia ficar animado, respirando pesadamente, sabendo que era um monstro gigante projetando uma sombra como uma montanha sobre uma criança.
Sentindo uma estranha sensação de futilidade, Amber ruiu suavemente. Contudo, não se esqueceu de confortar Annie.
― E não há espaço para um monstro no seu armário; está cheio de roupas.
É verdade. Annie acenou com a cabeça, e Amber a abraçou apertado, sussurrando.
― Boa noite, Annie.
― Boa noite, Ryker. Obrigada por vir.
― Não assista a filmes de terror. Você assistiu na casa da Kayla, não foi?
― …Não conte para a mamãe.
Segurando o abraço quente, Amber encarou o armário por um longo tempo.
Às vezes ele deixava para lá, mas havia dias em que não conseguia. Hurston abria violentamente a porta do armário, o arrastava para fora e o jogava no chão. Enquanto era arrastado, Amber gritava.
‘Pare! Não faça isso! Dói! Aagh!’
Parecia que seu braço ia se soltar. Na verdade, se soltou uma vez, e ossos quebrados eram comuns. Hematomas não desapareciam. Quando levava um tapa forte, não conseguia pensar por alguns segundos. Era como se um interruptor fosse desligado, e sua consciência afundava em um torpor.
Foi há muito tempo.
[Tennessee]
Amber enviou uma mensagem e se deitou na cama. Eram 3 da manhã. Ele pensou que Tennessee estaria dormindo, mas uma resposta veio logo em seguida.
[É]
[Quando eu era jovem, o Sr. Hurston me machucava.]
Era uma reclamação? Ele não sabia. Ele só queria falar sobre isso.
[Doía tanto.]
Ele não sabia por quanto tempo encarou a tela. Um pequeno balão de fala indicava que Tennessee estava digitando uma resposta. Esperando por isso, Amber impulsivamente digitou outra coisa.
[Mas se o Sr. Hurston não tivesse me maltratado, eu não teria tentado escapar. Eu não teria conhecido você.]
Aquela estranha viagem de carro, a despedida repentina e o reencontro, esta preciosa família, este momento, tudo, eu, você.
Observando a janela de mensagem piscando, Amber fechou os olhos. Tentando limpar sua cabeça pesada, Amber eventualmente adormeceu.
Ele sonhou. Em um lugar desconhecido de onde quer que fosse a fantasia.
Amber de repente ergueu a cabeça com a textura áspera da madeira sob as pontas dos seus dedos. Sua respiração acelerou. O ar mal roçava seu peito e escapava, quente e sufocante.
“O armário. É o armário.”
― Amber.
“Hurston. Ele está aqui. O que fazer? O que fazer? Eu não quero sentir dor. Me salve”. Amber cobriu a boca, sufocando um soluço que parecia pronto para explodir. Seu corpo não se movia. Os passos de Hurston enchiam suas orelhas.
― Amber.
Sua voz ficava mais próxima.
Então, uma voz, gentil porém forte, inteiramente diferente da voz forçada e nojenta de Hurston.
― Amber?
Amber inalou bruscamente e se virou. Ele não estava sozinho no armário. Atrás dele estava um garoto de sua idade. Não, ele tinha a mesma idade? Quem era?
― Tennessee?
― É.
Um jovem Tennessee, com cabelo preto cobrindo a testa, estava lá. No armário escuro, apenas seus olhos azuis brilhavam intensamente. Era estranho.
Amber nunca tinha visto Tennessee quando criança, mas tinha certeza de que era assim que ele parecia quando era jovem. Embora lhe faltassem ombros largos e músculos firmes, ele era sem dúvida Tennessee.
― O que você está fazendo aqui? Você não deveria estar aqui. O Sr. Hurston vai machucar nós dois.
― Shh…
Tennessee colocou um dedo sobre os lábios de Amber, que estava sussurrando urgentemente.
― Vamos sair.
A voz de Hurston chamando Amber estava agora muito mais próxima. Hurston tinha passado das escadas e estava entrando no corredor. ― ele abria as portas uma por uma.
― Amber? Você está aí?
Se ele saísse agora, seria pego. Amber balançou a cabeça vigorosamente, mas Tennessee foi firme.
― Nós temos que ir. Vá agora.
Tennessee impiedosamente empurrou as costas de Amber, que estava balançando a cabeça. Mesmo resistindo desesperadamente, Amber não podia ter certeza de que Tennessee estava errado e ele estava certo. Tennessee nunca esteve errado. Tennessee poderia ser um covarde emocional, mas ele o amava.
― Para onde eu deveria ir?
― Vá para fora e lute.
Tennessee empurrou, e a porta do armário em que Amber estava se escondendo rangeu ao se abrir. Agarrando o lado em pânico, Amber implorou.
― Não, estou com medo, Tennessee. Eu não consigo fazer isso. Eu não consigo.
― Você consegue.
― Eu não consigo!
Amber gritou, arfando. Naquele momento, o som de passos roçando suas orelhas pareceu como se sua respiração tivesse caído abaixo do armário.
― Pare de dizer coisas estúpidas e saia.
E Tennessee empurrou Amber. Amber agarrou o pulso de Tennessee às pressas.
― E quanto a você, Tennessee? Se você não for, eu também não vou.
A voz de Hurston, agora bem ao lado dele, atingiu seu lóbulo da orelha.
― Tennessee, ficar aqui. Eu não gosto disso. Vamos juntos.
Se não, eu também não vou. Eu prefiro ficar aqui. Amber declarou claramente. Vendo a expressão determinada de Amber, Tennessee suspirou e acenou com a cabeça. Uma resposta de compreensão retornou. Sem perceber que sua respiração antes fraturada tinha se acalmado, Amber cautelosamente abriu a porta do armário.
― Aí está você.
E ele encarou Hurston, que olhou para ele com um sorriso que parecia rasgar seus lábios.
Seu olhar parecia estar dividindo sua barriga ao meio. Apenas pelo medo, Amber sentiu uma dor clara. Quando Amber não conseguiu fazer nada e ficou congelado, o olhar de cobra de Hurston caiu para baixo.
― …Ahn?
Amber estava do mesmo jeito. Ele olhou para o abdômen molhado de Hurston com uma expressão estranha. Ele não conseguia entender o que estava vendo.
― Vamos ir.
Tennessee disse, limpando o cabo da faca manchado de sangue. E antes que Amber pudesse compreender a situação, antes que pudesse sequer absorver o rosto caindo de Hurston, Tennessee agarrou seu pulso.
Naquele momento, parecia que ele tinha asas. Ele só tinha fechado os olhos por um momento, mas já estava fora daquele castelo infernal, fora da floresta em forma de labirinto, voando sob um céu vasto onde estrelas estavam caindo.
↫─☫ Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Lᥙ꧑ᥲ Hᥲrtzᥣᥱr