⌀ — Capítulo 11.1
Volume 3 – Coleira
↫─Capítulo 11.1
Tennessee acendeu um cigarro enquanto observava Amber se movimentar de lá para cá com as pernas cruzadas. Ele se deu conta de que vinha fumando mais desde que recebeu alta do hospital. Amber deve ter notado também, murmurando:
― Não faz bem para você. ― Tennessee estava pronto para rebater se Amber passasse da conta, mas, em vez disso, Amber apenas abriu a janela e trouxe um cinzeiro.
― O que você vai querer para o jantar?
― Não estou com fome.
― Mesmo assim…
Tennessee às vezes comia apenas uma salada e pão no jantar. Outras vezes, comia quinoa ou aveia, coisas que nem contavam como refeições de verdade para Amber. Tennessee estava acostumado a manter o estômago moderadamente vazio, mas sempre que fazia isso, Amber resmungava:
O― Até um estudante do ensino fundamental ranzinza fazendo dieta comeria mais do que isso.
Amber foi em frente e fez comida suficiente para duas pessoas. Tennessee umedeceu os lábios enquanto olhava para o prato e os talheres que Amber colocou à sua frente. Depois de trazer um copo de água e um guardanapo, Amber se sentou silenciosamente do outro lado. Ele nem pegou o garfo, como se estivesse esperando Tennessee começar a comer.
― Melhore logo. Assim você pode me colocar para fora.
Ultimamente, Tennessee não conseguia afastar a sensação de que algo a mais tinha sido adicionado. Sempre fora Amber o ansioso e desesperado. E não era para menos que se sentisse assim, já que Amber já tinha colocado todas as suas cartas na mesa.
Tennessee conhecia as intenções por trás de cada uma das ações de Amber, então não havia necessidade de adivinhar ou analisar, o que tornava as coisas menos desgastantes. Para alguém como Tennessee, que constantemente tinha que navegar pelas necessidades dos outros, Amber era alguém com quem ele podia ficar física e mentalmente confortável.
No entanto, agora Amber o recebia apenas com um sorriso revigorante, apesar de enfrentar um Tennessee sem resposta. Não havia traço de tensão, nenhuma impaciência à vista. Mesmo quando confrontado com rejeições afiadas ou recusas frias ocasionalmente, ele permanecia o mesmo. Naqueles momentos, ele simplesmente recuava, dando espaço sem protestar.
Uma vez, Amber fora como água cristalina, onde tudo no fundo era visível. Agora, agitar a superfície azul não revelava fim, como se não houvesse fundo algum. Tennessee achava essa nova obscuridade sufocante.
“Sim, devia ser isso o que ele estava sentindo.”
― Nós precisamos ir ao centro de reabilitação hoje também. Você sabe, não sabe?
Brincando de mãe. Tennessee acenou com a cabeça, irritado. Não parecendo se importar com a resposta emburrada, os olhos de Amber se curvaram enquanto ele apoiava o queixo na mão. Mas, ao contrário do calmo Amber, a mente de Tennessee estava caótica.
― Amber.
― Sim, Tennessee?
Amber sempre gostava quando Tennessee o chamava. Sempre que aquele chamado quase monótono, mais parecido com uma ordem, alcançava suas orelhas, parecia que ele estava sendo amarrado com força. No entanto, às vezes, Tennessee o chamava com uma intenção muito significativa.
― Quando você vai para casa?
O sorriso perfeito que Amber costumava usar vacilou ligeiramente.
― Quando você estiver melhor. Pelo menos quando puder se virar sozinho.
― Eu estou indo bem sozinho mesmo agora. Você sabe disso.
A comida estava esfriando. O silêncio caiu, mas Tennessee sentiu algo além do desconforto. Às vezes Tennessee media suas emoções com base nas reações de Amber. Embora soubesse que era algo cruel de se fazer.
― O que você está fazendo aqui, Amber? Você tem uma casa e coisas para fazer.
― Tennessee.
― Você deveria voltar para onde pertence.
― Parece que você está com medo de novo por causa do que aconteceu nestes últimos dias.
― Não seja petulante comigo.
― Covarde.
Quando ele quis que Amber fosse adotado por uma boa família, foi porque queria que ele recebesse uma educação de alta qualidade, fosse amado e aproveitasse todas as oportunidades da vida, não para fazê-lo limpar sua sujeira.
Amber precisava viver sua própria vida. Hurston sozinho já era suficiente para estar na lista daqueles que tinham tirado algo de Amber. Ele não tinha intenção de se juntar a essa lista de saqueadores. Tennessee não conseguia entender por que Amber não sabia disso, não conseguia entender sua teimosia.
― Onde eu preciso estar é bem aqui, Chicago.
― Volte.
Pensando que ele não ouviria palavras gentis, Tennessee apagou o cigarro.
Tennessee pensou que se Amber não fosse tão cegamente devotado, ele não precisaria ter sido tão duro. Amber provavelmente pensaria dele como uma pessoa fria e resoluta, mas fora Amber quem o fizera se tornar tal pessoa.
Teria sido mais fácil se ele tivesse ajudado enquanto ainda aproveitava sua vida pessoal moderadamente. Mas Amber jogou tudo o que tinha sobre ele. Ele voluntariamente se sacrificou. Como se esse sacrifício fosse um privilégio, ele estimava uma pedra como se fosse um diamante bruto. Por que ele se regozijava tanto por algo que não valia a pena?
― Não, se você está fazendo isso por minha causa…
― Eu estou fazendo isso porque não gosto. Não aja como se tivesse direitos. Pare de passar dos limites e de agir como se fosse meu guardião.
Eventualmente, aquelas palavras escaparam. A expressão de Amber desapareceu instantaneamente enquanto ele pressionava os lábios com força.
Tennessee empurrou a comida que Amber tinha preparado cuidadosamente com as costas da mão. Como se dissesse: ‘esta é a semente que você semeou, já que foi você quem colocou um esforço inútil.’
Tennessee virou o corpo e se dirigiu ao sofá. Apoiando-se apenas com os braços, Tennessee conseguiu se sentar no sofá. Então olhou para trás quando a cadeira de rodas que ele nem tinha tocado se moveu para longe. Era Amber. Amber estava silenciosamente dobrando a cadeira de rodas vazia. Sua expressão não era muito diferente de antes. Foi por isso que Tennessee só descobriu que ele estava chorando depois que vários segundos se passaram.
Amber se movia silenciosamente, sem protestar ou se ressentir. Como chuva caindo, com lágrimas preenchendo sua expressão habitual. As lágrimas que tinham se acumulado nos cantos de seus olhos logo se apegaram ao seu queixo e caíram.
― …Ah.
Como se só percebesse que estava chorando depois que as lágrimas caíram, Amber encarou Tennessee com olhos vazios. Embora só tivesse limpado as bochechas, elas estavam encharcadas. Era como fuligem.
Tennessee não disse nada até que Amber terminou de dobrar a cadeira de rodas e guardá-la.
― Por que você está fazendo isso? Por que continua dizendo coisas maldosa para mim?
Foi Amber quem falou primeiro, entre suas lágrimas.
― …
Tennessee esfregou os olhos com um gesto tingido de cansaço. Naquele momento, uma faísca se acendeu nos olhos de Amber.
“Sua perna deveria ter sido amputada.”
Amber respirou fundo diante da emoção feroz e violenta que se transformava em amor-ódio.
“Em vez de deixar você se apoiar em mim de forma desajeitada com uma perna quebrada, eu deveria ter cortado ela para que você não tivesse escolha a não ser depender de mim para sempre.”
Observando Tennessee permanecer sereno, ao contrário de seu próprio ser tumultuado, Amber fechou os olhos com força. Lágrimas escorreram por suas bochechas.
“Não, teria sido o mesmo de qualquer maneira. Sempre haveria muitos que se ajoelhariam diante de você para oferecer uma mão.”
A ideia de que uma deficiência física poderia afetar seu valor parecia absurda. Mesmo se ambas as pernas desparecessem amanhã, ele ainda seria o mesmo.
Parado na frente de Tennessee, que estava reclinado contra o encosto do sofá, Amber se ajoelhou em um joelho. Ele estendeu a mão para Tennessee, que teimosamente se recusava a se desculpar. Tennessee olhou para Amber sem se mover ou vacilar. Agarrando sua mão, ele deixou um beijo desesperado nas costas dela.
Diante dessa submissão desajeitada e injusta, Tennessee pensou em um meteoro em chamas. Embora Amber pensasse de si mesmo como inofensivo, incapaz de trazer mudanças, para Tennessee ele era um tsunami massivo e um cometa impressionante. Ele mudaria tudo sobre Tennessee.
Embora cílios molhados roçassem friamente contra as costas de sua mão, Tennessee permaneceu em silêncio até o fim.
Reprimindo a emoção que surgia bruscamente querendo protestar, o impulso de empurrá-lo para baixo e despejar seus próprios sentimentos, Amber se levantou. Deixando para trás o desejo de que, mesmo sem uma explicação detalhada, ele entenderia o coração que se ajoelhou diante dele e abaixou os lábios apesar de suas palavras duras.
Havia um pequeno jardim atrás da casa de Tennessee. Não era particularmente espaçoso, Tennessee ocasionalmente fumava lá por consideração a Amber, que não fumava.
Fechando a porta dos fundos, Amber olhou para o céu. Sua respiração tinha se tornado bruta.
Ele tinha planejado fazer uma caminhada com Tennessee hoje. Mesmo que se movesse ocasionalmente, Tennessee tinha que passar a maior parte do tempo no quarto de hospital, e embora não expressasse, Amber sabia o quão sufocante parecia para ele contemplar a janela. Então, durante suas raras saídas, a expressão de Tennessee suavizava, uma mudança despercebida pelos outros, mas clara para Amber.
Na luz do sol, Tennessee às vezes fechava os olhos brevemente, e mesmo quando Amber dizia qualquer coisa, ele respondia extensamente ou compartilhava brevemente seus próprios pensamentos.
‘Annie disse que você era o tipo ideal dela. Elizabeth disse que quer que ela arranje um namorado que pareça com você.’
‘…Eu?’
‘É.’
‘Isso é terrível.’
Seu tom sugeria que, com um julgamento tão ruim para homens, seus pais adotivos teriam um momento difícil.
‘O que há de errado com você? Você é bonito, ganha bem–’
‘Ganha bem, pode morrer amanhã, ex-assassino de aluguel sem senso de diversão e ainda menos de conversa?’
‘…Não insulte o meu Tennessee.’
Tennessee riu alto em descrença e Amber caiu na gargalhada também.
‘Vamos tomar um café?’
‘Eu não gosto de multidões.’
‘Deveríamos apenas voltar então?’
‘…Café preto.’
Mais de uma vez, Amber quis abraçar o cabelo preto de Tennessee enquanto empurrava sua cadeira de rodas. “Este olhar. Ele só mostra este lado para mim”. Se ele o abraçasse, ele definitivamente o empurraria para longe, mas ocasionalmente, Tennessee o aceitava generosamente.
Para Amber, esses momentos estavam longe de ser comuns. Cada fio de tempo que passava roçando por seu lóbulo da orelha era lindo.
Amber encarou por um longo tempo a cadeira de rodas visível através da porta dos fundos transparente. Sua respiração, que tinha se acalmado brevemente, tinha se tornado bruta novamente. Seu peito subia e descia dramaticamente. Amber observou silenciosamente a cadeira de rodas. Então, como se tivesse tomado uma decisão, ele se moveu. Carregando a cadeira de rodas, Amber saiu pela porta dos fundos tentando esfriar sua cabeça quente. No entanto, esta não era uma emoção que poderia ser acalmada com respirações profundas.
“Sinceramente, Tennessee ficaria melhor—”
Bam―! Bam―! Bam―!
Ele apenas moveu sua mão algumas vezes, mas…
Depois de tomar fôlego, Amber limpou sua testa agora encharcada de suor. Bam! A roda esmagada girou inutilmente. Esmagada, rasgada, tornada inútil, fragmentos da perna de Tennessee caíram para a frente.
“Eu deveria ter cortado suas pernas e colocado no meu bolso, colocado uma coleira no seu pescoço. Eu amarraria essa coleira nas minhas pernas intactas.
Não, trancar você parece melhor. Trancar você para que você só possa olhar para mim, esconder você do mundo para que não possa entrar na visão de mais ninguém.
Se eu fizer isso, se eu esconder você, nós ficaremos juntos para sempre?”
Um silêncio sufocante se assentou. Amber desabou. Suas palmas estavam pegajosas. Ele pensou que era suor, mas sangue estava escorrendo. Sem sequer força para limpá-lo, Amber enterrou o rosto nas mãos. Ele estava horrorizado consigo mesmo. Toda a situação o deixava desesperado. Se ele desistisse, se Tennessee escapasse assim…
“…Eu não conseguiria viver.”
― O que você está fazendo?
A voz grave de Tennessee fluiu para fora. Amber virou a cabeça, respirando pesadamente como se soluçasse. Tennessee estava parado atrás da porta.
“Como ele veio até aqui sem uma cadeira de rodas?” Como se para responder à pergunta de Amber, Tennessee moveu seu corpo com dificuldade. Mesmo com o rosto cheio de dor, Tennessee estava dando passos.
― Não! Você está se machucando!
Depois de correr para agarrá-lo, Amber entrou em pânico quando viu sangue manchando suas roupas. Os olhos de Tennessee se voltaram para a cadeira de rodas, que estava irreparavelmente quebrada.
“Ah…”
Foi quando Amber, finalmente caindo na real, mordeu o lábio.
― Está inutilizável agora.
― …É.
Lágrimas continuavam caindo.
“Eu acho que talvez não seja porque sou eu, mas qualquer outra pessoa teria se apaixonado por você assim também. Porque você pode fazer qualquer pessoa normal ficar assim.”
Tennessee não o culpou, tanto quanto Amber se desculpou.
― Me desculpe. Eu devo ter ficado louco. Não, não é que eu estivesse completamente fora de mim… Eu não sei, não há espaço para desculpas. Me desculpe, me desculpe.
Amber se agarrou desesperadamente em frente à cadeira de rodas quebrada.
― Mas eu nunca pensei em machucar o Tennessee-, eu nunca sequer considerei essa possibilidade, sério, por favor acredite em mim.
Tennessee acenou com a cabeça enquanto abraçava Amber, que parecia prestes a desabar, com seu único braço bom.
Ele não deveria culpar Amber. Afinal, ele era quem sempre levava Amber ao seu limite e depois oferecia uma linha de salvação como se fosse misericórdia.
― Me desculpe.
Depois de ajudar Tennessee até a cama, Amber se desculpou.
― Eu vou comprar uma cadeira de rodas nova o mais rápido possível… Por favor, me deixe ficar até lá.
Ajustando seu travesseiro, Tennessee observou a expressão profundamente perturbada de Amber.
― E a faculdade?
― Estou pensando em dar uma pausa por enquanto.
Ele sabia bem. Amber estava em desespero. Se ele tivesse perdido a cabeça e atacado, teria sido compreensível. Mas para Tennessee, Amber estava simplesmente encurralado.
― Você jogou tudo fora e fugiu,
Deitado de lado, Tennessee pensou nas lágrimas de Amber. Parecia que ele tinha ouvido um grito desesperado.
― É por isso que estou fazendo isso.
Era a maneira de Tennessee dar desculpas.
― Não, você sempre diz coisas maldosas de qualquer forma.
― …
Nenhuma desculpa veio à mente. O próprio Tennessee sabia que para Amber, ele devia parecer uma pessoa cruel, sem emoção e de sangue frio.
― Boa noite.
A voz de Amber estava pacífica. Pelo menos na superfície.
── ⋆⋅☆⋅⋆ ──
Na alvorada fraca, Tennessee acordou com um gemido reprimido. Era um som tão tênue que, a menos que você escutasse com cuidado, nem poderia ter certeza se realmente tinha ouvido.
― Amber…?
Tennessee se sentou e prendeu a respiração. Não era um som que ele tinha ouvido errado. Era um gemido cheio de dor. Apesar de suas pernas parecerem que iriam quebrar, Tennessee moveu seus pés. Felizmente, o quarto de Amber era bem ao lado. Se tivesse sido longe, ele teria tido que engatinhar.
Quando ele abriu a porta suavemente, os olhos de Tennessee se arregalaram com o cheiro fraco de sangue. Mesmo sem acender as luzes, Tennessee percebeu o que Amber estava fazendo. Uma lâmina brilhava no quarto em alvorada azul pálida.
― Amber.
― …Me desculpe.
“Eu não ia fazer isso, mas eu apenas, por um impulso…”
Quando a luz foi acesa, a cena trágica foi revelada em mais detalhes. Amber estava limpando sangue. Era automutilação. Além da calça de moletom de Amber, manchas de sangue vermelho-escuro fracas eram visíveis. Como da última vez, era na parte interna da coxa.
Tennessee fechou os olhos por um momento e tomou fôlego. “Automutilação. O que faz Amber se machucar?” Tennessee acreditava que algo fundamental estava faltando. Então Tennessee considerou todos os fatores externos em vez do próprio Amber. Infância, Hurston, uma nova família e ambiente…
E, ele mesmo.
Tennessee enfrentou uma culpa descarada. No entanto, Amber ser levado a tal beco sem saída não poderia ser unicamente por causa dele.
A vida de alguém que se envolve em comportamento autodestrutivo não muda facilmente. Tudo ao redor de Amber tinha mudado, mas a perspectiva de Amber sobre essas mudanças também tinha mudado? Tennessee ponderava tais perguntas.
― Deve doer. Como você caminhou até aqui?
Amber perguntou em um tom casual enquanto pressionava uma toalha sobre sua coxa ainda sangrando.
Tennessee caminhou dolorosamente e se sentou em sua cama.
― Me mostre.
― Por que você está sendo tão envergonhoso?
“Você pira quando eu chego perto”. Amber tentou fazer uma piada, mas a expressão de Tennessee não mudou.
― Me mostre.
Enquanto os cantos de sua boca tremiam, incapaz de continuar falando, Tennessee alcançou o cós dele. Embora tenso, Amber não recusou. O nó da calça de moletom se desfez. Sem olhar para a cueca de cor escura, Tennessee agarrou ambas as coxas de Amber e suavemente as afastou.
A pele frágil se separou. Cortes não cicatrizados foram revelados. Pressionar perto deles fazia gotas de sangue fluírem facilmente. Era uma ferida muito mais profunda do que o esperado. Uma manifestação de amor e ódio.
― Por que você fez isso?
― Dói… mas minha mente se sente em paz.
Parecia sufocante. Como abrir a tampa de uma panela de pressão prestes a explodir, criar um buraco em sua carne e drenar sangue espesso parecia expelir algo tóxico.
Ele também sentia alívio. Porque parecia mostrar que ele era diferente de Hurston. Ele não era como o monstro do seu passado, que resolvia seu complexo de inferioridade e desejos distorcidos destruindo os outros.
Os cortes autoinfligidos eram como uma prova para Amber de que ele não era um monstro como Hurston.
― …Ah.
Amber se encolheu quando Tennessee, que tinha assumido segurar a toalha, pressionou forte sobre a ferida. Ele balançou a cabeça para esquecer a dor. Então cuidadosamente apoiou o queixo no ombro de Tennessee.
― Dói.
Amber exalou um gemido na orelha de Tennessee. Como se em protesto, Amber puxou Tennessee para mais perto. Ajeitando-se confortavelmente em seus braços, Amber esfregou sua bochecha contra a orelha e a cabeça de Tennessee, buscando alívio. Era um gesto patético.
― Por que você está fazendo essa cara?
Depois que o sangramento parou, o polegar de Amber roçou a sobrancelha de Tennessee. A sobrancelha grossa deslizou suavemente sob a ponta do seu dedo.
Tennessee não perguntou como estava seu rosto. Isso foi uma sorte. Se ele tivesse perguntado, Amber não teria sido capaz de responder adequadamente. Foram palavras ditas por intuição. Na realidade, a expressão de Tennessee não era muito diferente do habitual. Mas naquele momento, Amber sentiu como se pudesse ver o eu interior de Tennessee.
― A automutilação traz alívio. Porque dói, parece que estou pagando pelos meus pecados.
― Pecados de quê?
― O pecado de ter pensamentos ruins.
“Não diga. Não tem como voltar atrás.”
Apesar da razão acender luzes de aviso, Amber abriu os lábios.
― Imaginar que você continua sentindo dor, ou fica completamente incapacitado, e depende totalmente de mim, fica comigo, se estabelece… e nunca mais me deixa.
Incapaz de encarar a expressão de Tennessee, Amber apoiou o queixo no ombro dele novamente.
― Eu penso nisso a todo momento. Eu quero te confinar. Você olharia para mim então?
― Mesmo se não fossem minhas pernas, eu sempre estarei quebrado em algum lugar.
Ele não estava apenas falando sobre os episódios que ocorriam intermitentemente à noite. Tennessee nunca tinha se considerado normal por um único momento. Como ele poderia, depois de tudo o que tinha acontecido?
Amber ruiu suavemente. O que ele tinha não era uma possessividade tão desajeitada. Amber verdadeiramente queria quebrar suas pernas. O que aconteceria se ele cortasse acima do tornozelo? Amber sabia bem que ter tais pensamentos era um pecado.
― Eu estou quebrado e o Tennessee está quebrado também. Pedaços quebrados se encaixam.
E abraçando Tennessee, Amber sussurrou como um suspiro.
― Dói tanto, Tennessee.
― Eu vou pegar analgésicos para você. Eles estão debaixo da pia do banheiro―
― Dói tanto que eu não consigo suportar. Quando eu vou parar de sentir dor?
Tennessee pressionou os lábios com força. Mesmo sem olhar, ele podia imaginar Amber pateticamente esfregando sua bochecha contra sua orelha.
Sempre que Amber estava assim, Tennessee não podia fazer nada. Era assim quando Amber era criança, quando adolescente, e ainda mais quando se tornou um adulto.
Por um lado, a razão afiada de Tennessee claramente via através disso como uma isca.
“Você é um covarde, então eu estou fazendo isso por você. Não é porque você é descaradamente atraído por mim; é porque eu sou tão patético, tão miserável, que você se sente compelido a me ajudar.”
Mesmo sem ouvir, a voz de Amber se fez presente.
Empurrando a mão de Tennessee que tinha terminado de estancar o sangramento, Amber expôs a ferida como outra ferida. A ferida que tinha acabado de começar a criar casca. Depois de empurrar a toalha na mão de Tennessee, Amber fez suas pontas dos dedos nuas traçarem a ferida diretamente.
“Olhe o que você fez comigo. Dói. Você disse que não queria machucar a mim, de todas as pessoas.”
Um suspiro profundo escapou dos lábios de Tennessee. “Maldição, eu deveria ter feito a cirurgia logo”. O rosto de Amber não tinha mudado muito desde a infância. Ver seus traços bonitos deveria ter lembrado Tennessee do Amber de onze anos, mas sua mente quebrada não permitia.
Aos olhos de Tennessee, ele sempre via um estranho. Sobrancelhas pretas e escuras, cílios longos e tristes projetando sombras, olhos azuis brilhantes contrastando com o cabelo preto. Um homem estranho e bonito estava soluçando e implorando como se pedisse esmola.
Era Amber, mas não era Amber. Tennessee pensou vagamente que se ele não conhecesse o Amber do passado, se ele tivesse conhecido Ryker primeiro, ele teria se aproximado dele assim?
Lábios molhados se separaram. Na frente de Tennessee, uma língua tremulou levemente, quase imperceptivelmente. Sentindo algo apertar ao redor do seu coração, Tennessee lentamente abriu a boca, seus pensamentos ficando turvos.
― Você…
― Chame meu nome.
― …Amber.
Tennessee exalou como se sob um feitiço. Era uma voz muito grave.
Agora a bola estava no campo dele. É a sua escolha. Amber lentamente fechou os olhos. Embora não conseguisse respirar adequadamente devido à tensão e ao medo, ele não arfava como antes. Ele esperou. Ele esperou pelo julgamento decisivo da guilhotina.
E ele foi consumido pela respiração quente e pelo toque que se aproximavam.
Seus lábios foram mordidos com bruteza. Seu corpo inteiro começou a queimar de excitação com as marcas visíveis de dentes. O ar rapidamente ficou quente. Enquanto arfavam e colidiam seus lábios, Amber instou.
― Você gosta de mim.
Lábios firmemente fechados. Ele certamente abriria aqueles lábios presumivelmente macios e arrancaria seu coração.
Enquanto respirações quentes se trocavam, lábios se trancaram fortemente juntos. Arfando, Amber sussurrou rapidamente.
― Você gosta de mim, não gosta?
― Sim.
― Não como uma criança. Você me ama, não ama?
“Eu vou arrancar seu coração e devorá-lo sem deixar uma única gota de sangue. Eu quero morder seu coração batendo quentinho com a minha boca cheia.”
― Você ficou todo excitado me assistindo fazer sozinho. Você não conseguia tirar os olhos de mim.
― Fique quieto.
― Tennessee…
Amber implorou uma última vez.
― O mundo acaba quando o sol se põe? Nosso relacionamento não está se quebrando, ele está sendo renovado.
Antes, ele pensava que tinha arruinado o relacionamento. Ele acreditava que tinha quebrado o acordo pacífico com Tennessee, que o estimava e lhe dava afeto raramente. Mas para reconstruir algo, você primeiro precisa desmantelar. Ele tinha acabado de perceber isso tarde demais.
― Hah…
Um suspiro cujo significado não podia ser decifrado. Significava que ele estava cansado disso? Justo quando Amber estava rangendo os dentes em miséria.
― Tudo bem.
Um trovão caiu. Como forçar a abertura de um baú de tesouro enferrujado, Amber empurrou com força para parti-lo. De alguma forma, ele tinha que ver o ouro dentro. Uma tempestade rugia. O baú se abriu, e tudo dentro derramou caoticamente.
― Você estava com medo, por isso você fugiu, não foi?
― É.
Incapaz de conter seu desejo, Tennessee mordeu o pescoço de Amber. A ponte de seu nariz firme se cravou na nuca fina, e a língua e a respiração quentes explodiram.
― Por que você estava com medo?
― Haa… Eu estava com medo de estragar tudo.
Depois de destruir algo precioso para ele, Tennessee instantaneamente soube que nunca poderia voltar para como as coisas eram antes.
Depois de conhecer Amber, Tennessee tinha tido esperança. Esperança de manter o que era precioso para sempre. Ele não queria deixar suas pegadas sujas em algo perfeito.
Ele não queria que Amber olhasse para o seu passado e visse Tennessee como um predador que tirou vantagem de sua ignorância no futuro distante.
― Ah, hng, por dois anos… me diga o quanto você sentiu minha falta.
Duas ereções firmes colidiram através do tecido fino das roupas. Os paus eretos orgulhosamente se esfregavam um contra o outro, afirmando sua presença.
― Você…
― Hng,
― Tudo o que fiz foi pensar em você enquanto trabalhava.
“Droga”. Tennessee não escondeu sua luxúria.
― Por que você não entrou em contato comigo por dois anos?
― Eu não conseguia encarar você, mas também não conseguia te cortar.
Amber achou que era uma resposta covarde, mas não ruim. No final, ele tinha acabado se torturando com esperança, mas Amber sentiu sua raiva e incompreensão crescentes gradualmente se oxidando. A ansiedade não se dissiparia imediatamente, mas pelo menos ele não tinha sido abandonado sem arrependimento.
Ele estava consciente do covarde escondido atrás de Tennessee, e ele entendia o medo espreitando atrás de sua fuga, mas ouvir Tennessee confirmar isso com suas próprias palavras era diferente.
Sim, embora ele o tivesse evitado, ele não tinha simplesmente o deixado para trás.
― Por que você continua me provocando?
― …Tenne, ugh.
“Por que você me perturba?”
“Se eu mudei sua vida, por que não apenas viver com isso? Por que você está me provocando?”
Agora era Tennessee quem estava envolto em emoções turbulentas. Tennessee mordeu a nuca de Amber com emoções intensas semelhantes à raiva e frustração. O gemido de Amber alcançou suas orelhas.
“Você me faz humano.
Um humano comum, ferido, insignificante e frágil.
Eu odeio ser fraco…”
Tennessee lambeu o sangue tirado e exalou respirações brutas. Suas respirações pesadas colidiram.
Amber apertou os olhos queimando para fechar, e depois os abriu. Quando ele os abriu, lá estava Tennessee com um rosto que ele nunca tinha visto antes. Bochechas ligeiramente coradas, lábios molhados de umidade, e nos olhos de Tennessee queimava um fogo abrasador. Era desejo. Como se aquele calor tivesse se transferido, suas bochechas queimaram quentes.
De repente se sentindo apertado, Amber apressadamente puxou sua cueca para baixo e pressionou seu pênis contra o dele. “Ahh. Quente. Tão quente, tão duro”. Tennessee estava se aproximando dele com tal paixão. Diretamente em sua direção.
― Tennessee…
Sua racionalidade estava lentamente evaporando. Apressando-o, Tennessee baixou brutalmente as calças. Abaixo da cueca erguia-se uma sombra, descaradamente ereta.
Amber colocou a língua para fora. “Me chupe”. Sem palavras, Tennessee envolveu a língua dele e engoliu sua respiração. Seus corpos pesados continuavam colidindo e balançando.
― Haah- hng… ung, mhm, ah!
Tennessee pressionou os dois paus juntos e impulsionou o quadril.
Mesmo que a carícia não fosse diferente de masturbação, Amber perdeu a cabeça. Apenas de suas ereções estarem juntas, ele sentia que alcançaria seu limite.
― Me aceite, por favor.
― Amber, Amber…
Incapaz de esconder sua paixão, Tennessee acariciou Amber. Amber não conseguiu recuperar os sentidos. Tudo o que restava era a percepção desesperada de que ele nunca poderia voltar a ser aquele garoto de antes.
― Se você ousar ter pena de mim depois de tudo isso, eu te mato e depois me mato, então escolha suas palavras com cuidado.
― Você ficou mais agressivo.
Amber teve que pressionar seus lábios juntos, sentindo que poderia chorar.
― …Me beije mais uma vez.
Então, conforme alguma memória vinha à tona, Tennessee deu um sorriso de canto, erguendo um canto da boca.
― Abra a boca.
“Isso não é sobre beijar. Eu tenho que terminar na sua frente hoje. A culpa é sua por me provocar”.
Como se dissesse isso, Tennessee segurou o maxilar de Amber.
↫─☫ Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Lᥙ꧑ᥲ Hᥲrtzᥣᥱr