⌀ — Capítulo 8
↫─Capítulo 8 – Diário de Enfermagem
Certo dia, Amber inclinou a cabeça ao ver uma chamada perdida em seu telefone vinda de um número que ele não reconhecia. Se tivesse sido a ligação que ele estava esperando de Tennessee, o número do chamador não teria aparecido.
Acima de tudo, o número era longo e começava com 44. Até onde Amber sabia, todos os códigos de área nos Estados Unidos tinham três dígitos. Após coçar a cabeça e refletir por um momento, Amber retornou à ligação. Surpreendentemente, alguém atendeu imediatamente.
— Alô.
[Alô.]
Desde essa primeira saudação, Amber percebeu que 44 era o código de país do Reino Unido. Mesmo sem explicarem que se tratava da filial de Londres da empresa de segurança, o sotaque deixou isso claro. Desconcertado, Amber explicou que havia recebido uma chamada perdida. O outro lado da linha ficou ocupado por um momento.
[É o Sr. Dexley? Sr. Ryker Amber Dexley?]
— Sim, correto.
Uma empresa de segurança. “Será que é o Tennessee?” O coração de Amber bateu acelerado.
[O senhor é parente do Sr. Isaiah Clayton?]
— Eu não sou…
“Ah… será que…?”
[Não é?]
Seu coração, que antes batia com antecipação, agora martelava ansiosamente como se fosse saltar para fora.
“Por favor, que seja o Tennessee”.
Amber suplicou como se fosse um hábito familiar. “Por favor, não me diga que você me deixou para sempre”.
— Sim… eu sou. O que aconteceu?
[Ele está atualmente hospitalizado. O Sr. Clayton deixou seu número de telefone e nome como seu contato de emergência.]
— Onde… onde ele está? Eu vou agora mesmo, imediatamente. Agora…
Amber procurou pelas chaves do carro com as mãos trêmulas. Droga, ele tinha certeza de que as havia deixado no balcão da cozinha, mas não estavam em lugar nenhum. Só depois de revistar o sofá e a mesa de jantar é que Amber encontrou as chaves do carro organizadamente dispostas ao lado do vaso. Ele disse a si mesmo para manter a calma, mas não era fácil. Enquanto a tensão e a ansiedade se instalavam, uma grande sensação de alívio o envolveu. Pelo menos Tennessee estava vivo.
[Vou lhe passar as informações de contato do hospital.]
As mãos trêmulas de Amber anotaram o número conforme lhe era ditado. Ele pressionou a caneta com tanta força que o papel amassou por onde ela passou.
— É crítico? É grave?
Sentindo-se incapaz de dirigir adequadamente, Amber pegou um táxi. A voz do outro lado do telefone era irritantemente calma.
[Por razões de segurança, não posso lhe dar detalhes, mas foi um acidente enquanto ele protegia um cliente.]
Amber sentiu aversão pela teimosia desprezível de Tennessee.
Ele já havia perguntado uma vez porque Tennessee decidiu se tornar um guarda de segurança.
“É por causa do que aconteceu no passado? Por que você quer fazer algo diferente agora?”
Olhando para Amber através da fumaça branca, Tennessee tinha um olhar peculiar.
“Você está perguntando se eu me arrependo?”
Quando Amber assentiu, Tennessee sorriu levemente. Havia um forte cheiro de cigarro. Consciente do desgosto de Amber por cigarros, Tennessee frequentemente mantinha a janela aberta. Seu cabelo escuro balançava ao vento. Tennessee parecia lânguido sob a luz do sol.
“Não é assim que se demonstra arrependimento. Esperar perdão e se tornar uma nova pessoa fazendo boas ações é covardia.”
Na fumaça do cigarro que subia suavemente, os cílios de Tennessee projetavam sombras. Ele parecia um pouco cansado. Quase como se estivesse pegando no sono, como frequentemente fazia quando Amber estava ao seu lado.
“Em vez de arrependimento, eu apenas gosto de fazer um trabalho fácil.”
Amber sabia que Tennessee às vezes fazia declarações que não eram nem mentiras deslavadas nem verdades descaradas, mas sim verdades desajeitadamente honestas. Como um cão de rua enterrando o focinho no lixo deixado na calçada, Amber às vezes escavava as palavras descartadas por Tennessee para vislumbrar seu significado interior.
A resposta de Tennessee foi breve, mas foi o suficiente para Amber.
“Você está com sono? Vamos indo?”
Amber se levantou, e Tennessee assentiu e se ergueu. Isso tinha sido em sua casa em Chicago.
── ⋆⋅☆⋅⋆ ──
Tennessee tinha dito que era um soldado. Então ele provavelmente passou vários anos no exército e depois fez trabalhos perigosos por um longo tempo. Ele também trabalhou com o FBI por vários anos. Como todos os lugares onde esteve eram campos de batalha, seu trabalho lá provavelmente também não era seguro. Depois de se manter intacto durante todo esse longo período, como ele pôde sofrer um acidente tão cedo após começar a trabalhar em segurança?
Amber teve que enxugar o suor frio enquanto as enfermeiras o guiavam.
Sua mente estava em turbulência. Apesar de fazer constantemente trabalhos perigosos, Tennessee nunca tinha mostrado sinais de fraqueza. Seu corpo era coberto por várias feridas e cicatrizes, mas ele nunca reclamava nem fazia tempestade em copo d’água. Talvez por isso Amber pensasse que Tennessee permaneceria em paz assim para sempre. Como um super-herói de quadrinhos, sem se ferir, superando dificuldades e adversidades.
Mas Tennessee também era humano. Apenas um mero mortal.
Amber achava que não haveria como saber se Tennessee morresse de imediato, mas em algum lugar de sua mente devia haver uma arrogância inconsciente de que Tennessee nunca se machucaria gravemente. Amber mordeu o lábio.
E ao ver Tennessee deitado na cama, Amber desviou o rosto como se estivesse evitando a cena. Ele estava sem fôlego, embora não tivesse feito nada. Teve que lutar para se manter firme.
Não havia um único lugar em seu corpo que não estivesse machucado.
Com uma tez pálida, Amber ouviu o médico explicar o estado de Tennessee. Apesar de sua aparência terrível, os ferimentos de Tennessee não ameaçavam sua vida.
— Ainda é muito cedo para se aliviar, precisaremos monitorar o progresso dele… mas devo dizer que é um milagre.
Pelas palavras do médico, Amber podia imaginar a proporção do acidente. Mas pensou que, se Tennessee fosse realmente de sorte, não teria se machucado assim.
Ele nunca conseguiu viver uma vida tranquila e agora estava machucado de novo. “Isso não é simplesmente injusto?” Amber riu de forma autodepreciativa enquanto refletia.
Foi só depois de dois dias inteiros que Tennessee abriu os olhos. Amber estava no meio do envio de mensagens de texto para informar sua família. Sentindo algo estranho, olhou para cima e encontrou Tennessee encarando-o.
— Tennessee.
Embora tivesse muitas coisas a dizer, ver os olhos azuis de Tennessee trouxe uma emoção avassaladora primeiro.
— Sua cabeça dói?
Não houve resposta de Tennessee.
Amber percebeu que havia algo errado. Os olhos de Tennessee estavam transparentes e vazios como contas de vidro. Era como o olhar de um objeto inanimado. Também se assemelhava aos olhos de um réptil encarando sua presa. Parecia atrair para perto, mas ao mesmo tempo uma sensação de perigo o invadiu.
— Tennessee?
Amber ergueu lentamente ambas as mãos. Ele não era mais pequeno ou jovem e, com quase 1,93 m, não tinha certeza se esse gesto funcionaria, mas esperava parecer o menos ameaçador possível. Amber se aproximou como se estivesse diante de uma fera selvagem e se abaixou devagar na cadeira ao lado da cama. Durante toda essa sequência de movimentos, Tennessee manteve seu olhar fixo em Amber sem reagir.
— Quem é você?
— Amber. Eu sou o Amber.
Normalmente ele teria se sentido magoado, mas Amber não ficou ofendido. Afinal, ele já tinha percebido algo estranho em Tennessee.
— Você é o Amber?
— Sim.
Amber sorriu, mas a expressão de Tennessee era diferente do habitual.
— Prove.
Talvez fosse porque não se viam há tanto tempo. Amber fez uma piada leve.
— Bem, você prometeu que namoraria comigo se nos encontrássemos de novo quando eu estivesse crescido.
Embora não houvesse mudança em sua expressão, Amber detectou alguma confusão em Tennessee.
Na verdade, Tennessee estava de fato muito confuso.
Se Amber tivesse crescido de repente, ele seria exatamente assim brincalhão, porém astuto? E tendo essa atmosfera madura apesar de sua pouca idade. Ele tinha uma voz mais grave e um porte físico completamente diferente. Acima de tudo, seu rosto…
Tennessee não reconhecia aquele rosto. Isso não podia estar certo. Tennessee estava confiante de que reconheceria Amber em qualquer situação.
— Você é o Amber?
Amber inconscientemente olhou para seu reflexo na janela. David às vezes olhava para Amber — especialmente na noite do baile de formatura, quando ele vestia um smoking — e chorava dizendo: “Como aquele pequenino Ryker cresceu tanto?”, mas Amber não achava que tinha mudado a ponto de ficar irreconhecível.
Na realidade, embora sua estrutura corporal tivesse mudado significativamente, não havia tanta diferença em seus traços faciais, e qualquer um poderia conectar o jovem Amber com o Amber atual.
O fato de Tennessee não conseguir reconhecer Amber não era porque Amber tinha mudado muito.
O sorriso brincalhão de Amber desmoronou.
— Vou chamar o médico por um momento.
— Parece ser prosopagnosia.
Foi o que o médico disse. Foi só depois de outra ressonância magnética que ouviram isso.
— Pode ocorrer devido a um traumatismo craniano. Não estava presente antes, estava?
Quando Amber assentiu ansiosamente, o médico continuou.
— Em casos em que a prosopagnosia se desenvolve mais tarde na vida, a recuperação raramente acontece. Também pode ser psicogênica. É difícil fazer um diagnóstico definitivo ainda, então teremos que observá-lo por um tempo.
Escutando em silêncio, não havia sinal de resignação nos olhos de Amber. A seu ver, Tennessee sempre foi alguém que não podia ser explicado pela lógica e métodos convencionais. Assim, Amber se recompôs, pensando que Tennessee apenas falharia temporariamente em reconhecê-lo.
Quando Amber voltou para o quarto do hospital, Tennessee estava acordado. Ele tinha aquele olhar observador de predador novamente.
— Eu sou realmente o Amber.
Percebendo que Tennessee ainda não estava convencido, Amber pensou por um momento e depois desabotoou a camisa. Embora estivesse um pouco envergonhado, Amber se virou para mostrar suas cicatrizes. Mesmo com o tempo, elas não tinham desbotado.
Alguns anos atrás, eles tinham ido em uma viagem em família para a Flórida. O horizonte se estendia infinitamente e a areia aquecia seus pés. Todos pularam no mar usando apenas roupas de banho, mas Amber sempre fazia questão de usar uma camiseta.
Então veio o momento de trocar as roupas molhadas do banho de mar. Quando ele tirou a camiseta, fez contato visual com David. Tinha se sentido seguro pensando que suas costas não estavam visíveis, já que estavam de frente um para o outro, mas David de repente perdeu as palavras e abraçou Amber.
Só mais tarde Amber soube que havia um espelho atrás dele e que David tinha visto suas costas cobertas por cicatrizes de queimaduras de cigarro.
Amber ocasionalmente olhava para suas costas no espelho. Algumas das cicatrizes tinham clareado, mas a maioria permanecia teimosamente a mesma. Cicatrizes feias, familiares ao ponto da monotonia. Amber nunca tinha exposto voluntariamente suas costas a outros. Se ele próprio achava desagradável de olhar, era ainda mais relutante em mostrar aos outros. Mas com Tennessee, estava tudo bem.
Às vezes Amber invejava a aparente falta de emoção de Tennessee em relação às cicatrizes que cobriam seu corpo. Talvez fosse porque as cicatrizes de Tennessee não foram marcadas pelas mesmas razões que as suas, mas Amber sentia que Tennessee estaria desapegado a elas mesmo na mesma situação.
Ninguém conseguia quebrar Tennessee. Aos olhos de Amber, Tennessee era impecável, uma fortaleza.
Após mostrar suas costas, Amber vestiu a camisa novamente. Enquanto a abotoava, Tennessee, que esteve em silêncio, chamou-o suavemente.
— …Amber.
Com um sorriso, Amber virou a cabeça. Amber estava feliz apenas por ser chamado por Tennessee. A dor dos últimos dois anos se tornou um aroma adocicado cosquinhando seu nariz.
— Você ouviu o que o médico disse? Você está gravemente ferido.
Amber sentou-se ao lado de Tennessee, com o sentimento de que ele era alguém impossível de odiar. Apesar de nenhum contato por dois anos, seu olhar mudou assim que Amber o convenceu de sua identidade. Seu rosto inexpressivo permanecia o mesmo, mas a temperatura interior havia mudado. Não era mais um olhar observador e desconfiado. Amber tinha certeza de que o que Tennessee sentia era um anseio inconfundível, mesmo que não dissesse diretamente.
Assim como Tennessee tinha enxergado através do seu amor sem uma única palavra, Amber acreditava que também podia enxergar através de Tennessee.
— Como está sua cabeça?
Tennessee economizava palavras, mas Amber não achava seu silêncio constrangedor.
— Faz um tempo.
— Faz sim.
As palavras de Amber fizeram Tennessee se lembrar de um reencontro do passado.
Sua cabeça estava rachando de dor e ele não conseguia assimilar a situação direito, mas Tennessee tinha retornado inconscientemente àquela época. Era Chicago. Relembrando aquele momento, seu coração se sentiu mais tranquilo. Um sentimento semelhante ao alívio, ao reasseguramento.
— Você não tem nada que queira me perguntar?
— Muitas coisas. Como você tem passado? O que esteve fazendo?
— Eu também. Era assim que eu me sentia também.
Com o queixo apoiado na mão, Amber disse com um sorriso radiante:
— Mas eu não vou te contar.
“Você escondeu muito de mim. Até vendeu sua casa.”
O tom de Amber estava cheio de ressentimento. Era o ressentimento que ele tinha momentaneamente colocado de lado devido à urgência de Tennessee estar machucado.
Olhando para Amber sorrindo como se estivesse satisfeito, Tennessee não conseguiu esconder seu sentimento de estranheza. Ele percebeu só então que Amber esteve amolando sua faca durante todos os dois anos.
— Você pensou em como eu me senti quando, após dois anos sem contato, finalmente recebo notícias suas e descubro que você está no hospital?
— …
Tennessee se perguntou se deveria lembrar a Amber que era um paciente e que sua recuperação era a prioridade. Mas o tom de Amber era calmo demais para isso.
— Posso perguntar por que você vendeu a casa?
— Arrumei um emprego no Reino Unido.
Amber mal segurou o xingamento que ameaçou escapar. Inacreditável. Ele foi para o exterior, não apenas para outro estado, mas até o Reino Unido, e não disse uma palavra.
— Você leu minhas cartas?
Embora quisesse evitar essa situação, Tennessee disse a verdade.
— Li.
Diante dessa resposta calma, Amber foi consumido por uma raiva ardente e depois por uma profunda tristeza. Por um momento, sentiu um desespero tão intenso que pensou que poderia desmoronar.
Tennessee está doente agora. Ele não queria sobrecarregá-lo com emoções que ele não pediu. Engolindo tudo isso, Amber continuou suas perguntas.
— …Como você se machucou?
— Não sei.
E Tennessee continuou levando a mão à cabeça. A área costurada parecia desconfortável. Diante daquela simples ação, o coração de Amber se derreteu. Ele queria se zangar e exigir respostas, mas este momento era precioso demais.
Ele guardaria a raiva para mais tarde. Não importava o que acontecesse, Amber jurou quebrar o hábito de Tennessee de desaparecer.
Enquanto desabafava suas frustrações e cuidava de Tennessee, o dia passou em um piscar de olhos. Parecia que ele recém tinha corrido para o hospital, mas já era tarde.
As luzes do hospital permaneciam acesas até tarde da noite, mas com o passar do tempo, a movimentação foi diminuindo gradualmente. Como era um quarto privativo, o silêncio chegou ainda mais rápido.
O sol já tinha se posto. Amber olhava para o céu escurecendo através da janela. Tennessee encarava as costas de Amber. A cena de Amber olhando silenciosamente para fora lembrava Tennessee do passado em Chicago. Amber costumava pressionar o rosto tão perto da janela que ela embaçava, só para olhar para fora.
Amber afundou o rosto no ombro de Tennessee. Mesmo que deva ter doído, Tennessee, que nunca reclamava, tinha ombros largos, firmes e quentes. Fazia um tempo desde que estiveram tão próximos, então Tennessee moveu o ombro, mas Amber teimosamente manteve o rosto pressionado contra ele.
Para Amber, o dia tinha passado rápido demais. Ele alternou entre esperança e decepção, raiva e alívio, ficando emocionalmente esgotado. Os últimos dois anos, e até mesmo o dia de hoje, Tennessee o tinha abalado até o íntimo. Ele sentia que merecia isso como compensação.
— Você ainda está bravo?
Tennessee perguntou, ouvindo o suspiro de Amber.
— …Estou.
Amber ergueu a cabeça, sentindo a mão de Tennessee tocar suavemente seu cabelo como uma brisa.
— Você está me tratando como uma criança.
Apesar de reclamar, Amber não moveu a cabeça e seu tom não era de descontentamento. Tennessee murmurou alto o suficiente para ser ouvido que Amber certamente tinha crescido demais para ser tratado como uma criança. Tennessee passou os dedos lentamente pelo cabelo macio de Amber. Observando o cabelo ondular como a esteira de um barco com o movimento das pontas dos dedos, Tennessee soltou um longo suspiro.
Ele estava se lembrando da aparência de Amber quando abriu os olhos hoje. Ele não tinha se adaptado a isso. Amber tinha crescido muito, estava mais alto do que ele. Seus ombros largos, sua voz também tinha mudado. Ele tinha passado da puberdade há muito tempo, mas ainda havia um sentimento remanescente de juventude. Agora, não havia mais traço disso.
Ele se tornara um adulto inegável, um homem. Não havia mais a urgência que vinha de ser manipulado unilateralmente ou de ser excessivamente emocional como antes. Tennessee sentiu a realidade dos dois anos que se passaram. Esse período de dois anos pareceu mais significativo porque, ao contrário de antes, ele não tinha recebido fotos ou notícias.
Tarde da noite, enquanto Tennessee estava perdido em pensamentos, Amber inclinou levemente a cabeça. Seus olhos masculinos e alongados se curvaram suavemente.
── ⋆⋅☆⋅⋆ ──
— Você esteve bem durante todo esse tempo?
Amber fez a pergunta que não pôde fazer mais cedo no dia, aproveitando a madrugada. Na verdade, ele estava muito curioso. Não havia um dia em que não pensasse em Tennessee. Amber trouxe à tona uma por uma as coisas pelas quais tinha ansiado.
— Não.
— Por que eu não estava lá?
— …
Seu hábito de fechar a boca em momentos importantes permanecia o mesmo. Amber riu baixinho. Ele gostava até mesmo dessa parte dele. Amber não apenas gostava de algo em Tennessee. Ele simplesmente gostava de Tennessee.
— E o sono?
— Remédios para dormir.
Para muitas pessoas, os remédios eram uma ferramenta conveniente. Eles tornam as coisas possíveis ou nos ajudam a fazer coisas que não acontecem naturalmente. Mas para Tennessee, eles apenas substituíam uma dor por outra.
— Tennessee, por que você me colocou como seu contato de emergência?
Tennessee respondeu apenas encolhendo os ombros. Ao contrário de Amber, Tennessee sempre viveu com a morte em mente. Poderia acontecer em qualquer lugar, a qualquer momento, e baixar a guarda significava a morte. Concluir com sucesso inúmeras operações no passado não garantia a sobrevivência na próxima. Ele tinha que estar vigilante a cada momento, como se fosse a primeira vez. É por isso que Tennessee sempre guardou Amber em um canto de seu coração. No entanto, ele nunca imaginou que o rosto de Amber, que ele guardava no coração, realmente apareceria em uma situação perigosa.
‘Eu realmente vou morrer hoje.’
Camden murmurou ao seu lado. Entre suas palavras, Camden cuspiu o suco de mascar tabaco. Dizer que vai morrer é um hábito de Camden. O tempo está ruim — vou morrer. O sujeito sob proteção não colabora — vou morrer, esse tipo de coisa. Camden vinha de um contexto de forças especiais, mas para alguém que frequentemente enfrentou a morte, ele era dramático demais.
‘Qual das maiores empresas do mundo era mesmo?’
‘A terceira.’
O sujeito sob proteção era o único herdeiro de uma das três maiores empresas de petróleo do mundo. Apesar de sua pouca idade, já havia muitas pessoas mirando na criança.
‘Você não tem uma única reclamação nem nesta situação?’
Camden, que estava prestes a bater de leve no ombro de Tennessee em tom de brincadeira, encontrou seus olhos e abaixou a mão sem jeito.
‘Você tem um filho, né? É por isso que está fazendo este trabalho, dizem.’
Camden não conseguia esconder sua curiosidade.
‘Filho nenhum.’
‘Então, quem é o aquela foto?’
Ao que Camden se referia era a uma única fotografia que Tennessee carregava. Era uma foto de Amber no centro, abraçando Annie e Cody.
‘Parceiro.’
‘O quê? O filho do seu parceiro?’
Tennessee não disse mais nada a Camden, que não entendeu.
‘Não dormiu muito, né?’
‘Não é da sua conta.’
Mais do que sono… talvez eu esteja realmente exausto, pensou Tennessee.
‘Observando você, acho que você vai morrer antes de mim. De qualquer forma, certifique-se de deixar um testamento para o seu filho!’
“Filho” … Ele conhecia um.
Às palavras de Camden, Tennessee pensou brevemente no garoto.
‘Clayton.’
Ao chamado incentivando-o a seguir ordens, Tennessee caiu em si e umedeceu os lábios secos com a língua.
Este sujeito sob proteção era similar a Amber em idade e porte físico. Não que Tennessee tivesse um tipo preferido para proteger, mas ele não gostava de garotos dessa idade. Lembrava-o de seu primeiro encontro com Amber. Eles não tinham nada em comum, exceto pela nacionalidade. Ah, havia mais uma coisa. Quando tratado com gentileza, seu rosto se iluminava brilhantemente. Fosse desembrulhando um doce para ele ou fazendo pequenos favores, ele visivelmente apreciava. Isso também era como Amber.
Olhando para trás, Amber ficava feliz com coisas banais assim.
‘Pronto?’
Tennessee checou os sinais na estrada. Mesmo se sobrevivesse intacto hoje, após a missão de hoje terminar, a de amanhã viria, e depois disso, outra se seguiria.
De repente, um cansaço incontrolável o tomou.
E Tennessee culpou o cansaço inocente pelo fracasso da missão. Aplicando pressão em sua perna sangrando, Tennessee se perguntou se a névoa em sua cabeça se devia à perda de muito sangue, ao cansaço ou à falta de sono. Poderiam ser todos os três, pensou ele.
Tiros soaram não muito longe. Estavam gradualmente se aproximando.
Ele tinha perdido muito sangue e sua mente estava enevoada. Encostou a parte de trás da cabeça contra a parede fria. Os tiros eram semelhantes ao som de fogos de artifício. Quando era jovem, ele era mais familiarizado com tiros do que com fogos de artifício, então todo 4 de Julho, quando fogos de artifício eram soltos, ele se encolhia na cama. Era como se projéteis tivessem se infiltrado como sombras com aqueles sons de fogos de artifício.
Na verdade, no dia seguinte, histórias circulavam sobre algum membro de gangue ou alguém do bairro morrendo.
“Ah, eu realmente não consigo pensar com clareza.”
Para reunir sua racionalidade esmaecida, Tennessee enxugou a testa várias vezes. Ele tinha que viver — parecia quase um pensamento obrigatório. Já que não podia morrer, tinha que viver. Tinha que haver um jeito. Parecia o cumprimento do mínimo de sua responsabilidade consigo mesmo.
À sua frente, Camden jazia caído com olhos vazios. A vida já tinha deixado aqueles olhos, deixando-os ocos. Depois de todas as suas conversas sobre testamentos, ele foi o primeiro a ter a nuca estourada.
Agora os tiros podiam ser ouvidos bem diante dele. Ele tinha perdido tanto sangue que não conseguia nem segurar a arma na mão.
“É assim que eu morro? Que seja. Pensando bem, não parece tão ruim.”
Tennessee soltou um longo suspiro. Cada vez que virava a cabeça para a frente, enfrentava o pedaço de carne que um dia foi Camden. Com os braços caídos, Tennessee fechou os olhos. As palavras de Camden se repetiram.
‘Você tem um filho, né? É por isso que está fazendo este trabalho.’
Bang!
No momento em que fogos de artifício explodiram bem atrás da parede em que ele estava apoiado,
Tennessee de repente percebeu.
Ele não tinha dito a Amber que iria deixá-lo.
Se ele morresse em algum lugar longe de casa, ou se tivesse a má sorte de não sobreviver, ele achava que definitivamente deveria avisar Amber, mas se lembrou de que não tinha feito isso.
Parecia vazio demais fechar os olhos assim. Ainda havia tanto a fazer.
Ele se preocupava que Amber nunca o esquecesse e passasse a vida inteira procurando por ele.
── ⋆⋅☆⋅⋆ ──
— Por que você não respondeu?
Não havia outra emoção no tom de questionamento agora. Amber perguntou calmamente e esperou pela resposta de Tennessee.
— …Não sei.
— Foi por minha causa? Eu te deixei desconfortável?
— Um pouco.
— Então você fugiu. De mim?
Enquanto lia a carta e ouvia as palavras de Amber hoje, Tennessee percebeu o quão profundo e amplo era o ressentimento de Amber. Tennessee não deu desculpas também. Ele sentia que tudo aquilo vinha de sementes que ele próprio tinha semeado.
— Já ouviu a palavra covarde?
Tennessee sorriu e balançou a cabeça. Amber sorriu junto. Os cantos elevados de sua boca eram semelhantes a antes, porém diferentes.
— Eu sei que deve ter sido confuso. Sei que não foi fácil de aceitar.
E Amber adicionou.
— Mas acho que vou te deixar ainda mais desconfortável de agora em diante, Tennessee.
Como a mão afagando sua cabeça não parava, Amber gradualmente caiu no sono. Tinha sido um dia cansativo e agitado para ele. Enquanto tocava o cabelo preto, Tennessee não pôde deixar de soltar uma pequena risada.
Fugir, né…
Ele não está totalmente errado.
— Feliz aniversário, Amber adulto.
Meio adormecido, Amber curvou os lábios em um sorriso. Embora seu rosto parecesse inteiramente diferente, Tennessee achou que a maneira como ele sorria se assemelhava a ele de alguma forma.
— Obrigado.
Amber respondeu enquanto pegava no sono, mantendo sua raiva e tristeza cuidadosamente escondidas. Amber agora tinha aprendido a falar em tal tom.
Uma suspeita cruzou a mente de Tennessee de que Amber poderia estar um pouco feliz por ele estar ferido.
Afinal, enquanto prestava os trabalhosos e exigentes cuidados de enfermagem, Amber parecia genuinamente feliz. Ele nunca procrastinava, reclamava ou franzia a testa. Estava sempre um passo à frente, oferecendo ajuda e se prontificando. Mesmo para coisas que Tennessee podia fazer sozinho.
Tennessee era alguém acostumado a fazer tudo sozinho. Não era diferente mesmo quando estava deitado no hospital. Mais duas cirurgias estavam agendadas, então seria uma longa jornada até a recuperação. Ele tinha tentado adaptar seu corpo para se preparar para isso, mas Amber não lhe dava a chance.
“Eu consigo fazer.”
Sempre que tentava dizer essas palavras para Amber ao trazer-lhe uma garrafa de água, Amber dizia inúmeras coisas apenas com os olhos. Naquele olhar, parecia ouvir alucinações como ‘Tennessee fugiu de mim, fugiu… fugiu… 2 anos… carta…’ Então Tennessee não conseguia dizer nada.
O médico não conseguiu encontrar a causa exata da prosopagnosia de Tennessee, apenas que era provável devido ao impacto na cabeça durante o acidente de carro.
Mas Tennessee agia de forma tão natural que Amber não percebeu sua prosopagnosia. Tennessee distinguia e lembrava das pessoas por maneiras além de seus rostos. Entonação, acessórios, penteados únicos, hábitos e afins eram suas pistas.
Amber concluiu que isso era possível porque a percepção de Tennessee era incrivelmente aguçada. Havia gêmeos idênticos entre a equipe médica, e Tennessee conseguia distinguir entre eles também. Quando perguntado como, Tennessee respondeu: ‘O modo de andar deles é diferente.’ Amber não conseguiu esconder sua admiração.
Após alguns dias, Tennessee conseguiu reconhecer Amber bem também. Embora parecesse que ele ainda não conseguia reconhecer rostos, não lhe dava um olhar estranho mesmo quando Amber entrava vestindo roupas diferentes.
“Como você me reconhece?”
Quando Amber perguntou, Tennessee apenas disse: “Eu simplesmente reconheço.” Amber perguntou de forma brincalhona se ele estava se recusando a contar, mas para Tennessee, essa era a melhor resposta que podia dar. Tennessee simplesmente reconhecia Amber. Rostos nem sempre eram necessários para reconhecer as pessoas. Tennessee estava confiante de que, mesmo quando abriu os olhos pela primeira vez no hospital, se lhe dessem tempo, ele teria reconhecido Amber mesmo sem explicação.
No terceiro dia, Elizabeth e David visitaram. Após explicarem quem eles eram, Tennessee os cumprimentou, mas Amber percebeu que Tennessee não conseguia reconhecer seus rostos. Enquanto Elizabeth, que era médica, tinha uma conversa longa e difícil com o médico assistente após ouvir sobre o estado de Tennessee, Tennessee sentou-se quieto observando-o. Ao lado dele, David estava chorando, e os irmãos de Amber, Cody e Annie, que a essa altura tinham se tornado estudantes do ensino fundamental II, estavam absorvidos em seus smartphones, aparentemente acostumados a ver o pai chorar.
Tennessee deixou o comentário de que estava ‘silencioso, mas caótico,’ e Amber caiu na gargalhada ao ouvir aquele pequeno murmúrio.
— Ryker, por que você está rindo?
Enquanto David enxugava as lágrimas, os irmãos de Amber perguntaram enquanto tardiamente tiravam balões. Era um balão com a mensagem ‘Melhore logo!’
Cody e Annie, irmãos de Amber, esperavam que Tennessee dissesse algo primeiro, mas Tennessee apenas disse um breve obrigado.
Embora Cody e Annie fossem geralmente extrovertidos e sociáveis, eles tinham uma relação desajeitada especificamente com Tennessee. Isso se devia em parte ao fato de o jovem Amber ter tentado desesperadamente interferir no relacionamento dele, mas também porque Tennessee era igualmente indiferente a todas as crianças.
Amber não pôde deixar de rir assistindo a eles encarando uns aos outros sem reação. Então ele lembrou de uma memória do passado.
Antes de ir para a viagem à Flórida, no dia em que Tennessee visitou Michigan. Annie tinha feito um gesto para Tennessee pegá-la no colo. Amber, com ciúmes sem nem saber o porquê de estar com ciúmes, estava prestes a dizer não, mas não houve necessidade.
Tennessee não pegou Annie no colo. Ele apenas afagou a cabecinha dela com um olhar que não era nem assustador nem frio. Embora a rejeitada Annie tenha agarrado as calças de Tennessee e chorado, Tennessee apenas a consolou moderadamente sem abraçá-la.
Amber sorriu com satisfação. Tennessee era indiferente a todos, mas Amber não se importava nem um pouco com isso.
Como Tennessee tinha adivinhado, Amber estava fazendo bom uso deste momento. Claro, Amber não queria que Tennessee estivesse doente de forma alguma, mas o que podia ser feito agora que ele estava?
Acima de tudo, ele estava feliz por ter Tennessee só para si. Tennessee estava sempre ocupado e, embora ocasionalmente arranjasse tempo para estar com Amber, isso não acontecia com frequência. Eles passavam fins de semana juntos uma vez a cada poucos meses.
Agora Tennessee estava gravemente ferido e poderia levar pelo menos seis meses ou até mais para sua recuperação completa, tornando possível para ele passar um longo tempo com Tennessee pela primeira vez.
E, surpreendentemente para Amber, Tennessee era um paciente bastante obediente. Seguindo as ordens do médico de não mover o braço, Tennessee parou de tentar fazer as coisas sozinho. Agora Tennessee confiava quase tudo a Amber. Às vezes ele apenas encarava Amber silenciosamente. Então Amber lhe entregava uma garrafa de água ou dava seus remédios em um copinho de papel.
Ele não estava apenas recebendo ajuda, mas apoiando-se em Amber. Ele não queria que Tennessee se machucasse, mas este momento era doce o suficiente para fazer Amber se sentir culpado. Ele definitivamente desejava a rápida recuperação de Tennessee, mesmo que Tennessee fosse embora de novo assim que melhorasse. Amber deixou essa culpa fluir até o fundo do coração.
— Você está com sono?
Tennessee dormia muito. Ele passava a maior parte do dia dormindo.
Amber sentou-se silenciosamente ao lado de Tennessee, pensando que poderia ser devido aos analgésicos, mas talvez ele estivesse muito cansado durante todo esse tempo.
— Eu gostaria que você me contasse como esteve durante todo esse tempo.
O foco voltou aos olhos de Tennessee enquanto ele movia as pálpebras sonolentamente.
— Não foi muito diferente da América.
A voz de Tennessee, embriagada de sono, estava muito grave. Amber assentiu enquanto apoiava o queixo na mão.
— Tennessee.
— Sim?
— Quando você melhorar, está pensando em me deixar de novo?
Olhos azuis encontraram os seus. Tennessee não conseguiu responder facilmente. Ele não tinha contado a Amber, mas Amber era o herdeiro legal de Tennessee. A empresa guardava seu testamento registrado em cartório. É por isso que Amber foi contatado seguindo o procedimento quando Tennessee se feriu gravemente.
Tennessee não esperava por esse reencontro. Tinha sido um encontro confortável e natural, mas para o qual ele não havia se preparado.
— Você não precisa.
Tennessee pensou que o Amber original teria implorado para ele não ir. Quando Tennessee conheceu Amber pela primeira vez, ele tinha onze anos. Muito tempo se passou desde então, mas nunca pareceu tão estranho. Tennessee estava confuso e não conseguia se adaptar. Ele sentia as mudanças a cada momento que passavam juntos.
Amber não implorava mais. Embora seu tom pudesse soar como uma súplica, a mensagem contida em suas palavras persuasivas era diferente.
— Você ficou bem durante todos esses 2 anos sem mim?
Assim como Amber passou por muitas mudanças durante esses 2 anos, muitas coisas aconteceram a Tennessee também. Durante esses 2 anos, os dias em que Tennessee dormiu adequadamente podiam ser contados nos dedos de uma mão. Ele estava acostumado com sua insônia crônica, mas havia momentos que de repente vinham à mente, como o jovem Amber que costumava entrelaçar desesperadamente os dedos nos seus quando ele abria os olhos.
Amar um jovem Amber estava fora de questão, e os sentimentos de Tennessee sobre isso permaneciam firmes. Mas agora, o Amber adulto estava sorrindo para ele, perguntando como tinha sido o tempo sem ele. Seus comentários cínicos eram os mesmos, mas vinham de um Amber mudado, alguém cujo coração nunca vacilaria.
— Durma, Tennessee.
Àquelas palavras, Tennessee caiu em um sono profundo como se fosse mágica.
Como se fizesse os dois anos parecerem insignificantes.
── ⋆⋅☆⋅⋆ ──
A primeira cirurgia de Tennessee terminou com sucesso. Originalmente, ele deveria ter permanecido na UTI por 24 horas, mas devido ao seu bom progresso, foi transferido para um quarto comum após 12 horas.
Quando foi movido de volta para o seu quarto original, Tennessee estava dormindo. Amber segurava sua mão fria e rígida ao seu lado. Tennessee acordou algumas horas depois.
Em vez de estar completamente consciente, foi mais como um breve despertar. Tennessee encarou Amber ao seu lado por um longo tempo e piscou várias vezes. Levou algum tempo para ele reconhecer que era Amber.
— Se estiver com sono, durma mais um pouco.
Tennessee balançou a cabeça.
— Estou com sono, mas é estranho.
— São os analgésicos.
Embora suas palavras tivessem a intenção de ser tranquilizadoras, Tennessee ergueu a cabeça.
— …É morfina?
Tennessee olhou para a agulha do seu soro e segurou a cabeça. Era a primeira vez que Tennessee se sentia tão tonto.
— Sim, é um gotejamento de morfina.
— …Tire isso.
Como não fazia muito tempo que ele tinha saído da cirurgia, definitivamente doeria sem analgésicos. Amber balançou a cabeça, mas Tennessee foi firme.
— Tire, eu não quero.
No entanto, ele não podia simplesmente remover a agulha do soro à vontade. Amber olhou para o gotejamento e primeiro ajustou a pinça roletada.
— Diga a ele que quero analgésicos diferentes, não morfina.
— …É porque é ópio?
Embora fosse extraído do ópio, a morfina era um analgésico. Não era um composto orgânico sintetizado como o ecstasy.
— Não, é porque minha cabeça dói.
Mas Amber detectou a profunda aversão e rejeição de Tennessee em relação a drogas. Tennessee suspirou.
Tennessee não era tão rígido sobre tudo. Ele sabia muito bem que aquela era morfina prescrita por médicos no hospital. Mas coisas inventadas por conveniência eram consistentemente mal utilizadas. Xanax, diazepam, zolpidem… a lista era infinita.
Sua mãe também tinha usado drogas dessa forma. De maconha a cocaína, heroína e até longas barras de Xanax. Não era apenas paranoia. O próprio Tennessee frequentemente se perguntava se ele poderia ser inerentemente vulnerável ao vício.
— Mas você vai sentir dor.
A dor era melhor.
Tennessee tinha medo. Até onde ele sabia, coisas ruins eram herdadas. Doenças, pobreza e vício. Quando ele via seus olhos nublados por drogas, ele caía em alucinações de estar no lugar dela, olhando no espelho.
— Vou chamar o médico.
Após confirmar que não havia mais morfina gotejando, Amber se levantou.
— Fique comigo, Amber.
Preso por aquele pequeno pedido, Amber não conseguiu se mover. Embora fosse um chamado simples, tinha ressonância. Pequenas palavras fluíram da boca de Tennessee enquanto ele cobria os olhos com as costas da mão.
— Assim eu vou conseguir dormir, mesmo se doer.
Amber às vezes tinha alucinações de estar preso em uma tempestade. Acontecia especialmente quando ele estava com Tennessee. Às palavras de Tennessee, seu rosto ficou ruborizado e ele suou sob o sol escaldante, às vezes se encolhendo com as rajadas de vento.
“Se Tennessee soubesse desses sentimentos ardentes, ele fugiria de novo?”
Amber fechou os olhos e pensou.
Após ouvir os conselhos do médico, o “eu faço sozinho” de Tennessee desapareceu. Não importa o que dissessem, Tennessee tendia a escutar bem os conselhos médicos. Tanto Tennessee quanto Amber reconheceram a gravidade da situação quando lhes foi dito que ele precisava de mais descanso, especialmente porque não fazia muito tempo desde a cirurgia.
Mas Tennessee se sentia inquieto e, embora não demonstrasse, Amber notou. Era compreensível. A rotina diária de Tennessee consistia apenas de sono, refeições e higiene. Tornou-se mais aparente conforme o tempo em que ele permanecia acordado aumentava.
Após receber a liberação para pequenas caminhadas, Amber trouxe uma cadeira de rodas. Embora não fosse fácil devido aos seus membros quebrados, Tennessee conseguiu se acomodar na cadeira de rodas.
Depois de dar uma volta pelo corredor do andar, Amber estava no processo de guardar a cadeira de rodas.
Alguém bateu à porta do quarto do hospital.
Lá estavam homens com um porte físico similar ao de Amber, mas muito mais parecidos com Tennessee em sua postura. Todos vestiam ternos. Quando Amber se tensionou e tentou pressionar o botão de chamada de emergência, Tennessee balançou a cabeça.
— Como está se sentindo?
Era um sotaque britânico requintado. O homem que notou a testa levemente franzida de Amber fez um pedido educado, mas claro, para que ele se retirasse. Ele foi muito cortês com suas palavras, mas era essencialmente uma ordem. Os outros dois homens de terno pareciam ser seguranças. Como Tennessee e esses homens pareciam se conhecer, Amber começou a se levantar.
— Fique aqui.
Fazia um tempo desde que ele ouviu “fique aqui”. Aqueles homens não pareciam se importar muito se Amber ficasse, então ele não disse mais nada. E não muito tempo depois, outra pessoa apareceu. Para os olhos de Amber, “apareceu” era exatamente a palavra certa.
Era um garoto loiro que parecia estar nos últimos anos do ensino fundamental.
“…Ele não é filho dele, é? Mas ele é loiro”. Enquanto pensava que aquela pessoa não parecia alguém que visitaria o quarto de hospital de Tennessee, o mesmo sotaque britânico do homem anterior se fez ouvir. O garoto expressou calmamente sua gratidão e mencionou sacrifício e trabalho duro.
Amber sentiu uma explosão de ciúmes que não era engatilhada desde “aquela mulher” em Chicago. Conforme ele continuava escutando, as peças que faltavam da história se juntaram. Amber fez um pequeno som de “ah”. Tennessee esteve protegendo este garoto britânico.
— Estou feliz que esteja a salvo.
Tennessee disse isso baixinho, e Amber sorriu para esconder seus ciúmes duplicados com as peças do quebra-cabeça completadas. Tennessee tinha se colocado em perigo para proteger essa criança daqueles que tentavam sequestrá-la por resgate.
“Foi apenas trabalho, certo?”
Amber se consolou dessa forma, mas o jovem garoto – vulnerável, honesto – de alguma forma o lembrava de seu eu mais jovem, e Amber odiava terrivelmente esse fato. Tennessee já era difícil o suficiente de conquistar como estava.
Talvez fosse porque Tennessee era uma pessoa tão seca, mas Amber se preocupava seriamente de que ele tivesse o poder de atrair pessoas similarmente secas. Se não fosse por isso, como este garoto nobre viria aqui e elaboraria sobre como “nós cobriremos as despesas do hospital então não se preocupe e por favor foque em se recuperar, muito obrigado”?
Com sua expressão controlada, mas se sentindo bastante emburrado por dentro, Amber cruzou os braços.
O garoto enxugou suas lágrimas e estendeu a mão em direção à mão de Tennessee na cama. Ele parecia querer segurá-la.
Assim que Amber estava prestes a se perguntar se precisava ter ciúmes até de uma criança, quando o garoto estendeu a mão, Tennessee naturalmente moveu sua própria mão em direção a Amber.
O braço esquerdo de Tennessee, que não estava engessado, apontou para a garrafa de água. Como se nem estivesse vendo a mão do garoto que perdeu seu destino.
— Entrarei em contato novamente.
— Planejo descansar até me recuperar.
— Sr. Clayton, após sua recuperação—
— Mesmo se a cirurgia for um sucesso, não serei o mesmo de antes do acidente. Não tenho certeza se serei um chefe de segurança útil.
“Muito bem, Tennessee!”
Amber, que estava prestes a entregar a garrafa de água, mudou de ideia. Em vez de colocá-la em sua mão, ele abriu a tampa e a segurou contra os lábios dele. Embora esperasse que ele dissesse algo, Tennessee bebeu a água em silêncio.
“Lindo. Perfeito. Eu o amo tanto que sinto que vou enlouquecer.”
Amber aprendeu que quando seu coração bate rápido demais, a pulsação pode viajar até os seus pés.
Amber estava ocupado.
Para Tennessee, parecia que ele não precisava ser tão ativamente diligente, mas Amber se movia sem um momento de descanso. Com alguém de porte físico tão grande se movendo para frente e para trás em um único quarto, isso de alguma forma fazia o quarto de hospital parecer lotado. Como seu rosto parecia não familiar, Tennessee esfregou as pálpebras e abriu os olhos.
Embora sua voz tivesse se tornado muito mais grave e encorpada, era possível reconhecê-la porque traços da voz distinta de Amber do passado permaneciam. Quanto à altura, já que ele tinha dito que cresceria muito, não era tão surpreendente. Mas quem diria que não ser capaz de reconhecer um rosto poderia fazer alguém parecer tão diferente.
Toda vez que o via, Tennessee se sentia encontrando um estranho.
Especialmente quando abriu os olhos pela primeira vez. Tennessee lembrou daquele momento com uma risada amarga.
Um homem com uma expressão incrédula estava olhando para ele, e Tennessee instintivamente moveu a mão para procurar sua arma. Mas a sensação dos lençóis da cama era diferente e – claro – não havia revólver. Seu primeiro pensamento foi como subjugar aquele homem.
“Amber. Eu sou o Amber.”
Sua cabeça envoada parecia clarear. Amber…? Você?
Embora o rosto fosse claramente diferente do que ele conhecia, ele se sentiu aliviado. Mas a prosopagnosia deixava a pessoa um tanto cansada. Fazia você permanecer vigilante e tenso a cada vez.
Embora conseguisse reconhecer Amber agora, os primeiros dias foram difíceis e, honestamente, ele ainda não tinha se adaptado ao seu rosto atual. Parecia novo e como uma pessoa diferente a cada vez. Exceto pela cicatriz, nada permanecia como Tennessee lembrava. Ao ponto de ele se perguntar se estava sendo enganado.
Tennessee balançou a cabeça diante de pensamentos que ele próprio achava tolos e ineficientes. “Quem se daria a tal esforço e despesa para me enganar? O que eu valho?” E se alguém realmente quisesse enganá-lo, deveria haver muitas pessoas que poderiam agir de forma similar a como Amber costumava ser, mas agora ele era convincentemente diferente demais.
— Amber, meus cigarros.
Amber, que estava organizando a gaveta, tirou cigarros do bolso do casaco. Eram os cigarros de Tennessee. Amber tirou um cigarro do maço e o trouxe aos seus lábios. Quando ele tentou pegá-lo com os lábios, Amber puxou a mão de volta. Quando Tennessee, franzindo a testa, ergueu o queixo novamente, a mão segurando o cigarro se afastou de novo.
— Esta é uma área de não fumantes.
— Podemos ir lá fora.
— Vou buscar a cadeira de rodas.
Amber, sorrindo suavemente, parecia se virar, mas então disse isto:
— Ah, verdade, você não tem permissão para sair. O médico disse para não ir lá fora porque é ruim para o seu sistema imunológico.
Tennessee suspirou. Ele tinha outra cirurgia pela frente e, como nenhum médico no século XXI recomendaria fumar, a proibição de fumar era inevitável. Diante do resignado Tennessee, Amber sorriu brincalhão e segurou o cigarro. Então ele partiu o cigarro ao meio bem na frente dos seus olhos. O tabaco se despedaçou.
“Ele tinha tanto ressentimento contra mim assim, ou quer arrumar briga comigo agora?”
Enquanto o paciente sedento por nicotina ponderava sobre isso, o rosto de Amber mostrava clara satisfação para qualquer um ver.
— Coma isto em vez disso.
Então Amber vasculhou o bolso e tirou algo. Tennessee pegou as coisas que caíram à sua frente com um som de papel amassado.
Tootsie roll.
Era um caramelo mastigável de cor marrom-escura.
— Comprei estes de propósito. A cor parece que pode combinar com seus alvéolos arruinados por fumar demais.
“É realmente ele.”
Com sua mão esquerda funcional, Tennessee espantou os doces para longe.
Com todos os cuidados de enfermagem, Amber vinha ficando cansado e caindo no sono com mais frequência ultimamente. Tennessee estalou a língua. Era natural, com o quão ocupado ele estava cuidando dele e fazendo todo o resto também.
Amber tentava lidar com várias papeladas também. Tennessee precisava tratar de documentos do hospital, contas, e-mails e até questões imobiliárias, e Amber o amolava dizendo que queria ajudar. Ele se tornou ainda mais insistente após saber que Tennessee planejava comprar uma casa em Chicago.
Tennessee tinha decidido se estabelecer em Chicago logo após ouvir do médico sobre o progresso de sua recuperação.
“Quando você faz uma cirurgia no cérebro, o cérebro incha. Leva pelo menos 6 meses para o inchaço do cérebro diminuir. Esse é o mínimo. Pode levar até um ano.”
Em vez de trabalho de segurança em campo, ele teria que fazer trabalho de escritório como consultor de segurança como antes. Ou talvez apenas descansar não seria ruim também, o pensamento cruzou a mente de Tennessee. Um ano passaria rápido o suficiente. Como não seria financeiramente difícil, não era um pensamento irrazoável.
“E leva muito tempo para os ossos cicatrizarem também. Embora a alta não vá demorar, a recuperação completa sim.”
Então, é claro, Amber acolheu entusiasmado o plano de Tennessee de se estabelecer em Chicago por enquanto. Embora fosse uma mistura estranha de raiva e boas-vindas.
“Para onde você vai?”
“Provavelmente Chicago.”
Ele não tinha decidido totalmente fazer uma pausa, mas se trabalhasse, Chicago, onde ficava a sede da empresa de segurança, seria o melhor lugar.
“Aquela casa, Tennessee. Tem que ser aquela casa antiga.”
“…”
Para Tennessee, Amber parecia ter um profundo lamento sobre aquela casa ter sido vendida.
De acordo com Amber, o que Tennessee vendeu não foi apenas uma casa, mas as memórias que vinham com ela.
“Vender memórias, ele diz…” Tennessee às vezes pensava naquela casa também. Não apenas naquela casa especificamente, mas em todos os espaços que guardavam memórias com Amber, como impressões digitais.
Na época em que ele morava no conjugado em Chicago. Amber pressionava o rosto perto da janela para ver a vista noturna. Quando seu nariz tocava a superfície fria, sua respiração embaçava o vidro. Luzes da cidade. Com ambas as mãos contra a janela, Amber encarava o lado de fora por um longo tempo. Mesmo depois de deixar de ficar maravilhado com a vista noturna, Amber ainda pressionava o nariz contra a janela e olhava para fora.
É isso que chamam de memórias, aparentemente. Então Tennessee finalmente se decidiu por aquela casa daquela época. Felizmente, foi possível.
— Amber.
Ele chamou como um teste, mas Amber não acordou. Talvez o cansaço dos últimos dias tivesse se acumulado. Não querendo acordá-lo, Tennessee puxou a cadeira de rodas ao seu lado. Graças a Deus sua mão esquerda estava boa. Se ele não pudesse mover a mão esquerda também, sua expectativa de vida não teria sido encurtada apenas de frustração?
— Uf…
Tennessee teve que suar frio apenas para se acomodar na cadeira de rodas sozinho. Suas pernas não estavam confortáveis e era difícil ter que suportar todo o seu corpo apenas com a mão esquerda. A sorte foi que Amber tinha travado as rodas da cadeira. Se não fosse por isso, ele não teria tido sucesso devido à cadeira rolando para os lados.
Após conseguir entrar na cadeira de rodas através de vários esforços, Tennessee enxugou a testa, que agora estava encharcada de suor.
Entrar na cadeira de rodas foi difícil, mas todo o resto correu bem. Vendo Tennessee se aproximando, as pessoas seguravam a porta do elevador por um longo tempo esperando por ele. Embora ele fizesse gestos para irem em frente dizendo que estava tudo bem, uma mulher de meia-idade até o empurrou, talvez sentindo pena ao vê-lo se movendo com apenas uma mão.
— Como você se machucou?
Tennessee não respondeu por achar incômodo, mas a mulher começou a inventar sua própria história, dizendo: “Coitadinho, deve ter sido um acidente de trânsito.”
— Meu filho Jeremy também teve um acidente de trânsito…
Como não era particularmente desagradável de ouvir, Tennessee apenas assentiu vagamente. Ele recebeu outras pequenas ajudas também, e Tennessee não as recusou. Ele achava que estava tudo bem aceitar, desde que não fosse um grande favor.
E quando Tennessee retornou ao quarto do hospital, a porta estava escancarada. Tennessee se tensionou e avaliou o ambiente.
Amber estava sentado sozinho. Ele devia ter acordado há bastante tempo, pois não havia traço de sono em seu rosto. Tennessee empurrou a cadeira de rodas com dificuldade usando uma mão e, como o som era quieto, Amber não o notou de imediato.
Ao entrar, Tennessee viu Amber vestindo o que parecia ser uma máscara rígida. Era a primeira vez que ele via uma expressão tão vazia no rosto de Amber. Era como se sua expressão tivesse sido apagada, limpa como uma tela em branco. Você poderia desenhar qualquer coisa nela. Ele não ficaria surpreso se a raiva estivesse espreitando atrás daquele vazio.
— O que você está fazendo?
— Tennessee?
Amber deu um pulo. Era um rosto radiante em contraste com o vazio de antes, como se tivesse sido uma ilusão.
— Onde você foi?
Tennessee franziu as sobrancelhas diante da expressão que mudou assim que Amber o descobriu.
— Uma caminhada. O que foi?
— Pensei que você tinha fugido.
O tom estava cheio de brincadeira, mas havia um peso naquela mensagem.
— Por que eu fugiria?
— Certo, claro.
Amber, que parecia estar pensando profundamente, concordou com um olhar de compreensão.
— Você tem cirurgia esta semana, como poderia ir embora, certo?
— …
Amber tinha se tornado mais cínico no tempo em que não se viram.
E Amber se maravilhou com o fato de ele ter entrado na cadeira de rodas sozinho. Antes que Tennessee pudesse dizer qualquer coisa, Amber rapidamente travou a cadeira de rodas e se curvou para perto. Significava para Tennessee passar o braço ao redor do pescoço de Amber. A rotina era que, se Tennessee envolvesse um braço ao redor do pescoço de Amber e se segurasse, Amber ajudaria a erguê-lo para sentar na cama; caso contrário, Amber teria que erguê-lo completamente.
Embora fosse um contato ao qual ele simplesmente não conseguia se acostumar, era melhor do que ser carregado como uma princesa. Escondendo seus sentimentos desconfortáveis, Tennessee envolveu seu braço.
— A caminhada foi boa?
Seus troncos estavam pressionados juntos e uma respiração de fazer cócegas tocou seu pescoço e ombro. Amber colocou o braço ao redor da cintura de Tennessee. O braço cruzando suas costas parecia não familiar. O antigo Amber costumava ser pequeno o suficiente para ficar pendurado em Tennessee.
— Sim.
— Vamos juntos da próxima vez.
Amber sugeriu enquanto ajudava Tennessee a ir para a cama sem esforço.
— Vamos comer sorvete juntos.
Tennessee assentiu às palavras de Amber.
— Você disse sorvete.
Doritos, Lays, Butterfinger, BabyRuth, 3 Musketeers. Estes eram todos os doces e salgadinhos que Amber estava segurando em uma mão.
Considerando que o lugar que Amber mais visitava ultimamente era ninguém menos que a máquina de vendas automáticas, não era realmente surpreendente. Em sua outra mão estavam um Mountain Dew e um Root Beer.
Tennessee fez uma cara de náusea ao ver todas aquelas coisas despencando. A tendência de Amber como um fiel entusiasta de Mountain Dew parecia ter se estendido agora para Root Beer e Dr Pepper. Claro, Tennessee não gostava de nenhum dos três.
— É por isso que você está ficando no hospital?
Amber caiu na gargalhada, mas a pergunta de Tennessee continha cerca de 65% de sinceridade. Era certo que, conforme o tamanho de Amber tinha crescido, ele precisava de mais combustível também. Amber devoraria instantaneamente todas aquelas coisas gordurosas, doces e salgadas de onde estava sentado. Ele não se esqueceu de chupar a ponta do polegar e erguer os cantos da boca em satisfação.
— E a faculdade?
Tennessee trouxe à tona a pergunta pela qual esteve curioso por uma semana. Amber provavelmente estava cursando a universidade. Mas durante essas duas semanas, Amber não tinha deixado o quarto do hospital, exceto para pegar livros para ler ou necessidades como roupas. Ele tinha permanecido fielmente ao lado de Tennessee o tempo todo.
— Eu te disse, Tennessee, que não vou te contar.
Amber retrucou que Tennessee deveria saber o quão frustrante é quando sua curiosidade não é satisfeita.
Este era o seu karma, então Tennessee não perguntou mais. Ele tinha outros métodos de qualquer forma. Se ele apenas jogasse pistas para Elizabeth ou David, eles prontamente lhe diriam que filho orgulhoso e jovem de conduta reta Amber era.
— A propósito, Elizabeth e David não vão te contar também.
Tennessee ergueu as sobrancelhas diante das palavras inesperadas.
— Eu os avisei minuciosamente.
— Você está sendo rancoroso?
— Não.
Amber balançou a cabeça dizendo que aquilo era absurdo.
— Vamos trocar perguntas mais tarde.
Amber recusou terminantemente com um rosto radiante. À parte de recusar Tennessee com pesar, o coração de Amber estava simplesmente preenchido de felicidade. Mesmo que não pudesse prometer o que aconteceria no futuro, cada dia estando com Tennessee fazia seu coração transbordar.
— Pensei que quanto mais o tempo passasse, menos curioso eu ficaria…
— Acho que já te contei muita coisa.
— Não o suficiente.
A lógica de Amber era de que, como Tennessee frequentemente mantinha a boca fechada, ele não tinha escolha a não ser usar tais métodos desleais.
— Do que você tem tanta curiosidade?
Amber disse que não haveria fim se ele começasse a fazer perguntas.
— Então, vamos perguntar um ao outro uma por uma. Até lá, você pode acumular perguntas também, Tennessee.
A mão grande de Amber se aproximou cautelosamente. Tocou levemente a ponta da mão esquerda de Tennessee. Parecia que uma pena tinha pousado.
O toque suave das pontas dos dedos era não familiar, mas parecia sensível demais para se afastar. Conforme Tennessee movia seus dedos, ele eventualmente soltou quando alguém se aproximou deles.
Um homem vestindo pijama cirúrgico e Crocs apareceu, e Tennessee instintivamente se tensionou, mas logo suspirou. Ele reconheceu o homem por sua voz e gestos de mão. Era o enfermeiro que passava por ali ocasionalmente.
— Bom dia, Ryker.
— Bom dia.
Amber naturalmente deu um passo para o lado, dizendo que iria limpar o lixo dos lanches. O enfermeiro checou o soro no braço de Tennessee e fez algumas perguntas.
Tennessee não conseguiu responder às perguntas de imediato, pois estava observando as costas de Amber desaparecendo na curva do corredor. O enfermeiro riu quando Tennessee não conseguiu se concentrar de forma alguma. Ele sorriu, sabendo muito bem o porquê.
— Seu namorado continua bonito como sempre.
A mente de Tennessee acendeu no momento em que ele estava prestes a responder.
“…Namorado?”
— Tudo pronto.
Antes que Tennessee pudesse agarrá-lo e explicar, o enfermeiro deixou os remédios e o copo de papel. Então ele desapareceu com um olhar que parecia dizer “que casal adorável”. Como passando um bastão, Amber apareceu na curva do corredor.
— Amber, como você se apresentou para aquela pessoa?
O interrogatório de Tennessee começou.
— Eu? Como Ryker.
Ele costumava ser rápido no raciocínio, e Ryker também era bom em fingir demência.
— Ele pensa que você é meu namorado.
— Ah.
Amber engoliu as palavras de que provavelmente a maior parte do hospital pensava o mesmo. Amber evitou contato visual. Embora Amber alegasse ser inocente e correto, ele não podia escapar das acusações.
— Como você se apresentou?
— Aquela palavra… que começa com P.
— Pau amigo?
— Parceiro.
— …Como um acompanhante, né.
Um escárnio escapou dos lábios de Tennessee involuntariamente. Nem mesmo como um parceiro de negócios, mas se apresentar como parceiro enquanto ficava no hospital constantemente cuidando dele era equivalente a se assumir.
— Eu não quis dizer dessa forma, mas é assim que ele parece ter entendido.
Amber adicionou com um tom de pesar.
Ele insistiu que realmente quis dizer parceiro, mas as pessoas entenderam errado.
— Cale a boca.
— Realmente não foi minha culpa.
Não funcionava com Tennessee. Ele não conseguia afastar o pensamento de que Amber estava gradualmente se tornando mais audacioso.
— Me desculpe.
Justo quando um irritado Tennessee estava prestes a falar, Amber se desculpou rapidamente.
— Há alguns dias, ele perguntou qual era o nosso relacionamento, já que não nos parecemos com parentes. Naquela situação, eu não podia contar tudo sobre o nosso passado, e não consegui encontrar outra palavra para substituir. E bem…
Amber sorriu amargamente. Os cantos de sua boca que tentaram se erguer desmoronaram ligeiramente.
— Eu não podia dizer que não somos nada, porque isso não é verdade. Nós somos realmente nada?
Quando perguntado assim, Tennessee não tinha nada a dizer novamente.
— Me desculpe.
Amber pediu desculpas novamente. Palavras de reprovação subiram para sua garganta, mas mal se apegaram à língua de Tennessee. Após muita luta, elas finalmente voltaram para dentro. O que ele poderia fazer quando Amber estava arrependido?
— Da próxima vez que nos encontrarmos, eu explico a ele.
— O que você vai dizer?
Amber fez “hmm” e depois riu baixinho.
— Não tenho certeza, vou pensar sobre isso.
Tennessee, que esteve esfregando a fonte, acabou balançando a cabeça.
— Esqueça, não importa de qualquer forma.
Eram pessoas que ele logo esqueceria e nunca mais veria, e seria ridículo sair por aí explicando para cada uma delas.
— Você não está zangado, está?
— Não.
Tennessee não conseguia afastar a sensação de que estava de alguma forma sendo levado por Amber.
Tennessee, que tinha se tornado sério, naturalmente se viu contemplando a impudência de Amber. Ele tinha a intuição de que Amber estava se tornando cada vez mais astuto conforme os anos passavam.
— Tennessee.
Algo se aproximou dos lábios de Tennessee, perdido em pensamentos profundos. Era um comprimido.
A morfina que Tennessee recusou era altamente viciante e tinha efeitos colaterais, mas era um analgésico muito eficaz e poderoso. Junto com o local da cirurgia, Tennessee estava com dores intensas devido aos seus ferimentos, então estava tomando regularmente analgésicos alternativos.
Ele estendeu a mão esquerda boa, mas Amber balançou a cabeça. Quando ele estava prestes a insistir, um comprimido redondo e liso tocou seus lábios. O comprimido deslizou cuidadosamente através de seus lábios entreabertos.
— Abra mais.
Agora, os lábios de Tennessee estavam apenas levemente entreabertos, o suficiente para um suspiro escapar. Quando Tennessee reagiu com indiferença, o polegar de Amber tocou seu lábio inferior. A ponta do dedo quente pressionou contra o lábio inferior vermelho e inchado. Relutantemente, Tennessee relaxou os lábios, e Amber sorriu satisfeito.
Ele pensou que Amber o faria morder seu dedo, mas em vez disso, o dedo de Amber passou pelo lábio inferior e deslizou ligeiramente para dentro de sua boca úmida. Foi uma entrada leve, apenas o suficiente para a ponta do dedo de Amber tocar seus dentes. Se o polegar de Amber entrasse só mais um pouco, tocaria a carne macia dentro de sua boca.
Enquanto mantinha a boca de Tennessee aberta assim, Amber empurrou os comprimidos um por um. Após colocar todos os comprimidos em sua boca, ele trouxe um copo de água também. Enquanto Tennessee bebia, seus olhos olhavam para cima. Sempre que Tennessee olhava para ele, seus olhos sempre se encontravam. O olhar de Amber estava sempre em Tennessee.
— Bom garoto.
A testa de Tennessee franziu ligeiramente com aquelas palavras, o que Amber notou com uma percepção incrível.
— Esse sou eu. Sou um garoto tão bom, cuidando de você assim.
Bom garoto, Amber.
Enquanto elogiava a si mesmo alto o suficiente para ser ouvido, Amber encostou a testa no ombro de Tennessee. Sabendo da condição física de Tennessee, foi um toque leve como pétalas de flores pousando.
Tennessee acariciou o cabelo preto de Amber. Não esperando por isso, os ombros de Amber enrijeceram, mas Tennessee assentiu sem perceber.
Por que ele não tinha acariciado seu cabelo mais assim antes? O cabelo de Amber era tão macio que o fazia se arrepender, e se desgrenhava agradavelmente sob sua palma.
— É. Você é um bom garoto, Amber.
Suas sobrancelhas masculinas, fortes e escuras se ergueram. Toda vez que Amber piscava, seus cílios sombreados pareciam esvoaçar como asas de borboleta. Quando este homem bonito que chamaria a atenção em qualquer lugar sorria suavemente, sua beleza brilhava ainda mais.
— Obrigado.
↫─☫ Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Lᥙ꧑ᥲ Hᥲrtzᥣᥱr