Capítulo 68
Esta já era a quarta visita de Marvin à delegacia de polícia. Entre elas, sua terceira passagem pela divisão de crimes violentos. Os rostos de alguns detetives já estavam se tornando familiares pela frequência com que ele aparecia por lá ultimamente.
Até então, os detetives só conheciam Marvin como o gerente do Daegyeong Hotel. Mas hoje, eles adicionaram “sujeito bom de briga” ao seu perfil. E não apenas isso: ele agora carregava o rótulo de bastardo louco que enfrentou vários gângsteres sozinho. Claro que o próprio Marvin não tinha ciência disso, por isso não podia deixar de se sentir estranho toda vez que os detetives olhavam para ele.
O Diretor Jo estava sendo interrogado primeiro. Ele conversava seriamente com o detetive responsável quando notou a entrada de Marvin e lançou-lhe um olhar. Ko Hyung-joon, sentado ao seu lado, sussurrou algo em seu ouvido, e o Diretor Jo assentiu sem tirar os olhos de Marvin.
Marvin varreu a sala com o olhar em busca dos outros. Os oito membros da gangue estavam sentados bem afastados, ocupados com seus próprios assuntos, enquanto os policiais que atenderam à ocorrência se preparavam para ir embora como se nada fora do comum tivesse acontecido. A atitude frouxa em relação ao crime organizado parecia perturbadora.
— Venha por aqui.
Um detetive gesticulou para que Marvin se sentasse. Após declarar seu nome, endereço e ocupação, uma breve investigação começou. Dado o horário avançado, pediram apenas um resumo do incidente.
— Eles disseram que tinham algo bom para mim.
Foi assim que Marvin disfarçou o motivo de sua visita. Sem saber o quanto o outro lado revelaria, ele não tinha escolha a não ser manter-se vago. Foi quando percebeu, de repente, que o Diretor Heo não estava em lugar nenhum.
Ele fugiu?
Durante toda a briga, o Diretor Heo havia hesitado sem escolher um lado. Agora marcado como traidor, provavelmente estava com mais medo do Diretor Jo do que da polícia. Deve ter aproveitado a oportunidade para se esgueirar para longe.
Por enquanto, Marvin decidiu manter segredo sobre ele. Como o outro lado também não o mencionou, não havia necessidade de complicar ainda mais as coisas.
— Você realmente enfrentou todos eles sozinho?
Diante da pergunta do detetive, o policial que digitava em um laptop na mesa ao lado fez uma pausa. Até mesmo o detetive encarregado do caso do Diretor Jo observava discretamente. Sem querer, Marvin havia se tornado o centro das atenções.
Marvin riu sem jeito:
— Isso é impossível. Eu apanhei bastante também.
Não se tratava de se exibir. O objetivo era enquadrar a situação como culpa mútua. Se a linha entre vítima e agressor ficasse embaçada, eles poderiam resolver a questão em particular.
— Alguns moradores relataram ter ouvido tiros?
O Diretor Jo interrompeu suavemente:
— Sério? Nossos caras estavam balançando coisas por aí e quebraram uma lâmpada fluorescente, deve ter soado como um estouro. Quem na Coreia sai por aí com uma arma, afinal? Certo?
Ele encarou Marvin, com a pressão implícita clara: Siga o jogo e não fale bobagens.
— O prédio parecia bem velho mesmo — apoiou Marvin, sem muito entusiasmo.
O detetive, com o queixo apoiado na mão, soltou o ar e abandonou o assunto. Assim, a história foi ajustada ali mesmo. Concordaram em uma narrativa onde Marvin tinha ido receber uma quantia prometida, ficou farto da enrolação e perdeu a paciência.
O detetive parecia incrédulo, mas, com todas as partes mantendo a mesma versão, não havia muito que pudesse fazer. Sem acusações criminais claras, a investigação inicial foi encerrada. Dado o horário tardio, todos passariam a noite na carceragem para retomar as negociações pela manhã.
Eles foram divididos em seis grupos e dispersos o máximo possível. A cela de Marvin tinha um homem bêbado estirado no chão. Marvin não tinha certeza se o sujeito estava fingindo ou genuinamente apagado. O cheiro forte de álcool era avassalador. O homem que roncava parecia ser apenas um civil comum.
Marvin baixou ligeiramente a guarda e se sentou, soltando um suspiro profundo. Havia sido um dia exaustivamente longo. O almoço com o grupo de Oh Jae-young, a briga com os homens do Diretor Jo, seu heat se manifestando, e depois…
Deslizando os dedos sobre os lábios, Marvin repassou os acontecimentos. Tudo antes da prisão parecia surreal. Agora que a linha fora cruzada uma vez, seria mais fácil cruzá-la novamente.
Deveria sair de casa quando meu heat chegar?
Sua mão, que tocava os lábios, subiu para esfregar as bochechas e depois esfregou o rosto abruptamente. Uma respiração trêmula escapou-lhe.
Vou descobrir o que fazer quando a hora chegar.
Nesse momento, outra pessoa foi trazida para a cela: Ko Hyung-joon. Enquanto a porta de grades se fechava com um estrondo metálico, ele chamou o policial que o escoltara:
— Nós não vamos jantar?
A resposta veio em tom seco:
— Fique quieto e se comporte.
O policial bateu a porta deliberadamente mais uma vez antes de sair. Marvin observou Ko Hyung-joon com calma. Esfregando a parte de trás da cabeça, ainda dolorida pelas pancadas que levara de Marvin, ele gritou para a câmera novamente:
— Comida!
— Fique quieto. — A mesma advertência estalou pelo alto-falante.
O olhar de Marvin voltou-se para o teto. Uma câmera estava montada no canto superior direito da cela e outra bem acima da porta. Sem pontos cegos. Dado o quão sensível era o áudio, provavelmente havia um amplificador também. Ou seja, nada de conversas privadas.
— Como o corpo está aguentando? — Ko Hyung-joon sentou-se ali perto, sentindo o chão frio se infiltrar até os ossos. Fungando, ele deu a Marvin um olhar surpreso de cima a baixo. — Já tomou supressores? É bem prevenido.
O bêbado resfolegou e mudou de posição no sono. Os olhos de Marvin desviaram para ele antes de retornarem a Ko Hyung-joon.
— Venho querendo perguntar: você consegue sentir meus feromônios?
Ko Hyung-joon, sentado de pernas cruzadas e segurando os sapatos, balançava para a frente e para trás:
— Não. Você não tem nenhum. Perdê-los é uma reação normal.
Marvin pensara o mesmo até encontrar uma exceção. Se isso se devia à habilidade única de Jin-woo ou a um efeito colateral da conversão de sua característica, ele ainda não sabia.
De qualquer forma, o fato de Ko Hyung-joon saber sobre os sintomas posteriores ao remédio de segundo estágio confirmava que ele fora plantado com uma intenção diferente. Sorrindo, assentiu como se entendesse o olhar intenso de Marvin.
— Dores de cabeça fortes? Sangramentos nasais? Nausea, talvez? Tipo enjoo matinal.
A analogia inadequada fez Marvin pressionar os lábios firmemente.
— Estava curioso sobre a sua condição. Como vai a vida? Satisfatória? Tudo fluindo suavemente por lá? — Baixando a voz, ele se aproximou centímetros, inclinando a cabeça como se sugerisse que falassem fora do alcance dos ouvidos alheios.
Marvin franziu o cenho, mas se inclinou para ficar no mesmo nível. Ele queria dar um soco em Ko Hyung-joon pelas observações vulgares, mas a busca por informações era prioridade agora.
— Você conhecia o sunbae Do-jin?
Essa era a maior dúvida. O real propósito da operação Maxona, a razão da morte de Do-jin e o verdadeiro motivo por trás do sacrifício de Marvin.
Ko Hyung-joon coçou o queixo com um sorriso ambíguo:
— Se o conhecia? Conhecer, não conhecia… Fui apresentado a ele por meio de alguém.
— Você sabia que ele planejava usar o remédio em mim?
— Não, isso não. Mas eu sabia que uma daquelas três amostras era destinada ao uso imediato na Suíça. Oho, esse seu olhar queimando de curiosidade, hein?
As maçãs do rosto de Ko Hyung-joon se ergueram animadamente enquanto ele observava a raiva e a frustração de Marvin. Parecia fascinado pelo quão facilmente Marvin reagia.
Marvin perguntou, com a voz tensa:
— Quem é você de verdade? Naquela época na Suíça… você não estava lá para a transferência de tecnologia, estava?
— Não, não, eu estava. Pode não parecer, mas tenho doutorado. Passei na junta médica também. — A risadinha dele disparou outro aviso pelo alto-falante.
— Afastem-se. Detentos não devem se envolver em conversas fúteis.
— Ugh, que chato. — Ko Hyung-joon lançou um olhar para cima antes de sussurrar rapidamente para Marvin. — Aquele remédio que você roubou hoje? É a nossa réplica. Ainda experimental. O primeiro teste foi ótimo, então achamos que copiar seria fácil. No fim, virou um desastre total. Então, se você está com a amostra ou seja lá o que for, traga para mim. Pare de palhaçada tentando descobrir as coisas sozinho. Venha me procurar. Eu ajudo.
— Detento, afaste-se agora!
Diante do aviso repetido, Ko Hyung-joon se levantou, espreguiçando os braços:
— Ugh, travado pra caramba. Não me mexo assim há séculos. Enfim, me procure em Seul. O jantar é por minha conta. Fico feliz em te ver depois de tanto tempo.
Ele piscou para a câmera, resmungando alto o suficiente para ser ouvido, e pegou um cobertor da pilha no canto. Estendendo-o, deitou-se de lado, com o braço sob a cabeça. Em cinco minutos, sua respiração se equalizou no sono.
Marvin encarou as costas dele, perdido em pensamentos. Por ora, não tinha escolha a não ser aceitar o convite de Ko Hyung-joon. As informações que ele detinha eram valiosas, e identificar quem era amigo ou inimigo nessa confusão era urgente.
Ele reexaminou o caso, desta vez colocando Kim Do-jin no centro, em vez da amostra da Maxona. Mapeando as relações hostis ao redor dele, Marvin percebeu que a figura mais perigosa era provavelmente aquela que havia se beneficiado da morte de Do-jin.
No topo dessa teia emaranhada, uma interrogação pairava: a pessoa que poderia ter projetado a operação Maxona desde o início.
Agora, Marvin tinha que encontrá-la.
⚖ ─── 𝛂 · β· Ω ─── ⚖
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello