Capítulo 170
CAPÍTULO 170
— É brincadeira. O que foi esse olhar? Enfim, gente como você tem a cabeça dura, então as coisas não andam de jeito nenhum. A gente precisa cortar o mal pela raiz para a pessoa procurar uma alternativa. Veja só hoje. Se aquela mulher estivesse viva, você teria vindo até mim trazendo a mercadoria direto assim?
Os olhos de Marvin ficaram injetados de sangue. Sentia uma vontade incontrolável de fazer uma loucura movida pelo impulso. Mas ainda não era o momento. Tinha que ouvir o que aquele desgraçado estava dizendo. Mal conseguindo conter a fúria incontrolável, forçou a voz a sair:
— O que você disse… quando se encontraram?
— Falei que era um conhecido seu. Perguntei se ela sabia que você trabalhava para o governo, e ela disse que até imaginava, mas não sabia dos detalhes. Aí eu disse que o fato de ela estar recebendo tratamento agora era tudo graças a você mexendo os pausinhos, mas que por causa disso você estava em uma situação bem complicada. O que fazer, né? Falei só isso. Nem cheguei a mandar ela ir embora.
Ele deu ênfase à última frase como se quisesse frisar o ponto principal. Em suma, estava dizendo que era inocente. Hong Gyeong-uk contorceu os cantos da boca, demonstrando grande satisfação por poder contar aquela história pessoalmente a Marvin.
— Não precisa ficar tão bravo. De qualquer forma, aquela mulher nem era sua irmã de sangue. Ou seja, era uma estranha sem uma gota do seu sangue. Não sabia? Você entregava seu salário e arriscava a vida por uma vadia dessas… Puxa, que amor puro. É sério mesmo que nunca transaram? Nem uma vez?
A mandíbula rigidamente fechada de Marvin fez tanta força que parecia prestes a quebrar todos os dentes. Era uma provocação clara. Mesmo sabendo que o sujeito queria vê-lo perder o controle e surtar, era difícil conter a raiva prestes a explodir. A cabeça ficou tonta e a respiração, descompassada.
— Uau, que expressão sensacional. Que pena ver isso sozinho, por que aquele desgraçado do Hyeong-jun não chega?
Hong Gyeong-uk olhou de relance para a entrada. Pela fresta da porta aberta dava para ver o corredor estreito, mas a pessoa esperada não aparecia. Ele esfregou a bochecha com uma cara de lamentação. Então, de repente, virou o corpo como se tivesse se lembrado de algo.
— Ah, verdade! Mas aquela mulher também já sabia, sabia? Que vocês dois não eram gêmeos. Disse que precisou tirar uma certidão de nascimento no centro por causa do filho dela, e acabou descobrindo nessa hora. Mas falou que não conseguiu contar para você. Bom, devia ser bom demais receber o dinheiro, né?
— …
— Enfim, ela pediu para eu fingir que não sabia porque não ia mais entrar em contato. Mas, pensando bem, isso não é certo, né? Você também tinha o direito de saber a verdade. Por isso falei que ia contar tudo. Aí ela começou a chorar desesperada. Pedindo desculpas. Falou que a partir de agora daria um jeito de viver com as próprias forças, aí eu disse para ela se esforçar.
— …
Estava difícil respirar. Era duro continuar ouvindo com sanidade tudo o que Hong Gyeong-uk vomitava agora. Encarando-o com os olhos de vasos estourados, Marvin mal conseguiu abrir a boca:
— Então… o que você fez?
— Hm?
Diante da voz extremamente contida de Marvin, Hong Gyeong-uk o olhou encostando a mão na bochecha.
— Você acabou de dizer. Que para caras como eu, era preciso cortar o mal pela raiz. Mesmo que tirassem ela do centro, você sabia que eu não desistiria, então o que você fez? Não era uma doença que matava na hora só por interromper o tratamento, você não sabia?
— Ahhh.
Hong Gyeong-uk deu uma risadinha debochada e deu um passo para trás. Em seguida, acenou com a cabeça para os homens que estavam de prontidão. Significava para segurá-lo antes que ele tivesse um surto, por garantia.
Dois sujeitos que observavam seguraram os braços de Marvin pelos dois lados. Não houve grande resistência. Como se ter o corpo imobilizado não fosse problema algum, a atenção de Marvin estava inteiramente voltada para Hong Gyeong-uk.
Tendo garantido sua segurança, Hong Gyeong-uk só então deu mais um passo à frente.
— O que eu fiz? Disseram que ela morreu de insuficiência cardíaca. Como vou parar o coração de uma pessoa perfeitamente viva? Eu não sou Deus.
Era um tom de deboche, provocando de propósito mesmo sabendo de tudo. O olhar de Marvin ficou ainda mais feroz.
— A causa da morte foi insuficiência cardíaca, mas não teve autópsia, então não se sabe a causa exata. Já que está confessando, por que não fala tudo de uma vez? A Ji-ah jamais escolheria isso por conta própria. Ela tinha um motivo bem claro para viver, nem que fosse pelo filho.
Com uma expressão de “é mesmo?”, Hong Gyeong-uk deu de ombros e caminhou até o outro lado do depósito. Ele passou a mão para juntar a poeira acumulada nos colchões empilhados, fazendo pouco caso.
Marvin insistiu obstinadamente:
— Deu algum remédio que sobrecarregou o coração dela?
— Poxa, já disse que não fui eu.
— Ou deu o remédio errado para ela tomar?
— …
Hong Gyeong-uk enrugou os lábios de forma esquisita e ergueu uma das sobrancelhas. Em seguida, coçou de leve a ponte do nariz.
Não esperava que ele fosse acertar de primeira assim; achou que talvez tivesse dado pistas demais.
A doença da mulher era mieloma imune. Uma doença em que os índices sanguíneos corretos só subiam se limpassem o coração todo mês, mas de difícil cura, exigindo remédios pelo resto da vida.
Tudo o que ele fizera foi trocar o remédio por outro de formato idêntico. Por sorte, coincidiu com a época da medicação. A doença que ela sofria devia ser bastante profunda, pois em poucos dias a mulher morreu. Longe de ser um assassinato, foi uma morte natural sobre a qual ninguém desconfiou. Como nem autópsia fizeram, não sobrou nem vestígio de prova.
O trabalho fora concluído de forma tão limpa que chegou a ser sem graça.
Hong Gyeong-uk deu um risinho e sacudiu a poeira das mãos.
A nuca formigava. Aquele olhar focado nele como se fosse matá-lo começava a dar uma sensação incômoda. Embora houvesse tanta gente ali e o sujeito estivesse sem arma para aprontar algo, achou melhor parar por ali hoje.
Hong Gyeong-uk meteu as mãos nos bolsos da calça e esfregou o pé no chão de cimento. De repente, virou o corpo e apontou o dedo para Marvin com um gesto exagerado.
— Olhe só, no fim das contas esse cara não é nada fácil. É esperto. Mesmo numa situação dessas, consegue pensar com lógica. Se fosse outra pessoa, estaria gritando feito um louco.
Diante do comportamento dele, que desviava da resposta falando de coisas aleatórias, o rosto de Marvin congelava de forma assustadoramente gélida. Hong Gyeong-uk continuou falando enquanto olhava para as pessoas no depósito:
— Vocês não sabiam quem ele era, né? Por mais que não pareça, ele é um agente especial do Serviço de Inteligência e Segurança. Dizem que é difícil pra caralho entrar. Escolhem uns três ou quatro por ano?
Ele contorceu as sobrancelhas e se aproximou de onde Marvin estava. Os homens que seguravam os braços de Marvin colocaram ainda mais força para imobilizá-lo.
— Mesmo transbordando de agentes por aí, os ases encarregados de missões especiais já são contados nos dedos. Chamam eles de corvos. Como trabalham demais lá fora fazendo serviço sujo, o estresse é absurdo. Por isso, quando entram no país, aprontam demais. Transam para cacete e acontece de tudo, mas o governo passa o pano para tudo. Não é incrível?
Debochado, Hong Gyeong-uk chutou o estômago de Marvin com toda a força. Com um som sufocado, Marvin curvou a cintura. Woo Hyeon-woo, que estava caído no centro do depósito, também se encolheu e sofreu junto.
Com a fisionomia franzida, Marvin ergueu a cabeça. Sem dizer uma palavra, apenas encarava Hong Gyeong-uk fixa e ferozmente com os olhos terrivelmente sangrentos.
— E sabe por que dão tanta mordomia? Porque na Coreia eles são fantasmas. Não pode haver registro em lugar nenhum. Ou seja, significa que, mesmo se eu matá-lo aqui, não vai dar em nada. O Serviço de Inteligência faz um trabalho tão absurdo que faz até o cadáver evaporar. Não é?
Hong Gyeong-uk esticou o pescoço e aproximou o rosto, como quem sabe de tudo.
— Por isso, não gaste energia à toa e espere uma semana. Quem sabe? Talvez eu mude de ideia e te deixe vivo.
Ele estapeou a bochecha de Marvin fazendo barulho e deu uma risada. Em seguida, disse aos homens:
— Guardem bem. Se ficarem entediados, revesem para comer o cu dele. Ele é ômega. Usa bem o pau e abre bem o buraco, é pau pra toda obra. Mas antes de fazerem, certifiquem-se de desacordá-lo. Ele vai reagir pra caralho.
Acertando o abdômen de Marvin com o pé mais uma vez, Hong Gyeong-uk fez uma expressão bastante satisfeita. Flexionou os ombros e relaxou os músculos como se mostrasse que, quando decidia usar a força, aquilo era o básico.
Enquanto Hong Gyeong-uk se preparava para sair do depósito, a voz terrivelmente rouca de Marvin ecoou atrás dele:
— …Mesmo que as coisas tivessem chegado a este ponto, havia duas coisas que eu desejava até o fim.
Hong Gyeong-uk parou os passos e olhou para trás, querendo saber do que se tratava. Marvin estava com a cabeça baixa, murmurando como se falasse sozinho enquanto olhava para algum ponto do depósito.
— A primeira era que a Ji-ah partisse acreditando até o fim que éramos irmãos.
A raiva no topo de seu ápice trouxe, em contrapartida, uma estranha calma. Não havia mais emoção estampada no rosto de Marvin.
— E a segunda… por favor, era que ao menos não tivesse sido assassinato.
Marvin estava afundando em um abismo. A própria voz que emitia ressoava zumbindo, como se passasse por debaixo d’água. Não era como se desejasse muito, mas nunca conseguia manter nada em suas mãos. Mais uma vez, como esperado, a realidade ignorara suas expectativas.
Imaginou esmagar o rosto de Hong Gyeong-uk com uma pedra. E perfurá-lo de cima a baixo várias vezes com um punhal afiado.
Embora sua profissão tornasse o ato de ferir pessoas algo cotidiano, ele ainda assim mantinha um pingo de compaixão. Afinal, por mais cruel que seja um vilão, a dignidade humana ainda existe.
Porém, em relação àquele sujeito, não sentia mais resistência alguma. Nenhuma remorso de consciência ou piedade era capaz de emergir.
Por isso, achou que não haveria problema em matá-lo.
Hong Gyeong-uk se aproximou impaciente com os murmúrios solitários de Marvin, soltando um suspiro:
— Ah, porra. Por que está fazendo esse clima de novo? Já disse para parar de culpar os outros pelo que aconteceu por sua causa…
A fala de Hong Gyeong-uk, prestes a soltar mais um longo discurso, foi interrompida bruscamente. Ele olhou para baixo em silêncio. Era estranho. A mão de Marvin, que deveria estar presa pelos guardas, segurava seu próprio braço.
“O quê? Quando…”
— Kkuh!
No momento em que deu por si, viu um dos homens que segurava o braço direito de Marvin caído no chão sentindo dor e segurando a virilha. Hong Gyeong-uk arregalou os olhos e desviou o olhar para o homem da esquerda. Porém, este também recebia um chute de Marvin no rosto, tendo as vértebras do pescoço estraladas para o lado.
— O que está fazendo? Olhe para cá.
Diante daquelas palavras, como se estivesse enfeitiçado, ele virou a cabeça involuntariamente e viu algo passar rápido diante de seus olhos. Antes mesmo de compreender o que era, uma dor aterradora cravou-se em seu abdômen. Hong Gyeong-uk caiu no chão e teve o pescoço pressionado imediatamente.
— Fique quieto. Vai acabar rápido.
⚖ ─── 𝛂 · β· Ω ─── ⚖
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello