Capítulo 164
CAPÍTULO 164
Diante dessas palavras estranhas que saíram de repente, os olhos de Kim Marvin se abriram um pouco mais. Ele entendia com a cabeça, mas não lhe chegava ao peito. Ou seja, ele estava dizendo que tinha pensado nele…
— Pensei que dizer algo assim não seria de muita ajuda para alguém que já tinha a mente suficientemente revolta por outras coisas. Pensei que lhe diria mais adiante, quando surgisse a oportunidade. Mas vejo que você já sabia.
— Recebi os documentos de verificação de nascimento da secretária Park Sang-hee. Deve ter averiguado isso enquanto investigava sobre mim. Ela me disse para decidir por mim mesmo se os abriria ou não, mas sendo honesto, quando lhe dizem algo assim, você não consegue resistir, não é?
Jang Jin-woo assentiu como se estivesse de acordo.
— Não há escolha.
Kim Marvin, no final, também abriu os documentos. Pensou que, sem importar o que houvesse dentro, nada poderia piorar mais do que aquilo.
— No início fiquei um pouco atordoado. Inclusive me enfureci pensando que ela tinha me enganado para receber um transplante de mim. Mas por mais que pensasse nisso, não parecia ser o caso. E mesmo que fosse, senti que a esta altura já não importava.
A decepção foi ficando dormente rapidamente. Se pensasse bem, parecia-lhe que não era grande coisa.
— Dizem que é um milagre que os progenitores hematopoéticos coincidam sem ser família. Claro, os que nascem como *rut baby* costumam ter arranjos genéticos similares, então a probabilidade aumenta bastante… mas mesmo assim, com uma coincidência deste nível, embora não compartilhássemos sangue, não seria já algo como o destino?
Kim Marvin esboçou um sorriso amargo diante da lógica que ele mesmo tinha construído. Podia ser forçada, mas tampouco acreditava que estivesse completamente errada.
A irmã gêmea de Kim Ji-a morreu imediatamente após nascer. Nesse mesmo dia, a mãe de Kim Marvin, que tinha chegado ao centro de urgência por um parto prematuro, deu à luz Kim Marvin e desapareceu; o bebê, que nem sequer estava registrado, foi enviado ao Centro Infantil Sejong em vez de um dos gêmeos que tinha morrido no quarto ao lado.
Não houve ninguém que explicasse que as crianças tinham sido trocadas. As freiras, que só tinham ouvido que chegariam gêmeos, criaram as duas crianças juntas, e só deram a pista, quebrando as regras, à irmã mais velha que sofria por sua doença.
A história que as crianças do centro mais queriam ouvir.
Que na verdade, você também tem uma família.
Não havia forma de saber se Kim Ji-a conhecia a verdade ou não. Mas Kim Marvin tinha decidido fingir ignorância até o final.
Porque ele também tinha recebido consolo. Em cada momento de crise, ao lembrar que ele também tinha uma família, pôde dar um passo a mais.
Assim que, no final, foi algo que deram mutuamente um ao outro. Não importava se compartilhavam sangue ou não. Apenas com existir um para o outro, já era recompensa suficiente. Esperava que ela tivesse se ido sabendo disso.
— Você é forte, sem dúvida. Até me faz pensar que me preocupei desnecessariamente.
Como se tivesse decidido ler por completo os pensamentos de Kim Marvin, Jang Jin-woo murmurou. Kim Marvin balançou a cabeça negativamente.
— Só finjo ser forte. Agora é que já ordenei meus pensamentos.
Não era um santo, então a reflexão levou tempo. Teve que lixar as arestas do seu coração e polir até arredondá-las. Enquanto suportava esse processo, não foi vê-la nem tentou contatá-la, e isso era o que mais lamentava.
Kim Marvin apoiou a cabeça no encosto para a cabeça e olhou para a frente. Sem se dar conta, o sol já começava a se pôr. Ao longe, no mar diante de Oseong, os barcos de pesca estavam regressando.
Fazia tempo que não via aquilo. Como se o lugar tivesse notado que tinham voltado os responsáveis por ter deixado o tranquilo povoado feito um caos antes de ir embora, o entorno estava surpreendentemente silencioso.
Logo deixaram a estrada costeira e entraram na zona urbana. Viam-se pedestres esperando o sinal no cruzamento. Tal como esperava, o carro de Jang Jin-woo dirigia-se para o apartamento onde ele tinha vivido.
O ônibus do lado contrário resultou-lhe familiar. O 381 que passava perto do Hotel Daegyeong. Durante um tempo tinha-o pegado para ir e voltar do trabalho. Nada tinha mudado, até o ponto de lhe dar a sensação de ter regressado ao passado.
Ele estacionou o carro no estacionamento do apartamento. Como se indicasse que subissem juntos, desligou o motor e abriu a porta.
— Disse que tinha algo para me dar.
Kim Marvin falou ao ver que Jang Jin-woo se dispunha a descer primeiro.
— Está em casa. Não vou fazer nada estranho, então entre. Se não quiser, espere aqui.
Ao escutar isso, antes se lhe fez impossível ficar no carro. De verdade, tinha um talento excepcional para fazer as pessoas se moverem.
Kim Marvin desceu do carro seguindo-o. Logo, dentro do elevador, viu seu aspecto completamente desalinhado. A roupa estava amassada e o cabelo sobressaía em todas as direções. Era por ter dormido em um canto da igreja. Com algo de vergonha, esfregou o queixo áspero e desviou o olhar. Também ignorou deliberadamente o olhar de Jang Jin-woo, que o observava em silêncio.
Não podia imaginar o que era o que ele dizia que lhe daria. Como tinham vivido juntos pouco tempo, tampouco tinha deixado muitas coisas. Um conjunto esportivo que tinha pegado emprestado, uma escova de dentes… nada disso o teria feito vir até aqui.
O apartamento de Jang Jin-woo não tinha mudado em nada desde a última vez que se foi. Parecia que ele continuava vivendo ali. Essa vida em que só ia e vinha sem deixar rastro parecia fluir aqui como um universo paralelo.
— Espere um momento.
Entrou no quarto onde Kim Marvin costumava ficar e saiu segurando algo. Kim Marvin entreabriu os olhos para identificar o que era. Correio registrado? Uma carta? No entanto, o que recebeu foi um cartão. Um cartão de Natal feito dobrando uma cartolina branca pela metade, com um desenho feito com giz de cera.
>Feliz Natal, Kim Marvin. Talvez no próximo ano possa entregá-lo em mãos. <
Abaixo da breve mensagem tinha desenhado um emoticon sorridente.
Ao se dar conta do remetente, um suspiro escapou dos lábios de Kim Marvin. Tinha-o esquecido por completo. Agora lembrava que, ao ir embora apressadamente do país, como não pôde cumprir a promessa de passar para vê-la uma vez, tinha-lhe dado este endereço.
Então de verdade ela o enviou. Não pôde responder, nem sequer pôde dizer que o tinha recebido bem.
Pensando bem, nem sequer tinham uma única foto juntos. Agora que ela tinha desaparecido do mundo, tampouco poderiam deixar nada juntos no futuro. Como se fosse seu último pertence, esse único cartão era a única coisa que lhe restava.
Doeu-lhe o peito. Sua visão tornou-se ligeiramente turva. Era a primeira vez em sua vida que sentia algo assim, e não sabia como lidar com isso. Sentia como se um grande nó tivesse se enganchado em sua garganta.
Levantou a cabeça e olhou para Jang Jin-woo. De alguma maneira, seus olhos estavam cheios de preocupação. Também se percebiam compaixão, pena, misericórdia. Como se fosse fingir não notar se chorasse, ele observava Kim Marvin inclusive contendo o som da sua respiração.
De repente, uma onda de emoções negativas se elevou.
Não gostava disso. Não tinha nenhuma intenção de se comportar assim aqui. Kim Marvin balançou a cabeça negativamente uma e outra vez, rejeitando o consolo que ele lhe oferecia.
— Não. Não precisa me olhar com esses olhos. Eu não sou esse tipo de pessoa.
— Que tipo?
Jang Jin-woo perguntou em voz baixa ao ver Kim Marvin se debatendo.
— Isso de chorar copiosamente e tudo isso. Eu não sou assim. A menos que seja algo realmente sério, não vou…
Até aí chegou, porque sem se dar conta, a voz se lhe embargou.
— E o que é algo realmente sério, então?
Como não lhe saíam as palavras, agitou a mão. Não, não era isso. De repente, em um lugar como este…
— Até a mim me resulta inquietante ver você assim, e diz que não é nada?
Jang Jin-woo pegou o braço de Kim Marvin, que se agitava sem rumo. E, tal qual, atraiu-o para si e abraçou-o.
Diante desse comportamento impulsivo e inesperado, Kim Marvin ficou rígido, incapaz de se mover. O ar frio impregnado em seu terno, o cheiro de perfume que tinha se assentado em sua pele, seu cheiro corporal, os feromônios… tudo o atravessou de golpe.
— Parece que você não se dá conta da cara que tem agora mesmo, Kim Marvin, mas melhor chore. Acho que isso seria melhor.
Moveu os lábios, querendo dizer algo, ainda que fosse uma desculpa, mas não saiu voz. Queria se afastar, mas nem sequer as pernas lhe respondiam. Sua cabeça, que tinha estado rígida, terminou apoiando-se sobre o ombro de Jang Jin-woo. Era porque ele tinha segurado a parte traseira da sua cabeça com a mão.
— Fique assim um momento. É que para mim é difícil ver você assim.
Sua voz, ainda mais baixa e afundada, roçou seu ouvido. Como se fosse inevitável, seu corpo inclinou-se cada vez mais para ele. Seus peitos se tocaram e chegou-lhe o calor corporal de Jang Jin-woo. Então, o nó de emoções que tinha entalado na garganta começou a descer lentamente.
Que estranho.
De algum modo, sentia seus cílios úmidos. Talvez tivesse chorado um pouco sem se dar conta. Não queria admiti-lo, mas não havia opção. Afinal de contas, não era mais do que um ser humano, fraco diante da sinceridade de outro. Apenas isso.
— Já estou bem. De verdade.
Kim Marvin afastou um pouco a parte superior do seu corpo que estava apoiada nele. Levantou o rosto, já algo recomposto, para demonstrar que não mentia.
— Você parece melhor.
Ele assentiu, de acordo.
— Não pensei que receberia consolo do senhor desta maneira, promotor. Obrigado.
Kim Marvin expressou seu agradecimento de forma rígida e formal.
— Ainda deixo você desconfortável?
A mão que tinha segurado sua nuca deslizou lentamente para sua bochecha. A simples vista, seu olhar parecia tranquilo, mas nele brilhava um desejo claro por algo.
— Ou ainda lhe resultou desagradável?
Kim Marvin não pôde evitar soltar uma leve risada. Seu caráter, de mudar imediatamente para um extremo se não obtivesse a resposta que queria, continuava igual.
— Por que me beijou?
O olhar de Kim Marvin, que tinha estado baixo, voltou a se dirigir a Jang Jin-woo. Era uma pergunta lançada de repente, mas em seus olhos havia inclusive um leve ar de determinação, como se levasse muito tempo querendo sabê-lo.
Kim Marvin respondeu a essa curiosidade sem rodeios.
— Para confundir você.
Diante dessa resposta incompleta, uma sombra caiu sobre o entrecenho de Jang Jin-woo.
— Para que de vez em quando você deixasse de fazer o que estava fazendo e pensasse em mim. Porque foi isso o que aconteceu comigo.
Houve momentos em que tinha se sentido confuso por esses beijos inesperados que ele lhe dava sem prévio aviso. Era uma espécie de vingança por isso, e também seu próprio castigo.
Jang Jin-woo soltou uma risada frouxa. Depois, como se dissesse “que tolice é essa”, baixou um pouco mais o olhar para Kim Marvin.
— É mentira. Não era de vez em quando. Eu pensava em você o tempo todo.
⚖ ─── 𝛂 · β· Ω ─── ⚖
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello