Capítulo 162
CAPÍTULO 162
— Nossa, o tempo está realmente incrível.
Embora tivesse saído usando apenas uma jaqueta ridiculamente fina, não sentia frio algum. O inverno, que tinha sido atroz em muitos sentidos, finalmente tinha se retirado por completo, e por fim a era de libertação tinha chegado para Kim Marvin.
Kim Marvin reclinou-se em um banco do rio Han como um roedor tomando o sol de primavera e fechou os olhos. Woo Hyun-woo aproximou-se e entregou-lhe um café. Embora não pudesse vê-lo, estendeu o braço aproximadamente para o lado de onde vinha o aroma e recebeu o cappuccino.
— Hyung, mas ultimamente você já não toma muito chocolate quente, né? Espere, mova-se um pouco para o lado.
Woo Hyun-woo enfiou o quadril no pequeno espaço que restava junto à cabeça de Kim Marvin. Depois, em uma postura torpemente apoiada, deu pequenos goles no café que segurava na mão. Era um dia tão ensolarado que a luz que atravessava os óculos de sol resultava deslumbrante.
— O dinheiro já caiu, a propósito. Eu retiro?
Como não houve resposta imediata, Woo Hyun-woo olhou de relance para o lado. Embora estivesse de olhos fechados, talvez tenha sentido o olhar, porque as pálpebras e as longas pestanas de Kim Marvin se moveram.
— Sim. Apenas mais ou menos a metade.
— Por que só a metade?
— Não é uma boa ideia ter dinheiro vivo em casa. Podem entrar ladrões.
— Pfft.
Da boca de Woo Hyun-woo saiu um som como se a incredulidade tivesse ficado entalada em sua garganta. Que tipo de bastardo com tanta coragem poderia roubar dinheiro dessa pessoa? Como alguém que tinha sofrido na própria pele as consequências de entrar sem permissão em seu espaço pessoal, o que Kim Marvin acabara de dizer era um engano.
— Não disse que na época do Corvo também recebia todo o seu salário em dinheiro vivo?
— Assim é.
— Então o quê? Naquela época sim e agora por que não?
Talvez pela constante réplica, Kim Marvin entreabriu lentamente um olho. Woo Hyun-woo, que inconscientemente estava observando o elegante perfil do seu nariz iluminado pelo sol, encontrou-se com seu olhar.
— Você não precisa saber.
Franziu ligeiramente o cenho e isso foi tudo o que disse. Woo Hyun-woo, com expressão insatisfeita, levou o café aos lábios e murmurou: “Já começamos de novo”.
Kim Marvin, que fingiu não ouvir e voltou a fechar os olhos, deixou que um leve sorriso pousasse em seus lábios. Queixar-se não adiantaria de nada. Ele tinha o direito de bloquear de uma vez os sermões de Woo Hyun-woo.
A respeito do que não lhe fosse informado, não tentar averiguar.
Definitivamente, tinha estabelecido bem as condições desde o início. Graças a isso, podia pular sem dificuldade muitas coisas que não queria explicar. Agora era igual. Se dissesse simplesmente “fique com esse dinheiro”, era óbvio que voltariam os sermões por uma coisa ou outra, então deixou em um *no comment*.
Para Kim Marvin, o dinheiro não era a prioridade número um. Agora que o gasto periódico que tinha que fazer pelas pinturas tinha desaparecido, já não havia razão para precisar de grandes somas.
A única coisa que desejava era voltar à sua vida anterior. Embora, de algum modo, essa possibilidade estivesse se tornando cada vez mais distante com o passar do tempo.
Tinha ganhado tempo até que o tratamento de Kim Ji-a terminasse por completo, mas se dissessem que não podia voltar ao campo, no final teria que transigir com a realidade. Por isso, o resultado do primeiro julgamento da equipe especial era importante. Se saíssem provas de que a S&N Bio tinha metido a mão no desenvolvimento de um agente de manifestação permanente, e em consequência se proferisse um veredito de culpa por ensaios clínicos ilegais, então poderiam implicar o governo facilmente a qualquer momento.
Tal como tinha dito Jang Jin-woo, se guardassem em uma gaveta um caso em que tinham se evaporado impostos que superavam um trilhão de wones, e com apenas fingirem que o tirariam e o agitariam se algo desandasse, o escritório do secretário começaria a medir os movimentos da promotoria. Esse era o método mais eficaz para que Kim Marvin assegurasse sua integridade pessoal até o final, inclusive depois de ter entregado todas as amostras que tinha na mão.
Por isso, há alguns dias acedeu ao seu pedido. Já tinha entregado as amostras à promotoria e transmitiu que tinha a intenção de se tornar um denunciante interno e arriscar o próprio corpo por isso.
Era o esperado, mas a reação da secretária Park Sang-hee foi extremamente irritada. Pensou que talvez a chantagem utilizando as amostras já não surtiria efeito.
Ainda assim, ela enviou sem falta a quantia acordada. E esta manhã saiu a notícia de que a data da primeira audiência tinha sido adiada. Não sabia como ele tinha se arranjado para convencê-los, mas parecia que Jang Jin-woo realmente tinha encontrado uma solução sem usar sua última carta.
Sabia desde antes que ele era alguém capaz.
Talvez por isso não conseguia se desprender desses sentimentos…
Kim Marvin fechou os olhos com força enquanto continha, mais uma vez, os pensamentos sobre ele que tentavam transbordar sem controle.
Nesse momento, de repente o banco vibrou com um “brrr”. Era pelo telefone celular que levava no bolso traseiro.
Kim Marvin segurou com uma mão o copo de cappuccino que tinha sobre o abdômen e estendeu a outra para o bolso para tirar o telefone. Na tela havia uma notificação de que tinha chegado um e-mail.
Pensando que seria do escritório do secretário, abriu a caixa de entrada, mas o remetente era alguém inesperado. Kim Marvin, com o rosto endurecido, levantou-se em silêncio do seu lugar. Seus olhos, enquanto lia o e-mail, tremeram de maneira estranha. Tudo o que estava escrito carecia de sentido.
… e como tampouco há alguém adequado que faça o papel de enlutado, planejamos realizar apenas a missa fúnebre; se você tiver tempo, gostaria que ao menos viesse despedir-se dela em seu último caminho. Ji-a, em vida, ainda assim a você…
O cenho se lhe franziu por si só.
O que é isto?
Kim Marvin leu o e-mail uma e outra vez como se fosse um idioma estrangeiro que tivesse que interpretar frase por frase com cuidado. Ainda assim, não conseguia entender o que diabos dizia.
A madre superiora estava dizendo coisas estranhas. Seria que, pela idade, estava doente de algo? A última vez que a viu, parecia perfeitamente bem.
Faz sentido isto?
Quanto tempo se passou desde que começou o programa do novo medicamento para que de repente aconteça algo assim…? Por que diabos…?
— Hyung, você está bem?
Woo Hyun-woo, que percebeu que o ambiente não estava normal, examinou o rosto de Kim Marvin e perguntou com preocupação. No entanto, parecia que não lhe chegava em absoluto aos ouvidos. Com o rosto completamente rígido, Kim Marvin discou um número. Parecia sabê-lo de cor.
— Sou Kim Marvin. Li o e-mail. Sim, estou na Coreia. Agora mesmo não entendo nada. Não se supunha que tinham começado esse programa do novo medicamento nesse centro oncológico ou seja lá o que for?
Tinha uma expressão tão grave que não era possível nem sequer interrompê-lo. Woo Hyun-woo, que estava ao seu lado em silêncio, sobressaltado, estremeceu quando a voz de Kim Marvin se elevou de repente.
— Que se foi? Para onde? Quando?
As veias se marcaram na testa de Kim Marvin. Enquanto escutava o outro lado reprimindo a duras penas suas emoções, logo deixou escapar um suspiro carregado de dor.
— Ha… e por que me diz isso só agora?
Cobriu os olhos com a mão, atormentado, e depois voltou a se incorporar.
— Não, eu vou agora mesmo.
E desligou. Ao ver que Kim Marvin se dispunha a ir embora de imediato, Woo Hyun-woo também se levantou do banco.
— Hyung.
Não entendia bem o que acontecia, mas era evidente que algo de ruim tinha ocorrido. Pegou as chaves do carro e apressou-se a segui-lo.
— O que aconteceu? Quer que eu dirija?
— Não precisa.
— Por quê? Alguém está doente? Vamos juntos. Eu dirijo…
— Já disse que não precisa!
Woo Hyun-woo ficou cravado no lugar, sobressaltado pelo estouro de raiva de Kim Marvin. Nunca o tinha visto assim, e isso o descolocou. Kim Marvin não estava sendo capaz de controlar suas emoções. Como se ele mesmo tivesse se dado conta, desviou o olhar, apertando com força os dentes.
— … É algo pessoal. Volte para casa. Entro em contato depois.
Apegando-se a custo ao seu fio de racionalidade, conseguiu afastar Woo Hyun-woo com uma voz comprimida. Já não podia insistir em acompanhá-lo. Woo Hyun-woo, ainda segurando os dois cafés quentes, observou as costas de Kim Marvin se afastarem apressadamente e deixou escapar um suspiro preocupado.
Reuniu-se com a freira e depois fez consultas no hospital que tinha emitido o atestado de óbito. Ainda assim, não conseguia entender em absoluto, então acabou vindo até o centro nacional de câncer em questão.
O médico, como se não tivesse mais nada a dizer, cruzou os braços e olhou para Kim Marvin. Disse que, se uma pessoa se ia por sua própria vontade, não havia forma de retê-la. Inclusive agora, dezenas de pessoas estavam esperando que se liberasse uma vaga nesse programa do novo medicamento, então não fazia sentido perder tempo com um paciente que não seguia as indicações do tratamento.
— E os efeitos colaterais? Com certeza explicaram corretamente para ela? Se ela soubesse, não teria agido de forma tão imprudente…
— Estou lhe dizendo uma e outra vez. Recebendo ou não o tratamento de hemoglobina, a insuficiência cardíaca pode aparecer a qualquer momento. Era alguém que tomava medicação todos os meses, e devia saber perfeitamente o que acontecia se deixasse de fazê-lo. Se ela não tomou por conta própria, o que se supõe que nós façamos?
A situação tinha terminado sendo lamentável, mas não era algo que viesse cobrar ali.
No início de março, Kim Ji-a foi selecionada para o programa do novo medicamento Tanpeimbeureujol e recebeu a administração durante três semanas; antes sequer de que saísse o resultado do primeiro exame, de repente abandonou o centro. Isso tinha ocorrido já há uma semana. Depois disso, resistiu sem sequer tomar sua medicação habitual e ontem foi encontrada em sua casa em estado de parada cardíaca.
A causa da morte: insuficiência cardíaca aguda. A polícia considerou uma morte por doença preexistente e decidiu que não se realizaria autópsia. Por ser solteira e provir de um *rut baby*, a autoridade para decidir sobre os procedimentos posteriores à sua morte recaía sobre o Departamento de Bem-Estar de Traços. Kim Marvin, que não tinha nenhum vínculo legal com ela, não podia fazer absolutamente nada.
— Para nós também parecia uma pena, ela tinha sido selecionada com muita dificuldade, então realmente tentamos persuadi-la muito para que reconsiderasse, sabe? Mas mesmo assim, manteve-se firmemente em que deixaria.
As palavras da enfermeira encarregada tampouco resultavam críveis em absoluto. Era alguém com uma forte vontade de viver. Uma pessoa que tinha chegado até ali decidida a se recuperar como fosse, e que de repente rejeitasse a oportunidade e se fosse por conta própria. Tinha algum sentido isso?
Kim Marvin sentiu frustração e, ao mesmo tempo, raiva. Enfureceu-se com Kim Ji-a por ter tomado essa decisão, e indignou-se com a equipe do hospital por não tê-la detido até o final.
Mas a existência que menos podia perdoar era ele mesmo. Um ódio insuportável pela sua própria pequenez, por não tê-la contatado nem uma única vez até que as coisas chegassem a este ponto, invadiu-o.
Fui eu quem deixou Kim Ji-a abandonada. Por mais que pensasse nisso, era exatamente o que tinha feito. Ainda assim, tinha evitado a realidade pensando que, no mínimo, tinha cumprido com seu dever como ser humano ao se responsabilizar pelo seu tratamento até o final; e esse resultado se manifestava agora desta maneira.
— Maldita seja, mas por que diabos…?
Soltou um xingamento que não ia dirigido a ninguém em particular. Estava tão consumido pela raiva que nem sequer podia sentir tristeza. Durante todo o caminho de volta a Seul, as palavras que ela lhe tinha dito se repetiram em sua cabeça.
‘Obrigativa. Devemos-lhe a vida umas vinte vezes. Irei pagando durante toda a minha vida.’
Se era uma promessa que ia quebrar ao seu bel-prazer, não devia ter dito algo assim. Agiu como se fosse ficar por muito tempo, e nem sequer se passou um ano para que terminasse assim…
— Merda!
Kim Marvin bateu no volante com força, descarregando sua frustração. O contorno dos seus olhos começou a se tingir de um vermelho intenso. Tudo era tão desesperador que lhe davam vontades de vomitar. Queria agarrar qualquer um e culpá-lo, mas não havia ninguém a quem culpar. Não adiantava nada chacoalhar um morto.
Todos desaparecem assim, traindo-o e indo embora. Já está realmente farto disto.
⚖ ─── 𝛂 · β· Ω ─── ⚖
Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello