Capítulo 119
— Uma interpretação justa — ele assentiu levemente, pegando uma garrafa de água que fora servida com a tampa já removida. Encheu um copo, enxaguou a boca e limpou os lábios com um guardanapo. A sopa já havia esfriado há muito tempo. Seu copo de soju permaneceu com um resto no fundo, mas ele se reclinou na cadeira como se não tivesse intenção de beber mais.
— Você parece mais instável do que eu previa. Emocionalmente sensível, até.
Ele desabotoou o colarinho da camisa e esfregou devagar o pescoço rígido.
— Para ser frio quanto a isso: é sequer possível para nós termos um relacionamento onde não escondemos absolutamente nada? Você e eu estamos juntos porque ambos queremos algo, não porque estamos fazendo caridade um para o outro. Você esteve em contato com Ko Hyungjoon separadamente e, embora afirme ter ouvido todo tipo de coisa, não está me dizendo o que é. Se não tivesse ouvido falar da Equipe Especial de Investigação, também não teria me chamado hoje. Estou errado?
— ……
— Seja honesto: e se eu pedisse para trocarmos de celular agora mesmo? Você pode garantir que não há uma única coisa que esteja fazendo às minhas costas? Você me consultou sobre cada detalhe antes?
Marvin permaneceu em silêncio, com os lábios firmemente pressionados. Ele estava certo. Mesmo o assunto com Oh Jaeyoung ainda não fora mencionado a Jang Jinwoo. No entanto, aquilo era diferente da questão com Choi Hyeongil. Marvin era o próprio sujeito e a parte envolvida nas condições que eles trocaram. Mantê-lo no escuro era uma engano descarado.
— Você tem um talento notável para dourar a pílula da sua própria posição, Promotor. Mas não está colando. Tudo isso são apenas desculpas para levar as coisas na direção que te favorece, não é?
— Não é sobre o que me favorece; é sobre escolher o método mais eficiente para nós dois. Você perdeu alguma coisa porque eu me encontrei com Choi Hyeongil? Além de ter seus sentimentos feridos?
Marvin sentiu seu rosto se contorcer. Esse lado daquele homem realmente o deixava sem palavras. Era um talento por si só — fazer alguém se sentir uma pessoa de mente estreita, incapaz de distinguir assuntos públicos de privados em um único instante.
— Você é o pior. É assim que você sempre trata seus colegas? Acho que estive trabalhando com uma IA todo esse tempo. Você não tem consideração alguma por um pedido de desculpas humano ou pelo sentimento de traição que a outra pessoa pode sentir?
— Não, eu sinto, sim, um remorso moral. E me inclino a concordar que meus valores não são particularmente “humanos”. É por isso que estou confessando isso agora. Para que você saiba exatamente que tipo de homem eu sou. Não posso te levar para beber para te acalmar toda vez que algo assim acontecer.
— Isso é… você me “acalmando”?
Marvin soltou uma risada vaga. Então, só porque dera um aviso agora, Marvin não deveria transformar isso em um problema mais tarde? Ficou pasmo com o fato de que se esperava que ele simplesmente entendesse e seguisse em frente. Era como encarar uma parede. Por mais duro que tentasse atravessá-la, não conseguia deixar um único arranhão. Estava sufocando.
— Por que você está reagindo assim? Você é uma pessoa treinada precisamente para não ser abalada por coisas como essa, não é? Você me disse que, quando é implantado em campo, nem mesmo os membros da equipe compartilham todas as informações. Não sei por que você está sendo tão fraco em relação a este caso. Não leve tudo para o lado emocional. Se não fizer isso, não haverá problema.
— Há! Como eu não vou levar para o lado emocional? Quando eu gosto de você!
Ele atingira o seu limite; não conseguia mais segurar. Jang Jinwoo, que estava prestes a dizer outra coisa, calou-se. Marvin o encarou com olhos cheios de ressentimento. Tentou manter um tom racional através de sua voz sufocada, mas entre o álcool e a perda do autocontrole, não conseguiu dominar sua expressão.
— Para ser direto: se fosse qualquer outra pessoa, sim, eu não teria me importado. Teria dito algumas palavras amargas e seguido em frente. Mas eu tenho expectativas em relação a você. Não me diga que não sabia. Você está praticamente usando os meus sentimentos. Porque sabe que eu gosto de você, presume secretamente que eu não vou fazer nada imprudente. Não é verdade?
Marvin sabia que aquele não era o momento nem o lugar certo para desabafar tudo, mas não conseguia parar. Uma vez que a represa da emoção se rompera, inundou tudo sem ter como conter.
— Ko Hyungjoon me disse. Disse que, se eu me juntasse ao lado dele, ele testemunharia que eu não atirei no Sênior Dojin e me daria um antídoto. Para ser franco, se ele está oferecendo tudo o que preciso, por que eu não deveria ir? Se estamos falando puramente de “eficiência”, como você diz. É muito mais racional do que ficar com alguém que me deixa ansioso me ameaçando arrastar pela mídia.
A testa de Jang Jinwoo se franziu como se tivesse ouvido algo em que não podia acreditar.
— Você está falando sério? Pensei que, no mínimo, você soubesse a diferença entre o certo e o errado.
— Eu não sei. O seu lado não me parece exatamente “o certo” também.
Jang Jinwoo permaneceu em silêncio, com o rosto ainda contorcido. O ar na sala tornou-se gélido sob o olhar fixo e tenso de ambos. Eventualmente, foi Marvin quem desviou o rosto.
Lamentou ter dito aquelas coisas, mas não conseguia aguentar mais nem um segundo. A situação de estar sozinho em um limite precário a cada instante, lutando para sobreviver, era agora um fardo pesado demais. De repente, toda a energia deixou seu corpo.
— Vamos parar. Estou cansado.
Não queria continuar a conversa. Se o fizesse, seria apenas ele a sair machucado. Sabia exatamente o quão imparcialmente frio aquele homem era com todos. Só porque haviam tido sexo algumas vezes, seu ego inflara o suficiente para fazê-lo esperar algo novamente. Pensara que sua posição poderia ter mudado nem que fosse um pouco, mas estava longe disso.
Marvin deixou Jang Jinwoo sozinho na sala. Vendo a dona ocupada, colocou deliberadamente dinheiro sobre o balcão para que ela visse e saiu. Só então percebeu que estivera cerrando os punhos com tanta força que doíam. Na sua pressa para sair, deixara até o sobretudo para trás.
Ainda assim, não queria voltar. Observando sua respiração quente e manchada pelo álcool se dissipar no ar, ele só queria um cigarro. Sabia que havia passos o seguindo por trás, mas não olhou para trás.
Continuou caminhando. Como já estivera bebendo, deixou seus pés vagarem sem rumo como um homem verdadeiramente embriagado. Não tinha destino, e não havia ninguém que precisasse encontrar. Mesmo assim, suas pernas se moviam por vontade própria, empurrando-o para a frente.
Transeuntes espiavam para ele. Era uma cena estranha — um homem caminhando sem guarda-chuva ou sobretudo sob aquela chuva congelante. Então, como se sincronizados, todos olhavam para a pessoa que vinha logo atrás de Marvin. A curiosidade em seus rostos era idêntica: “O que esses dois estão fazendo?”. Marvin não se importou; caminhou mais cem metros.
Avistando uma loja de conveniência, comprou um maço de cigarros. Ao sair, viu a barra familiar de um sobretudo, mas manteve a cabeça virada e continuou caminhando sozinho. Procurou ao redor por um lugar para fumar e encontrou um cinzeiro ao lado de uma barraca de sapateiro do bairro que parecia fechada para a noite.
Surpreso por tais lugares ainda existirem, desviou naturalmente em direção a ela. Sob a pequena calha da barraca, acendeu o fogo e levou o cigarro aos lábios. Apoiou as costas contra a parede do contêiner e olhou para o céu. Logo, uma silhueta familiar se aproximou através do luar nebuloso e parou.
Marvin deu duas tragadas lentas antes de baixar o olhar para o homem. Soltando uma nuvem de fumaça, perguntou:
— O que foi? Tem mais alguma coisa a dizer? Porque eu não tenho.
Marvin encarou Jang Jinwoo com uma inclinação desafiadora de cabeça. Sentiu-se como um valentão de bairro por um momento, e o pensamento foi quase engraçado. Talvez devesse ter vivido sua vida dessa forma. Sempre fora confiante em sua habilidade de lutar desde criança. Em vez disso, escolheu um caminho difícil, apenas para terminar se sentindo tão pequeno quanto aquela barraca de sapateiro de um metro quadrado.
Sem dizer uma palavra, Jang Jinwoo estendeu o sobretudo de Marvin. Devia tê-lo recuperado de onde Marvin o deixou em sua pressa para escapar. Enquanto Marvin encarava a peça, o promotor soltou uma ordem:
— Vista isso. Não seja teimoso sem motivo.
Ele não pretendia ser teimoso. Marvin pegou o sobretudo. O álcool começava a evaporar, e sua temperatura corporal caía rapidamente. Se havia uma coisa que odiava mais do que tudo, era o frio.
Com o cigarro ainda na boca, deslizou os braços pelas mangas. Abotoando-o, falou com a dicção meio enrolada:
— Vou ficar aqui mais um pouco.
Tirou o cigarro dos lábios e soltou uma longa esteira de fumaça.
— Pode ir na frente.
Através da fumaça, viu Jang Jinwoo observá-lo com um olhar sereno e inflexível.
— Vamos terminar a conversa que começamos.
— Eu já terminei. Não tenho mais nada a dizer.
Conversar mais não mudaria nada. O homem ainda se apegaria aos seus métodos; certamente lidaria com as coisas do seu próprio jeito de novo e não se daria ao trabalho de contar a Marvin até que estivesse feito. Aceitar isso era uma decisão que cabia inteiramente a Marvin tomar.
No entanto, Jang Jinwoo parecia acreditar que ainda podia influenciar essa decisão.
— Quero que lidemos com os assuntos de forma racional. Mas entendo que meus métodos possam ser ofensivos. Se quiser me xingar de desgraçado, vá em frente. Eu vou escutar o quanto você quiser.
Marvin soltou uma risada seca e sem ar.
— Qual é o ponto? Eu já sei que você é esse tipo de homem.
O problema era gostar dele apesar de saber disso. E o fato de que, sempre que tinha oportunidade, esquecia completamente a verdade e se fixava obsessivamente nas qualidades do homem como um boi ruminando. Toda vez que era forçado a voltar para a realidade dessa forma, a conclusão era sempre a mesma: ele trouxera isso para si mesmo.
— O problema sou eu. Eu vou me ajeitar, então não se preocupe com isso.
Ao tom cínico de Marvin, a expressão do promotor mudou. No início, ele franziu a testa como se não entendesse, mas logo soltou um suspiro muito longo, como se percebesse o contexto daquelas palavras.
— Eu juro, nunca usei os seus sentimentos. Embora seja verdade que confiei em você até certo ponto. Esperava que você fosse mais compreensivo em aceitar quem eu sou. Sim… eu admito isso.
Ele deu um passo largo para mais perto.
— Mas não vamos estragar o trabalho por causa disso. Você não é um adolescente; não vai jogar sua vida fora por causa de uma emoção momentânea.
— Claro que não. Você pode ficar tranquilo quanto a isso.
A resposta veio tão rápida que parecia pré-fabricada. Jang Jinwoo parou onde estava.
“Por quê? Não era isso que você esperava ouvir?”
Independentemente disso, Marvin deu um toque displicente na cinza do cigarro. Podia haver muitas pessoas no passado daquele homem que não conseguiam viver sem ele, mas Marvin não era uma delas. Ele só precisava revisar seus planos.
Mesmo que não fosse a melhor opção, tinha que escolher a segunda melhor e seguir em frente. Como o homem disse, não podia passar o tempo se sentindo ferido e emburrado para sempre. A sorte nunca estivera do seu lado de qualquer forma, então aquilo mal era uma surpresa.
Jang Jinwoo observou Marvin em silêncio enquanto ele resmungava para si mesmo. Então, de repente, soltou uma risada baixa e virou a cabeça. Com os cantos da boca curvados para cima, fixou o olhar em um letreiro de néon do outro lado da rua, seus olhos ganhando uma luz diferente. Justo quando o silêncio começava a se estender, fez uma proposta inesperada:
— Vou denunciar Hong Gyeongwook por manipulação de ações.
Marvin, que estava esmagando o cigarro, olhou para cima. O que era aquilo agora?
— Já que eles mexeram no tabuleiro, nós também devemos fazer um movimento. Não posso garantir, mas se a questão explodir o suficiente, poderemos negociar sem sequer cavar na operação Maxona. Se o seu chefe comprou algumas ações, ele terá algo a esconder, o que tornará a conversa ainda mais rápida.
Marvin piscou em silêncio. “Denunciar” significava que ele faria com que outro gabinete de promotoria assumisse o caso e investigasse. Provavelmente estava fazendo isso porque sua capacidade atual não cobria o volume, então tinha que repassar para outra equipe. Era difícil de entender. Ele não era o tipo de homem que cedia seus casos a outros.
Além disso, não havia evidências suficientes nem mesmo uma compreensão completa das circunstâncias ainda. Ir tão longe era, no fim das contas, uma medida extrema para reassegurar a Marvin que o caso Maxona permaneceria escondido.
⚖ ─── 𝛂 · β· Ω ─── ⚖
Fim do Volume 1….
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello