Capítulo 36
He Siyu olhou para o rostinho sério dela. Se não a tivesse visto encarando sem piscar um homem que rasgava a própria camisa mais cedo, talvez tivesse acreditado que ela era realmente casta e virtuosa.
Sang Ning se virou e, por acaso, encontrou o olhar de He Siyu. Ela inclinou levemente a cabeça antes de dar um passo à frente e cumprimentá-lo educadamente:
— Sr. He.
Lin Shuyan de repente avistou He Siyu e Gu Xingchen, e sua expressão ficou ainda mais sombria. Ela se sentiu humilhada, como se uma ninguém tivesse acabado de fazê-la perder a dignidade.
Ela avançou furiosa.
— Que tipo de avaliadora você contratou? Ela claramente não sabe de nada e fica falando absurdos.
He Siyu colocou as mãos nos bolsos, seu tom indiferente.
— Que absurdos ela falou?
Lin Shuyan ficou rígida. Será que ele estava mesmo tomando o partido de Nan Sangning?
— Siyu…
Quando He Siyu ergueu os olhos para olhá-la novamente, havia um frio em seu olhar.
— Os meus assuntos não são da conta de nenhum estranho.
Lin Shuyan ficou paralisada no local, o rosto tomado pela incredulidade.
Eles haviam crescido juntos, compartilhado anos de amizade, e ainda assim ele a chamava de “estranha”.
Gu Xingchen rapidamente interveio para amenizar a situação.
— Quem ousaria se meter nos assuntos de He Siyu? Nem seu pai consegue controlá-lo. Eu gostaria de viver mais alguns anos, obrigado. Shuyan, você também. A senhorita Nan é convidada de He Siyu. Você deveria demonstrar um pouco de cortesia.
Lin Shuyan apertou os lábios com força, os dedos cravando-se nas palmas das mãos.
He Siyu não tinha interesse em permanecer ali. Ele lançou um olhar para Sang Ning.
— Vamos.
Sang Ning olhou para o pequeno prato de bolo que acabara de pegar, franziu ligeiramente a testa, colocou-o de lado e seguiu He Siyu enquanto ele se afastava.
Lin Shuyan encarou furiosamente a figura de Nan Sangning se afastando, sua expressão distorcida pela raiva.
Gu Xingchen suspirou.
— Por que provocar He Siyu? Você conhece o temperamento dele. Ele é extremamente protetor. Se mexer com alguém que está sob a proteção dele, acha mesmo que ele vai lhe dar alguma consideração?
Todos haviam crescido juntos. Quem não conhecia a personalidade dos outros?
Quando He Siyu realmente perdia a paciência, não poupava os sentimentos de ninguém. Até Lin Shuyan havia sido levada às lágrimas por ele várias vezes quando eram crianças, e ele nunca sequer se dera ao trabalho de consolá-la.
A relação cordial que mantinham atualmente se devia, em parte, à história que compartilhavam e, em parte, ao fato de Lin Shuyan ter aprendido a não provocá-lo.
É claro que Lin Shuyan sabia que He Siyu era protetor e odiava que os outros se metessem em seus assuntos, mas…
— Desde quando aquela selvagem da Nan Sangning virou alguém sob a proteção dele?! — esbravejou entre os dentes cerrados.
Gu Xingchen fez uma pausa. Bem, esse era um bom ponto.
— É melhor você também não provocar Nan Sangning. Ela pode parecer doce e dócil, mas aquela garota não é nada fácil de lidar. Ela é assustadoramente forte. No banquete de aniversário da Velha Senhora He, uma vez deu tapas tão fortes nos irmãos mais novos que eles nem conseguiram se levantar.
Ele olhou para Lin Shuyan, ainda tomado pelo medo.
— Se você for longe demais da próxima vez e acabar apanhando, não diga que eu não avisei.
Lin Shuyan: “…”
Depois dessa análise, Gu Xingchen de repente se pegou pensando: se Nan Sangning e He Siyu algum dia entrassem em conflito, quem sairia por cima?
A essa altura, o iate já havia atracado. He Siyu desceu as escadas tranquilamente, enquanto Sang Ning vinha atrás. Ela ainda não estava acostumada com saltos altos, então naquele dia usava um par de sapatilhas.
Assim que saiu do iate, He Siyu parou de repente e olhou para trás.
— Aquele seu mestre monge nas montanhas também lhe ensinou as virtudes femininas?
Sang Ning permaneceu impassível.
— É a bela tradição da família Nan. Os Nans sempre foram uma família de bons costumes. Gentileza e obediência são deveres de uma mulher, assim como ser uma esposa dedicada, tolerante e virtuosa.
Não que ela estivesse lutando para se tornar a esposa legítima de algum playboy. Quem quisesse esse papel que sofresse. Ela não se importava.
He Siyu a observou, incapaz de dizer se ela estava zombando da família Nan ou dele.
— Você aprendeu bem, então.
Sang Ning sorriu.
— Obrigada pelo elogio, Sr. He.
Ela fingiu não perceber o sarcasmo em seu tom.
Um manobrista trouxe o carro de He Siyu, um Cayenne preto.
— Você trocou de carro de novo? — perguntou Sang Ning.
— Hm? Só peguei um na garagem.
Ela quase perguntou quantos carros ele tinha naquela garagem, mas engoliu a pergunta. Era melhor não se expor à humilhação. Sua inveja já era grande o suficiente.
O manobrista abriu a porta e se afastou.
— Presidente He.
He Siyu entrou. Sang Ning olhou ao redor. Aquele lugar não era exatamente adequado para pegar um táxi, então ela entrou no banco do passageiro.
— Por favor, me deixe no distrito comercial.
He Siyu apoiou uma mão no volante, seu tom preguiçoso.
— Não vai para casa de novo?
Sang Ning franziu a testa. O que ele queria dizer com “de novo”?
É claro que ela não podia deixar He Siyu levá-la para casa. Se a família Nan descobrisse que ela estava se relacionando com ele, seu avô e seu pai aproveitariam a oportunidade para fazer seus planos, e ela estaria em sérios problemas.
— Ainda não jantei. Vou comer alguma coisa por aqui antes de voltar — disse ela displicentemente.
He Siyu ergueu uma sobrancelha. Ela queria jantar com ele?
Um sorriso malicioso surgiu no canto de seus lábios.
— Tudo bem.
Sang Ning lançou-lhe um olhar confuso. Desde quando precisava da permissão dele para comer?
Em vez de ir para o distrito comercial, He Siyu dirigiu até um restaurante particular na cidade.
Ele estacionou.
— Chegamos.
Sang Ning piscou ao olhar para o pátio silencioso do lado de fora. Ele tinha acabado de sequestrá-la?
He Siyu já havia saído do carro e olhava para ela.
— Está planejando ficar aí dentro até o Ano-Novo?
Sang Ning: “…”
Ela saiu do carro.
— Por que você me trouxe aqui?
— Para comer.
Ele já estava entrando.
Sang Ning levou um momento para processar aquilo. Quando foi que ela concordou em jantar com ele?
— Senhorita, por aqui — cumprimentou calorosamente um funcionário.
Sang Ning apertou os lábios e o seguiu.
O exterior do pátio era simples e discreto, mas, por dentro, era uma joia escondida, decorada em estilo clássico, com pontes, águas correntes e pavilhões, evocando a grandiosidade de uma antiga propriedade.
Sang Ning olhou ao redor com curiosidade, impressionada com a atenção meticulosa aos detalhes.
Eles foram conduzidos a uma sala privativa, onde a mesa estava disposta junto a uma grande janela em formato de lua, com entalhes intricados, oferecendo uma vista do pátio e o som tranquilo de uma nascente.
A maior parte de sua irritação desapareceu.
He Siyu puxou uma cadeira.
— Peça o que quiser.
Sang Ning folheou o cardápio e escolheu alguns pratos da casa.
— Obrigada pela hospitalidade, Presidente He — disse ela com um pequeno sorriso.
He Siyu tomou um gole de chá e então ergueu os olhos para vê-la com os olhos curvados de genuína alegria.
Sem sarcasmo dessa vez.
Será que ela era realmente tão fácil de agradar?
— Você me ajudou hoje. Uma refeição é o mínimo que posso fazer — disse ele casualmente.
— Não foi exatamente ajuda. Você me pagou — observou ela, de maneira objetiva.
— Verdade.
Ele quase havia se esquecido.
Logo, os pratos chegaram. Eram quatro pratos e uma sopa, todos apresentados de maneira requintada.
Sang Ning pegou os hashis e começou a comer tranquilamente. Os sabores eram diferentes do que estava acostumada e, como estava com fome, experimentou cada um deles.
He Siyu não estava particularmente faminto. Ele ergueu os olhos para observá-la comer, com mordidas lentas e deliberadas, cada movimento refinado e gracioso, como o de uma dama bem-educada de uma família aristocrática.
O pensamento surgiu do nada, e ele imediatamente achou ridículo ter sequer pensado nisso.
Ela comia concentrada e em silêncio, falando raramente. Na verdade, parecia encarar tudo com o mesmo nível de seriedade.
Sang Ning de repente ergueu os olhos para ele.
— Por que está olhando para mim?
He Siyu respondeu preguiçosamente:
— O que mais eu deveria olhar? Tem outra pessoa nesta sala?
Sang Ning franziu a testa. Que tipo de lógica absurda era aquela? E, ainda assim, era irritantemente difícil de refutar.
Tanto faz. Ela voltou a comer.
O canto dos lábios de He Siyu se curvou levemente. Talvez ele realmente estivesse com um pouco de fome, afinal.
Quando a refeição terminou, havia sido uma experiência inesperadamente agradável para os dois.
— Vamos. Eu vou levá-la de volta — disse He Siyu, levantando-se.
Sang Ning balançou a cabeça.
— Não precisa. Vou pegar um táxi.
— Hm?
— Não seria bom se minha família me visse…— Ela escolheu as palavras com cuidado, deixando um lembrete sutil.
— Eu sou algum tipo de vergonha?
Sang Ning: “…”
Ela respirou fundo.
— Só não quero problemas desnecessários.
He Siyu olhou para ela, parecendo compreender o significado por trás de suas palavras, mas não insistiu.
— Então vou pedir ao funcionário que chame um táxi para você.
— Está bem. — Sang Ning assentiu.
— Vou indo primeiro.
— Vá com cuidado, Presidente He.
He Siyu parou no meio do passo, então se virou para ela e estendeu a mão.
— Foi um prazer fazer negócios hoje.
Sang Ning ficou imóvel, encarando os dedos bem definidos estendidos diante dela, sem se mover.
He Siyu ergueu uma sobrancelha.
— Um aperto de mãos não vai contra as regras das virtudes femininas, vai?
Sang Ning: “…”
Ela se lembrava, sim, de ter aprendido sobre apertos de mãos nas aulas de etiqueta. Mas nunca havia apertado a mão de um homem…
Ainda assim, não queria parecer uma pessoa sem modos. Reunindo coragem, estendeu a mão e segurou a grande mão dele.
No instante em que as pontas de seus dedos tocaram a palma quente dele, ela estremeceu instintivamente, seu coração batendo descontroladamente. Ela tentou puxar a mão de volta, mas ele de repente apertou o contato, não lhe dando chance de recuar.
A mão dele era muito maior que a dela, envolvendo-a completamente quando fechou os dedos, quase como se a estivesse prendendo deliberadamente.
Ela ergueu os olhos e encontrou seu olhar preguiçoso e divertido.
— Até a próxima.
Ele a soltou e foi embora.
Sang Ning permaneceu imóvel no lugar, olhando rigidamente para sua mão direita, agora levemente avermelhada pelo aperto dele. Um único pensamento passou por sua mente: “Estou maculada.”
Três minutos depois, um funcionário bateu à porta e entrou.
— Senhorita Nan, seu táxi está pronto.
Sang Ning afastou os pensamentos caóticos, pegou sua bolsa e se levantou.
— Certo.
O funcionário a acompanhou até a saída, mas, antes que chegassem à porta, outro funcionário correu atrás dela.
— Senhorita Nan!
— O que foi?
O funcionário lhe entregou um relógio de pulso.
— O Presidente He deixou isto no banheiro.
Sang Ning franziu a testa. Como ele podia ser tão descuidado?
— Por favor, leve-o com você, senhorita Nan.
Sem outra opção, ela aceitou o relógio e saiu rapidamente.
Somente depois de entrar no táxi ela ligou para He Siyu.
— Alô. — A voz dele era grave.
— Você deixou seu relógio no restaurante. Estou com ele.
— Hum. Traga-o para mim quando tiver tempo.
“…”
Desde quando ele ficou tão à vontade para dar ordens a ela?
— O seu pagamento já foi transferido para a sua conta — acrescentou ele.
Sang Ning apertou os lábios, seu tom ficando visivelmente mais educado.
— Então vou levá-lo para você amanhã.
— Ótimo. Entregue-o em Huiyao.
— Entendido.
Ela respirou fundo e desligou.
Tudo bem. Pelo bem do pagamento, ela o toleraria dessa vez.
Residência Nan.
Assim que Sang Ning voltou, Wen Meiling perguntou:
— Onde você esteve hoje? Voltou tão tarde.
— Estava estudando com uma colega.
Wen Meiling sabia que Sang Ning era dedicada aos estudos e, embora isso despertasse sentimentos contraditórios nela, seu tom suavizou.
— Não se esforce demais. Seu avô não espera que você cuide dos assuntos da empresa.
Sang Ning sorriu.
— Claro. Por que uma garota como eu precisaria se preocupar com esse tipo de coisa? Só quero ampliar meus horizontes para não envergonhar a família no futuro.
Wen Meiling ficou satisfeita.
— Isso mesmo. Também vou ficar de olho em bons pretendentes. Quando chegar a hora, vamos arranjar um casamento adequado para você.
Se Sang Ning não tivesse conhecimento em certas áreas, isso realmente afetaria suas perspectivas em relação a um bom casamento.
— Não se preocupe, mãe.
Embora essa filha tivesse crescido no interior, inesperadamente tinha bons modos. Não era mimada nem voluntariosa, apenas sensata. Ainda assim, por alguma razão, Wen Meiling não conseguia se livrar de uma vaga sensação de inquietação.
Sang Ning subiu para o quarto e, como de costume, tirou a roupa para tomar banho.
Seu humor estava leve. Naquele dia, havia recebido muitos elogios, uma prova de que seus dezoito anos de aprendizado das virtudes femininas não haviam sido desperdiçados.
Animada, pegou o celular e abriu o Weibo, onde inúmeras marcações a aguardavam.
[Shi Mu postou! Vamos lá pessoal!!]
Ela entrou na página de Shi Mu e viu os comentários repletos de corações e declarações de admiração.
Segurando o celular com as duas mãos, digitou seriamente um comentário como as outras fãs:
[Você é tão lindo, gege! Te amo! ❤️❤️❤️]