Capítulo 35
Ele pareceu notar o olhar dela e virou-se para encará-la. Seu braço esquerdo continuava apoiado no corrimão enquanto ele abaixava levemente a cabeça, os olhos fixos nela.
Sang Ning não gostava da sensação de ser olhada de cima. Desviou o olhar, sem mais encarar os olhos dele, e ficou olhando diretamente para a frente enquanto seguia as orientações do garçom escada acima.
Sang Ning subiu a escadaria externa até a plataforma do segundo andar.
He Siyu continuou encostado no corrimão, com o olhar demoradamente pousado nela, claramente esperando que ela subisse.
Sang Ning aproximou-se devagar e o cumprimentou educadamente:
— Sr. He.
He Siyu lançou-lhe um olhar, curvando levemente os lábios. Todas as vezes que se encontravam, ela assumia aquela mesma polidez afetada. Quem sabia quantas vezes ela já o havia xingado em pensamento.
Com um tom preguiçoso e igualmente educado, ele respondeu:
— Srta. Sang.
As sobrancelhas de Sang Ning se franziram levemente. Era impressão dela ou ele estava zombando dela?
— Esta é a Srta. Sang de quem você falou, aquela especialista em avaliar antiguidades? — perguntou sorrindo a mulher ao lado dele.
Sang Ning virou-se para olhar. A mulher a examinava com um ar de arrogância inata.
He Siyu olhou para Sang Ning e a apresentou:
— Esta é Lin Shuyan, da família Lin, proprietária do Banco Lin.
Sang Ning piscou. Não era de admirar que ela se portasse com tanto orgulho. Afinal, ela realmente tinha recursos para sustentá-lo.
— Srta. Lin, prazer em conhecê-la — cumprimentou Sang Ning educadamente.
Lin Shuyan sorriu de volta.
— Srta. Sang.
Sua resposta foi um tanto superficial. Ela já havia investigado o passado de Sang Ning. O status da família Sang como novos-ricos estava abaixo de sua atenção, e ela ouvira dizer que Sang Ning havia sido trazida recentemente do interior.
Ela não conseguia entender por que Siyu se daria ao trabalho de elevar uma mulher como aquela.
Lin Shuyan voltou-se para He Siyu, e seu sorriso se iluminou.
— Acabei de voltar do exterior. Gu Xingchen disse que você daria um jantar para comemorar meu retorno. Não vai me levar para comer?
— Se Gu Xingchen disse isso, deixe que ele a leve.
— Não pode ser. Eu raramente volto. Você deveria, pelo menos, me levar para sair uma vez.
— Você volta oito vezes por ano. Não é necessário.
Lin Shuyan fingiu irritação.
— He Siyu, você não consegue dizer algo agradável pelo menos uma vez?
He Siyu endireitou-se e olhou para Sang Ning.
— Vamos. O leilão está prestes a começar.
Sang Ning assentiu e o seguiu.
O sorriso de Lin Shuyan ficou ligeiramente rígido enquanto observava He Siyu afastar-se com aquela mulher, e uma irritação inexplicável surgiu em seu peito.
Dentro da cabine havia uma grandiosa exposição de antiguidades. Muitos artefatos estavam expostos abertamente sobre mesas, alguns até mesmo sem vitrines de vidro. Os visitantes podiam examiná-los à vontade.
Afinal, todos naquele navio tinham condições de pagar por quaisquer danos.
O salão estava muito mais movimentado do que o convés do lado de fora. Sang Ning elevou um pouco a voz para ser ouvida.
— Que peça o senhor gostaria que eu avaliasse desta vez, Sr. He?
He Siyu mantinha uma das mãos no bolso da calça. Seu passo era descontraído enquanto inclinava levemente a cabeça.
— Venha comigo.
Ele a conduziu até a exposição mais ao fundo, onde uma pintura enorme estava exposta.
Centenas de Pássaros Prestando Homenagem à Fênix, uma obra do pintor Su Nian, da dinastia Zhou.
No último leilão de pequeno porte, Sang Ning havia visto aquela pintura. Infelizmente, era uma falsificação.
Mas esta…
He Siyu virou-se para ela.
— E então?
Sang Ning balançou a cabeça.
— Não é a original.
Dada a fama da pintura, existiam inúmeras imitações, algumas datadas até mesmo da própria dinastia Zhou. Embora essas réplicas ainda fossem artefatos antigos, estavam muito longe de ser a peça genuína.
Uma ponta de decepção passou pelos olhos de He Siyu.
— Então, esqueça.
— Por que o senhor queria essa pintura, Sr. He?
— Um presente.
Sang Ning ficou surpresa. Ela imaginara que um homem tão orgulhoso quanto ele não se rebaixaria a conquistar favores por meio de presentes.
He Siyu ergueu levemente o queixo.
— Vamos dar mais uma olhada por aí.
— Tudo bem.
Sang Ning era meticulosa em seu trabalho. Afinal, estava sendo paga. Ela permaneceu ao lado de He Siyu, avaliando pacientemente cada artefato para ele.
He Siyu raramente a via tão atenta e solícita. Então era por isso que ela sempre parecia descontente quando se encontravam. Ela não havia sido bem paga anteriormente.
Aquela transação deixou ambas as partes satisfeitas.
— Ei, você irritou Shuyan de novo? Acabei de vê-la lá fora, e ela não parecia muito feliz — disse Gu Xingchen com um sorriso ao se aproximar de He Siyu.
He Siyu estava examinando uma espada de bronze e nem sequer levantou os olhos.
— Irritei?
Ele já havia irritado muita gente. Aquilo não era exatamente novidade.
— Vou dar uma festa de boas-vindas para Shuyan esta noite. Você vem?
— Estou ocupado.
— Você não tem planos para esta noite.
He Siyu olhou para Sang Ning ao seu lado, apenas para descobrir que ela havia desaparecido.
Franzindo a testa, ele examinou o salão até avistá-la do outro lado, olhando atentamente para uma pulseira de turmalina rosa com dezoito contas, exposta em outra mesa.
Ele caminhou até ela.
— Viu alguma coisa de que gostou?
Sang Ning endireitou-se, desviando o olhar da pulseira que custava oito dígitos.
— Só estava olhando.
He Siyu lançou um olhar para a peça.
— Você gosta dela?
Embora não pudesse pagar por aquilo, Sang Ning era orgulhosa demais para admitir.
— É razoável.
Gu Xingchen sabia que, uma vez que He Siyu tomava uma decisão, nunca mudava de ideia, então não insistiu. Em vez disso, saiu para o convés à procura de Lin Shuyan.
— Ele está ocupado esta noite. Que tal eu reservar uma sala privativa no Wanghaichao para o seu jantar de boas-vindas?
A expressão de Lin Shuyan se contraiu.
— Ele não tem planos para esta noite.
— Quem sabe? De qualquer forma, ele não está livre.
Lin Shuyan se lembrou da mulher que o acompanhava anteriormente, e seu rosto ficou sombrio.
Uma hora depois, o banquete no andar inferior estava prestes a começar.
Enquanto desciam para o primeiro andar, alguém parou He Siyu para conversar. Sang Ning, sempre independente, seguiu em frente para pegar alguma comida.
— Srta. Sang.
Ela se virou e viu Lin Shuyan parada diante dela.
Sang Ning a cumprimentou educadamente.
— Precisa de alguma coisa, Srta. Lin?
O sorriso de Lin Shuyan carregava uma ponta de desdém.
— Esta deve ser a sua primeira vez em um evento como este, não é?
Considerando a posição da família Sang, eles normalmente não seriam convidados para aquele navio. Se não fosse por He Siyu, ela sequer estaria ali conversando com ela.
— É a minha primeira vez.
— Andar atrás de Siyu por aí deve ter ampliado bastante seus horizontes, não é?
Sang Ning percebeu que aquela jovem senhorita a via como uma rival, então respondeu diplomaticamente:
— O Sr. He me contratou para avaliar antiguidades. Estou apenas fazendo o meu trabalho.
Lin Shuyan soltou um riso de escárnio.
— Guarde essa atuação para os homens. Não precisa bancar a inocente comigo.
Ela havia crescido em Ziteng Lane ao lado de He Siyu. Conhecia-o melhor do que qualquer outra pessoa. Talvez os outros não percebessem, mas ela conseguia ver de relance que ele tratava aquela mulher de maneira diferente.
Sang Ning: “…”
Sang Ning sorriu.
— Então, Srta. Lin, o que exatamente você quer de mim?
— Vou deixar uma coisa bem clara: você não é nem digna de amarrar os cadarços dos sapatos da família He. Controle suas ilusões.
— Está dizendo que você é digna, então?
Lin Shuyan ergueu o queixo.
— É claro. Não pense que, só porque Siyu está sendo gentil com você agora, pode alimentar esperanças tolas. Mesmo na mesma cidade, nós duas vivemos em mundos diferentes. Mesmo que ele esteja momentaneamente interessado em você, não passa de um capricho passageiro.
Sang Ning assentiu pensativa.
— Você tem razão. O Sr. He e a Srta. Lin formam um par perfeito. Mesmo que ele esteja momentaneamente interessado em mim, no fim ele ainda vai se casar com você.
Lin Shuyan sorriu com frieza.
— Fico feliz que tenha entendido.
Embora suas famílias ainda não tivessem oficializado um noivado, ela era a futura nora designada da família He. Ao longo dos anos, não importava quantas mulheres cercassem He Siyu, todas eram apenas nuvens passageiras. Sua esposa, sem dúvida, seria ela no fim.
Sang Ning sorriu.
— Já que a Srta. Lin sabe que está destinada a ser a esposa legítima, por que recorrer aos truques mesquinhos de uma concubina?
Lin Shuyan: ???
— O que você disse?! — A expressão de Lin Shuyan escureceu instantaneamente.
O tom de Sang Ning tornou-se frio.
— Srta. Lin, você vem de uma família nobre. Como pode não ter nem a dignidade básica esperada de uma dama de família? Se você tivesse capacidade, faria com que ele permanecesse voluntariamente dedicado apenas a você. Se não tem, deveria ficar tranquilamente em casa, fazendo vista grossa, em vez de se rebaixar a confrontar outras mulheres.
Os olhos de Lin Shuyan se arregalaram, incrédulos.
O que aquela garota desvairada estava dizendo?!
— Uma esposa legítima deve ser gentil, virtuosa e magnânima para manter a harmonia do lar. Mas, com esse seu ciúme mesquinho, incapaz de controlar seu homem e ainda assim se rebaixando a confrontar outras mulheres, você perdeu toda a elegância.
Lin Shuyan permaneceu imóvel, com o rosto ficando vermelho como uma brasa.
— Você… você…
Sang Ning ergueu o queixo, com um olhar altivo.
— Leve este conselho a sério, Srta. Lin. Não se envergonhe assim novamente.
Ali perto, He Siyu e Gu Xingchen, que haviam acabado de chegar, ficaram parados, imóveis.
Gu Xingchen arfou, com os olhos arregalados como pires.
— Meu Deus, que relíquia feudal saiu rastejando das montanhas para nos dar uma palestra?