Capítulo 22
Se ela realmente se importasse com ela, não teria deixado o próprio filho humilhá-la em público.
Enquanto permitia que o filho fizesse o papel de vilão, assistindo enquanto ela era isolada e rejeitada por todos, agora dava um passo à frente, fingindo ser a pessoa boazinha. Sang Ning já tinha visto esse tipo de truque vezes demais.
—É claro querida! —Nan Wenyue segurou sua mão.—Seus pais são uns tolos, negligenciando a própria filha por causa de uma filha falsa. Até eu não consigo suportar isso. Não se preocupe, de agora em diante, sua tia vai protegê-la.
Sang Ning piscou, forçando um sorriso.
— Obrigada, tia.
Os olhos de Nan Wenyue brilharam de satisfação. Aquela garota ainda era fácil de manipular. Com toda a Família Nan se voltando contra ela, bastavam algumas palavras doces para fazê-la se sentir grata.
— Ora, criança, por que está me agradecendo? Sua tia só sente pena de você.
Nan Wenyue voltou a observar Sang Ning, notando a confiança em seus olhos antes de continuar cautelosamente.
— Ouvi dizer que você foi à Família He?
Sang Ning ergueu levemente a sobrancelha. Então esse era o verdadeiro motivo.
— Sim — assentiu. — Eu sei tocar pipa, então a Velha Madame He me convidou para ir até lá.
— Minha nossa, você é realmente extraordinária, habilidosa em uma arte dessas! — Os olhos de Nan Wenyue se iluminaram, com a ganância mal disfarçada. — A Velha Madame He disse mais alguma coisa? Você encontrou mais alguém lá?
A Família He estava no topo da elite de Jing City, e sua residência ancestral raramente recebia pessoas de fora. Pessoas comuns sequer conseguiam colocar os pés no Beco Ziteng.
Mas justamente por causa da influência da Família He, até mesmo o menor fragmento de informação sobre eles poderia se transformar em benefícios imensos.
A Família Nan sequer conseguia se aproximar da Família He, muito menos Nan Wenyue. Casada ainda jovem com um homem cuja família era inferior à dos Nan, ela não tinha nenhuma chance de subir naquela hierarquia.
Pelo menos os Nan haviam comparecido ao banquete de aniversário da Velha Madame He, no Haiyan Heqing. A família de Nan Wenyue sequer havia passado pelas portas do salão do banquete.
Ainda assim, quem deixaria passar qualquer oportunidade de arrancar sequer uma migalha de informação sobre a Família He?
Sang Ning respondeu obedientemente:
— A Velha Madame He elogiou minha habilidade com a pipa e perguntou como eu havia aprendido.
Nan Wenyue insistiu:
— Você viu mais alguém?
Sang Ning hesitou.
— Mais alguém…?
Ela pensou e depois balançou a cabeça.
— Não, não vi.
Os olhos aguçados de Nan Wenyue perceberam a hesitação. Estava claro que ela estava escondendo alguma coisa.
Ainda não confiava nela o suficiente.
Nan Wenyue abriu outro sorriso.
— Bem, parece que a Velha Madame He gostou de você. Que impressionante você saber tocar pipa! Algum dia terá que tocar para mim.
Sang Ning sorriu levemente.
— Talvez da próxima vez.
Tentando arrancar informações? Ela precisaria demonstrar sinceridade de verdade. Será que achava que algumas palavras doces poderiam comprar benefícios ilimitados? Nada vinha tão facilmente.
Nesse momento, Nan Siya abriu a porta de vidro e saiu.
— Tia? Irmã, o que vocês duas estão fazendo?
Nan Wenyue soltou uma risadinha.
— Nada demais. Eu só estava perguntando a Sang Ning se ela está se adaptando bem.
Então assumiu um tom de repreensão.
— Siya, você precisa se dar bem com sua irmã. Agora vocês são uma família. Não precisam deixar pequenas brigas destruírem o vínculo entre vocês.
Nan Siya pareceu confusa.
— Do que está falando, tia? Eu nunca briguei com ela.
— É claro, é claro. Eu sei que você é a mais sensata.
Nan Wenyue não tinha intenção de se envolver. Apenas estava fazendo o papel de mediadora.
Nan Siya lançou um olhar venenoso para Sang Ning.
— Não pense que esse seu teatrinho lamentável vai fazer alguém sentir pena de você! Mamãe e papai odeiam você. Mesmo que a tia sinta pena de você, ela não é alguém que vai ficar cegamente do seu lado!
Sang Ning a encarou friamente.
— Você está mesmo com tanto medo?
Os olhos de Nan Siya se arregalaram.
— O que você disse?
— Você já conquistou o “amor” de todos na Família Nan. Não deveria estar transbordando de confiança? Por que está tão insegura?
O tom de Sang Ning era casual, mas cada palavra atingia Nan Siya como uma adaga.
A voz de Nan Siya se elevou bruscamente.
— Quem está insegura?! Nan Sang Ning, não pense que sua língua afiada pode me superar! Olhe bem para você mesma. Você não passa de um rato molhado!
Nan Wenyue observou a discussão se intensificar e rapidamente interveio:
— Ora, vocês são irmãs! Por que toda essa briga? Se sua mãe ouvir, ficará de coração partido.
Sang Ning de repente deu um sorrisinho.
— Ah?
Nan Siya congelou. Aquele sorriso lhe provocou um arrepio na espinha.
Seu rosto ficou rígido, mas ela se obrigou a zombar:
— Quem você pensa que é? Uma caipira que saiu rastejando da lama! Mamãe e papai já estão fartos de você. Eles desejam que você nunca tivesse voltado… AHH!
Sang Ning deu um chute certeiro nela.
Com um grande “splash”, Nan Siya caiu dentro do lago do jardim.
Nan Wenyue ficou paralisada de choque, encarando Sang Ning, incrédula. Ela realmente ousara chutar Nan Siya para dentro do lago, e sem demonstrar o menor sinal de medo!
O lago ornamental tinha apenas a profundidade aproximada da cintura e abrigava algumas carpas koi. Nan Siya se debateu na água antes de conseguir se levantar, gritando como uma louca.
— Nan Sang Ning! Você enlouqueceu?! Como ousa me chutar?!
Encharcada da cabeça aos pés, com os cabelos grudados no rosto como os de um fantasma, Nan Siya nem sequer se deu ao trabalho de arrumar a aparência, seu orgulho era a última coisa em que estava pensando. Ela estava fervendo de raiva, o peito subindo e descendo com força.
Sang Ning inclinou a cabeça, olhando para ela da margem, com os lábios curvados em um sorriso.
— Ontem você não afirmou que eu queria você morta? Isso não corresponde perfeitamente às suas expectativas?
O rosto de Nan Siya se contorceu.
No dia anterior, ela havia apostado tudo ao incriminar Sang Ning por tê-la empurrado escada abaixo. Presumira que Sang Ning se acovardaria de medo, vivendo como um rato miserável sob o desprezo dos pais, para sempre à sua sombra.
Mas jamais imaginara que Sang Ning realmente a chutaria para dentro de um lago!
Nan Siya tremia de fúria.
— Você… espere só! Vou contar tudo para mamãe e papai! Eles vão enxergar quem você realmente é…
Antes que pudesse terminar, a porta de vidro se abriu novamente. Wen Meiling saiu correndo, atraída pela comoção.
— O que está acontecendo?!
Seu rosto empalideceu ao ver Nan Siya, encharcada, desgrenhada, com a faixa na testa molhada e manchada de sangue.
— Siya! Siya, o que aconteceu?!
Nan Siya começou a chorar histericamente.
— Mamãe! Nan Sang Ning… ela me chutou para dentro! Ela realmente quer me matar…
Wen Meiling se virou bruscamente, atônita por Sang Ning ter ousado atacá-la novamente de maneira tão descarada.
Mas, quando se virou, encontrou apenas um olhar inocente.
— Eu não fiz isso. Siya, você não tropeçou e caiu acidentalmente?
As pupilas de Nan Siya se contraíram de choque. Como ela ainda conseguia mentir com tanta cara de pau?!
— Mentirosa! — gritou ela. — Você me chutou! Você está louca! Quer me ver morta!
O olhar de Wen Meiling para Sang Ning estava cheio de dúvida e decepção. Como sua própria filha podia ser tão cruel?!
Sang Ning se virou para Nan Wenyue e disse:
— Tia, você estava aqui e viu tudo. Você sempre foi justa. Vai testemunhar a meu favor, não vai?