Capítulo 19
He Siyu aproximou o celular, ignorando o barulho estrondoso que invadia seus ouvidos, e olhou novamente para confirmar.
Não havia engano realmente era Nan Sangning.
Então era isso que ela chamava de encontro? Assistir a um homem se despir no palco?
Sua avó havia elogiado a garota, dizendo que ela era gentil e digna, uma jovem rara, com a modéstia e a elegância que faltavam às mulheres modernas. E, no entanto, ali estava ela, praticamente babando por um homem seminu.
Ele soltou um escárnio e desligou o celular.
Gu Xingchen ainda estava enchendo o grupo de mensagens, fazendo a tela acender sem parar.
He Siyu desbloqueou o celular novamente, com uma expressão impassível.
Gu Xingchen já havia enviado oito mensagens.
[Droga, eu sou um idiota mesmo por trazer uma garota ao show do Shi Mu para flertar. Ela não tira os olhos dele qual é o sentido de eu estar aqui?]
[Isso é indecente demais! Que maluquice é essa?]
[Embora eu tenha que admitir que é meio excitante. Não posso nrm culpá-la eu também estou ficando animado.]
“…”
Abaixo havia outro vídeo curto.
He Siyu apertou para reproduzir. O homem no palco havia trocado de roupa e agora usava um traje de gaze vermelha, com uma fita de seda preta cobrindo os olhos, dançando de maneira sedutora ao som da música.
Nan Sangning estava sentada imóvel em seu lugar, encarando o homem, com a boca ligeiramente entreaberta, como se pudesse começar a babar a qualquer momento.
He Siyu desligou o celular novamente, mantendo o rosto indecifrável.
Ele sempre soubera que ela tinha duas faces, mas havia subestimado a garota. Tsc.
Por que ele estava se dando ao trabalho de se importar com ela? Será que não tinha nada melhor para fazer?
Com uma expressão sombria, jogou o celular de lado.
O show durou até as dez da noite antes de finalmente terminar.
Mesmo depois de deixar o local, Sangning ainda se sentia atordoada, com a cabeça zunindo.
Ji Yan a puxou animadamente pelo braço, tagarelando sem parar:
— Não foi incrível? Eu disse que o Shi Mu não decepcionaria ele é o ídolo “Desejo Proibido” deste ano!
— O que é “desejo proibido”?
— É sobre contenção, tipo não a ausência de desejo, mas a tensão de se controlar antes de finalmente se deixar levar. Entendeu? — explicou Ji Yan, empolgada.
Sangning balançou a cabeça, confusa.
Ji Yan revirou os olhos.
— Assista a mais algumas apresentações e você vai entender.
Sangning assentiu, corando. Aquilo fazia sentido.
Ji Yan deixou Sangning na residência da família Nan.
— Até a próxima!
Parada do lado de fora dos portões, Sangning acenou.
— Até a próxima.
Ji Yan foi embora sem se preocupar com mais nada.
Sangning tocou a campainha. Quando tia Chen viu que era ela, correu para abrir o portão, chegando até a esperá-la na entrada com um sorriso bajulador.
— Bem-vinda de volta, senhorita. O mestre acabou de perguntar pela senhora, querendo saber se já havia retornado.
À medida que o velho mestre se tornava mais atencioso com Sangning, a servilidade de tia Chen também aumentava.
Sangning trocou os sapatos na entrada.
— Onde está o avô?
— No escritório.
Ela foi até lá. Como havia visitado a família He naquele dia, seu avô certamente iria querer saber como tinha sido.
E ela também tinha algo para conversar com ele.
Bateu três vezes.
— Avô.
— Entre.
Ao abrir a porta, encontrou Nan Zhenming também ali, suando enquanto disputava uma partida de xadrez com o velho. No instante em que a viu, largou as peças aliviado e então franziu a testa.
— Por que voltou tão tarde?
O velho mestre lançou-lhe um olhar severo.
— Sangning estava fora tratando de assuntos importantes. Por que está gritando?
Nan Zhenming ficou tenso, humilhado, mas não se atreveu a retrucar.
O velho acenou calorosamente para ela.
— Sangning, venha sentar. Conte-me: a matriarca da família He gostou de você hoje?
Sangning sentou-se no sofá à frente, sorrindo.
— A vovó He me pediu para tocar pipa para ela. Ela elogiou minhas habilidades e me convidou para voltar.
O sorriso do velho se alargou.
— Então você deve continuar conquistando a simpatia dela.
— Ela é muito gentil. Quando descobriu que eu não tinha carro nem motorista, providenciou um para me levar para casa.
Os olhos do velho brilharam.
— Parece que a matriarca da família He tem você em alta consideração.
Caso contrário, não teria mandado um carro.
Mas então…
O velho franziu a testa de repente.
— Você não tem motorista?
Sangning assentiu.
— Tenho pegado o carro emprestado da Siya. Só quando ela está disponível é que o tio Zhang me leva.
As sobrancelhas do velho se franziram enquanto ele lançava um olhar furioso para Nan Zhenming.
— Sangning está de volta há tanto tempo, e você ainda não providenciou um carro para ela? Está fazendo com que ela tenha de pegar o da Siya emprestado?
Nan Zhenming hesitou.
— Eu… achei que a Meiling cuidaria disso. Essas questões triviais acabaram passando pela minha cabeça.
É claro que tinham passado.
Ninguém na família Nan jamais havia considerado dar a ela o tratamento digno da filha mais velha.
O velho esbravejou:
— Isso é vergonhoso! Se isso se espalhar, as pessoas vão rir da família Nan por sermos tão mesquinhos que nem sequer damos um carro à nossa própria herdeira!
Nan Zhenming enxugou a testa.
— O senhor tem razão, pai. Vou providenciar isso imediatamente.
Sangning interveio de maneira atenciosa:
— Não tem problema. Eu não saio muito. Quando saio, geralmente é para ir à família He ou com a senhorita Ji. A vovó He cuida de tudo, e a senhorita Ji sempre paga as coisas para mim e me dá presentes. Não preciso de muita coisa.
O velho parou, franzindo a testa.
— Seus pais não lhe dão mesada?
Sangning piscou inocentemente.
— Mesada?
Nan Zhenming começou a suar frio.
— Eu… eu disse claramente à Meiling para cuidar disso. Como ela poderia ter esquecido algo tão básico?
É claro que ele não havia dito. Eles haviam presumido que uma garota do interior como Sangning deveria ser grata simplesmente por poder viver na mansão da família Nan afinal, no que ela poderia gastar dinheiro?
O rosto do velho escureceu. Ele apontou o dedo para Nan Zhenming.
— Para que você serve? Quer que Sangning seja ridicularizada por vir de uma família tão pobre que nem mesmo sua herdeira pode ter dinheiro para gastar?!
Sangning permaneceu sentada em silêncio, sem reclamar nem culpar ninguém. Em vez disso, acalmou o velho gentilmente.
— Avô, não fique chateado. A vovó He e a senhorita Ji não são pessoas superficiais. Elas nunca desprezaram a família Nan por causa disso. Na verdade, a vovó He disse que minha humildade reflete bem os valores da nossa família.
A expressão do velho se suavizou.
— Uma família prestigiosa como os He não seria mesquinha, mas, como filha mais velha da família Nan, você merece dignidade. De agora em diante, terá um carro, um motorista e uma mesada mensal de 800 mil. Da próxima vez que visitar a família He, leve um presente, é o correto.
Nan Zhenming ficou tenso.
800 mil?
Nan Siya recebia apenas 500 mil por mês. Somente Nan Muchen, como herdeiro homem, recebia 800 mil.
Sangning sorriu docemente.
— Obrigada, avô.
Depois de uma pausa, acrescentou:
— Já terminei minhas aulas de etiqueta, mas, como filha mais velha da família Nan, sinto o peso das expectativas sobre mim. Sempre há mais a aprender. Não quero envergonhar a família no futuro.
O velho assentiu, satisfeito.
— Essa dedicação é louvável. O que mais deseja estudar?
— Um MBA.
Sangning sorriu.
— Negócios.
Ela já havia administrado contas antes, em sua antiga casa lojas, propriedades agrícolas e a compra e venda de criados. Ela compreendia o modelo de negócios da família Nan, que, embora fundamentalmente semelhante às transações comerciais da dinastia Zhou, funcionava de maneira muito diferente na prática. Se não aprendesse como esse sistema funcionava, como poderia descobrir a verdadeira extensão da riqueza da família Nan? Como poderia lutar pela própria herança?
Por acaso deveria esperar que a família Nan lhe entregasse algumas migalhas?
Nan Zhenming franziu a testa.
— É preciso ter um diploma de graduação para estudar isso…
O patriarca o interrompeu imediatamente.
— Basta usar alguns contatos e deixar Sangning assistir às aulas como ouvinte. É bom que a menina tenha ambição.
Mais importante ainda, agora que a família He havia demonstrado uma rara simpatia por Nan Sangning, o patriarca naturalmente queria fazer de tudo para aprimorar sua imagem, para que a velha senhora He passasse a tê-la em ainda maior consideração. Se a família He lhes oferecesse casualmente uma oportunidade, os Nan poderiam alcançar o sucesso da noite para o dia.
Afinal, em Jing City, bastava a família He bater o pé para fazer a cidade inteira estremecer.
Agora que Sangning havia feito um pedido, o patriarca estava mais do que disposto a atendê-lo.
— Obrigada, avô — disse Sangning, com um sorriso satisfeito.
Tendo conseguido o que queria, ela se despediu.
— Não vou mais incomodá-lo.
— Vá descansar cedo.
Sangning se levantou, saiu e abriu a porta…apenas para se deparar com dois bisbilhoteiros, que se assustaram e saíram correndo em pânico.
Ela ergueu uma sobrancelha para Nan Siya e Nan Muchen, depois saiu, fechou a porta atrás de si e foi direto para o quarto.
Assim que chegou à porta e girou a maçaneta, uma voz furiosa sibilou atrás dela:
— Nan Sangning, não fique se achando! Fica toda arrogante na frente do avô — tudo o que você quer é dinheiro, não é?
Nan Siya havia ouvido a decisão do patriarca de dar a Sangning 800 mil por mês.
Ela estava chocada. Sempre acreditara ser a princesa mais mimada da família Nan, enquanto Nan Sangning, aquela caipira idiota insignificante, que direito tinha de receber mais dinheiro do que ela?
Sangning parou e lançou um olhar despreocupado para trás.
— E daí se for?
Siya esperava que ela negasse. Afinal, pedir dinheiro era algo tão vergonhoso, Sangning não deveria estar constrangida demais para admitir?
No entanto, ela havia reconhecido isso com tanta facilidade.
Sangning sorriu de lado.
— Não importa se pedi dinheiro ou não. O que importa é se consegui. Se está insatisfeita, vá pedir um pouco para você mesma.
Siya cerrou os dentes.
— Eu não sou tão sem-vergonha quanto você!
Sangning fingiu surpresa.
— Você, uma falsa, viveu tão confortavelmente na família Nan… Achei que já tivesse abandonado qualquer senso de vergonha há muito tempo.
Siya ficou vermelha de raiva.
— Quem você está chamando de falsa?! Mamãe e papai me amam! Eu sempre fui filha deles! O amor deles por mim é algo que você nunca vai conseguir tirar de mim!
Os lábios de Sangning se curvaram, carregados de escárnio. Ela deu dois passos à frente, e só então Siya percebeu o gelo e a indiferença em seus olhos.
Sua voz era suave, mas cada palavra atingiu o coração como uma lâmina:
— Nan Siya, você deveria entender uma coisa: o afeto superficial ao qual se agarra agora não foi conquistado por você. É simplesmente aquilo que eu não me dei ao trabalho de tirar de você.