Capítulo 17
Os dedos de Sang Ning pararam ligeiramente sobre as cordas da pipa.
A Velha Madame He também percebeu a chegada repentina de He Siyu:
— O que traz você aqui?
He Siyu desviou o olhar e entrou despreocupadamente:
— Vim almoçar com você, vovó.
A Velha Madame He lançou-lhe um olhar estranho. Que esquisito. Será que ele realmente tinha feito uma viagem especial só para almoçar com ela?
Um criado entrou naquele momento:
— Madame, o almoço está pronto.
A Velha Madame He voltou-se para Sang Ning.
— Fique para o almoço. Você já passou metade do dia fazendo companhia a uma velha como eu.
Sang Ning assentiu delicadamente e entregou a pipa ao criado.
— Obrigada, Madame He.
Ela acompanhou a Velha Madame He enquanto as duas se levantavam e seguiam para a sala de jantar.
He Siyu lançou-lhe um olhar frio antes de se virar e caminhar à frente.
A Velha Madame He ocupou seu lugar na cabeceira da mesa, com He Siyu sentado à sua direita e Sang Ning à sua esquerda.
De ótimo humor, a Velha Madame He disse a Sang Ning:
— Seu jeito de tocar pipa é magnífico! Tão gracioso e refinado. É uma pena que você nunca tenha se apresentado em público.
Sang Ning sorriu discretamente.
— Tocar música é algo para o próprio prazer e cultivo pessoal. Não precisa de uma plateia para ter valor.
A velha senhora assentiu repetidamente.
— É verdade. Não é à toa que você é tão serena para alguém da sua idade.
Sang Ning abriu um sorriso doce.
— Obrigada pelo elogio, Madame He.
He Siyu estava sentado à sua frente. Quando ergueu os olhos, viu-a exibindo um sorriso radiante, com os pequenos dentes brancos à mostra e uma covinha discreta surgindo em sua bochecha.
De repente, ocorreu-lhe algo: sempre que ela sorria para ele, nunca havia visto aquela covinha antes.
Seu olhar tornou-se gélido enquanto perguntava casualmente:
— Que música você estava tocando antes?
Sang Ning olhou para ele, a covinha desaparecendo ligeiramente enquanto respondia educadamente:
— Era “Noite de Flores e Lua no Rio da Primavera”.
A Velha Madame He riu.
— Seu avô adorava essa peça. Eu a ouvi inúmeras vezes com ele naquela época. Os mestres de antigamente a tocavam com uma profundidade extraordinária, mas hoje em dia, infelizmente, ninguém mais consegue transmitir aquela mesma sensação. Ouvir Sang Ning tocá-la hoje foi uma agradável surpresa. Fazia tanto tempo que eu não ouvia uma música de pipa tão elegante.
He Siyu tomou um gole de água.
— Seu mestre monge também ensinou você a tocar pipa?
Sang Ning havia dominado há muito tempo a arte de desviar de perguntas.
— Ele viajava para todos os lugares com a pipa.
A Velha Madame He exclamou admirada
— Na minha época, monges andarilhos eram comuns, cada um com habilidades extraordinárias. Hoje em dia, é raro vê-los.
He Siyu esboçou um leve sorriso, mantendo os olhos sobre Sang Ning com uma expressão indecifrável.
Sang Ning pegou um camarão e o comeu, sentindo o frio do olhar dele, mas recusando-se a levantar os olhos.
A Velha Madame He voltou-se para He Siyu. — Por que veio de repente hoje?
He Siyu respondeu casualmente:
— Tive um tempo livre.
A velha senhora lançou-lhe outro olhar estranho, mas não insistiu. Em vez disso, continuou incentivando Sang Ning calorosamente a comer mais.
Depois do almoço, Sang Ning pediu licença para se retirar.
A Velha Madame He, que havia criado simpatia por ela, segurou sua mão.
— Venha me visitar novamente sempre que tiver tempo.
A velha senhora sempre gostara da companhia das gerações mais jovens, e Sang Ning era uma das poucas moças bem-educadas que ainda restavam nos dias de hoje. Como uma antiga dama da alta sociedade, a Velha Madame He naturalmente achava agradável conversar com ela.
Sang Ning assentiu obedientemente.
— Se a senhora não se importar, eu adoraria vir com frequência e ter a honra de tocar novamente aquela pipa de jacarandá.
— Aquela pipa não merece ninguém além de você — disse a Velha Madame He alegremente.
— Então vou me despedir agora. Adeus, Madame He.
Ela hesitou antes de se virar para He Siyu.
— Adeus, senhor He.
He Siyu não se deu ao trabalho de se levantar. Esparramado na cadeira de vime, com as longas pernas estendidas de qualquer jeito, apenas resmungou em resposta.
A Velha Madame He olhou para ele.
— Vá acompanhá-la até a saída. O motorista da família dela foi embora esta manhã.
Sang Ning ainda não tinha seu próprio carro — o que ela usava pertencia à casa de Nan Siya. O tio Zhang a havia levado até ali mais cedo, mas, quando Nan Siya precisou sair, ele teve que voltar para buscá-la.
He Siyu preguiçosamente cutucou uma rosa no vaso próximo.
— Ela tem pernas, não tem?
Sang Ning rapidamente interveio:
— Não precisa, Madame He. O senhor He deve estar ocupado, e eu não gostaria de incomodá-lo. Vou simplesmente pegar um táxi.
He Siyu ergueu as pálpebras e olhou para ela.
— Quem disse que estou ocupado?
“…”
Lidar com alguém que se recusava a seguir as regras sociais era exaustivo.
A Velha Madame He aproximou-se, arrancou o vaso de perto de He Siyu para salvar suas flores de mais maus-tratos e lançou-lhe um olhar irritado.
— Pare de ficar aí à toa e vá acompanhar a senhorita Nan até a saída.
Só então He Siyu se levantou com um ar de superioridade, sua figura alta se erguendo como uma força da natureza.
Ele avançou.
— Vamos.
Sang Ning forçou um sorriso para a Velha Madame He.
— Adeus, Madame He.
— Vá, e volte logo para me visitar — disse a velha senhora calorosamente.
Sang Ning assentiu, então se virou e seguiu o homem à sua frente com uma expressão impassível.
He Siyu havia dirigido sozinho naquele dia. Ele abriu a porta do motorista enquanto Sang Ning, por instinto, estendeu a mão em direção ao banco traseiro.
Ele permaneceu imóvel.
— Eu sou seu motorista?
A mão dela congelou sobre a maçaneta antes que percebesse que ele esperava que ela se sentasse na frente.
“Esse homem precisava ser tão grosseiramente direto?”
Sang Ning sorriu.
— Quem ousaria tratar alguém como o senhor como motorista?
Se ele fosse seu motorista, ela o demitiria na mesma hora.
He Siyu ergueu uma sobrancelha.
— Isso foi sarcasmo?
— Claro que não — respondeu ela, com uma sinceridade de olhos arregalados.
Ele soltou um bufo e entrou no carro. Sang Ning abriu a porta do passageiro e acomodou-se no banco.
O Bentley preto saiu suavemente do pátio.
A Velha Madame He observou pela janela até o carro desaparecer antes de se virar e voltar a cuidar de suas rosas.
— O jovem mestre raramente vem nos visitar. Por que a senhora o mandou embora? — perguntou um criado.
Sem levantar os olhos, a velha senhora suspirou, tocando delicadamente as pétalas que He Siyu havia danificado.
— Desde quando ele se lembra de repente da avó na hora do almoço? Duvido que tenha vindo por alguma coisa boa. Além disso, ele estava estragando minhas flores.
— Embora o jovem mestre seja indisciplinado, ele nunca causou problemas de verdade. Ele sempre lida com as coisas de maneira confiável.
— Ah, ele é confiável… em garantir que os outros sejam devidamente resolvidos.
Ela bufou e franziu ligeiramente a testa. O que ele realmente tinha vindo fazer ali naquele dia?
— Vou levar você de volta à residência dos Nan?
As mãos de He Siyu repousavam levemente sobre o volante enquanto luzes e sombras passavam por seus traços marcantes. Sua voz era lânguida.
Sang Ning verificou o celular, já passava da uma. Ela tinha combinado de encontrar Ji Yan às duas.
— Me deixe no Taikoo Li.
— Para quê?
— Vou encontrar um amigo.
Ele não disse mais nada, e ela também não.
O carro mergulhou no silêncio. Nenhuma música tocava, mas o excelente isolamento acústico da cabine não deixava espaço para nenhum ruído externo.
Estranhamente, ele não achou o silêncio desagradável.
Sang Ning também não se sentia constrangida. Embora estivesse sentada no banco do passageiro, em sua mente, He Siyu ainda era apenas o motorista. Seus pensamentos estavam ocupados em descobrir como tirar proveito de sua posição na família Nan.
Até aquele momento, a única coisa que ela realmente possuía era o título de filha mais velha da família Nan.
A família Nan queria que ela conquistasse o favor da família He para garantir benefícios para si mesma, mas o que a família Nan havia lhe dado em troca? Nem um único benefício, e ainda assim esperavam que ela trabalhasse para o ganho deles?
Somente os benefícios que realmente chegassem às suas próprias mãos eram reais. Caso contrário, não importava o quão prestigiosa a família Nan fosse, o que isso tinha a ver com ela?