Capítulo 16
Nan Zhenming e Wen Meiling ficaram tão chocados que seus olhos quase saltaram das órbitas. Eles entendiam cada palavra que o avô dizia, mas, quando juntadas, de alguma forma aquilo não fazia sentido para eles.
Nan Sangning ajudou a Família He a escolher antiguidades? Ela sabia tocar pipa? A Velha Senhora He a convidou para sua casa como convidada?!
O avô deu um tapinha no ombro de Sangning, com a voz excepcionalmente gentil.
— Como você sabe sobre antiguidades? E sobre a pipa? Você nunca mencionou nada disso antes.
Nem mesmo em seus registros havia uma única palavra sobre aquilo.
Sangning respondeu:
— Conheci um monge andarilho nas montanhas. Como eu costumava dar arroz e farinha a ele, ele me tomou como discípula e me ensinou muitas coisas. Mas eram apenas habilidades diversas, então não achei que valesse a pena mencionar.
O avô assentiu solenemente.
— Por que não disse isso antes? Deveríamos ter convidado esse mestre para uma refeição em nossa casa.
— Ele viajava constantemente. No ano passado, partiu para outro lugar. Agora não há como encontrá-lo.
A explicação parecia absurda, mas não havia outra razão plausível para Nan Sangning, uma mera criada no interior e com pouquíssima instrução saber avaliar antiguidades ou tocar pipa.
A verdade não importava muito para o avô, de qualquer forma. O que importava para ele era o resultado.
O avô suspirou, pesaroso.
— Que pena.
— A Família He é a família aristocrática mais prestigiada da Cidade de Jing. A Velha Senhora He ter simpatizado com você é um golpe de sorte. Você precisa aproveitar bem essa oportunidade para estreitar seu relacionamento com eles.
Seu tom era sério, como se estivesse confiando a ela uma grande responsabilidade.
Sangning assentiu.
— Não se preocupe, vovô. Eu vou.
As expressões de Nan Zhenming e Wen Meiling mudaram drasticamente. Nem em seus sonhos mais loucos eles teriam imaginado que a filha abandonada no interior teria tamanha sorte!
Eles presumiam que ela não passava de uma vergonha.
A súbita reviravolta deixou neles uma amarga mistura de sentimentos.
O coração de Nan Zhenming acelerou. Para a Família Nan, a Família He era um ápice inalcançável. E, ainda assim, agora haviam convidado sua filha como convidada!
Era a oportunidade perfeita para estabelecer laços com a Família He!
Se a Família He estivesse disposta a dar à Família Nan sequer a menor oportunidade, os benefícios seriam incalculáveis.
Limpando a garganta, Nan Zhenming deu um passo à frente, suavizando o tom.
— A Velha Senhora He tem um coração bondoso. Quando for lá, seja sensata e certifique-se de que ela goste de você.
O rosto de Nan Siya ficou rígido. Ela observou, incrédula, seu pai, que acabara de defendê-la, agora se voltando para bajular Nan Sangning?
A expressão de Sangning permaneceu inalterada. Ela respondeu calmamente:
— Não se preocupe, pai. Eu vou.
Laços de sangue não significavam nada diante do lucro.
A essa altura, fingir que estava tudo bem já era algo natural para ela.
Wen Meiling abriu a boca, querendo dizer alguma coisa, mas Nan Siya se agarrou ao seu braço, com os olhos vermelhos, como se estivesse se agarrando à sua última esperança.
O coração de Wen Meiling amoleceu. Não querendo deixar Nan Siya chateada, engoliu as palavras. Ainda assim, seu olhar permaneceu sobre Sangning, carregado de emoções complexas.
O avô deu um tapinha carinhoso no ombro de Sangning.
— Muito bem, vá descansar cedo. Não deixe que o assunto importante de amanhã seja prejudicado.
— Está bem.
Quando Sangning se virou para subir, seus olhos encontraram brevemente os de Nan Siya, com as bordas vermelhas e transbordando de veneno.
Ela não poderia se importar menos. Na verdade, achava aquilo até engraçado.
Depois de vinte anos na Família Nan, Nan Siya ainda não os entendia. Ela realmente achava que a Família Nan valorizava os laços familiares acima dos interesses?
Todo o amor que ela lutara tanto para monopolizar…de que valia quando os interesses estavam em jogo?
Nada além de autoengano.
O avô lançou um olhar de desagrado para Nan Siya, que agora estava em prantos.
— Chorando por um homem o dia inteiro, que tipo de comportamento é esse?
Nan Siya gaguejou:
— Eu—
O avô não tinha paciência para desculpas.
— Se você se atrever a perturbar a casa novamente no meio da noite, todos vocês podem ir embora!
Nan Siya mordeu o lábio e abaixou a cabeça.
— Sim.
Na manhã seguinte, Sangning vestiu-se de maneira simples, com um vestido branco liso, seus cabelos macios caindo pelas costas. Como encontraria uma pessoa mais velha, optou por uma aparência delicada e comportada.
O tio Zhang esperava ao lado do carro. Ela entrou, e partiram em direção à Antiga Mansão da Família He.
Encostada à janela, Sangning observava a paisagem passar rapidamente, a movimentada cidade gradualmente dando lugar a tranquilos becos de paralelepípedos.
— Este lugar é tão tranquilo — comentou.
O tio Zhang riu.
— É claro. Este não é um lugar qualquer, apenas a elite da elite mora aqui.
Sangning admirava os muros baixos dos pátios, as flores silvestres à beira da estrada e os imponentes ginkgos. A luz do sol filtrava-se pelas folhas enquanto os pássaros cantavam acima. Desde que chegara a esta era, aquele era seu lugar favorito.
O carro parou diante de um pequeno pátio, cujo portão já estava sendo mantido aberto por um criado.
Ao descer, Sangning viu ipomeias subindo pelos muros. Lá dentro havia uma pitoresca casa de estilo ocidental, que transmitia uma atmosfera acolhedora e tranquila.
Um criado se aproximou com um sorriso.
— Senhorita Nan.
Sangning assentiu levemente.
— Vim ver a Velha Senhora He.
— Por aqui, por favor. A senhora está esperando pela senhorita.
Seguindo o criado para dentro, Sangning ouviu o som de uma pipa: Noite de Flores e Lua no Rio da Primavera.
— Senhora, a Senhorita Nan chegou — anunciou o criado suavemente.
A Velha Senhora He pousou a pipa e ergueu os olhos, sorrindo.
— Você chegou. Eu estava esperando.
Sangning deu um passo à frente.
— Velha Senhora He.
A idosa fez um gesto para que ela se sentasse.
— Siyu me contou que foi você quem o ajudou a escolher esta pipa. Eu nunca esperaria que alguém tão jovem entendesse dessas coisas.
No banquete de aniversário da Família He, ela havia simpatizado imediatamente com aquela garota. Quando He Siyu mencionou que ela também havia escolhido a pipa, a Velha Senhora He a convidou imediatamente para sua casa.
— Não sou especialista. O Sr. He apenas confiou no meu julgamento.
— Não seja modesta. Eu conheço aquele garoto — ele pode parecer despreocupado, mas não é nenhum tolo.
Sangning concordou em silêncio. Ele não era um homem fácil de lidar.
— Esta pipa de sândalo com madrepérola… O avô de Siyu sempre a quis. Ele adorava colecionar antiguidades, especialmente as da Dinastia Zhou. Essa pipa era famosa naquela época, mas desapareceu por anos, até ressurgir recentemente. Siyu a comprou imediatamente.
A voz da Velha Senhora He carregava nostalgia.
Sangning sorriu.
— O Sr. He é muito filial.
A idosa bufou.
— Só quando lhe convém.
“…..”
— Ouvi dizer que você toca bem. Eu comecei a aprender há pouco tempo. Meus dedos desajeitados não fazem justiça a este tesouro. Experimente.
Entregando a pipa, a Velha Senhora He observou enquanto Sangning a acomodava nos braços.
Sangning abaixou ligeiramente a cabeça, com os dedos repousando sobre as cordas. Com um leve toque, notas claras e melodiosas preencheram o ar.
Ao meio-dia, um Bentley preto entrou no pátio.
Um criado piscou, surpreso.
— O terceiro jovem mestre voltou?
Ele raramente voltava naquele horário e havia acabado de visitá-los no dia anterior. Normalmente, não voltaria novamente por pelo menos meio mês.
He Siyu saiu do carro, fechando a porta casualmente.
— Onde está a vovó?
— Lá dentro. A Senhorita Nan está aqui.
— Oh.
He Siyu entrou a passos largos, vestido com calças pretas e uma camisa preta, sob medida, mas exalando um charme malandro. Seu corpo alto e imponente preenchia a roupa como o de um segurança de terno.
Ao entrar na pequena casa e abrir a porta, as notas leves e emotivas de um instrumento de cordas dedilhadas o receberam.
Uma jovem de vestido branco estava sentada, com as costas ligeiramente voltadas para ele, segurando uma pipa nos braços. Seus dedos delicados dançavam sobre as cordas, a perna esquerda cruzada sobre a direita, enquanto a barra de sua longa saia se levantava o suficiente para revelar panturrilhas esguias e um tornozelo tão delicado que parecia feito para ser segurado.
Sua cabeça estava levemente inclinada, os cabelos macios caindo sobre os ombros. A luz do sol entrava pela janela, envolvendo seu rosto em um brilho suave, ela parecia irradiar pureza.
Sentindo seu olhar, ela ergueu os olhos translúcidos como vidro, e encontrou os dele em um momento de total desatenção e naturalidade.