Capítulo 4
A boquinha de Sheng Fang ficou aberta de choque, seus olhos correndo de um lado para o outro.
Talvez o papai não tivesse contratado uma guarda-costas feminina, mas sim uma mestre em adivinhação — exceto que ela nem sequer tinha levantado um dedo para prever nada ainda!
O terreno sinuoso da encosta era como um labirinto. Depois de ser guiada pelo jovem mestre Sheng após a terceira fonte, Zhu Qing finalmente chegou ao seu destino.
Tio Lin, um funcionário veterano que vigiava a encosta há mais de uma década, havia se tornado astuto com a experiência. Ouvir passos só o fazia dormir mais profundamente — até que Zhu Qing bateu seu distintivo de policial contra a mesa três vezes, acordando-o num salto. Ele estalou os lábios, relutante em se despedir do mundo dos sonhos do Duque Zhou.
— DP, West Kowloon.
— O senhor ouviu falar sobre os restos mortais encontrados na casa da família Sheng?
Os olhos do jovem mestre Sheng se arregalaram. Sua guarda-costas era, na verdade, uma policial?
Tio Lin fez um gesto educado:
— Senhora, por favor, sente-se.
Ele se levantou, oferecendo-lhe a confortável cadeira giratória enquanto puxava um banquinho de plástico, pegando casualmente sua garrafa térmica manchada de chá.
No momento seguinte, o jovem mestre de pernas curtas subiu na cadeira giratória, sentando-se formalmente com uma perna cruzada sobre a outra, como seu pai. Seu cabelo, antes puxado para trás com gel, agora estava com fios soltos, mas ele ainda parecia um pequeno chefe composto.
A descoberta de restos mortais na mansão da família Sheng na encosta ganhou as manchetes. De dia, as emissoras de TV disputavam entrevistas; à noite, o apresentador do jornal repetia a história em turnos. Os colegas que trocavam de turno comentavam sobre o caso bizarro, então Tio Lin, naturalmente, já estava a par de tudo.
A mansão não tinha proprietário anterior, a lareira não tinha compartimentos escondidos e não foram relatadas reformas após a construção. A polícia suspeitava que o corpo tivesse sido ocultado durante a construção inicial da mansão.
— Foi quando a mansão da encosta foi concluída… Eu me lembro — ponderou Tio Lin. — Naquela época, ouvi dos vizinhos antigos que a propriedade estava contratando segurança. Eu fazia dança do leão na juventude, então fui tentar a sorte.
— A equipe de construção trabalhava dia e noite. Alguns reclamavam do barulho, mas o Velho Mestre Sheng apenas acenava com a mão e jogava dinheiro no problema — o trabalho continuava noite adentro.
— Mas então, por algum motivo, o encarregado disse que o Velho Mestre Sheng de repente proibiu os turnos noturnos. O projeto se arrastou por meses.
Zhu Qing anotou “construção noturna” com sua caneta.
— O senhor chegou a ver uma jovem mulher, por volta de um metro e sessenta, na casa dos vinte anos, indo e vindo? Algum conflito, como cobrança de dívidas ou salários atrasados?
— Impossível! O Velho Mestre Sheng era famoso por sua generosidade. Da última vez que abri a porta do carro dele, a gorjeta que ele me deu era dessa grossura. — Tio Lin juntou os dedos para demonstrar, depois acenou com a mão firmemente. — Ele jamais daria calote na equipe de construção!
— Uma jovem mulher… O local estava cheio de homens brutos. A família Sheng ainda não tinha se mudado, então eles não teriam contratado empregadas ou jardineiros tão cedo. Além disso, senhora, a senhora não sabe — a segunda esposa era do tipo ciumenta. Morria de medo de garotas jovens ameaçarem sua posição!
A polícia confirmara isso com o velho mordomo.
Nenhum dos funcionários da família Sheng correspondia à idade da vítima, e nenhum havia desaparecido misteriosamente.
— E… o que é isso, uma novela? Mesmo que um homem rico matasse alguém, ele não esconderia o corpo na sua própria lareira!
— E quanto a estranhos?
— Nossa segurança é rígida — entrada apenas com autorização assinada. — Tio Lin, subconscientemente, limpou a boca, checando se havia babado do sono. — Naquela época, tínhamos patrulhas e vigilância básica. Nem uma mosca entrava sem credenciais.
Ele apontou para o livro de registro.
— Todos os registros estão aqui, mas a senhora terá que esperar até as 8 da manhã, quando o gerente chegar, para conseguir a chave dos arquivos.
Acordado no meio de um cochilo, Tio Lin cooperou ansiosamente com a investigação, embora seus olhos continuassem a se desviar para o jovem mestre Sheng.
Sheng Fang girava loucamente na cadeira, deixando-a voltar até ficar tonto, então repetia o movimento várias vezes.
— Jovem mestre — Tio Lin hesitou, olhando para o relógio —, são 22h. A Segunda Senhorita sabe que o senhor está…
Interrompido no meio do giro, o rosto rechonchudo de Sheng Fang se contraiu em uma carranca.
*Cuide da sua própria vida!*
Zhu Qing notou algo estranho — todos que conheciam a família Sheng pareciam orbitar em torno da Segunda Senhorita, Sheng Peishan, após a morte do velho.
Mas logicamente, Sheng Peirong era quem tinha a fama de assumir os negócios da família. Mesmo que as pessoas estivessem se precavendo, por que todos favoreceriam a segunda filha?
— Ouvi dizer que a filha mais velha nem sequer acendeu incenso para o Velho Mestre Sheng?
Nisso, Tio Lin tinha ainda mais a dizer.
Ele baixou a voz:
— Anos atrás, a filha mais velha e o marido mudaram-se para Shek O.
— O Velho Mestre Sheng se apegava ao controle, mas a filha mais velha era uma mulher teimosa e amante do lazer.
— Pai e filha viraram inimigos. Eles não se falavam há anos!
Vendo a policial perdida em pensamentos, Tio Lin voltou sua atenção para Sheng Fang.
— Jovem mestre, o senhor deveria voltar. Se ficar fora assim… eu não vou saber explicar para a Segunda Senhorita. — Ele parecia dividido.
— Por ora, é só. — Zhu Qing fechou seu caderno. — Entraremos em contato se precisarmos de algo.
Proteger cada contribuinte era o dever da polícia. Um menino de três anos e meio não podia ser deixado vagando sozinho — sua segurança precisava ser garantida.
Zhu Qing encostou-se no batente da porta:
— Vamos levar você para casa.
A Senhora era como uma pastora, bloqueando o caminho do jovem mestre para impedi-lo de se desviar ainda mais.
Sheng Fang, indisposto a ser trancado novamente no berçário, arrastou-se passando pela fonte, chutando pedras ao longo do caminho da montanha.
— Pegando o caminho mais longo de propósito? — Zhu Qing apontou para o caminho pelo qual tinham vindo e o puxou naquela direção.
As pernas curtas de Sheng Fang balançaram no ar novamente.
Ela só tinha percorrido esse caminho uma vez — como ela se lembrava da rota?
O jovem mestre estava furioso, pronto para soltar fogo a qualquer momento.
Ele pisou forte, seus chinelos de marca estalando ruidosamente, a cabeça tão baixa que quase tropeçou nos próprios pés. Com uma carranca sombria, como se lutasse contra algum inimigo invisível, ele tropeçou em direção a casa em uma corrida frenética.
— Quer que eu toque a campainha para você?
O jovem mestre jogou sua mochila nos arbustos junto ao muro lateral e agarrou o cano de esgoto.
Zhu Qing gritou:
— Cuidado.
A luz na testa de Sheng Fang brilhava intensamente enquanto ele se agarrava como um coala a uma árvore. Com um baque suave, sua vozinha teimosa ecoou.
— Problema seu.
Ele deslizou para o jardim, sua pequena silhueta desaparecendo na escuridão.
A julgar pelo nível de habilidade, esse garoto notívago era um reincidente. As manchas de ferrugem em suas mangas sugeriam que até as empregadas e guarda-costas faziam vista grossa.
Este jovem mestre Sheng… talvez realmente não tivesse ninguém cuidando dele.
—
Na manhã seguinte, o Inspetor Weng estava à porta do escritório da Divisão de Investigação Criminal, batendo os nós dos dedos contra o batente como um prenúncio de desgraça, exigindo o relatório do dia.
Vários oficiais se viraram, trocando olhares exagerados e sussurrando “boa sorte” para Mo Shazhan.
Zhu Qing já havia recebido os registros de visitantes e construção da última década do gerente da propriedade da encosta. Pilhas de documentos se acumulavam em sua mesa enquanto ela girava uma caneta, marcando as páginas com um olhar focado.
Pelo canto do olho, ela avistou um tabloide jogado em uma mesa vizinha.
Tio Li bufou:
— Grampo de cabelo de borboleta encontrado com o esqueleto na lareira do milionário? Esses pasquins sem vergonha sempre transformam relatórios policiais em contos sensacionalistas.
A família que vinha identificar o corpo no Grupo Três havia chegado.
Mo Shazhan disse:
— Tio Li, mostre ao novato como se faz.
Depois de sair da sala da DIC, Tio Li apontou para o laboratório de autópsia, acendendo um cigarro por hábito.
— Eles estão desaparecidos há tanto tempo que as famílias poderiam ter solicitado certidões de óbito há eras. Mas olhe — eles ainda se apegam à esperança.
Aceitar a realidade era uma coisa, mas agora que o caso avançara, nenhuma família queria que o corpo no necrotério fosse de seu ente querido.
O primeiro par — uma mãe e uma filha — já havia chorado até os olhos ficarem vermelhos.
— Mãe, não entre em pânico ainda. Talvez não seja a Ru?
— Como poderia não ser? A polícia disse que a vítima fez cirurgia na perna. Ru foi perfurada por uma barra de aço quando era pequena…
Seus soluços ecoaram no corredor.
Tio Li vira muitos novatos — alguns vomitavam bile ao ver seu primeiro cadáver, outros entregavam pedidos de transferência após vislumbrar restos mortais, e muitos, independentemente do gênero, não conseguiam conter as lágrimas ao enfrentar famílias em luto.
Mas Zhu Qing estava estranhamente calma.
Ela lidava com tudo conforme o manual, guiando metodicamente as famílias através do processo de identificação.
O corpo tinha se decomposto até virar ossos e, por protocolo, os parentes não tinham permissão para contato direto.
Os restos mortais encontrados na lareira da mansão da família Sheng foram cruzados com registros médicos de pessoas desaparecidas. O histórico cirúrgico reduziu as possibilidades a algumas famílias.
Os registros hospitalares de dez anos atrás, embora preservados, não tinham cópias digitais. Os documentos em papel haviam amarelado, com a tinta desbotando até se tornar ilegível.
Antes de organizar os testes de DNA, Zhu Qing conferiu duplamente os detalhes cirúrgicos com as famílias.
Uma mãe horrorizada engasgou de repente, sua voz aguda:
— Espere — a cirurgia da Ru não foi na perna esquerda, foi na direita!
— Mãe, tem certeza?
A mulher desatou a chorar de alívio.
— Sim, na perna direita! Lembro-me agora! Esses ossos não são da minha filha!
Zhu Qing deslizou a papelada em direção a elas.
— Assinem aqui e podem ir embora.
— Senhora, minha irmã Ru fugiu depois de uma briga com a mamãe há dez anos. Mamãe chorou tanto que seus olhos incharam — por isso ela confundiu as pernas.
— Ru nunca voltou. A senhora poderia, por favor…
A família se agarrou a Zhu Qing, desesperada.
Ela retirou a mão sem um pingo de emoção, enquanto Tio Li intervinha.
— Vão para casa e aguardem atualizações.
Recostando-se, Tio Li deixou sua competente novata cuidar do resto. Quando ele voltou da copa com uma xícara reabastecida, Zhu Qing já estava enfrentando a terceira família.
— Policial… quando o relatório estará pronto?
Um casal de idosos, com as têmporas manchadas de cinza, hesitou antes de falar. Eles claramente não estavam acostumados a lidar com a polícia.
Eles perguntaram sobre os resultados do DNA, mas mesmo após a resposta de Zhu Qing, seus rostos permaneceram pesados. Eles trocaram olhares ansiosos e depois encararam o chão.
Finalmente, a velha senhora falou, a voz tremendo como se se apegasse a uma esperança:
— Policial, o peixeiro do mercado disse… havia um grampo de cabelo perto do corpo?
A polícia tinha publicado as características dos ossos e os pertences nos jornais para identificação.
Mas os tabloides distorceram os fatos para as manchetes, enganando o público.
— Isso é um boato.
Zhu Qing empurrou o registro de evidências em direção a eles.
— O único objeto pessoal encontrado foi este.
— Policial, o que diz aí? Nós não sabemos ler.
— Um anel de platina simples.
A bengala da idosa bateu contra os azulejos com um estalo seco.
Enquanto Zhu Qing se aproximava para ampará-la, viu os olhos embaçados do casal se arregalarem de choque.
— Havia… letras em inglês gravadas nele?
Zhu Qing virou-se para Tio Li, cuja expressão tornara-se grave.
— Jia’er nunca ouvia… — murmurou a velha senhora, atordoada. — Deveria ter trabalhado naquele clube noturno.