Capítulo 20
Sheng Fang seguiu Zhu Qing através de várias baldeações em micro-ônibus até que o último coletivo fez algumas curvas e entrou em Wong Chuk Hang.
Do lado de fora da janela, a paisagem urbana passava veloz. O menino pressionou o rosto contra o vidro, perscrutando além dos edifícios desgastados e sem graça, antes de dar batidinhas na janela.
“Aquilo é o Ocean Park?”
Zhu Qing seguiu o olhar dele.
Àquela hora, a roda-gigante gigante permanecia imóvel no meio do ar, suas luzes vibrantes extintas há muito tempo.
O Ocean Park de Hong Kong ficava perto demais da Escola de Polícia de Wong Chuk Hang.
Toda noite de verão, os gritos alegres vindos do parque de diversões e as melodias brincalhonas entravam em seu dormitório levados pelo vento, infiltrando-se mesmo quando as janelas estavam hermeticamente fechadas.
“Você já foi lá?”, perguntou Zhu Qing.
“Não”, Sheng Fang balançou a cabeça, com o nariz ainda pressionado contra o vidro. “E você?”
Zhu Qing não respondeu.
A resposta era óbvia — aqueles sons de risadas despreocupadas estavam tão perto, mas sempre fora de alcance. O que a surpreendia, porém, era que até um jovem mestre mimado de uma família rica olharia para o parque com tanto desejo, observando com um anseio cauteloso.
“Chegamos”, disse ela, levantando-se e sinalizando para que Sheng Fang a seguisse.
A Escola de Polícia de Wong Chuk Hang não conhecia férias de verão. Os recrutas passavam por programas rigorosos de 26 a 36 semanas, treinando incansavelmente faça chuva ou faça sol, antes de ingressar diretamente na força policial após a formatura.
Os campos de treinamento estavam vazios agora. Zhu Qing guiou Sheng Fang por um caminho familiar, com passos rápidos.
Ela estava acostumada a caminhar sozinha, suas passadas sempre largas, nunca parando por ninguém.
As pernas do Jovem Mestre Sheng eram curtas — não importava o quanto ele as esticasse, ainda precisava trotar para acompanhá-la.
O luar lançava um brilho pálido sobre o campus, estendendo as sombras deles pelo chão, sempre um pouco distantes.
A distância entre eles parecia uma companhia estranha e silenciosa.
Como um visitante raro, Sheng Fang imaginou como seria a casa da sua sobrinha.
Talvez pequena — mas ele não esperava que fosse…
Tão pequena!
Talvez um pouco simples — mas ele não esperava que fosse…
Tão simples!
“Eu avisei para não criar expectativas.”
O dormitório atual de Zhu Qing ficava em um antigo prédio auxiliar. A estrutura já vira dias melhores — usada antigamente como alojamento temporário para instrutores que rotacionavam, caiu gradualmente em desuso após a construção de dormitórios mais novos, com sua localização afastada da área principal de treinamento e instalações ultrapassadas demais.
Após a formatura, sem ter para onde ir, a escola abriu uma exceção, permitindo que ela ficasse ali até conseguir uma moradia oficial da polícia.
“As pessoas realmente moram aqui?”, Sheng Fang ficou paralisado na porta, o rosto contraído em descrença.
Embora o jovem mestre da família Sheng fosse geralmente mimado e irritante, um pequeno tirano implorando por uma bronca — naquele momento…
Seus olhos estavam arregalados, sua expressão era de puro choque, sem defesas. Seu desgosto era tão genuíno, tão sincero, que chegava a ser desconcertante — como se o vilão manipulador e implacável da história original não tivesse nada a ver com ele.
“Aceite ou vá embora”, Zhu Qing moveu-se para fechar a porta.
Antes que pudesse fechar, Sheng Fang esgueirou-se pela fresta. “Eu fico, eu fico!”
Lá dentro, uma onda de calor sufocante o atingiu como um golpe físico. Ele ficou parado, completamente estupefato, sentindo como se fosse derreter e virar uma poça.
Oh, não, eu vou cozinhar vivo.
O dormitório apertado continha um beliche enferrujado; seu ventilador velho rangia enquanto girava, o barulho irritando seus nervos. Sheng Fang estava convencido de que aquele lugar era mais quente que uma panela a vapor. Quando ele se virou para Zhu Qing, já a meio caminho de se tornar um *mochi* derretido, ela tinha acabado de espirrar uma bacia de água no chão em uma tentativa inútil de resfriar o quarto.
Algumas gotas frias caíram no dorso de sua mão.
Ele balançou a cabeça novamente, com o coração apertado. Que tipo de vida minha sobrinha está levando?
Ao lado do beliche, uma pequena mesa estava cheia de documentos de trabalho. Notas preenchiam as margens de seu caderno, tão densas que ameaçavam transbordar da página.
Após o breve descanso, Sheng Fang rapidamente retornou ao seu estado de bolinho no vapor.
“Eu quero um banho”, declarou ele, como se fosse o pedido mais razoável do mundo.
Para uma criança tão jovem, ele era surpreendentemente detalhista.
Em casa, bastava uma palavra e Marysa prepararia seu banho imediatamente. A temperatura da água tinha que ser verificada várias vezes com um termômetro, os brinquedos alinhados exatamente do jeito certo — patinhos de borracha flutuando em formação de espuma, aguardando seu comando.
Mas agora…
Zhu Qing deu a ele um olhar apático.
“Os chuveiros comunitários ficam no final do corredor do novo dormitório. Eles acabaram de terminar o treinamento noturno — tente não ser pisoteado no caminho.”
Sheng Fang agachou-se no canto mais fresco do quarto, olhando para ela horrorizado.
Minha sobrinha não tem coração!
……
No fim das contas, os grandiosos planos de banho do Jovem Mestre Sheng foram totalmente frustrados.
Ele nem conseguiu tomar banho.
“Eu estou fedendo”, ele lamentou.
Não havia pijamas de seda ali, nem xampu infantil — nem mesmo uma toalha própria! Sua sobrinha jogou-lhe uma bacia de plástico, dizendo para ele apenas juntar um pouco de água com as mãos e se lavar o melhor que pudesse.
A criança tentou pegar água com suas mãos minúsculas.
Mas seus dedos eram pequenos demais, as aberturas largas demais — a água escorria antes que ele pudesse sequer jogar no rosto.
O pequeno mestre olhou para suas palmas vazias, com os lábios trêmulos.
Este é o pior dia da minha vida.
Zhu Qing também estava aprendendo algo novo.
Esse pirralho mimado nem sabe lavar o próprio rosto?
Quando Sheng Fang finalmente subiu no beliche inferior, a estrutura da cama gemeu em protesto.
O calor tornava cobertores extras desnecessários. Estirado de costas, com a camisa subindo, ele finalmente sentiu um fiapo de alívio — até que se sentou bruscamente, segurando a barriga.
“Não!”, ele bocejou, mas seu tom era firme enquanto se deitava novamente, puxando a camisa para o lugar.
Não posso mostrar a barriga na frente de uma garota!
Com um leve estalar de lábios, o jovem mestre fechou os olhos, sua respiração gradualmente se estabilizando.
Lá fora, o canto das cigarras ficava mais alto conforme a noite se aprofundava.
Zhu Qing debruçou-se sobre a mesa, terminando o relatório que deveria entregar ao Inspetor Mo no dia seguinte. Nomes preenchiam a página — He Jia’er, Sheng Peirong, Cheng Zhaoqian — cada um um suspiro silencioso.
Quando ela chegou à última linha, sua caneta pairou sobre o ponto final.
Este caso está realmente chegando ao fim.
O despertador na mesa marcava 1h da manhã.
Um pensamento lhe ocorreu — será que aqueles que jazem inconscientes em leitos de hospital ainda conseguem sentir a passagem do dia e da noite? Aquele caderno verde desbotado, gasto de tanto esperar, registrava o rastejar lento do tempo.
No início, Zhu Qing tratara aquilo apenas como mais um caso.
Mas agora, ela não conseguia mais enxergá-lo dessa forma.
Um som de farfalhar veio da cama.
O menino se virou enquanto dormia, coçando a bochecha distraidamente — deixando para trás uma picada de mosquito fresca em sua pele clara.
A tela da janela velha tinha buracos, e as noites de verão traziam enxames de insetos. Zhu Qing fechou a janela, selando-a bem.
Mais cedo, no escritório do CID, o Inspetor Weng mencionou que a maioria dos funcionários da família Sheng já tinha partido.
Especialmente a empregada Marysa, que se recusou a ficar de qualquer jeito, aterrorizada com a ideia de poder se tornar o próximo cadáver descoberto na mansão luxuosa na encosta.
Chen Chaosheng estava morto, Sheng Peishan havia sido preso, e a mídia se atropelava para cobrir a notícia sensacionalista. As emissoras de notícias mais renomadas estacionaram suas vans do lado de fora do portão da família Sheng, entregando declarações polidas e diplomáticas. Enquanto isso, os paparazzi inescrupulosos estavam praticamente disfarçados de entregadores, prontos para invadir os portões da vila.
As luzes fluorescentes brilhavam intensamente.
Zhu Qing percebeu, de repente, que aquela claridade ofuscante não perturbava em nada o sono da criança. Não era um incômodo — em vez disso, fazia com que ele se sentisse mais seguro.
Zhu Qing ficou curiosa.
Será que ela, quando criança, já teve medo do escuro em lugares desconhecidos?
Ela supunha que não.
Crescendo, ela não temia nada.
Mas, olhando para trás agora, ela entendia que a coragem não era inata. No orfanato, durante aquelas noites longas, ela também se encolhia em cantos, buscando o mais tênue vislumbre de luz.
Era apenas que, com o tempo, Zhu Qing tinha esquecido aqueles momentos de desamparo.
O ventilador velho rangia enquanto trabalhava, soprando nada além de ar quente.
A respiração da criança tornou-se lenta e constante.
Ela balançou a cabeça, divertida. Mesmo neste calor sufocante, o pequeno forno dormia profundamente.
……
Sheng Fang acordou em uma cama rígida e implacável, seus membros doíam como se já não lhe pertencessem.
O sol da manhã queimava contra seu rosto, forçando-o a manter os olhos fechados.
Como um pãozinho macio, ele se espreguiçou sonolento antes de deslizar para fora do beliche de metal.
Na noite anterior, Sheng Fang sentira apenas uma vaga inquietação sobre seu futuro incerto. Mas agora, aquele medo indistinto tinha se transformado em algo mais claro.
Para onde ele iria?
Vendo a cabeça baixa da criança, Zhu Qing presumiu que ele ainda estivesse meio adormecido.
Ela arrumou as coisas rapidamente, trancando a porta atrás de si enquanto chamava: “Depressa”.
O pequeno ficou para trás.
Zhu Qing levou um momento para perceber que tinha andado rápido demais novamente. Ela se virou.
Nos próximos dois dias, o escritório de advocacia remarcaria a leitura do testamento.
Repórteres dos principais jornais de Hong Kong já tinham posicionado suas câmeras, prontos para capturar a expressão do herdeiro bilionário. Mas ninguém sabia que, naquele momento, sob o sol escaldante, seu rosto pequeno estava vazio de confusão — apenas uma criança comum e perdida.
Enquanto Zhu Qing observava sua figura desanimada, o enredo original do seu sonho ressurgiu em sua mente.
No romance original, ela tinha sido uma personagem secundária, bucha de canhão, sacrificada para levar uma facada pelo protagonista masculino. Sem quase nenhuma preparação prévia, sua morte a transformou inexplicavelmente em sua “luz do luar”, uma mera ferramenta para avançar o enredo.
Após sua saída, o romance entre o protagonista masculino e a protagonista feminina se desenrolou gradualmente. Inicialmente, o protagonista masculino tinha sido indiferente à protagonista feminina, solar e radiante. Mas um caso inesperadamente os aproximou.
Era o caso que aconteceria em breve: “Os Assassinatos em Série do Vestido Vermelho em uma Noite Chuvosa”. Nessa tragédia, a protagonista feminina — Zeng Yongshan — perdeu toda a sua família e sofreu ferimentos graves, deixando cicatrizes psicológicas profundas que quase encerraram sua carreira policial.
Aquela tragédia uniu os destinos dos dois protagonistas.
O protagonista masculino a ajudou a se curar, passando vinte anos remendando as feridas em seu coração…
Até que, duas décadas depois, eles se reuniram para resolver um crime de alto nível que chocou toda Hong Kong.
O criminoso —
Após sua morte, a polícia refez sua vida.
Órfão na infância, sua segunda irmã presa por assassinato, sua irmã mais velha definhando em uma cama de doente até o último suspiro.
Ele herdou bilhões sozinho, sem nenhum guardião. Assistência social, escolas particulares, famílias adotivas distorcidas — todos cercavam aquela criança sem pais, fingindo preocupação enquanto calculavam avidamente quanto poderiam lucrar com sua tutela. Ao longo de tudo isso, a única vítima real era ele.
Ninguém sabia em que ponto a vida do vilão tinha se transformado em escuridão.
Mas, no final, ele se tornou a definição clássica de um gênio do crime.
No final da história, a justiça prevaleceu — ele foi morto a tiros pela polícia.
Mas agora, ele ainda estava ali, sob a luz do sol.
Sheng Fang inclinou seu rostinho claro, olhos limpos e inocentes, e perguntou: “Eu posso comprar um prédio para você?”