Capítulo 07
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Capítulo 7 – As Correntes da Justiça
Os passos de Elian ecoavam nas paredes de cristal da Câmara do Julgamento. A luz azulada que filtrava pelas aberturas celestes não aquecia sua pele. Era fria, impiedosa, como a balança cravada no centro da sala. A mesma que havia oscilado no dia anterior. A mesma que agora parecia julgá-lo.
Ele estava sozinho, como sempre preferia estar quando precisava pensar. Mas não havia silêncio suficiente que pudesse calar o gosto do beijo ainda preso aos seus lábios.
Scorvan.
O nome ecoava em sua mente como uma acusação. E, ao mesmo tempo, como uma súplica. O toque dele… quente, forte. O jeito como seus olhos se fecharam devagar antes do beijo. Como se pedissem permissão. Como se esperassem ser negados, mas, mesmo assim, ousassem tentar.
Elian encostou-se na parede fria da Câmara, as mãos ainda trêmulas. Não podia — não devia — se permitir aquilo.
Mas já havia permitido.
E agora, o que faria?
Uma batida suave interrompeu seu devaneio. A porta se abriu com o rangido metálico que só os guardiões celestiais produziam. Mas não era um deles.
Era Astraia.
— Elian… — A voz da Guardiã da Ordem era firme, mas carregada de preocupação. Ela usava os mantos dourados dos supervisores dos Signos, e seus olhos cintilavam com o brilho da justiça inalterável.
— Astraia… — respondeu ele, endireitando-se, compondo o rosto como um verdadeiro juiz.
Ela caminhou até o centro da sala, a luz acompanhando seus passos como se o próprio cosmos se curvasse.
— A balança… oscilou de novo. Esta manhã. — Seus olhos estreitaram-se. — E isso não aconteceu por acaso.
Elian engoliu seco.
— Talvez tenha sido interferência das energias de Escorpião. Ele é instável.
— Não minta para mim, Elian. — A voz dela cortou o ar como uma espada. — A balança é tua extensão. Oscila com teus sentimentos. Não com os dele.
Silêncio.
A verdade, mesmo não dita, se instalou como uma sombra.
Astraia se aproximou mais, agora com os olhos menos duros.
— O que você fez?
— Eu… cometi um erro — respondeu, num fio de voz. — Mas não vou repetir. Foi um momento de fraqueza. Nada além disso.
— E se foi mais do que isso?
— Não foi! — exclamou Elian, com mais força do que pretendia.
A Guardiã o olhou por um longo tempo. Então, lentamente, retirou do manto uma corrente prateada — fina, delicada, mas com um brilho que doía aos olhos.
— Então vista isso — disse ela.
Elian empalideceu.
— As Correntes de Themis…
— Elas não prendem o corpo. Prendem o coração. Enquanto usá-las, seus sentimentos ficarão selados. Nenhuma emoção, desejo ou dúvida escapará. Você voltará a ser o juiz que nasceu para ser.
Ele olhou para a corrente como se fosse uma sentença. E, de certo modo, era.
Se colocasse aquilo… jamais conseguiria sentir o que sentiu por Scorvan. Jamais se permitiria desejar, hesitar ou sonhar.
Mas era o que precisava fazer… não era?
Suas mãos se estenderam, tocando o metal.
Tão frio.
Tão certo.
Mas, antes que a corrente tocasse seu pescoço, ele parou.
— E se eu não quiser esquecê-lo?
Astraia o encarou com uma tristeza discreta.
— Então estará se escolhendo… e não a justiça.
— E se… por um instante… a justiça não for justa?
A sala ficou em silêncio. Pela primeira vez, talvez, a deusa da ordem não tinha uma resposta.
Elian baixou a corrente.
— Preciso resolver isso do meu jeito.
— Vai colocar todo o equilíbrio em risco — alertou ela. — Você ama a justiça. Sempre amou.
— E talvez, por isso mesmo, eu precise entender o que significa julgar alguém que você… sente.
Astraia nada respondeu. Guardou a corrente novamente e virou-se, deixando-o ali, diante da balança que o observava em silêncio.
—
Enquanto isso, nas profundezas do Santuário Escuro, Scorvan cruzava o salão antigo do zodíaco morto. Suas botas esmagavam cinzas de estrelas esquecidas, e sua expressão era dura.
— Ele te beijou — disse uma voz à sua direita, surgindo das trevas.
Era Amon, o regente caído de Capricórnio, exilado pelas decisões de Elian anos antes.
— Sim — respondeu Scorvan. — Mas agora quer esquecer.
— Ótimo. Quanto mais fraco ele estiver, mais fácil será derrubá-lo.
Scorvan se virou, e pela primeira vez, seus olhos — sempre tão carregados de ironia — estavam vazios.
— Eu não quero derrubá-lo, Amon. Não como você quer. Não com ódio.
— Então o que quer? Um trono ao lado dele?
— Quero saber se é possível… amar alguém e ainda ser condenado por isso.
Amon deu uma gargalhada rouca.
— Escorpiões não amam. Eles devoram.
— Talvez eu tenha cansado de devorar.
E saiu, deixando o traidor sozinho, sorrindo com veneno nos lábios.
—
Elian voltou ao seu quarto mais tarde, a mente em frangalhos. Sentou-se à beira da cama, tirou as luvas e encarou as próprias mãos.
Elas ainda lembravam o calor do corpo de Scorvan. O modo como o puxaram. O beijo. A sombra da constelação sobre os dois.
Sabia que o desejo não era apenas carnal. Era algo mais profundo. Um elo entre signos que jamais deveriam se tocar.
Mas já estavam entrelaçados.
E quanto mais tentava se afastar, mais sentia que algo estava vindo. Algo que mudaria tudo.
As estrelas pareciam diferentes naquela noite.
Como se, pela primeira vez, não fossem imparciais.
—