Capítulo 02
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Capítulo 2 – A Balança e o Escorpião
A porta da Sala do Julgamento Interior se fechou atrás deles com um leve estalo. Do lado de fora, os demais signos aguardavam. Mas ali, naquele espaço onde a alma se mostrava mais que a palavra, só restavam dois.
Elian recuou um passo. A conexão ainda ecoava em seu peito como uma vibração. O toque de Scorvan não fora apenas físico; tinha deixado marcas nos cantos invisíveis da consciência.
— Você deveria ter pedido permissão antes de me mostrar tudo — disse o juiz, mantendo a postura reta, mas com os dedos discretamente cerrados ao lado do corpo.
— Você não teria aceitado — retrucou Scorvan, cruzando os braços, as correntes pendendo dos pulsos. — Juízes gostam de verdade, mas só se ela for administrada em doses controladas.
Elian o analisou em silêncio. Mesmo amarrado, mesmo sendo o acusado, Scorvan não demonstrava medo. Havia algo quase dolorosamente humano em sua firmeza. Não uma arrogância… mas uma convicção.
— Você ama o humano que salvou?
Scorvan desviou o olhar por um breve segundo.
— Não da forma que vocês definem amor aqui. Mas… eu me vi nele. E quis que ele não morresse por um erro que eu mesmo poderia ter cometido.
— Então não foi por ele. Foi por você.
— Foi por nós dois.
Elian andou até o espelho mais próximo. A superfície líquida o refletia não apenas como era, mas como ele poderia ser. Um reflexo com os cabelos soltos ao vento cósmico, os olhos dourados em chamas, as asas abertas.
— Você quebrou o véu — repetiu. — Não importa o motivo. A lei é clara.
— E quem escreveu essa lei?
— Os Doze.
— Os mesmos que se escondem atrás do destino quando convém?
Elian voltou o rosto para ele, encarando-o. A calma usual em sua expressão estava começando a dar espaço a algo mais denso. Mais humano.
— Está me pedindo para ignorar o que jurei proteger?
— Estou te pedindo para enxergar a linha tênue entre justiça e punição.
Scorvan se aproximou lentamente. Elian permaneceu parado, sentindo a presença do outro crescer à sua frente.
— Você vive para equilibrar — disse o guardião de Escorpião. — Mas já se perguntou quantas vezes esse equilíbrio não é apenas uma forma disfarçada de manter tudo exatamente como é?
— E o que você quer? Caos?
— Quero verdade.
Silêncio.
— Você não parece ter medo de ser condenado — comentou Elian.
— Não tenho medo da condenação. Tenho medo de não ser ouvido.
A sinceridade na voz dele tocou algo que Elian lutava para manter trancado.
— Talvez… — começou o juiz, baixando um pouco os olhos. — Talvez haja um caminho entre a punição e o perdão.
— E você seria capaz de trilhar esse caminho?
— Se for justo.
Scorvan se aproximou mais um pouco. As correntes tilintaram. Elian percebeu que estavam menos apertadas. As runas em seus pulsos tremulavam como se questionassem o próprio dever.
— Seu cabelo é longo — murmurou Scorvan, a voz mais baixa. — Não é comum. Nem para os celestiais.
— É uma escolha — respondeu Elian, sério. — Representa o tempo que me recusei a julgar sem saber.
Scorvan assentiu devagar, os olhos deslizando pelas mechas negras que caíam pelas costas do juiz.
— Bonita escolha.
Elian sentiu o sangue esquentar levemente nas pontas das orelhas, mas não demonstrou.
— Essa conversa terminou — declarou, dando um passo para trás. — Voltaremos ao tribunal. Apresentarei o que vi e deixarei que os demais decidam se querem reavaliar a pena.
— Vai mesmo fazer isso por mim?
— Farei pela verdade. Mesmo que doa.
— Você tem coragem — disse Scorvan. — Mesmo quando não quer admitir.
Elian abriu o portal de saída. E então, antes de cruzá-lo, virou-se por um instante.
— Não pense que me convenceu — disse, firme. — Mas… talvez tenha me feito querer entender.
Scorvan sorriu, e pela primeira vez, não foi um sorriso de desafio. Foi um sorriso de gratidão.
— Já é mais do que tive de qualquer outro.
Eles saíram.
—
No salão celestial, os outros signos se remexeram ao vê-los retornar. Áries franziu o cenho. Gêmeos trocou olhares consigo mesmo. Aquário sorria como se soubesse de algo que ninguém mais sabia.
Elian retomou sua posição.
— Eu vi o que ele viu — declarou. — O ato cometido não foi guiado por desejo, ego ou ambição. Mas por empatia. Não o isenta da quebra da lei, mas a torna compreensível.
— Quer reavaliar o julgamento? — perguntou Sagitarius, arqueando a sobrancelha.
— Quero que ele permaneça sob observação e que se permita à reeducação — disse Elian. — Quero propor que o guardião de Libra se responsabilize pessoalmente pela supervisão de Escorpião… até que se prove, de fato, que ele não representa ameaça ao equilíbrio.
Um silêncio ainda maior caiu sobre o salão.
— Você vai se responsabilizar por ele? — questionou Virgem, incrédulo.
— Sim — confirmou Elian, sem hesitar.
Scorvan olhou para ele, surpreso. Não esperava aquilo. E, de certo modo, também não parecia saber o que sentir.
A proposta foi deixada para votação.
Enquanto os outros signos debatiam, Scorvan virou-se discretamente para o juiz.
— Vai me vigiar de perto, então?
— Vou. — Elian respondeu, frio. — E se você cruzar a linha de novo, serei eu quem vai te condenar.
Scorvan sorriu outra vez.
— Gosto de viver perigosamente.