. ₊ ⊹ . ⋆ Capítulo 04.2
. ₊ ⊹ . ⋆ Capítulo 04.2 – Circunstâncias do Trono
— Desculpe! Na próxima, vou aumentar suas vendas de verdade. Pode esperar.
Aproveitando a confusão de pessoas gritando, cantando e fazendo barulho, Rensley escapuliu da taverna. Foi ao estábulo, encontrou Marilyn e montou.
— Marilyn, desculpa, mas corre um pouco. Hmm, desculpa, bebi um pouco. Mas ainda consigo ficar na sua sela sem problemas.
Prrr. Com um sopro de ar pelas narinas, como se estivesse insatisfeita, Marilyn começou a galopar. O som dos cascos, inadequado para a noite silenciosa, ecoou pelas ruas desertas. O sino continuava a tocar.
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Pouco antes de os portões se fecharem, Rensley chegou ao castelo por um triz e subiu diretamente para seu quarto no segundo andar.
Sozinho, achou-se ridículo por ter voltado ofegante, como se estivesse sob compulsão. Já era tão tarde que, mesmo que tivesse voltado, não iria ao quarto dele.
Encostado na porta, soltou um longo suspiro, como se estivesse vomitando veneno. Sentia-se estranhamente cansado. Festas, bebida, dança e música sempre o deixavam mais animado, nunca o cansavam.
“Será que fazia tanto tempo assim que não saía à noite?”
Depois da taverna barulhenta e das ruas com o vento noturno zunindo nos ouvidos, o quarto finalmente alcançado era quente e silencioso. Rensley escovou os dentes, pegou água para lavar o rosto e o lavou várias vezes. Queria tomar banho, mas era tarde demais para encher a banheira. Enxugou o corpo às pressas e ia trocar a roupa pelo roupão pendurado na parede quando se assustou e arregalou os olhos. Sem nenhum som ou movimento, como uma grande sombra, o homem que apareceu fez Rensley apenas soltar uma breve saudação.
— Alteza.
Ao chamá-lo, percebeu que havia se encolhido momentaneamente. Rensley esticou os ombros deliberadamente e fez uma saudação no estilo da ordem de cavaleiros.
— Pensei que o senhor já estivesse dormindo.
— Não sabe que a essa hora costumo estar mais acordado do que dormindo?
O tom de Gizel parecia um tanto áspero. Rensley finalmente sorriu como de costume.
— É verdade, mas ainda assim é tarde.
— Você saiu? Disse que ia ficar no quarto, mas não o vi em nenhum lugar do castelo.
— Sim. Saí para passear à noite, depois de um tempo.
O homem que se aproximou lentamente estreitou os olhos. Acariciou os cabelos loiros levemente bagunçados, como se os penteasse com a mão, e inclinou a cabeça até a altura dos olhos de Rensley. Reencontrando o olhar, o toque e o cheiro doce da noite, Rensley não conseguiu rejeitar. Apenas baixou o olhar. Gizel balançou a cabeça perto do rosto delr e se endireitou.
— Está com cheiro de bebida. E de tabaco.
— Bebi um pouco, e o tabaco foi de quem estava perto.
— E cheiro de perfume também.
— Devo ter pegado enquanto dançava.
— Parece que você não tem saído muito ultimamente… Ficar mais tempo no castelo deve estar entediante?
Rensley ergueu o olhar. No rosto do grão-duque, que o encarava, pareciam se misturar um pouco de curiosidade, um lampejo de insatisfação e a familiaridade afetuosa que ele sempre mostrava.
Ou talvez ele estivesse apenas com seu rosto habitual, indiferente, e Rensley estivesse desenhando padrões em sua máscara para ver o que queria ver. Quando não respondeu, Gizel balançou a cabeça ligeiramente, quase imperceptivelmente.
— Entendo. Sei que você gosta de se misturar com as pessoas. Esse foi um dos motivos pelos quais pensei que não poderia mantê-lo trancado no quarto da grã-duquesa.
— O senhor está com raiva porque voltei tarde?
— Perguntei a Anton e a Samlit, mas nenhum sabia onde você estava. Fiquei preocupado por não te ver, não com raiva.
Gizel ergueu levemente as sobrancelhas.
— Mas se tivesse demorado mais um pouco, teria enviado uma equipe de busca. Ainda bem que voltou a tempo.
— O quê? Uma equipe de busca?
— Se algo acontecesse com você, seria um grande problema para todos.
Será? Se eu desaparecesse silenciosamente como fumaça, não seria o melhor para todos? Rensley riu e baixou a cabeça.
— Desculpe por causar preocupação. Posso cuidar de mim mesmo, não precisa se preocupar.
— Se não fosse pela magia de cura, a mordida do cachorro selvagem ainda não teria sarado… Ainda é cedo para confiar nessa sua palavra.
— Tenho mais uma coisa para me desculpar, Alteza.
— O que é?
— Comi tomate com outra pessoa primeiro.
Ele pensou em confessar como se fosse uma piada, mas ao falar, seu coração pesou como uma esponja absorvendo água.
Quando Rensley ficou em silêncio, Gizel também se calou e depois murmurou baixinho:
— Ora essa.
Uma pergunta veio em seguida:
— Com quem comeu?
A reação de Gizel foi mais séria do que ele esperava, tanto quanto o peso em seu coração.
Rensley decidiu rapidamente que seria melhor não mencionar o nome de Stan. Não podia fazer com que seu amigo recebesse a atenção indesejada do soberano por ter feito amizade com a pessoa errada.
— Apenas… dividi com vários colegas da ordem de cavaleiros.
— Por que fez isso?
— Perdoe-me. Acabei…
— Rensley.
Os ombros de Rensley tremeram. Era a primeira vez que Gizel o chamava pelo nome fora da cama. No entanto, o grão-duque, como se não sentisse estranheza em seu próprio modo de tratamento, apenas o observava.
— Está com raiva.
— O quê?
— Está com raiva de mim. O que aconteceu?
A boca de Rensley se abriu ligeiramente. Sem conseguir disfarçar o susto, balançou a cabeça tardiamente. Falara demais, causara um mal-entendido.
— Isso é absurdo. Não tenho motivos para estar com raiva do senhor. Sempre recebo sua graça, e hoje também ganhei um presente que não mereço… Como um mero receptor, ousaria ter um sentimento tão profano?
— Não se sabe. Governando um país, percebi que a coisa mais difícil é alinhar as compreensões mútuas. Mesmo que eu dê algo com boa intenção, se for um presente indesejado, a outra pessoa pode acabar guardando rancor.
— Alteza! De jeito nenhum. Nunca deixei de me comover com sua bondade. Apenas…
Apenas? Quando Rensley parou, Gizel também arregalou levemente os olhos. Ele cerrou a boca para organizar os pensamentos e continuou lentamente:
—…Só queria conhecer melhor Oldenlant. Agora sou um cidadão de Oldenlant. Já faz um tempo que comecei a viver aqui e entrei para a ordem. Preciso conhecer a situação fora do Castelo de Roudequen e fazer amizades para realmente me tornar parte deste lugar. Com isso, acabei dedicando mais tempo e entusiasmo para me relacionar com outras pessoas. Por favor, não interprete mal.
— Também passo a maior parte do tempo dentro do castelo.
— Mas eu sou um estrangeiro e o senhor é o soberano; não podemos ser iguais.
Rensley encontrou o olhar de Gizel, que antes evitava. O divórcio era só uma questão de arranjar uma justificativa. Como tudo no mundo. Podia ser fingido, podia-se criar uma razão plausível.
— Ultimamente, tenho pensado muito nisso. Quero saber mais sobre este país…
— É um pensamento digno de alguém que gosta de aventuras.
Gizel chegou a sorrir ao dizer isso. Era verdade que era difícil alinhar as compreensões mútuas. As coisas humanas não são simples; quanto mais próximas, mais parecem que deveriam ser uma só, mas a realidade não é assim. Quanto mais próximos, mais se finge olhar para a mesma coisa, enquanto se pensa em outra.
— Alteza, tenho algo para lhe dizer.
— Pode falar à vontade.
Rensley o levou para a poltrona, sentou-o e sentou-se à sua frente. Apertou as mãos sobre os joelhos algumas vezes. Ficava nervoso, afinal. Gizel também pareceu notar, inclinou-se no encosto e apoiou o queixo levemente.
— Oldenlant é um país grande. Embora haja pouca terra habitável em comparação com seu vasto território, ninguém negaria que é uma nação poderosa. E, como eu disse, quero conhecer mais de Oldenlant. A capital não é todo Oldenlant. O senhor governa várias regiões, cada uma com suas próprias características e culturas.
— Verdade. Há pequenas diferenças.
— Então… quero visitar outras regiões também.
Depois de falar, Rensley olhou de relance. O grão-duque, como se quisesse ouvir mais, não respondeu.
— Como o senhor disse, sou do tipo que gosta de vaguear e tenho curiosidades inúteis. Já que deixei minha terra natal e vim para longe, quero experimentar um mundo mais amplo. Mesmo que seja difícil ir muito longe, com a permissão do senhor, é possível visitar outros lugares dentro de Oldenlant.
Gizel baixou o olhar por um momento, como se estivesse pensando. Inclinando levemente o rosto, seus cabelos pretos deslizaram silenciosamente para o lado da orelha. O silêncio não durou muito. Ele assentiu prontamente.
— Sim. É uma boa ideia.
— Alteza, então…
— Você veio de longe, de Cornia até aqui, e desde que chegou, tem estado ocupado com estudos e treinos, sem tempo para descansar. Vou te dar uma licença. Ainda não posso deixar o castelo, então não posso acompanhá-lo, mas posso enviar criados para resolver isso.
— …
— Que tal uma região perto de Roudequen com lagos bonitos? Há também um lugar famoso por uma destilaria que faz licor de framboesa silvestre na primavera. Agora, venha aqui sentar. Vamos conversar sobre qual lugar é melhor. Descansar em um lugar assim vai ajudar a mudar de ares.
Rensley apenas piscou. Ele e o grão-duque não poderiam ser considerados do mesmo tipo, mesmo que por mentira, mas nunca houve um dia em que a comunicação fosse tão difícil.
— Alteza, não é isso que quero dizer…
É natural. Estou escondendo o que realmente quero dizer e falando sobre outra coisa.
— Quero… viver em outra região. Como o feudo da família que o comandante disse que poderia me dar uma carta de recomendação… Mesmo que não seja lá, qualquer lugar que precise de gente serve. Sei que é uma ingratidão e uma ousadia, já que o senhor se esforçou para me colocar na guarda pessoal…
A garganta apertou, como se estivesse confessando uma mentira. Enquanto falava lentamente, com uma hesitação incomum, Gizel permanecia em silêncio.
Ele não o encarava, não franzia a testa, não o interrompia nem torcia os lábios com ameaça. Apenas ouvia com um rosto inexpressivo.
Mesmo assim, seu olhar se tornava frio como a planície congelada da noite. O ar gelado, cada vez mais perceptível, era inconfundível.
Quando Rensley finalmente terminou de falar, a resposta, afiada como um machado, caiu:
— Não permito.
— Alteza.
— Não entendo o que você quer dizer de repente. O problema da grã-duquesa ainda não foi resolvido.
— É por isso, Alteza!
Rensley, que havia levantado a voz impulsivamente, fechou a boca rapidamente. Mas já era tarde. O grão-duque se endireitou na cadeira e exigiu uma explicação.
— O que quer dizer com isso?
— Perdoe-me. Foi um lapso.
— Senhor Malocen, é uma ordem. Explique o que quer dizer.
Com essas palavras, as sobrancelhas de Rensley se franziram reflexivamente. Desagrado, raiva, rebeldia. Emoções que ele nunca quis mostrar diante dele transbordavam como vinho derramado.
Rensley rangeu os dentes. Raiva? Sim. Tristemente, ele estava certo. Ele havia esquecido seu lugar e estava com raiva. E mais, como uma criança que espera que percebam seu mau humor, estava até fazendo greve.
— Preciso explicar? O senhor pode me dar ordens a qualquer momento. Basta ordenar o que quiser, por que se importa com o que eu penso?
— É isso que você quer dizer?
Era uma raiva descarada e absurda. Como não havia culpados, não havia como resolvê-la. Quando chegou aqui, pensava que seria sorte se não fosse executado por enganar o rei. Queixar-se porque o nobre soberano não correspondia ao seu amor raso era um sinal de que estava tão satisfeito que ia explodir.
Sua cabeça entendia, mas o que fazer? Rensley Malocen era de origem humilde e emocional, não podia agir como aquele homem inexpressivo, racional, de nascimento nobre e com poder.
— Hoje você está estranho, com certeza. Alguma coisa aconteceu.
↫─✧ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Yuki&Belladonna