. ₊ ⊹ . ⋆ Capítulo 03.6
. ₊ ⊹ . ⋆ Capítulo 03 – A hora do chá do gato de rua
pt. 06
A porta da sala de audiências do rei foi aberta com pressa. Os passos do grão-duque de Oldenlant, que raramente se apressava, eram rápidos.
O comandante da guarda, Anton, que já havia chegado, cumprimentou-o. Gizel perguntou antes mesmo de se sentar:
— O que aconteceu?
— Recebemos um relatório sobre carcaças de animais com causa de morte indeterminada perto do castelo. Fui inspecionar e, ao encontrar manchas de sangue na planície, segui até a floresta, onde encontramos e eliminamos os monstros. Depois, vasculhamos os arredores, mas não vimos mais nada, então parece que se separaram do grupo em busca de comida.
— Ultimamente, com o reforço da vigilância na muralha, eles raramente desciam até perto do castelo… Precisamos avisar a irmã Frida. Talvez haja outro ataque em breve. Houve algum outro sinal anormal?
Anton observou o perfil de Gizel, absorto em pensamentos, e continuou:
— Não houve outras ocorrências ou sinais… Mas, durante a inspeção, encontrei Malocen e ele se juntou a nós. Embora ainda seja um aprendiz, pensei que, por ser de fora, seria bom que ele visse o ambiente noturno de Oldenlant.
— O quê?
A voz de Gizel se elevou. Anton inclinou ligeiramente a cabeça.
— Ele sofreu um ferimento leve durante o combate. Deveria tê-lo supervisionado melhor. Peço desculpas.
—…Onde ele está agora?
— Como há muitas pessoas, ele não pôde ir para o quarto da grã-duquesa, então mandei que voltasse ao seu quarto no segundo andar. Lá, ele está recebendo tratamento…
Antes que Anton terminasse, Gizel se levantou bruscamente. Ele abriu a porta da sala de audiências, mas, em vez de sair por ela, desapareceu do local.
Anton, que ficou na sala, arregalou os olhos diante da situação inesperada e suspirou, murmurando:
— Ele não está sozinho, Alteza.
A pessoa que ficou boquiaberta com a aparição repentina do soberano no meio do quarto, sem nenhum sinal, não foi apenas Rensley.
O médico que enfaixava seu braço e alguns cavaleiros que tinham vindo ver como Rensley estava, e que estavam tagarelando, também arregalaram os olhos. O médico deixou cair a tesoura que segurava.
— Alteza! Como veio até aqui?
Enquanto ouvia o cumprimento surpreso do médico, Rensley pensou rápido. Um soberano que usa magia para visitar um cavaleiro aprendiz por causa de um ferimento leve, por mais que se pense, é estranho.
Os outros cavaleiros também não escondiam a surpresa, olhando de Rensley para Gizel. Ele sorriu amplamente, levantou-se, curvou-se e fez uma reverência cerimoniosa.
— Há quanto tempo, Vossa Alteza, o Grão-Duque. Agradeço por sempre tratar este humilde hóspede com tanta consideração, por ter vindo de Cornia para servir a grã-duquesa. É uma honra que o senhor tenha vindo pessoalmente.
—…Foi ferido em combate?
— Bem…
Os olhos de Rensley se arregalaram ligeiramente. Ele revirou os olhos e esboçou um sorriso sem graça.
— Seria legal dizer que me machuquei lutando contra monstros, mas, na verdade, fui mordido por um filhote de cachorro… Acho que assustei o bichinho que estava escondido, com medo.
— Não é um ferimento grave.
Um dos cavaleiros, um pouco mais velho, que era como o irmão mais velho entre os cavaleiros regulares, confirmou as palavras de Rensley. Enquanto isso, os novatos riam baixinho e cochichavam perto de Rensley.
— Seu primeiro ferimento em campo foi mordido por um cachorro, isso é histórico.
— Cala a boca. Você já entrou em combate oficial?
— Já fomos muitas vezes à floresta. Para você, foi a primeira vez.
A voz de Rensley, respondendo, também era um sussurro cheio de riso. Gizel olhou para eles e ordenou:
— Saiam todos. Tenho o que falar com o cavaleiro aprendiz Malocen.
A voz era fria. Todos, que pensaram que ele se acalmaria ao ver que o ferimento era leve, novamente se tensionaram com a atmosfera gelada do soberano. O médico, que terminou de enfaixar, e os cavaleiros que estavam brincando, saíram um a um, cumprimentando e olhando de soslaio, fechando a porta em silêncio. No quarto aconchegante, pairou um ar sombrio, difícil de explicar. Rensley olhou com um ar de súplica para as costas dos colegas que saíam em fila. Mas no final, só os dois ficaram, e Rensley lançou um olhar ainda mais lamentável para ele. Gizel o advertiu antes que ele pudesse se encolher:
— Não se curve e não peça desculpas.
—…Sim…
— Sente-se.
Rensley sentou-se hesitante. Gizel também sentou-se na cadeira do médico, de frente para ele, e ergueu cuidadosamente o braço enfaixado.
— Você não disse que ia ajudar na cozinha?
— Bem, as coisas mudaram… Encontrei o comandante no caminho para a cozinha e acabei indo com ele.
— E foi mordido por um cachorro.
— Digo cachorro, mas era um filhote pequeno. Os dentes ainda não eram tão afiados, então não foi um ferimento profundo. O bichinho também estava mancando, com a perna machucada. Deve ter se assustado com a luta de repente e avançou. No começo, achei que algo tivesse me atacado, mas era um cachorrinho.
Ao ouvir a desculpa, Gizel respondeu com silêncio e desfez o nó do curativo. Quando o curativo que o médico havia feito se desfez completamente, a ferida, ainda vermelha e coagulada, revelou marcas de dentes. Ele franziu a testa abertamente. Rensley acrescentou rapidamente:
— Já disse que vai sarar rápido. Como pode ver, não é um ferimento profundo.
— Mordidas de animais podem deixar cicatrizes grandes. Se a limpeza ou o tratamento falharem, há risco de infecção.
Gizel levou a mão sobre o ferimento.
— Vou fazer um tratamento adicional, então aguente a dor.
Rensley ia dizer que o tratamento já havia sido concluído, mas antes que pudesse, uma luz verde se espalhou entre a mão de Gizel e o ferimento, como tinta. Rensley rangeu os dentes. Seu braço se contraiu involuntariamente.
Era uma dor como se a carne estivesse queimando. Doía mais do que quando o cachorro o mordeu. Rensley, que resmungava, achando que não era para tanto, sentiu a dor aumentar proporcionalmente à luz verde que se intensificava e não aguentou mais, apelando:
— Alteza, está doendo mais agora do que quando fui mordido.
— Aguente um pouco. É porque não sou muito hábil em magia de cura.
— Com todo o respeito, se o senhor não é hábil, não deveria fazê-lo?
Não estaria fazendo de propósito para me machucar? Ele não pôde perguntar e mordeu os lábios. À medida que a dor se prolongava, lágrimas começaram a brotar. Respirando fundo, ele olhava fixamente para a luz verde misteriosa.
Embora ele tenha dito que não era hábil, sua magia parecia ter efeito, pois a dor intensa, como se a carne e os ossos estivessem queimando, foi diminuindo gradualmente. Com a dor mágica diminuindo, a dor pulsante da ferida também se acalmava.
Rensley piscou os olhos úmidos e observou a luz verde entre a mão de Gizel e sua pele tornar-se um verde-claro. À medida que a luz se atenuava, as marcas dos dentes, que pareciam buracos de perfuração, também iam se fechando, como se novas peles estivessem se formando.
A dor agora era suportável. Enquanto Rensley, com o rosto relaxado, olhava para sua ferida, Gizel, concentrado no tratamento, também parecia mais à vontade do que no início e continuou a falar em voz baixa:
— Normalmente, a magia de cura é um campo da magia divina que os clérigos aprendem. É uma magia difícil e com um amplo leque de tópicos a serem estudados, o que a torna interessante, mas como tem pouca utilidade direta para governar um reino, não pratiquei muito.
—…Parece que já está quase curado.
— Como o senhor Malocen disse, não era um ferimento profundo.
E assim, só depois de um tempo, o braço de Rensley foi libertado. Embora ainda houvesse manchas de sangue, a ferida estava visivelmente melhor. Será que já dava para considerar uma cura completa? Rensley observou seu braço, onde a cicatriz, senão a ferida, estava quase imperceptível, com olhos cheios de admiração.
Virando o braço para verificar o estado, Rensley ergueu a cabeça e encontrou o olhar dele. Mesmo com a ferida quase curada, Gizel não parecia especialmente feliz.
— Alteza, muito obrigado.
— Não entendo por que um aprendiz como você foi enviado para uma inspeção noturna na floresta. O comandante Anton lhe ordenou?
— Não!
Rensley balançou a cabeça rapidamente.
— O comandante me disse várias vezes para voltar ao castelo e aguardar. Fui eu que insisti para ir. Ele também me alertou que o senhor se preocuparia se eu me machucasse, mas fui descuidado… Alteza, por favor, não culpe o comandante. Toda a culpa é minha.
— Então, devo responsabilizá-lo?
— Sim, faça isso. Aceitarei qualquer punição.
— Mesmo que seja a expulsão da ordem?
Com essas palavras, os olhos de Rensley se arregalaram. Sentiu seu rosto endurecer. Antes que pudesse responder, apenas movendo os lábios, a voz de Gizel tornou-se tão fria quanto o vento gelado do lado de fora da muralha.
— Originalmente, sua função era ficar quieto no quarto da grã-duquesa até que a situação se resolvesse. Mas, vendo seus talentos e que seu temperamento não se adaptava a uma vida reclusa, propus que você entrasse para a ordem. No entanto, desobedecer a uma ordem superior e se ferir… me faz arrepender da minha decisão.
Não havia desculpas para palavras tão corretas. Rensley apenas baixou o olhar e murmurou para si mesmo. Falar que não iria se repetir, que seria mais cuidadoso, que era inexperiente por ser a primeira vez… Qualquer que fosse a desculpa, todas pareciam iguais. Sem uma solução, a frustração começava a aparecer. Pensando bem, era estranho. Um cavaleiro se ferir em batalha não parecia algo que merecesse tanta repreensão.
— Embora seja um aprendiz, não passei no teste de admissão?
A frustração que se seguiu superou o constrangimento inicial. Rensley, observando a expressão do grão-duque, continuou:
— Ouvi dizer que, ao contrário das ordens de cavaleiros comuns, a guarda pessoal de Oldenlant se concentra tanto na proteção do soberano quanto no combate a monstros. O ferimento de hoje se deve, em parte, à minha inexperiência como aprendiz e à tensão por ser minha primeira missão, ainda não familiarizado com o combate a monstros. Mas acho que contribuí para a luta e não fui ferido por um monstro em si. Considerando que foi minha primeira missão, não acho que tenha ido mal…
— Então, está se sentindo injustiçado?
Quando suas palavras foram resumidas com precisão, Rensley sentiu vergonha. Mas não negou. Era a verdade.
— Sim. Ser cavaleiro é uma posição que sempre envolve riscos de ferimentos. Foi o senhor quem sugeriu que eu me tornasse cavaleiro, mas quando me machuco em um combate real, o senhor fica irritado, e eu não sei mais o que fazer.
— Você não precisa fazer nada. Como você disse, fui eu quem sugeriu que você se tornasse cavaleiro, e o resultado de algo que eu mesmo causei não me agradou, então estou reconsiderando.
— Alteza, isso não é nada. Quando eu morava em Cornia, me machucava com essa frequência. Quando criança, fui mordido por um cachorro ainda maior.
Então, a expressão de Gizel se tornou ainda mais sombria.
— Como aconteceu?
— Quando era criança, não sabia que os cães de caça eram perigosos, fiquei brincando perto deles e me dei mal. Olha, ainda tenho uma pequena cicatriz.
Foi um acidente causado pela falta de medo de Rensley, que nunca havia sido hostilizado por animais, embora por pessoas fosse. Aquele cão de caça, que era do príncipe herdeiro Félix, o maior rival de Rensley, era feroz como seu dono. O dono podia ser quem fosse, mas um cão ainda é um cão? Rensley, achando que não seria diferente de outras crianças, brincou com ele como sempre e acabou sendo mordido na perna. O ferimento foi grande, mas disseram que se o cão realmente quisesse, poderia ter arrancado a perna, então ele deu sorte. O ferimento foi tratado imediatamente, mas a cicatriz permaneceu.
Quando Rensley ergueu a barra da calça, Gizel segurou seu tornozelo branco e examinou a pequena cicatriz na panturrilha. Na pele que antes tinha marcas de dentes, agora só havia uma superfície lisa.
Com um dedo comprido, acariciou-a lentamente. Quando continuou a tocar o mesmo lugar, começou a fazer cócegas. Quando Rensley estava prestes a não conseguir mais conter um riso ou algo parecido, o homem silencioso soltou um breve suspiro.
— Sim. Não se pode ter segurança total na vida.
Rensley puxou o tornozelo de sua mão. Levantou-se da cadeira e se aproximou dele. Sentou-se lentamente em seu colo, e Gizel não o repeliu.
— Alteza, foi minha primeira missão, minha primeira vez vendo monstros que só tinha ouvido falar, e minha primeira vez na floresta. Eu tinha tanta coisa para lhe dizer, mas o senhor começou a me interrogar, fiquei frustrado… Desculpe.
Então, Gizel sorriu amargamente. Ele claramente havia se acalmado. Rensley suspirou aliviado internamente. Parece que pelo menos sua posição na ordem estava garantida.
— Você fala como se tivesse ido a um piquenique.
— Sim. Os outros disseram que os bichos de hoje não eram diferentes de uma raposa encontrada num piquenique. Mas a aparência era assustadora. Sem pelos, brancos e escorregadios como uma lula recém-pescada, sem olhos, nariz ou boca direito. E de repente, olhos brotavam aqui e ali, ugh… Sinceramente, era nojento.
— Eu sei que tipo de criatura é essa.
Gizel riu baixinho. Uma centelha de hostilidade passou por seus olhos âmbar. Em contraste, uma expressão de compaixão surgiu no rosto de Rensley.
— Mas, quando só restou um e todos os outros estavam mortos, senti um pouco de pena. No começo, pareciam apenas monstros, mas também pareciam capazes de sentir medo.
— O senhor Malocen é muito compassivo.
O sarcasmo de Gizel se transformou em seu sorriso habitual.
— Parece que houve uma falha em algum lugar da vigilância da fronteira norte. De qualquer forma, pode haver outro ataque em breve. Não como o de hoje, um encontro inesperado.
— Então, eu realmente vou ser enviado para uma missão oficial.
— Você não precisa ir, mas… você quer ir, não é?
— Alteza, o senhor me confiou essa função. Gostaria que confiasse em mim. Não há ninguém que faça do cargo de cavaleiro do rei uma brincadeira ou um passatempo. Eu já disse: o papel de grão-duquesa é temporário, mas serei cavaleiro para sempre. Se eu não me firmar como cavaleiro, qual será o meu lugar neste país?
↫─✧ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Yuki&Belladonna