. ₊ ⊹ . ⋆ Capítulo 03.2
. ₊ ⊹ . ⋆ Capítulo 03 – A hora do chá do gato de rua
pt. 02
Rensley encostou o rosto na porta e ficou ouvindo em silêncio. Do outro lado, estava silencioso, sem sinais de vida.
“Não vamos nos preocupar demais. Mesmo que haja algumas pessoas a mais, é só dividir.”
Toc-toc. Ele bateu na porta e a abriu. Como de costume, todos já haviam se retirado para o dia. O grão-duque Gizel, que estava sozinho no porão lendo um livro, virou a cabeça. Antes que Rensley pudesse dizer alguma coisa, ele falou primeiro.
— Eu estava prestes a subir para descansar.
O tom de voz, como se estivesse se justificando por ter sido pego em flagrante, fez Rensley franzir levemente a testa.
— O senhor não ficou o dia todo aqui, espero? Eu já disse que pelo menos uma vez por dia o senhor deve sair para tomar sol e vento.
— Se for para me aquecer, posso fazer isso aqui também.
— O senhor sabe que a luz do fogo e a luz do sol são diferentes. Em Oldenlant, os dias já são curtos… Uma pessoa precisa se movimentar de vez em quando. Ficar lendo o dia todo só vai prejudicar sua saúde.
— Posso fazer exercícios dentro do castelo também. E fiz isso hoje.
— Em vez disso, o senhor devia descansar um dia dos treinos de artes marciais e fazer uma caminhada lá fora.
— Lá fora é frio e barulhento. Aqui é silencioso e quente. Não vejo motivo para sair sem ter o que fazer. O senhor tem ideia de quanto esforço fiz para construir um dispositivo que permitisse monitorar o que acontece lá fora sem precisar sair?
Depois de uma longa argumentação, ele virou a cabeça com um ar de desdém e se afundou novamente na poltrona. Observando-o sentado, envolto em sua capa preta forrada de pele, Rensley questionou sua própria percepção de antes. Houve um tempo em que, por causa de seu ar afiado e aparência, ele o associara a aves de rapina ou lobos… Mas, depois de se acostumar com a visão cotidiana, sua opinião mudou.
“Se eu tivesse que escolher o animal que melhor combina com esse homem, seria um urso preto, não?”
Quando se pensa em urso, vem à mente uma imagem grande, calma, dócil e redonda, até fofa. Rensley imaginou Gizel com orelhas redondas no alto da cabeça e sorriu.
— Senhor Malocen.
Enquanto ele ficava ali parado, perdido em pensamentos, Gizel o chamou. Rensley colocou o prato sobre a mesa e se aproximou. Sentou-se em seu colo, escondido sob o roupão. O grande urso, como se estivesse esperando, encostou o nariz na bochecha de Rensley.
— Pensei que fosse impressão minha, mas não é. Você está com um cheiro doce.
— O senhor gosta de doces?
Quando Rensley perguntou, um brilho de questionamento surgiu nos olhos de Gizel. Nossa. Era óbvio que ele nunca tinha pensado se gostava ou não de doces.
Agora Rensley conseguia ler melhor suas expressões e também sabia que ele, embora brilhante o suficiente para que se acreditasse que decorou o conteúdo de todos os livros do mundo, desconhecia inúmeras coisas triviais. Não era surpresa. Prazeres noturnos e o sabor de torta de maçã não se aprendem apenas com livros.
— Aposto que vai gostar.
Rensley respondeu à pergunta que Gizel havia feito a si mesmo. Normalmente, seria hora de dizer “tchan-tchan!” e mostrar a torta de maçã, mas, vendo o grão-duque teimoso, um sentimento de travessura cresceu dentro dele.
E se ele dissesse que só provaria se, amanhã, mesmo sem ter outro compromisso, saísse para tomar um pouco de ar? A torta ainda estaria gostosa depois de um ou dois dias. Mas também seria uma pena não mostrar o sabor recém-assado… Como se tivesse percebido sua hesitação, Gizel mudou de assunto.
— Na verdade, hoje eu saí para caminhar durante o dia.
— É verdade?
— Não estão construindo um pequeno edifício no pátio norte? Embora seja ao norte do castelo, é um terreno que recebe bem o sol, então seria um desperdício deixá-lo vazio. Tenho ido lá de vez em quando para ver o andamento das obras. Deve ficar pronto em breve.
— Ah, eu também vi. Também achei que era um desperdício deixar aquele espaço vazio. O que estão construindo?
— Um espaço multiuso.
Rensley balançou a cabeça.
— Que bom. Acho melhor eliminar o máximo possível de terrenos baldios inúteis dentro do castelo. Lugares assim atraem pessoas para fazer fofoca, e isso pode gerar boatos estranhos, não é?
— Boatos estranhos? Tem algum?
— Por exemplo, só estou dizendo. De qualquer forma, já que o senhor saiu para tomar ar hoje, vou lhe dar um presente.
Rensley tentou se levantar para pegar a torta, mas foi puxado de volta para o colo. Gizel o segurou pela cintura. Com os braços firmes em volta de sua cintura, Rensley riu.
— Se o senhor me soltar, posso pegar o presente.
— É aquilo?
Gizel fez um gesto elegante com a mão. Com um breve movimento, o prato de torta que estava sobre a mesa flutuou e pousou no colo dele. O cheiro doce se intensificou, fazendo seu nariz formigar. Rensley resmungou, sem motivo aparente.
— É por isso que o senhor só quer ficar em lugares confortáveis. A magia é uma força útil, mas certamente contribui para deixar as pessoas preguiçosas.
— Só gosto mais de ler livros do que as outras pessoas.
— Mas eu gosto do senhor assim.
Quando Rensley riu, como quem não tem escolha, Gizel inclinou a cabeça. Seus lábios roçaram as bochechas e os lábios dele. Rensley também envolveu o pescoço dele com os braços e respondeu aos beijos com entusiasmo.
De repente, uma língua lambeu seus lábios. A coceira era tanta que seus ombros se encolheram involuntariamente. Rindo, enquanto continuavam o beijo, Rensley tentava desesperadamente desfazer o nó do pano que cobria o prato. Percebendo seus movimentos, Gizel ergueu a cabeça com uma expressão um tanto insatisfeita.
— Você não está prestando atenção.
— É que eu tenho um presente.
Ao abrir a tampa que cobria o prato, a torta repleta de maçãs se revelou. As fatias finas de maçã foram cuidadosamente dispostas, parecendo uma grande rosa sobre a torta.
Entre o doce cheiro das maçãs assadas, cobertas por uma camada de manteiga e açúcar derretidos, um aroma picante de canela se misturava como um ataque surpresa. Rensley observou com satisfação a curiosidade surgir nos olhos de Gizel.
— O cheiro é um pouco diferente do que estou acostumado.
— Como se faz aqui?
— Costumamos usar muito cravo, mas na torta que o senhor fez, esse cheiro não é tão presente.
— A moda de usar muito cravo em sobremesas já passou. Até dá para usar em chás ou bebidas… A Reina não é má cozinheira, mas o problema é que ela cozinha de um jeito muito antiquado.
Rensley pegou o garfo que havia colocado no prato e cortou a torta em pedaços do tamanho de uma mordida. A maçã bem assada se partiu facilmente com o garfo. Levou o pedaço aos lábios de Gizel, que abriu a boca obedientemente.
Observar a expressão séria daquele belo homem se iluminar com uma brisa primaveril era um dos maiores prazeres de Rensley ultimamente. Depois de engolir a torta que se desfazia suavemente em sua boca, Gizel fez uma breve avaliação, satisfeito.
— É realmente delicioso.
— Não sabia se o senhor gostava ou não de doces, então coloquei menos açúcar do que na minha receita habitual. Ainda bem que gostou. Espere, vou preparar um chá. É melhor comer com chá.
— Fique sentado, senhor Malocen. Já que você fez o lanche, eu preparo o chá.
— Deixe-me fazer isso.
— Quem insistiu para que eu me movimentasse um pouco foi você, não foi?
Embora ele não gostasse de sair, Gizel passava um bom tempo todos os dias em treinos de condicionamento físico, esgrima e artes marciais. A sugestão de Rensley não era para que ele se movimentasse mais, mas sim que saísse com mais frequência…
Mas Rensley desistiu de resmungar. Sentou-se profundamente na poltrona, a cadeira preferida do grão-duque, e observou a chama da lareira que tremulava como uma bandeira ao vento. Sentado na poltrona macia, olhando para o fogo, ele podia entender perfeitamente por que o grão-duque gostava de passar o tempo ali.
— Vai precisar esfriar um pouco. Acho que coloquei a água quando estava muito quente.
Quando Rensley começava a cochilar, hipnotizado pelo calor do fogo, ouviu o som de uma xícara sendo colocada sobre a mesa. Um vapor suave subia da xícara elegante que continha um chá escuro.
Gizel se aconchegou novamente na poltrona. Rensley riu e se virou, colocando o corpo de volta em seu colo. Desta vez, ele pegou o garfo, cortou a torta e a colocou na boca de Rensley.
— Hum, embora tenha sido eu que fiz, está realmente delicioso.
Ele balançou a cabeça, elogiando a si mesmo, e uma pergunta veio em seguida:
— Como se faz essa torta?
— É trabalhosa, mas o método não é complicado. Primeiro, cortamos as maçãs em pedaços pequenos e as cozinhamos com açúcar e canela. Depois, derretemos manteiga na farinha, adicionamos ovos, sal, açúcar, baunilha…
Enquanto explicava com entusiasmo, a voz de Rensley hesitou por um momento. A mão grande havia entrado por baixo da camisa folgada. No entanto, a expressão de Gizel não mudou.
— E depois?
— Hum, e depois… a massa. Amassamos a massa para fazer a base da torta…
As pontas dos dedos percorreram sua pele, roçando os mamilos que começavam a se erguer. Ele engoliu o gemido que quase escapou, mas, com o toque cada vez mais natural, em vez de palavras, apenas sua respiração ofegante se ouvia. Rensley encostou o rosto no ombro de Gizel e resmungou:
— Eu estou… explicando…
— Continue. Estou ouvindo.
— Depois de fazer a massa… deixamos descansar para amadurecer… abrimos com o rolo para achatar… e então fazemos o creme para o recheio… ah…
Agora os lábios também percorriam seu pescoço. Rensley continuou a explicação desnecessária com dificuldade, mas acabou parando e envolvendo as costas de Gizel com os braços. Quando seus rostos se aproximaram, os lábios que estavam em seu pescoço subiram até sua orelha.
— Como se faz o creme?
— Vou parar. O senhor não está nem um pouco curioso…
— Claro que estou. Não há história no mundo que não me interesse.
— Se quer ouvir, não deveria ficar fazendo outras travessuras.
— Posso ouvir perfeitamente enquanto movo as mãos.
↫─✧ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Yuki&Belladonna