𓆩 ─ Capítulo 29
𓆩 ─ Capítulo 29
— Desculpe a demora. Vamos.
Ao falar com Sunz, que esperava do lado de fora do alojamento, ele assentiu e começou a caminhar à frente com passo tranquilo.
— A propósito, como devo chamá-lo?
— Pode me chamar só de Yuder.
— Certo, Yuder. Você pode me chamar simplesmente de Sunz.
Sunz riu, dizendo que não gostava de ser chamado pela patente, porque soava rígido demais.
— Estou preso aqui há dois anos, é bom ter um novo amigo depois de tanto tempo.
— Você está aqui desde que a Pedra Vermelha caiu?
Yuder decidiu fazer a pergunta que estava em sua mente, e Sunz respondeu com franqueza.
— Isso mesmo. Originalmente, eu estava no Exército do Sul, na região de Gulcan, abaixo de Airic. Mas, depois daquele incidente, todas as tropas das redondezas foram convocadas. Desde então, nosso número vem aumentando aos poucos, até o General Gino chegar há alguns meses.
— Deve ter sido entediante.
— Foi e não foi. Hoje em dia, sempre que fica entediante, alguém desperta. Observar as habilidades do recém-desperto e cumprir nossos deveres faz o tempo passar surpreendentemente rápido.
Sunz sorriu, dizendo que aquilo era preferível a enfrentar ameaças à vida servindo na linha de frente. No entanto, Yuder captou algo incomum em suas palavras.
— Você quer dizer que Despertos vêm surgindo continuamente entre os soldados?
— Sim. Não é assim em outras regiões?
Bom, se você olhasse por região, era verdade. Mas a frequência mencionada por Sunz não era comum.
“…Será que é porque estamos mais perto de onde a pedra vermelha caiu?”
Yuder achou que era uma hipótese bastante plausível. Depois que a Pedra Vermelha caiu, Despertos começaram a surgir por todo o continente, mas o maior número veio do Império Orr.
E, mesmo dentro do Império, a região central tinha uma proporção maior. Considerando que as montanhas Airic, onde a Pedra Vermelha caiu, se estendiam pela região central, era uma proporção significativa.
Se presume que havia algum tipo de poder emanando da pedra, os soldados que ficaram ali por dois anos tiveram mais exposição a esse poder do que qualquer outra pessoa.
O fato de um Desperto surgir toda vez que quase se esqueciam do assunto podia ser uma prova do poder que a pedra possuía.
“Será que o Kishiar anterior não sabia disso?”
Yuder organizou seus pensamentos em silêncio enquanto seguia Sunz em direção ao centro da vila, onde os soldados de folga se reuniam.
Apesar de ser uma vila pequena, tinha uma taverna, um restaurante e um mercado bem estabelecidos. À primeira vista, havia vários soldados que pareciam destoar entre os aldeões.
— Ei! Sunz. Terminou?
— Terminei. Mas para onde foi o Emon, que estava aqui mais cedo?
Os que ainda jogavam cartas na mesa ao ar livre acenaram para Sunz. Ao correr os olhos pelos rostos e não encontrar a pessoa que procurava, Sunz perguntou. Alguém imediatamente apontou para um prédio próximo e respondeu em voz alta.
— Aquele cara disse que jogo de cartas é chato e foi para a taverna ali.
— Entendi. Vamos dar uma olhada.
Yuder seguiu Sunz em direção à taverna. Apesar de não ser tarde, o lugar estava movimentado. Sunz explicou que os soldados costumavam se reunir ali independentemente do horário, já que não tinham mais nada para fazer e gostavam de trocar histórias.
— É uma taverna de nome, mas, durante o dia, servimos comida e bebidas comuns também.
— Entendido.
Como ele disse, a maioria dos frequentadores, sentados num ponto bem iluminado pelo sol, bebia bebidas triviais com expressões entediadas.
Vários indivíduos lá dentro cumprimentaram Sunz ao reconhecê-lo. Ele retribuiu os cumprimentos com uma breve explicação.
— Aquele amigo despertou seus poderes um ano atrás. A força dele é comparável à de um urso. E tem outro ali. Aquele cara consegue pular tão alto quanto uma muralha, se bem me lembro…?
A maioria das pessoas que ele apresentou possuía poderes que reforçavam o próprio corpo. Yuder examinou seus rostos com atenção, imaginando se algum deles o havia detido no passado, mas não reconheceu nenhum.
— Ah, e ali está o Emon. É com ele que mais faço dupla nos serviços. É meio rústico, mas é um sujeito decente. Emon!
— Ah, Sunz. Finalmente chegou.
Um homem que jogava dados numa mesa com outros dentro da taverna ergueu os olhos. Era um dos homens que havia reconhecido Sunz mais cedo, no caminho para os aposentos.
— Mas quem é a pessoa atrás de você? Nunca a vi antes… Um recruta novo?
— Não, ele é uma das pessoas que eu guiei mais cedo.
Emon, aparentemente sem ter reconhecido Yuder devido à troca de roupa, pareceu surpreso.
— Ah, entendi. Me desculpe por não ter reconhecido. Por que está aqui…?
— Eu queria dar uma olhada por aí, então pedi permissão. Vou embora logo.
Sua resposta sugeria que não havia problema em ignorá-lo, pois não queria causar desconforto. Emon observou Yuder com uma expressão estranha por um instante antes de assentir e voltar sua atenção ao jogo de dados.
— A habilidade do Emon é…
Justo quando Sunz estava prestes a explicar o poder de Emon, um alvoroço barulhento surgiu por trás. Era o dono da taverna, aparecendo com uma bandeja abarrotada de linguiças grelhadas.
Ele pousou a bandeja na mesa onde acontecia o jogo de dados e abriu um sorriso amigável.
— Aqui estão os petiscos que pediram. Aproveitem enquanto jogam. Também mandei uma carne-seca por conta da casa.
— Demais! — Adoro as linguiças feitas pelo dono daqui.
Os jogadores de dados comemoraram em uníssono e se lançaram à bandeja. Conforme a montanha de linguiças diminuía rapidamente, o jogo de dados fez uma breve pausa.
Yuder viu Emon, que dera alguns passos para trás, tirar do bolso uma pequena bolsinha de pano e encher um velho cachimbo portátil com folhas de erva secas. Ele não parecia interessado em comer as linguiças.
Um instante depois, uma pequena chama, como a faísca de uma pederneira, se acendeu dentro do cachimbo. Um cheiro aromático, porém acre, se espalhou conforme a fumaça se dissipava.
— Esse é o poder do Emon. Ele consegue criar fogo. É bastante singular entre os que despertaram seus poderes aqui.
— Entendo.
Enquanto Yuder assentia, Emon virou a cabeça, aparentemente tendo escutado a conversa.
— O quê? Você não está aqui só para dar uma olhada, mas para examinar os Despertos?
— Ele é igual a nós. Ficou curioso, então eu estava explicando as coisas para ele.
Antes que Yuder pudesse responder, Sunz respondeu primeiro. Felizmente, Emon não pareceu muito curioso quanto à identidade de Yuder.
— Ah, é mesmo? Então você já deve ter notado que não temos ninguém excepcionalmente poderoso por aqui. Afinal, o melhor que consigo fazer é acender meu cachimbo com uma chaminha.
Com um risinho, Emon ergueu o dedo indicador, e uma pequena chama tremeluziu e estalou na ponta. Yuder a encarou antes de falar.
— Essa chama, você não consegue sustentá-la?
— Não consigo. Se conseguisse, talvez fosse mais útil, mas estou contente em ter a liberdade de acender meu cachimbo a qualquer momento sem uma chama. É algo que eu não tinha antes.
— Ainda assim, é uma habilidade útil. Quando fazemos dupla nas patrulhas e subimos a montanha, pelo menos não vamos ter que tremer de frio a noite toda por não conseguir acender uma fogueira.
— É. Graças a você, consigo evitar lugares onde possa haver monstros ou feras selvagens à noite. É só isso, simples assim.
Emon deu de ombros com displicência diante do elogio de Sunz, um sorriso lento tomando seu rosto. Sunz soltou uma risada.
Enquanto isso, o olhar de Yuder sobre eles esfriou.
“Eles não fazem ideia do potencial que suas habilidades carregam.”
Este mundo ainda ignorava por completo o potencial e as características das habilidades dos Despertos. Até os próprios Despertos estavam no escuro.
Uma vez que uma habilidade despertava, ela não parava por ali. Recebia infinitas oportunidades de crescer junto com seu dono. Mesmo uma habilidade que parecesse insignificante podia ser desenvolvida até se tornar um poder formidável, dependendo de quanto esforço seu dono investisse nela.
“Além disso, a maioria deles tem habilidades bem úteis, mesmo que não as desenvolvam mais.”
A maioria dos soldados apresentados por Sunz tinha habilidades de reforço físico.
Embora quase não precisassem usá-las naquele lugar, onde seus principais adversários eram feras selvagens perdidas ou monstros ocasionais, tais habilidades brilhariam de verdade num campo de batalha. Havia também uma grande chance de crescimento explosivo.
“O mesmo vale para a habilidade de visão de Sunz. Por ora, ela só lhe permite enxergar através de obstáculos e perceber coisas de dia ou de noite, mas só isso já pode oferecer uma vantagem enorme em combate. Seu potencial de desenvolvimento é imenso.”
A chama de Emon era parecida. Embora fosse pequena e durasse apenas um instante, tinha a vantagem de poder ser conjurada imediatamente, independentemente do lugar, sempre que seu dono desejasse.
Havia membros na cavalaria capazes de manipular fogo, mas a maioria deles ou levava um bom tempo para invocar o fogo, ou tinha uma duração medíocre.
Nesse aspecto, a chama de Emon era uma habilidade extremamente útil, perfeita para desferir ataques-surpresa durante um combate corpo a corpo com inimigos.
Continua…
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♤♡ Tradução, revisão e Raws: Belladonna & Fabby & Othello ◇♧