↫─☾ Episódio 03 ☽─↬
↫─☾ Episódio 03 ☽─↬
A enfermeira logo foi chamada para outra tarefa e saiu apressada do quarto. Minha alma parecia ter escapado junto com ela. Enfim, se fiquei famoso na televisão, provavelmente ganhei bastante dinheiro. Só então entendi a piada da outra enfermeira sobre quem se internaria no hospital se alguém como eu se preocupasse com as contas hospitalares. Mas entender é uma coisa, e a situação ainda era desesperadora, sem saída.
— Sr. Soohan. O senhor já deveria ser grato por conseguir ficar de pé e andar com as próprias pernas.
As fotos da cena do acidente que o representante da seguradora mostrou eram terríveis. A carroceria do carro importado, amassada como se tivesse sido dobrada ao meio, a barreira de proteção arrancada em direção à encosta, as árvores quebradas… tudo parecia dizer que eu estar vivo era um milagre. Que eu agradecesse por poder andar com as próprias pernas, por poder respirar com os próprios pulmões, por poder segurar algo com as próprias mãos, mesmo que a recuperação fosse lenta devido aos muitos ferimentos.
No entanto, se sobreviver tendo perdido todas as memórias sobre si mesmo é um milagre, então para que serve? Para refletir sobre a vida passada em que feri os outros com palavras e começar uma nova vida? Não sei, caralho. O que eu faço agora? Apenas perguntas sem resposta ecoavam em minha mente.
Em meio a tanta confusão, havia algo que me perturbava ainda mais. Para aliviar a dor traumática em todo o corpo, eu tomava analgésicos três vezes ao dia e um sedativo antes de dormir. Era para evitar que eu me revirasse ofegante com a dor que se espalhava como um trauma durante o sono. Até aí, eu entendia.
O que realmente me incomodava era alguém que só aparecia quando eu dormia. No início, eu nem conseguia distinguir se era homem ou mulher. Apenas sentia que alguém, além de mim, sentava ao lado da minha cama ou me observava silenciosamente do lado de fora da janela que dava para o corredor. Percebi que não era uma enfermeira por causa de sua roupa.
Todos os profissionais do hospital usavam uniformes padronizados. O uniforme do hospital onde eu estava internado era de um tom pastel claro, esverdeado.
Essa figura misteriosa trocava de roupa todos os dias. Um dia era cinza, no outro azul-marinho, no outro preto. Eu não conseguia abrir bem os olhos por causa do sono, então não conseguia identificar com certeza, mas era claro que era alguém que gostava de roupas neutras.
— O que é…
Quando eu me virava ou tentava acordar, ele se levantava rapidamente e desaparecia. O que é isso? Pode haver visitas a essa hora? Ou é um fantasma? Depois de pensar muito, cheguei a uma conclusão.
— Não importa como eu pense, acho que ele pode ser o verdadeiro culpado do meu acidente.
Depois de quase duas semanas pensando, o homem sentado na ponta direita do banco concordou.
— É possível…
Ao vê-lo levar a sério minha piada e balançar a cabeça, fiquei sem graça e ri pela primeira vez em muito tempo.
— É brincadeira. Só estou dizendo que pode ser. Ou talvez eu só queira me justificar, dizendo que o acidente não foi totalmente minha culpa…
— Ah.
O homem que ouvia minha história com uma expressão séria foi meu primeiro interlocutor, que conheci quando finalmente pude sair para caminhar sem ajuda do cuidador, após dias repetitivos de treino de reabilitação. Seu nome era Park Taeo, tinha mais de trinta anos e era pai de uma criança de seis anos. Ele disse que seu filho estava na UTI pediátrica, então não podia ficar um dia sequer longe do hospital.
Será que ele era pai solteiro? Eu me preocupei inconscientemente, com medo de dizer algo idiota, já que eu era um lixo que feria os outros com palavras, mas, ao ouvir com cuidado, descobri que sua esposa trabalhava no exterior para sustentar a família — uma “mãe-ganso”, como se diz —, e o pai largou todo o trabalho para cuidar do filho. No dia em que nos encontramos pela primeira vez no jardim da cobertura, ele estava soluçando silenciosamente, com os ombros tremendo.
Quando o estado da criança melhorava um pouco, ele ficava radiante, como se tivesse ganhado o mundo, e engolia as lágrimas escondido quando piorava. Ele e eu tínhamos em comum apenas a idade e o gênero. Ah, bem, estritamente falando, nem o gênero era o mesmo. Eu sou Ômega e ele um Beta. Mas estávamos em situações igualmente desesperadoras, então nos encontrávamos com frequência e trocávamos cumprimentos. Ele me reconheceu, se apresentou primeiro, e acabamos nos tornando confidentes no hospital.
— De qualquer forma, é suspeito, não é? Se fosse um familiar ou conhecido comum, viria visitar quando a pessoa estivesse acordada, não escondido enquanto ela dorme.
— Sim, com certeza. É estranho mesmo.
O homem concordou, balançando a cabeça novamente. Lembrei-me de repente de algo que ele disse assim que nos tornamos mais próximos e engoli o riso.
— Uau… mas, sério… é tão diferente do que aparece na TV que sempre me surpreendo. <> Chhhhhhhhhh, agora↗, i~sso↘ é o me~lhor, lhorlhorlhorlhor, possível! Né! Né! Né!
Com uma batida de quatro tempos, estilo trot*, minha cabeça se esticava como um dragão e girava em círculos. Ao lado, Taeo ria abafado, quase soluçando. É… se não fosse o meu rosto, eu também riria. Quanto mais eu pesquisava, mais apareciam materiais usados como alvo de piadas e fontes de memes pelos internautas, então parei de procurar.
*N/T: é um gênero musical, o mais antigo na Coreia, e considerado o predecessor do k-pop.
Após uma breve pesquisa, cheguei a uma conclusão. Soohan, o jovem executivo da divisão de serviço de comida de uma grande empresa e jurado mordaz do programa patrocinado pela empresa, provavelmente sofreu um castigo divino. Fim.
— Ah…
Suspirei sem sentir, com a cabeça confusa. Então, eu sou mais acessível agora do que naquela época? Não sei. Estou apenas desistindo. Não sei o que posso fazer ou o que tenho, então não adianta ficar nervoso e irritado. Só iria me machucar e me isolar, sem receber ajuda. Para acalmar a ansiedade imediata, eu precisava manter uma aparência alegre e positiva, mesmo que fosse forçada.
Não o filho da puta Soohan que os outros veem, mas quem sou eu realmente? Ninguém podia responder a essa pergunta existencial. O que posso decidir é como vou viver daqui em diante. Só isso. Independentemente de quem eu fosse no passado, agora eu sou Soohan e, ao mesmo tempo, alguém diferente de Soohan.
— Ah, é hora da ronda. Vou descer primeiro. Vejo você depois.
— Já passou tanto tempo assim? Sim, até logo.
O Taeo, que já estava na hora da ronda do filho, saiu primeiro. Sozinho novamente, olhei para as carpas boiando no lago do jardim da cobertura e pensei: “O Sr. Park Taeo está feliz agora? Seu filho precisa de pelo menos três cirurgias antes de ter alta, e a cada operação ele luta entre a vida e a morte. Sua esposa mora longe para sustentar a família, e ele mesmo pediu demissão. Se soubesse que seria assim, teria tido um filho? Ou, melhor, teria se casado? Casamento é para as pessoas serem felizes juntas.”
Vê-lo oscilar entre o céu e o inferno a cada resultado de exame me amargurava a boca. Não que eu esteja em posição de ter pena dos outros. Todos fazem escolhas sem saber o resultado. O eu antes de perder a memória era o mesmo. Porque não sabia que seria assim. Na época, devia ter achado que estava tudo bem, ou que era a melhor escolha. Aceitar as consequências é uma responsabilidade do eu futuro. Por mais injusto que seja, isso é igual para todos.
Ah, chega de filosofias baratas. Ajeitei o cabelo, que já estava comprido, e me levantei. Minhas duas mãos ainda estavam engessadas e minha perna esquerda precisaria ficar imobilizada por mais um mês, mas, de qualquer forma, eu estava vivo. Não importa o quanto o eu do passado fosse um filho da puta merecedor de castigo, se ele ganhava a vida na televisão, provavelmente não andava por aí matando ou machucando ninguém. Mesmo que usasse a língua para dizer coisas horríveis.
↫─☾⋆⋅☆⋅⋆☽ Continua…
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✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna&Flower