༺༒︎ Capítulo 13.3
↫─⚜️ Capítulo 13.3
Yuri sussurrou enquanto tirava a outra luva. Bem na frente dele, as respirações dos dois se desmanchavam e se misturavam. O rosto visível além da respiração branca e mesclada olhava tenramente apenas para ele. O afeto silencioso, tão evidente em sua expressão que era difícil ignorar, anunciava a verdade que ele tentara desconsiderar. Um certo sentimento que até agora ele considerara apenas como a natureza de seu melhor amigo.
— Fume no carro. Está frio.
Yuri disse isso, como de costume. Enquanto colocava a luva de couro, forrada com pele por dentro, na mão ainda dormente de Alexei. Alexei observou em silêncio o cuidado familiar que T-Mac muitas vezes chamava de peculiar. O calor se espalhou lentamente, e uma leve sensibilidade voltou às pontas de seus dedos dormentes.
— Yuri.
Em vez de um longo discurso, ele chamou seu nome, e Yuri também respondeu secamente:
— Eu não vou.
Calma, mas firmemente, Yuri recusou:
— Para onde eu iria, te deixando para trás, Alyosha?
A temperatura do seu corpo subia lentamente. Mesmo quando a ventania da nevasca, que começara a rugir com violência, açoitava seu cabelo, Yuri permaneceu firme, sem vacilar. Encarando as emoções de Yuri que talvez nunca tivesse chegado a conhecer, Alexei olhou para o passado. Perguntava-se desde quando. Mas, para ser sincero, se Yuri não tivesse sido tão discreto, Alexei provavelmente jamais saberia. E aquele momento no tempo, como se viu, coincidia com o presente, quando seu traço havia mudado.
— Eu não sou um ômega que você precisa proteger.
Então, se ele fosse um cara desgraçado cujo coração mudou, tanto melhor. Alexei preferia que Yuri fosse assim.
— Eu sei.
— Fui um alfa a minha vida inteira e serei um alfa no futuro. Não tenho interesse no mesmo traço.
— Eu sei disso também.
Yuri simplesmente afirmou.
— Alyosha, eu…
Erguendo a outra mão para colocar a luva nela também, Yuri pausou por um momento. Após colocar as luvas em ambas as mãos de Alexei, Yuri segurou as mãos dele com firmeza novamente. Ele sussurrou enquanto envolvia ambas as mãos de Alexei nas suas, que eram maiores:
— Eu só penso em você do mesmo jeito que você pensa no Valery. Fui assim desde o início e continuarei sendo. Nunca esperei nada de você, mas não tente fazer nada comigo também.
A explicação simples esclareceu tudo. Uma curiosidade repentina sobre desde quando, e em que sentido, surgiu, mas Alexei não perguntou. Porque era um sentimento que não poderia retribuir mesmo que soubesse. As mãos de Yuri cuidando dele eram pacíficas e apreciadas, mas não podiam derretê-lo tão quentes quanto quando segurava as mãos de Valery. Elas apenas o impediam de congelar ainda mais.
Se fosse para cair por esse tipo de afeto, Alexei já teria se apaixonado por algum outro ômega há muito tempo. Sempre havia ômegas que se apaixonavam por caras maus com histórias tristes por onde quer que ele fosse. Mas o que Alexei precisava não era de pena nem de afeto. A razão pela qual estava aceitando aquela gentileza era exclusivamente porque a pessoa era Yuri.
Um sentimento pesado desceu sobre o ar. Alexei, que esteve olhando para as mãos seguradas por um longo tempo, disse devagar:
— …Eu não vou pedir desculpas.
Essa foi a forma de Alexei expressar sua rejeição.
— Por que eu esperaria isso?
Yuri aceitou como se fosse algo natural.
— Para mim, você é para sempre um amigo.
Talvez aquelas palavras tivessem doído um pouco, pois Yuri baixou os cílios. Pôde sentir o aperto em suas mãos se intensificar. Alexei permitiu por um momento. Yuri segurou suas mãos por um bom tempo. Ele encarou intensamente as mãos que envolvia, como se quisesse sentir sua textura. Prestes a se sentir culpado diante daquele olhar, Yuri soltou suas mãos lentamente. O suspiro longo e raso de Yuri pairou branco no ar.
— Que tipo de cara deixa um amigo para trás?
Yuri quebrou o longo silêncio e disse isso. Ele ficou sem palavras. Foi porque ele tocara em um ponto ferido.
— Se eu fosse fugir para salvar minha própria pele, já teria feito isso há muito tempo, Alyosha. Eu também não teria ajudado com as coisas idiotas que você faz pelo Valery.
Ele ficou ainda mais sem palavras diante daquela voz baixa e de repreensão. Parecia não haver maneira de persuadi-lo agora. Alexei estreitou os olhos e olhou para Yuri, notando então que as pontas das orelhas dele estavam congeladas mais vermelhas do que as suas próprias. Alexei soltou um xingamento junto com um suspiro. Então acrescentou:
— Você já estaria morto há muito tempo sem mim.
Yuri era bom demais para estar em um lugar como este. Alexei arrancou o maço de cigarros da mão de Yuri e o empurrou levemente com o braço:
— Vamos para algum lugar primeiro. Se ficarmos assim, vamos morrer congelados antes de podermos fazer qualquer coisa.
Atrás das costas de Alexei enquanto ele caminhava para o carro sem olhar para trás, a risada baixa de Yuri ecoou. Ouvindo aquela risada, a sensação dolorosamente agitada em seu estômago se acalmou, só um pouquinho.
Saratov estava em um alerta máximo sem precedentes. Vendo vários carros de polícia passando pela avenida principal do centro, Alexei mudou de direção. Assumindo que Yuri era um homem procurado, era altamente provável que ele também tivesse sido colocado na lista de procurados como uma consequência natural, tornando difícil se mover abertamente. Só por isso, Alexei podia sentir que aquela já não era inteiramente a cidade de Igor. Estava definitivamente mudando.
Assim que deixaram o centro da cidade e se dirigiram para o norte, onde costumavam operar, um número razoável de policiais armados estava visível. Eles observavam da escuridão enquanto os homens andavam carregando seus fuzis regulamentares. Para eles, que eram criminosos, deveria ser uma visão ameaçadora, mas, honestamente, não parecia ruim. Essa cena por si só certamente desagradaria a Igor.
— O velho vai odiar isso.
Alexei disse isso, apoiando o cotovelo no parapeito da janela. Pensar que viveria para ver o dia em que estaria evitando a polícia nesta cidade. O céu ficara completamente escuro, com apenas os postes de iluminação clareando a cidade, e eles estavam encolhidos no carro há várias horas. Toda vez que olhava para fora, sentia que não tinham mais para onde ir. Ter que sobreviver sozinho era algo que fizera a vida inteira, mas, engraçado, o próprio fato de pertencer a Igor parecia ter criado inconscientemente algum tipo de identidade de grupo. A sensação de ser expulso para um campo vasto e aberto depois que a cerca suja desapareceu era estranha.
— O que você quer fazer, Alyosha?
Yuri, que estivera olhando para fora com ele, perguntou baixinho. Alexei falou com indiferença:
— Meu plano não vai mudar muito só porque você vai ficar.
— Tenho certeza de que esse não é o único jeito.
— Bom, a gente podia fugir juntos, eu acho. Mas…
Alexei encarou o exterior com uma expressão vaga. A obsessão pela vida e a vontade que sempre o mantiveram vivo pareciam ter sido varridas pela tempestade de neve, pois ele não conseguia encontrá-las de jeito nenhum. Tudo o que sentia era uma sensação embotada, como se tivesse se tornado um objeto inanimado. Ele parou de falar e contemplou a paisagem nevada.
Havia poucas pessoas na periferia. Um grupo de estudantes, que chegara depois que a polícia passou, podia ser visto parado em uma faixa de pedestres. Ele observava sem rumo enquanto eles apertavam o botão e esperavam o sinal verde, quando, por um momento, Alexei projetou Valery no garoto loiro mais alto entre eles. Foi algo que seu subconsciente fizera por conta própria.
*Queria poder ver o rosto dele só mais uma vez.*
Alexei teve um pensamento sem sentido. Em seguida, balançou a cabeça. O Alexei de agora não tinha nenhum lugar para onde quisesse ir, nem desejava desesperadamente escapar. Em vez disso…
— Eu te disse que não posso aceitar isso de braços cruzados. Tenho que me vingar.
Com essas palavras, sentiu Yuri olhando para ele. O olhar em sua bochecha era incômodo. Mesmo sem olhar, podia adivinhar grosso modo o que ele estava prestes a dizer.
— Você e eu vamos enfrentar todas aquelas pessoas?
Diante da expressão séria de Yuri, Alexei desatou a rir deliberadamente:
— Você me vê como um cara saído de Sin City?
Ele sabia muito bem que era um personagem secundário medíocre, que não era nem herói nem vilão, então não se atreveria a ter habilidades tão audaciosas. Seria um desperdício da vida pela qual lutara tanto para viver até agora, então Alexei não tinha intenção de jogar sua vida fora de forma insensata como uma mariposa na chama.
— Como eu disse, tenho uma carta de isenção. Não posso simplesmente jogar isso fora.
Na realidade, a situação estava mais próxima de uma aposta, mas não havia necessidade de aumentar as preocupações de Yuri contando-lhe tais coisas. Alexei preferia fornecer apenas as informações verdadeiramente necessárias e odiava estragar as coisas contando suposições incertas aos seus subordinados. Embora Yuri não fosse seu subordinado. Bom, ele ficaria irritado se soubesse. Mas Alexei sabia bem que não podia fazer nada contra ele.
— No fim das contas, os inimigos da família Winter e da polícia são o Igor Volkov. Como consequência natural, eles vão falar sobre uma delação premiada e, neste momento, tenho mais margem para barganhar do que você.
↫─☫ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Lᥙ꧑ᥲ Hᥲrtzᥣᥱr