Capítulo 00
0. Dormancy
Naquele mês de maio Rain Surf tinha onze anos e um caderno.
Não era um diário, embora ele o guardasse como se fosse. Era um caderno de campo: data à esquerda, observação à direita, e no fim de cada página um espaço em branco para o que ele ainda não conseguia explicar. Ali estavam anotados o dia em que uma borboleta azul pousou no dorso da sua mão e não fugiu, a espécie de que aquela borboleta se alimentava — Lupinus perennis, tremoço-selvagem, e mais nada além disso —, e a informação, copiada de um manual, de que já não restavam muitas colônias em Connecticut.
E estava anotado, em outubro de 2011, com uma letra que ele hoje achava feia: fiz um amigo.
Fazia dois anos que Rain procurava tremoço. Procurara na orla, no brejo atrás da propriedade, nas clareiras arenosas onde os livros diziam que a planta gostava de crescer. Não encontrara um pé sequer. Sem tremoço não haveria borboleta, e sem borboleta não haveria nada para escrever na página seguinte.
Naquela noite ele estava acordado às onze e quinze, o que era comum, e sozinho na casa exceto pelos empregados, o que também era. Já havia apagado a luz do quarto quando ouviu o som.
Toc.
Depois outra vez, mais tímido. Toc.
Rain abriu a janela. Lá embaixo, no gramado, de tênis e pijama, com uma lanterna enfiada no bolso e uma pedrinha ainda na mão, estava Sean Delight.
— Rain, sou eu — sussurrou ele, alto demais para um sussurro. — Se você puder, desce.
— Sean! — Rain se debruçou no parapeito. — O que você está fazendo acordado?
— Eu achei.
— Achou o quê?
— Tremoço-selvagem. Achei onde tem. — A lanterna balançou. — Se você quiser, a gente vai ver agora.
Rain inclinou a cabeça de lado. Depois desceu.
Ele nem chegou a fechar a janela. Esse detalhe ficaria, anos mais tarde, entre as poucas coisas de que ele teve certeza absoluta ao reconstruir aquela noite: a janela ficou aberta, e o vento entrou no quarto vazio até de manhã.
— Cheguei! — disse ele, na porta dos fundos. — Vamos.
— Vamos, corre.
Rain sabia o nome de tudo o que passava por eles e ia dizendo os nomes baixinho, como quem confere uma lista. Carvalho. Sumagre. Uma mariposa grande demais para a estação. O caminho descia na direção do mar e o ar foi ficando salgado do jeito de que ele gostava, aquele cheiro de maresia e pedra molhada que sempre lhe pareceu o cheiro de estar seguro.
O que ele não disse em voz alta foi que Sean corria à frente sem olhar para trás nenhuma vez, porque sabia que ele viria atrás. Rain achou aquilo extraordinário. Ninguém na vida dele havia jamais presumido que ele viria atrás.
— Você veio aqui sozinho? — perguntou.
— Umas vezes.
— À noite?
— É. — Sean deu de ombros sem parar de andar. — Você disse que precisava achar.
Rain não respondeu. Guardou a frase inteira, como guardava tudo, para examinar depois.
O caminho terminou numa clareira no alto das rochas, com o mar respirando lá embaixo. Sean parou, se virou e acendeu a lanterna. O facho passou pelo capim, tremeu e encontrou.
Havia dezenas deles. Talvez centenas. Hastes retas, mais altas que o joelho, cada uma com um cacho de flores azul-arroxeadas empilhadas como degraus, e as folhas abrindo-se em roda, do jeito exato das ilustrações, do jeito exato que ele conhecia de cor sem nunca ter visto de perto.
— Aah — fez Rain.
Foi só isso o que saiu. A voz ainda não tinha mudado; saiu fina e sem nenhuma dignidade, e ele não se importou.
— Gostou, Rain?
— Gostei muito, muito. — Ele se ajoelhou no capim e não ousou tocar em nada. — Obrigado, Sean.
Quando levantou os olhos, viu que Sean o observava com uma expressão que ele não sabia classificar. Depois Sean disse, baixo, quase para si mesmo:
— Se você sorri, eu também fico feliz.
E em seguida ficou vermelho, riu do próprio constrangimento e olhou para o chão.
Foi nesse instante que Rain fez a única coisa impulsiva dos seus primeiros onze anos de vida.
Ele se levantou e abraçou Sean. Sentiu o corpo do outro endurecer inteiro, do jeito que um animal pequeno endurece quando é pego, e teve medo de ter feito errado — mas Sean não se soltou. Ficou parado ali, com os braços caídos, o rosto quente, respirando de um jeito estranho.
Rain então encostou a boca na orelha dele e disse a coisa que vinha adiando havia dois anos, desde a bala de maçã, desde o primeiro bom-dia que ele não conseguira devolver.
— Eu gosto muito de você, Sean.
— Eu também… — A voz de Sean saiu embargada. — Eu também gosto muito.
Onze anos é uma idade curiosa. É jovem o bastante para não se saber nada e velha o bastante para se desconfiar de tudo.
Rain se afastou um pouco, olhou para ele e o beijou. Foi um beijo do tamanho de nada, leve como algodão-doce, tão de leve que quase não houve contato. Rain se lembraria dele pelo resto da vida como uma coisa boa, e essa seria uma das crueldades daquela noite: que a lembrança continuasse boa.
Sean abriu os olhos.
Rain viu a expressão dele mudar. Não foi raiva, nem nojo — ele procuraria por essas duas palavras durante anos e nenhuma das duas serviria. Foi outra coisa. Foi como se Sean tivesse ouvido alguém chamar seu nome de muito longe, de um lugar onde não havia mais ninguém.
Sean deu um passo para trás.
Atrás dele não havia chão.
Rain não gritou. Essa foi outra das coisas de que ele teve certeza: não gritou, não chamou, não fez nada durante um segundo inteiro, e esse segundo o acompanharia por dez anos.
Depois desceu.
Havia um caminho pela esquerda, mais longo, e ele não o pegou. Foi pela rocha. Escorregou nos primeiros dois metros e bateu o quadril, agarrou-se, escorregou de novo. As mãos abriram em algum ponto que ele não sentiu na hora. Quando chegou embaixo, o cheiro de ferro no ar era dele mesmo, e ele demorou a entender isso.
Sean estava de costas sobre a pedra plana, na altura da linha da maré. Estava consciente. Não conseguia se mexer.
— Desculpa — disse Rain. — Desculpa, Sean, desculpa. Foi minha culpa, eu errei, desculpa. Levanta, tá? Levanta. Sean.
Ele repetiu isso muitas vezes. Não se lembraria de quantas.
Em algum momento entendeu que precisava subir de volta e chamar alguém, e que para isso teria que soltar a mão dele. Levou um tempo absurdo para fazer isso. Subiu o paredão com os dedos abertos, caindo, voltando, procurando apoio com as mãos que já não fechavam direito. Cada vez que olhava para baixo, Sean estava de olhos abertos, observando-o.
E cada vez, Rain teve a impressão de que Sean tentava dizer alguma coisa. Talvez estivesse. Ele nunca perguntou.
A pele abaixo da escápula direita de Sean Delight foi suturada. O braço direito ficou imobilizado por semanas. O traumatismo craniano deixou uma única sequela, que os médicos classificaram como branda: ele não guardou nenhuma lembrança daquela noite. Nenhuma. Nem a clareira, nem a lanterna, nem o abraço.
Quando enfim o deixaram visitar, Rain entrou no quarto do hospital e Sean sorriu para ele com o rosto inchado e perguntou, com curiosidade sincera, o que tinha acontecido.
Rain disse que ele havia caído.
「05.19.2013.
Comecei a rezar pelo Sean. Mas Deus não vai atender o pedido de alguém como eu.
Se eu não tivesse dito que gostava dele. Se eu não tivesse beijado ele daquele jeito, sem perguntar. Ele não teria se assustado, não teria dado aquele passo para trás.
Machuquei o Sean por causa de um sentimento que só pensava em mim.
Juro que nunca mais, nunca mais vou deixar o Sean ver o que eu sinto. Enquanto ele não quiser, eu não me aproximo.
Então, Sean, por favor, melhora logo. E se der, passa a tua dor para mim. Eu levo no teu lugar, eu levo com gosto.
De agora em diante eu só vou escrever aqui que gosto de você.」
「05.20.2013.
Melhor anotar as coordenadas.
41.0820578334193, -73.58250369076293
Juro a mim mesmo que nunca vou esquecer este lugar.」
A semente do tremoço tem casca impermeável. Pode ficar quarenta anos enterrada sem apodrecer e sem germinar, viva o tempo inteiro, esperando alguma coisa que a abra. Os manuais chamam esse estado de dormência e fazem questão de esclarecer que não é morte.
É só espera. O que os manuais não dizem é quanto tempo dura.