↫─❀ Capítulo 08
Capítulo 8 Parte 1
— Então, você decidiu não fazer a cirurgia imediatamente?
— É. Meu pai assumiu uma postura tão firme. Eu não consegui me opor a ele.
Damian havia passado a noite anterior perdido em pensamentos após a revelação de seu pai. Ele refletiu sobre o fato de que o que parece certo no momento pode não ser, e ponderou sobre a história inesperada que seus pais compartilhavam.
— Sinto muito. Você teve todo aquele trabalho para marcar a cirurgia secreta, apenas para as coisas terminarem assim…
Theo acenou com a mão com desdém, dizendo para ele não se preocupar com isso.
— Na verdade, é até melhor. Eu estava preocupado com a segurança, já que estávamos correndo com isso. Mais importante, o que Vossa Graça planeja fazer?
— O que mais? Ele diz que vai me convencer. Mas minha mente não mudou. Casar só por causa de um filho? Eu nunca imaginei uma coisa dessas.
— Eu não acho que você deveria simplesmente traçar uma linha assim. Por que não aproveita a chance para sair em alguns encontros e ver que tipo de homem ele é? Vendo o quanto ele se preocupou com a sua saúde quando você veio ao hospital, está claro que ele tem sentimentos por você.
Mesmo que um homem que encontrei duas vezes tenha “sentimentos”, provavelmente é apenas um senso de responsabilidade e dever — algum tipo de obrigação moral.
Damian permaneceu indiferente às sugestões de Theo.
— Pensando bem, o mordomo não sabe sobre a gravidez, sabe?
— Não vou contar a ele. Eu não tenho intenção de manter este filho de qualquer maneira. Se aquele velho descobrisse agora, provavelmente teria um derrame. Tenho que esconder isso o maior tempo possível.
— Isso é verdade. — Theo assentiu, então hesitou quando um pensamento lhe ocorreu. — Mas os enjoos matinais não vão dificultar as coisas? Sinto que você vai ser pego…
— Apenas diga a ele que é um problema estomacal. Diga que minha digestão está ruim e é por isso que não consigo comer.
Tendo recrutado Theo para a farsa contra o mordomo, Damian ainda se sentia inquieto, murmurando consigo mesmo se não haveria uma desculpa melhor.
Theo sabia que enjoos matinais daquela gravidade não poderiam ser escondidos por muito tempo, mas não teve escolha senão assentir. Não havia outra maneira por enquanto.
— Bem, nós vamos dar um jeito. Deixe o mordomo comigo e tente apenas manter a mente tranquila. Eu trouxe alguns suplementos e aquelas balas de limão que pessoas grávidas gostam, então coma isso sempre que seu estômago parecer revirado.
Depois de tirar os itens que havia preparado e se levantar, Theo ofereceu um último aviso antes de sair do quarto.
— Nada de exercícios físicos intensos. Entendido? Especialmente andar a cavalo. Absolutamente não.
Depois de se despedir de Theo com a promessa de obedecer, Damian desabou em sua cama. Por enquanto, ele não tinha escolha senão seguir os desejos de seu pai. Ele não achava que o tempo mudaria seu coração, mas não havia o que fazer. Ele simplesmente evitaria lidar com Claude.
Damian adormeceu, prometendo não dar ao homem sequer uma fresta de abertura.
Na época em que os boatos sobre a saúde de Damian começaram a desaparecer, um volume avassalador de presentes começou a chegar ao Chalé Roseten diariamente.
Claro, não eram apenas presentes que chegavam.
— O Príncipe Herdeiro não diz nada sobre o senhor negligenciar seus deveres dessa forma, Vossa Graça?
— Negligenciar meu trabalho? Estou garantindo que isso não interfira nos meus deveres. Você está por acaso preocupado que eu leve uma bronca de Sua Alteza?
— Não estou preocupado; estou apenas perplexo.
— Faz-me sentir bem ver você se preocupar comigo.
— Eu disse que não estou me preocupando!
— Em vez disso, por que não abre o presente? Trouxe algo que acho que você vai gostar parcialmente desta vez.
Damian olhou para a grande caixa de presente com olhos exaustos. Nos últimos dias, Claude vinha tratando o Chalé Roseten como sua própria casa, chegando com tantos presentes que os funcionários da propriedade precisavam ser mobilizados para carregá-los.
O inventário era aleatório. Havia tantas cestas de flores que não restava lugar para colocá-las, obras de arte dos pintores favoritos de Damian — não faço ideia de como ele descobriu isso —, joias caras e, toda vez que vinha, trazia pequenos doces para o Damian que não conseguia comer refeições adequadas.
Hoje, a julgar pela fragrância doce que flutuava no ar, ele trouxera lanches novamente.
O que era?
Seus olhos continuavam se desviando em direção à origem do aroma adocicado e apetitoso que cutucava suavemente seu nariz.
— O senhor não acha que a ideia de comprar favores com presentes é um pouco ultrapassada?
— Desta vez, tenho certeza de que será do seu agrado.
— Não importa o que traga, será difícil mudar minha mente. Se eu precisar de algo, posso comprar eu mesmo.
Apesar de suas palavras, todo o foco de Damian estava preso no pequeno saco de papel ao lado da grande caixa de presente. O aroma doce que estimulava seu olfato o fez engolir a saliva involuntariamente.
— Por que não verifica você mesmo em vez de apenas encarar?
Damian sentou-se como se cedesse ao gesto do homem. Ele nem sequer olhou para a caixa de presente lindamente embrulhada, com os olhos fixos no saco de papel ao lado dela.
Por alguma razão, sentiu que aquilo seria delicioso. Seu apetite foi despertado pela primeira vez em uma eternidade. Fazia tanto tempo que não comia nada com gosto que a lembrança da sensação era vaga.
O que havia dentro? O cheiro parecia mais profundo e xaroposo do que o de um simples biscoito. Seria calda? Espere, havia outro aroma também…
O olhar de Damian estava fixo no saco. Sua boca começou a salivar.
Claude, achando curioso o silêncio repentino de Damian, notou para onde ele estava olhando e pegou o saco de papel. Os olhos de Damian acompanharam o movimento de sua mão. Era um forte contraste com sua reação habitual — a maneira como agia com indiferença em relação aos presentes e se gabava de que poderia comprar tais coisas com seu próprio dinheiro.
— Está curioso para saber o que é isso?
Seus olhos violetas brilharam como estrelas por um momento antes de ele se conter e recuperar a compostura. Mas não importa o quanto tentasse parecer indiferente, ele já havia sido pego curioso sobre o conteúdo do saco.
— Não? Eu? Não estou nem um pouco curioso.
Damian negou imediatamente, fingindo indiferença. Claude conteve o impulso de rir e falou.
— Ah, é mesmo? Já que você nem estava olhando para o presente e estava apenas encarando isso, pensei que estivesse interessado.
— O senhor está enganado. Só chamou minha atenção por um segundo porque não é a coisa habitual que o senhor traz.
— Suponho que estivesse curioso porque não está embrulhado. Bem, já que você não está interessado… acho que vou comer eu mesmo. Não tomei café da manhã antes de sair, sabe.
Claude colocou o saco de papel na sua frente e o abriu.
Dentro do saco havia Kringles cobertos com calda de açúcar. Um tipo de massa folhada, os Kringles são um doce feito assando uma massa que leva manteiga e creme de leite azedo com vários recheios — uma sobremesa comum nos lares de Ronen.
— Ouvi dizer que os Kringles deste lugar são bastante famosos, então estava ansioso por eles.
Claude nem se deu ao trabalho de usar um garfo, pegando um Kringle com as mãos. As camadas da massa estavam brilhantes, claramente encharcadas de calda.
Os olhos de Damian se arregalaram, e sua garganta se moveu enquanto ele engolia em seco involuntariamente.
— A fragrância é certamente maravilhosa. Devem ter usado manteiga de alta qualidade; o aroma amanteigado é excelente.
Como ele quebrava a massa brilhante ao meio, o recheio azedinho de compota de laranja transbordou do centro.
O tronco de Damian inclinou-se para frente centímetro por centímetro. Seus lábios firmemente fechados se abriram de forma convidativa. Cada vez que engolia, sua língua rosada piscava quase imperceptivelmente atrás dos dentes.
Foi Claude quem se viu em uma posição difícil após começar aquilo como uma piada. Cada vez que os lábios de Damian se contraíam, Claude sentia um desejo ardente de provar aqueles lábios, que pareciam muito mais doces do que o Kringle em sua mão.
O tronco de Damian agora estava perto o suficiente para quase tocar Claude. Como estava tão focado na massa, ele não percebeu os olhos do homem escurecerem.
Claude suprimiu a sensação de aperto em seu abdômen inferior e levou o Kringle aos lábios que estavam bem na sua frente.
Damian abriu os lábios como se estivesse possuído e deu uma mordida no Kringle. O sabor rico de manteiga atingiu seus sentidos primeiro, seguido imediatamente pelo sabor doce e encorpado da compota de laranja que despertou seu paladar.
Os olhos de Damian se arregalaram. O sabor doce e espesso que enchia sua boca fazia sua língua parecer que estava derretendo.
Ele terminou um em um instante e aceitou um segundo pedaço de Claude. Ele nem percebeu que estava aceitando sem pensar a comida que o homem lhe dava na boca. Ele não comia nada tão delicioso desde que os enjoos matinais haviam começado.
Por que isso é tão bom?
Não era nem algo que ele costumava procurar, mas estava incrivelmente saboroso. O aroma profundo de manteiga e a laranja azedinha eram uma combinação perfeita. O sabor parecia se agarrar à sua língua.
Os Kringles que Claude trouxera desapareceram em pouco tempo. Saboreando a massa doce, a mandíbula de Damian movia-se incessantemente. Ele até usou a língua para lamber a calda doce das pontas dos dedos do homem quando estes tocaram seus lábios.
Cada vez que aquela língua morna e macia lambia a calda restante de seus dedos, Claude cerrava a mandíbula. O desejo que ele mal conseguira controlar incendiou-se mais uma vez.
Isso é perigoso…
Claude observou o Damian de olhos semifechados com um olhar que parecia pronto para devorá-lo, mas acabou conseguindo afastar a mão.
— Desculpe. Esse foi o último. Se eu soubesse, teria comprado mais.
Ao som da voz divertida do homem, Damian voltou a si.
— Isso…
O que eu acabei de fazer? Pensar que ele havia aceitado lanches do homem como uma criança pequena!
A vergonha fez sua expressão endurecer instantaneamente. No entanto, ao contrário de seu olhar gélido, seu pescoço e os lóbulos das orelhas estavam corados de um carmesim profundo, fazendo-o parecer longe de estar zangado.
— Ouvi dizer que você não estava comendo bem, mas vejo que lidou muito bem com estes.
— Não lidei. Eles só estavam… bem ali. Mais importante, o que é isso?
Lembrando-se de suas próprias ações, Damian apressou-se em mudar de assunto. Logo diante dele, cometer um ato tão embaraçoso!
— Pois bem, agora que seu estômago está cheio, por que não abre o presente?
Claude limpou calmamente as mãos com um lenço e empurrou a caixa de presente em direção a ele.
— Eu olharei o presente sozinho. Além disso, o senhor não está ocupado?
— Tive o trabalho de trazê-lo, então por favor. Por mim?
Sua expressão era pacífica, fazendo com que o medo de Damian de ser provocado por seu comportamento parecesse infundado. Não havia sinal de zombaria no rosto do homem. Como Claude estava tentando agir como se aquilo não tivesse acontecido, não havia necessidade de Damian remoer o assunto. Suprimindo o desejo de cavar um buraco para se esconder, Damian desembrulhou o presente.
No momento em que a caixa foi aberta, o cheiro forte de couro chegou até ele, fazendo Damian erguer uma sobrancelha. Dentro havia uma sela de couro de vaca.
— Isso é…?
— Eu queria dar a você antes, mas levou tempo para ser fabricada. Foi feita por um mestre artesão, então deve ser bastante confortável de usar.
— Por que o senhor traria algo assim quando eu nem posso usar agora?
Apesar de seu tom resmungão, sua expressão intrigada sugeria que ele havia gostado bastante do presente. O acabamento era limpo, e a costura estava perfeitamente uniforme, sem um único erro. O couro macio cobria toda a sela, e a parte inferior era reforçada com várias camadas de amortecimento para o conforto do cavaleiro.
Tendo cavalgado por anos, Damian soube num relance que aquela era uma peça de equipamento superior. Qualidade daquele nível era sempre feita à mão e não era algo que pudesse ser facilmente comprado, mesmo com dinheiro. Como ele conseguiu isso?
— E então? Gostou?
— É… um item decente, suponho.
Com uma expressão relutante, Damian ofereceu o elogio a contragosto.
— Você gostou, então. Ótimo.
Tendo verificado a reação de Damian, Claude levantou-se. Damian fez o mesmo enquanto o homem checava as horas.
— O senhor está me acompanhando até a saída? Essa é uma vitória inesperada.
— O senhor está me acusando de sempre apenas mandá-lo embora?
— De forma alguma. Só estou dizendo que estou muito feliz.
Claude deu um sorriso de canto e uma piscadela.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Othello