Capítulo 1 - Lágrimas de Crocodilo (1)
Eles chamaram aquela manhã de sábado de “Lágrimas de Crocodilo”.
Durante toda a semana, foram obrigados a realizar tarefas ininterruptas, dia e noite, e deviam permanecer em alerta máximo mesmo fora do horário oficial de treinamento. Não tiveram sequer uma folga durante o fim de semana. Normalmente, tinham liberdade para sair da noite de sexta-feira até a noite de domingo, mas agora não apenas estavam proibidos de sair, como também não podiam dar um passo fora da área designada sem permissão. Além disso, havia outra sessão de treinamento marcada para o sábado à tarde.
Pelo menos tinham permissão para descansar e recarregar as energias nas manhãs de sábado, mas, depois que ficaram exaustos na noite de sexta, seus instrutores disseram: “— Descansem de manhã e reúnam-se novamente à tarde.” Eles apenas cerraram os dentes e aceitaram o destino.
— Se os instrutores realmente nos obrigarem a treinar à tarde, devemos fingir que erramos durante o treino e depois estrangulá-los até a morte?
— Para estrangular um Instrutor, você também precisaria enfrentar o Instrutor Assistente atrás dele… e lidar com apenas um dos dois já é difícil o suficiente. Tem certeza de que consegue lidar com os dois ao mesmo tempo?
— É verdade. Que tal formarmos uma dupla? Eu cuido do Instrutor e você do Instrutor Assistente.
— Parece justo. Mas qual deles devemos escolher primeiro?
— O europeu, é claro!
Os homens, espalhados sobre colchonetes da academia, falavam bobagens para passar o tempo em vez de se exercitarem. A reunião ainda estava a duas horas de começar.
— Duas horas até fazermos as malas… uma hora até fazermos as malas… — gemiam, sempre que olhavam para o relógio.
No meio daquela atmosfera, Jeong Taeui estava encolhido, abraçando os joelhos. Teria preferido estar confortavelmente deitado em seu quarto, lendo um livro ou resolvendo palavras cruzadas, um hábito que havia adquirido enquanto morava com Maurer, em vez de ficar sentado ali. Mas como Tou o arrastou até o local, não teve escolha senão permanecer.
Taeui olhou para os membros da filial europeia, sentados a uma curta distância, e se perguntou se falavam sobre a mesma coisa. Suspirando, Yuan Ho, deitado ao lado dele, perguntou algo. Jeong Taeui pensou por um momento e então respondeu seriamente.
— Me ocorreu agora. Quando as pessoas falam sobre a UNHRDO, os de fora ainda a veem como uma organização que reúne talentos extraordinários. Mas, olhando pra esses caras como membros da UNHRDO… Por exemplo, o Carlo ali, coçando a virilha; o Tou, todo nervoso como um viciado em abstinência porque ficou sem cigarros desde hoje de manhã; e o Qing, que anda por aí todas as noites com uma foto da Anita Mui Yim-fong*, chorando e perguntando por que ela o deixou sozinho… Na Coreia, chamariam esse tipo de gente de “fãs malucos”. Se os de fora soubessem como é aqui dentro de verdade, morreriam de desgosto.
— É… ouvindo você dizer isso, parece que a nossa filial está mesmo em má forma.
— Mas fico um pouco aliviado em saber que o outro lado também não está muito melhor.
Taeui assentiu, olhando para o grupo de membros europeus reunidos do outro lado da parede. Eles não eram muito melhores em disfarçar as próprias manias. Um deles estava jogando um jogo de “quem se exibe mais”, outro tinha acabado de acordar depois de levar um chute de um desses “exibidos” e, irritado, acertara um golpe em alguém que não tinha nada a ver com isso. Em um canto, havia ainda alguém distraído mexendo num baralho com estampas florais, nem mesmo um baralho comum.
De repente, Taeui lembrou do que o tio havia dito: “Depois que saísse dali, não precisaria se preocupar em arrumar emprego. Em vez disso, teria de pensar em qual empresa escolher.” Que organização enganosa… Taeui olhou para eles, sem expressão, e desviou o olhar.
Mas, pensando bem, aquelas pessoas ainda eram úteis. Podiam ser irritantes às vezes, mas, do ponto de vista de um empregador, se faziam o trabalho sem causar problemas, era um sucesso. O verdadeiro problema eram aqueles com uma personalidade incontrolável e terrível.
Por exemplo…
Taeui estava prestes a pensar em alguém, mas sacudiu a cabeça rapidamente. Pensar em gente assim nunca trazia nada de bom. Ficar remoendo isso só o deixaria ainda mais para baixo.
— A pausa está quase acabando. Tá quase na hora de sair e voltar a correr. Em momentos como este, fumar um cigarro antes de ir melhora muito a vida.
Tou sentou-se ao lado de Jeong Taeui, ansioso, mascando um palito de fósforo em vez de fumar. Taeui sentiu pena dele.
— Mascar um palito de fósforo dá gosto de cigarro?
— O que você acha? Meu Deus… só um cigarro, não tô pedindo muito. Até uma bituca serve. Só uma tragada.
Taeui lembrou-se do cigarro que tinha pego emprestado de Tou da última vez, mas acabou não fumando e o jogou fora. Sentiu que apanharia até a morte se dissesse isso agora. A culpa o atingiu em cheio.
— Será que algum desses europeus tem um cigarro por aí? Se sentir cheiro de fumaça em alguém durante o treino, me avisa. Eu pego o sujeito e chantageio ele por um cigarro.
Taeui presenciou o método de Tou para chantagear e intimidar as pessoas naquele lugar. Encarou Tou com os olhos arregalados antes de desviar o olhar. Talvez comprasse alguns cigarros para ele mais tarde.
Jeong Taeui coçou a cabeça e conferiu o relógio. Já era quase 13h. Era hora de arrumar as coisas. Alongou o pescoço de um lado para o outro para relaxar e perguntou:
— Então, e se eu fingisse errar durante o treino e acertasse o instrutor? Isso pode?
— Hum, é praticamente vale-tudo. Mas, para você, é a primeira vez. As regras são simples: você bate em quem conseguir pegar, e, se for pego, apanha. Se não quiser apanhar, é melhor fugir sempre que puder. O treino é dividido em duas etapas: um grupo persegue, enquanto o outro é perseguido. O grupo que está sendo perseguido só pode se defender. Contra-atacar só é permitido para escapar. É só isso. Mas, justamente por as regras serem tão simples, acidentes acontecem o tempo todo. Na verdade, permitir um contra-ataque para escapar também significa que você pode acertar quem está te perseguindo. Isso facilmente vira um caos.
— E daí? Não posso me esconder num canto até o tempo acabar?
— Se te pegarem escondido, eles vão cair em cima de você com certeza. É melhor correr. Se você conseguir correr, pode tentar se esconder, mas não há muitos lugares pra isso.
Taeui olhou para Tou, surpreso. Ele não tinha certeza se aquilo podia mesmo ser chamado de treinamento, mas Tou e os outros pareciam levar aquilo bem a sério.
— Não subestime isso. É melhor tomar cuidado. Se levar isso na brincadeira, vai acabar se metendo em encrenca — murmurou Carlo, deitado ali perto. Jeong Taeui lançou-lhe um olhar.
Ele parecia ter entendido o que Carlo queria dizer. Quanto mais simples as regras, mais perigoso o jogo. Aquelas regras soavam estranhamente familiares. Taeui franziu a testa, tentando se lembrar de onde já tinha ouvido aquilo antes.
Depois de pensar por um bom tempo, porém, desistiu de vasculhar a memória e se deitou.
— Tenho que sair daqui nos próximos seis meses. Senão, vou acabar enlouquecendo de verdade.
Taeui suspirou e murmurou para si mesmo. Aquilo era o mais assustador naquela situação: por mais estranho que o ambiente fosse, as pessoas acabavam se acostumando com o tempo. Isso acontecia sem que percebessem que estavam sendo assimiladas aos poucos.
Tudo tinha seus prós e contras, e aquele lugar certamente tinha suas vantagens, mas também muitas desvantagens.
— Parece que você ainda não entendeu muito bem, então deixa eu explicar — disse Tou ao lado dele. — O vídeo que assistimos durante a análise da luta, antes de começarmos o treino em grupo, era uma compilação editada das nossas sessões de treino de fim de semana.
Taeui murmurou, perguntando qual vídeo era… e então seu rosto ficou congelado.
Isso mesmo, era aquele vídeo. Manchas de sangue espalhadas por toda parte. Aquelas cores vivas e intensas eram algo que ele não conseguia esquecer.
— Então esse “treinamento” basicamente significa que podemos matar pessoas com facilidade? Chamar isso de treinamento é uma piada.
Taeui estalou a língua e murmurou, enquanto Tou dava de ombros.
— Não exatamente. Isso aconteceu apenas porque ele era louco. Na realidade, não importa o quanto alguém odeie outra pessoa, ninguém mataria alguém deliberadamente sem um bom motivo. Às vezes, acidentes acontecem e pessoas morrem, mas é raro alguém matar de propósito. Basicamente, a chave é evitar encontros com pessoas loucas.
Ouvindo as palavras de Tou, Taeui de alguma forma entendeu. Na realidade, nem todos seriam capazes de considerar matar alguém, mesmo que odiassem profundamente essa pessoa. Os instintos humanos naturalmente lembravam das terríveis consequências que vinham junto com um assassinato.
… Mas, pensando bem, que tipo de ódio aquele homem havia acumulado para que tantas pessoas estivessem dispostas a arriscar a própria vida para matá-lo?
Taeui sentiu um gosto amargo na boca. Na vida, às vezes existem pessoas que queremos matar a qualquer custo. Uma vida sem essas pessoas seria uma vida feliz.
— Ei, está na hora. Precisamos ir.
— Ah, certo. Espero que nos encontremos novamente, de verdade.
Quando Carlo se levantou e começou a falar, os outros homens também se levantaram e responderam.
Taeui realmente não queria se levantar, só de imaginar o inferno que o esperava lá fora. No entanto, Tou agarrou seu pulso e o puxou para cima, sem lhe dar escolha a não ser ficar de pé.
Jeong Taeui abriu novamente a mensagem em seu pager. Era a mensagem que ele havia recebido naquela manhã.
[Tome cuidado. Não se preocupe comigo.]
Depois de voltar para o quarto na noite anterior, não conseguiu dormir e acabou ligando para Xinlu depois da meia-noite. Tinha receio de acordá-lo, mas, felizmente, Xinlu atendeu com seu tom habitual.
Francamente, ele não tinha nada de especial para dizer. Depois da breve, mas perturbadora conversa com Ilay, ele estava inquieto. Ainda assim, não conseguia contar tudo a Xinlu, muito menos dizer: “Mesmo que você o encontre, não dê atenção a ele. Foque só em mim.”
Afinal, Jeong Taeui nunca havia dito nada a Xinlu. Nunca lhe dissera que gostava dele, nem nada do tipo.
Tou já havia zombado dele, dizendo que suas ações eram tão óbvias que chegavam a ser constrangedoras de assistir. Jeong Taeui imaginava que Xinlu, tão perceptivo quanto era, provavelmente já tivesse notado. Mesmo assim, ele nunca havia comentado nada.
Jeong Taeui hesitou enquanto segurava o telefone.
Será que devia contar agora? Dizer que gostava dele? Mas não parecia certo fazer isso por telefone. Além disso, confessar logo depois de ver Ilay faria parecer que estava agindo por impulso, e não por vontade própria.
[— Mas essa pessoa é… um conhecido seu?]
Jeong Taeui murmurava algo indistinto quando Xinlu, do outro lado da linha, perguntou de repente sobre Ilay. Ele havia evitado mencionar o nome dele de propósito, então ficou um pouco surpreso, mas respondeu com sinceridade:
[— Não, não é. Mesmo que você o encontre, é melhor não se aproximar dele. Ele é perigoso.]
Assim, Taeui acabou dando um aviso indireto, dizendo que, se Xinlu encontrasse Ilay ou o visse por perto, deveria evitar ser notado. No entanto, Xinlu parecia estar apenas ouvindo pela metade, como se sua mente estivesse em outro lugar.
Taeui sentiu um leve incômodo. Sabia bem de onde aquilo vinha. Embora não quisesse admitir, era o medo de perder Xinlu, o medo de que ele o deixasse.
Mesmo depois de desligar, aquela leve inquietação não desapareceu. Jeong Taeui olhou para o telefone com uma expressão indecifrável antes de se enroscar sob o cobertor.
Acabou adormecendo profundamente e, ao acordar, encontrou a mensagem que havia recebido durante a madrugada:
[Tome Cuidado.]
Aquela frase curta bastou para aliviar Taeui. Ao que parecia, Xinlu estava preocupado com ele, sabendo que o treinamento começaria naquela tarde. Às vezes, saber que alguém se importa com você pode ser um conforto maior do que se imagina.
Taeui enviou uma breve mensagem de agradecimento e guardou o pager no bolso. Depois disso, sempre que tinha um momento livre, tirava-o do bolso e relia a mensagem, sentindo-se reconfortado, embora, na prática, aquilo não adiantasse muita coisa.
— Droga… Por que eles continuam me atacando como cães raivosos, fazendo com que eu me sinta como uma presa? — resmungou.
Taeui resmungou enquanto apertava os cadarços frouxos. Mais cedo, os sapatos não paravam de desamarrar, então ele os tirou e tornou a amarrá-los. Mas, ao se agachar no corredor para isso, um integrante da filial se aproximou, confundiu-o com um membro da filial europeia e gritou: “—Ah! Te achei!”
Em seguida, tentou acertá-lo, mas Taeui chutou-lhe o tornozelo.
Depois que o homem caiu no chão, percebeu o engano, pediu desculpas e sumiu, mas incidentes parecidos aconteceram mais algumas vezes.
— Eles são todos loucos… Será que pisei num planeta diferente sem saber? — murmurou Jeong Taeui, frustrado. Ao longe, ecoavam gritos constantes como “Te achei!” e “Para, seu desgraçado!”
Mesmo sendo todos do mesmo time, ver aquele comportamento fez Taeui pensar que realmente eram todos insanos. Sentia‑se caçado e não conseguia entender o propósito daquele “treinamento”.
— Isso não é um treino físico; é mais um treino pra destruir o caráter de alguém.
Jeong Taeui girou o bastão de borracha na mão. Mesmo sendo de borracha, ser atingido por ele doía pra caramba. Então, caminhou devagar. Os papéis se inverteriam dali a uma hora, então achou melhor poupar energia para a próxima rodada. Embora não tivesse intenção de atacar ninguém com o bastão, não havia garantia de que os outros o deixariam em paz.
— Acho que vou ter que correr o mais rápido que puder daqui a uma hora… Será que existe algum lugar onde eu possa me esconder?
Taeui já circulava pelo prédio da filial havia algum tempo. Como a filial asiática estava no papel de perseguidora naquele momento, os papéis se inverteriam em breve, então ele procurava possíveis esconderijos.
No entanto, não encontrou nenhum local adequado. Era possível circular por praticamente todo o prédio, mas não era permitido entrar nas salas de comando nem em outros ambientes fechados. Restava apenas correr sem parar pelos corredores. A única exceção eram espaços com duas ou mais portas, como a grande sala de conferências ou a sala de treinamento de artes marciais.
Grandes áreas com mais de duas portas estavam sempre escancaradas, tornando impossível esconder‑se, e nos corredores não era diferente. Eles eram tão complexos que os novatos podiam se desorientar facilmente, como se estivessem perdidos em um labirinto. Todos corriam em estado de alerta, pois qualquer esquina podia reservar um encontro com um inimigo ou com um colega.
— Droga. Por que existe um prédio de sete andares e 2.000 metros quadrados para só cem pessoas? Pelo visto, é justamente para esses treinos malucos.
— Que desperdício de verba.
Taeui resmungou enquanto percorria todos os andares, do sexto subsolo até os andares superiores, em busca de um lugar pra se esconder. (O sétimo andar do subsolo era uma área restrita, e ninguém podia entrar lá, exceto quem tivesse cometido uma infração grave às regras e estivesse sendo punido.)
Apesar de o prédio ser vasto e complexo, não havia um único bom esconderijo depois de estabelecida a regra de que ninguém poderia entrar nas salas fechadas.
— Talvez eu consiga arrancar uma placa do teto e me enfiar lá em cima. Mas, desse jeito, vou acabar perdendo tempo. Tsk. Se eu não correr pela minha vida na próxima hora, vou apanhar até morrer. Mesmo que eu diga que não vou revidar… não vai adiantar.
Taeui pensou que, depois de passar uma hora sendo perseguido e espancado, poderia acabar pegando um bastão e sair correndo atrás deles para se vingar quando os papéis se invertessem. Ele continuou subindo as escadas.
Começou pelo sexto subsolo, onde ficavam os alojamentos do pessoal. Depois subiu ao quinto subsolo, onde ficavam as áreas de descanso durante os intervalos, e, de lá, seguiu para o quarto subsolo, que estava isolado por uma placa: [Proibida a Entrada — Somente Pessoal Autorizado]. Contornou essa área e continuou até o terceiro e o segundo subsolos, onde normalmente eram realizadas as atividades oficiais. Em seguida, passou pelo primeiro subsolo, onde trabalhavam os supervisores e gerentes. Por fim, chegou ao térreo, sob um telhado velho e caindo aos pedaços.
Na verdade, aquilo não era uma simples perseguição, e sim um vale‑tudo em uma área enorme. A única diferença era a ordem dos ataques; pouco importava quem atacava primeiro. No fim das contas, todo ataque era revidado, dando a impressão de uma briga completamente sem regras.
— Hum, não existe um jeito de lidar com isso. O tempo vai passar voando e eu não vou conseguir fazer nada… Não tem outro jeito além de continuar correndo.
Taeui suspirou e entrou no banheiro, preparando‑se para a inversão de papéis. Às vezes, alguns tolos se escondiam no banheiro, e aquilo frequentemente acabava em uma cena de violência. O banheiro em que entrou parecia já ter passado por uma dessas situações: alguns azulejos da parede estavam estilhaçados. Consertar o prédio certamente sairia caro depois.
Havia dois ou três homens lá dentro. Eram da filial asiática, embora não fossem do grupo de Taeui. Eles não conversavam entre si, mas ele reconhecia seus rostos. Quando abriu a porta, os homens lhe lançaram um olhar desconfiado; ao perceberem que ele era da mesma filial, relaxaram e continuaram conversando.
— …Tem que ser hoje.
— Vou empurrá‑lo lá para dentro, custe o que custar, e acabar com ele de uma vez.
Cenas como aquela estavam por toda parte. Não era exatamente um bando de garças, mas era raro ver tantos corvos reunidos em um só lugar. Pelo visto, muitos já tinham enlouquecido por não conseguirem capturar suas presas.
Taeui detestava ser arrastado pela atmosfera da multidão e perder a própria razão. Não gostava da ideia de seguir cegamente aqueles que gritavam mais alto, sem parar para pensar por conta própria.
Mas então mudou de ideia. Não podia julgar os outros com tanta facilidade. Também não podia afirmar que nenhum deles tivesse perdido um amigo próximo ou visto alguém ser mutilado pelos inimigos. Taeui não negava que alguns rancores tinham motivos legítimos. E tampouco tinha o direito de posar como um homem justo.
Lembrou‑se da raiva que reprimira por anos e que explodira de uma só vez quando golpeou o tenente Kim. Naquele momento, havia perdido completamente a razão e atacado sem qualquer misericórdia. Olhando para trás, agradecia por não ter matado ninguém.
Perguntou-se o que aquele desgraçado estaria fazendo agora. Afinal, aquele homem era seu colega. Fazia tempo que não o via, e isso despertou um pouco de curiosidade. Talvez até sentisse um pouco de pena… Mas, se o encontrasse de novo, certamente voltaria a odiá-lo ainda mais.
Taeui sentou‑se no vaso sanitário. Não era porque precisava usá-lo; só queria descansar um pouco. Poderia ter se sentado no sofá do sexto subsolo, mas lá teria que lidar com gente correndo de um lado para o outro e agitando bastões, além do risco de acabar sendo arrastado para uma daquelas brigas.
— Se eu puder vê‑lo sofrer, já terá valido a pena. Não… Mesmo que eu o veja, isso não basta. Quero vê‑lo gritar de dor. Quero ver a expressão no rosto dele enquanto suporta aquilo. Quero testemunhar tudo com os meus próprios olhos.
— Ele vive com aquela expressão fria e impassível, nunca demonstra nada diferente. Quero ver se realmente corre sangue debaixo daquela máscara. Aquele maldito europeu.
Taeui ainda ouvia os homens do lado de fora. Eles não tinham ido embora. Mesmo sem querer escutar, acabou ouvindo a conversa. Como eles sabiam que ele estava ali e continuavam falando normalmente, não parecia que estivesse espionando.
Mais uma vez, Taeui percebeu a profunda tensão entre as filiais asiática e europeia.
O desejo de ver alguém sofrer a ponto de arriscar a própria vida era um sentimento que só podia nascer de um ódio muito profundo. Ali, ele já testemunhara muitos dos lados mais sombrios da humanidade.
Taeui assentiu em silêncio. Já tinha visto muita sujeira no exército, mas aquele lugar não era menos cruel. Ele queria paz, mas qual seria o destino de uma garça branca como ele num lugar onde os corvos mandavam…?
Que tipo de pessoa desperta um ódio tão profundo nos outros?
— Viu? Ele nem pestanejou quando ficou coberto de sangue dos pés à cabeça. Que maníaco.
— Pra ser sincero, ele me assusta. Se matasse por prazer, eu diria que era louco, mas não é isso. Ele mata com a mesma expressão de uma pessoa comum. Não é humano.
A voz grave e sombria de um dos homens ecoou pelo banheiro, deixando o ambiente ainda mais gelado. Era como se o medo que ele sentia tivesse se espalhado pelos demais.
Taeui suspirou e ergueu os olhos para o teto. Aquilo fazia sentido. E ele não esperava que fizesse tanto sentido assim. Sim, se duas pessoas chegavam a se odiar naquele nível, aquilo realmente era um desastre.
Alguém para quem matar era tão comum quanto dormir ou respirar.
Ilay Riegrow. O homem que todos chamavam de louco.
— Mas isso é mesmo uma boa ideia? Quer dizer, se você usar uma bomba cluster*, a sala de artes marciais inteira vai ser destruída!
— Se não fizermos isso, vai ser difícil matá‑lo. Além disso, não há onde ele possa se esconder na sala de artes marciais. É o único lugar onde podemos fazer isso. Matá‑lo.
— Nem precisa se preocupar tanto. Destruir uma sala de artes marciais não é grande coisa. Além disso, o Kipper Han disse que vai nos proteger.
A conversa cessou imediatamente. O último a falar aparentemente percebeu a besteira que tinha acabado de dizer e se calou. Os outros também ficaram em silêncio, trocando olhares cautelosos.
Taeui encostou a cabeça na parede. Tinha acabado de ouvir algo preocupante.
Provavelmente não era um segredo absoluto, já que não o haviam arrastado para fora do banheiro. Ainda assim, não era bom ter escutado aquilo.
Taeui murmurou baixinho para si mesmo — não alto o bastante para que os homens do lado de fora o ouvissem. Seus lábios pálidos estavam gelados, talvez ainda mais por causa dos dedos frios que os tocavam.
Os homens do lado de fora pareciam querer continuar a conversa. Taeui decidiu que a melhor coisa a fazer naquele momento era sair dali antes de ouvir mais alguma coisa que não devia.
Notas:
• Anita Mui Yim-fong: Cantora e atriz de Hong Kong, considerada uma das maiores artistas do Cantopop. Teve contribuições significativas para a música e o cinema de Hong Kong, recebendo diversos prêmios e honrarias ao longo da carreira.
• Bombas cluster: Também conhecidas como bombas de fragmentação, são armas que liberam diversas pequenas submunições ao serem lançadas.
Milk & Ink Scan
Traduzido e revisado por Mandy Ink.
Até o próximo capítulo!