Capítulo 145
Lotan sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Era como se Cesare já soubesse de tudo e estivesse apenas pedindo confirmação.
— Não fique tão tenso, Lotan.
Cesare falou calmamente, pegando um cigarro e colocando-o entre os lábios. Lotan se moveu para acendê-lo, mas Cesare fez um gesto dispensando a ajuda e acendeu um fósforo ele mesmo. Depois de acender o cigarro, jogou o fósforo ainda em chamas sobre o altar.
— Michelle não disse nada, nem coloquei qualquer vigilância sobre vocês.
— …
— Eileen tende a confiar em vocês, cavaleiros, não é? Especialmente em Michelle, ela provavelmente quis confirmar suas suspeitas, já que Michelle foi quem puxou o gatilho desta vez.
Cesare concluiu que Eileen havia procurado Michelle em busca de ajuda, o que o levou a questionar Lotan.
O calor do altar em chamas lambia a pele de Lotan, mas ele mal sentia o calor. Seu silêncio se prolongou, pesado de inquietação.
Cesare enfiou uma das mãos no bolso, segurando o cigarro com a outra enquanto continuava a falar:
— Então, minha suposição estava correta?
— … Vossa Graça.
— Eileen quer saber por que estou fazendo tudo isso, não é?
— Sim, isso mesmo.
Cesare soltou um breve som de reconhecimento, exalando uma baforada de fumaça. O peso opressor no peito de Lotan o fez engolir em seco. Em vez de dar a resposta que Cesare queria, Lotan fez sua própria pergunta.
— Por que o senhor destruiu o altar?
Enquanto a madeira de cedro e as flores queimavam, um aroma fragrante subia com a fumaça — uma estranha agradabilidade para tal cena. A voz de Lotan carregava um tom de lealdade inabalável enquanto ele continuava.
— Nós seguiremos Vossa Graça, não importa o que aconteça.
Cesare o observou com um olhar calmo, porém penetrante, como se já soubesse da profundidade da devoção que seus cavaleiros sentiam por ele.
— Faremos o que for necessário para ajudar Vossa Graça a alcançar seus objetivos. Por favor, compartilhe seus pensamentos conosco. E talvez… pudesse também contar à Senhora Eileen. Ela pode ter dificuldade em aceitar a verdade no início, mas irá suportar e—
— Lotan.
Cesare o interrompeu, jogando o cigarro nas chamas. O altar em fogo o consumiu num instante. Um sorriso distorcido se espalhou pelo rosto de Cesare enquanto ele falava.
— Vocês todos pensam que eu me tornei imortal. Mas não é o caso.
Lotan congelou, seus olhos trêmulos fixos em Cesare, sem saber como reagir.
— O tempo do meu corpo está simplesmente… congelado num único momento.
As palavras de Cesare carregavam uma diversão distorcida, como se ele achasse sua situação sombriamente engraçada.
— Mesmo quando sou ferido, meu corpo retorna a um único momento, dando a ilusão de imortalidade.
Sua voz ficou mais sarcástica enquanto continuava.
— Eu negociei com os deuses para trazer Eileen de volta à vida. E, como pagamento, foi nisso que me transformei. Mas retroceder o tempo e ressuscitar os mortos… não são tarefas simples, são?
O que Cesare havia suportado não foi uma troca equilibrada. Para voltar no tempo, ele oferecera inúmeros sacrifícios, desequilibrando a balança irreparavelmente.
— Meu fim já foi determinado. E quando esse tempo acabar…
O altar em chamas começou a desmoronar, a madeira se desfazendo sob o peso das chamas. O barulho abafou as palavras finais de Cesare, mas Lotan já tinha ouvido o suficiente. Sua pele ficou pálida como a de um fantasma, mesmo diante do calor intenso do fogo.
— Bem, Lotan.
Os olhos carmesim de Cesare se curvaram em um sorriso, seu olhar afiado como uma lâmina.
— Você ainda acha que a Eileen conseguiria lidar com a verdade? 🥹🥹
🌸🌸🌸
A carta do Conde Domenico foi inesperada.
[A Arquiduquesa tem sido incrivelmente atenciosa e cuidadosa, pelo que sou profundamente grato. No entanto, agora percebo que chegou a hora de deixar ir. Minha teimosia apenas manteve minha amada em sofrimento prolongado.]
Assim que Eileen leu a carta, decidiu visitar a propriedade do conde pessoalmente. Seria a primeira vez na casa do homem, e sua aparência impecável e ordenada contrastava fortemente com o tom sombrio da carta.
Apesar de sua chegada sem aviso, o conde a recebeu calorosamente. Sua aparência já frágil e ansiosa havia piorado; suas bochechas estavam encovadas, e ele parecia completamente exausto.
Pela primeira vez, Eileen conheceu a condessa. Seu corpo esquelético lembrava os galhos nus de uma árvore no inverno, e a sombra da morte pairava pesadamente no quarto. O olhar sem vida da condessa e sua respiração fraca permeavam a propriedade com uma tristeza sufocante. Seus ocasionais gemidos de dor ecoavam pela casa como uma melodia assombrosa.
Era a primeira vez que Eileen enfrentava diretamente um paciente tão gravemente doente. A visão a deixou paralisada de choque, incapaz de processar o desespero esmagador. O conde, percebendo sua angústia, conduziu-a até a sala de estar para tomar chá.
Os criados rapidamente trouxeram chá, mas ninguém tocou nas xícaras.
— Não há mais nada que a medicina possa fazer, — disse o conde gravemente.
A condessa sofria havia muito tempo de dores crônicas, para as quais Eileen havia preparado cuidadosamente analgésicos. No entanto, até mesmo esses já não surtiam mais efeito.
Eileen mordeu o lábio enquanto ouvia. O conde, sorrindo levemente apesar de seu estado abatido, disse a ela para não se preocupar mais. Ele expressou sua gratidão por tudo o que ela havia feito até então, seu tom resignado.
Ficou claro por seu comportamento — assim como sua carta sugeria — que o conde havia desistido completamente. Uma risada vazia escapou de seus lábios enquanto ele falava, sua expressão de derrota silenciosa.
— …Não.
A negação suave que escapou dos lábios de Eileen fez o conde olhá-la confuso. Levantando-se abruptamente da cadeira, ela declarou com determinação:
— Ainda existe um remédio que pode ajudar.
Ela lhe entregou um estoque dos analgésicos que já havia preparado. Por enquanto, instruiu-o a dobrar a dosagem habitual e prometeu retornar no dia seguinte.
Sem esperar resposta, Eileen saiu apressadamente da propriedade. Seu cocheiro pareceu surpreso quando ela surgiu às pressas, pedindo que a levasse de volta ao arquiducado o mais rápido possível.
Durante o trajeto de volta, a imagem da condessa contorcendo-se de dor permaneceu em sua mente.
Ela pensou no motivo que a fizera se interessar por farmacologia em primeiro lugar.
Tudo começou com seu amor pelas plantas e seu desejo de ser útil ao príncipe. Ela buscara remédios fitoterápicos como uma forma de combinar esses interesses.
Mesmo quando retornou à capital sem concluir os estudos e começou a vender remédios na estalagem, fora principalmente por razões financeiras. Ajudar os outros nunca havia sido sua motivação — sempre fora por si mesma ou por Cesare.
Mas ao conhecer mais pessoas que vinham ao seu laboratório improvisado no segundo andar da estalagem, ela começou a mudar. Ver seus medicamentos melhorarem a vida dos outros trouxe a ela um sentimento de orgulho e realização que nunca esperara.
Ela percebeu que queria criar medicamentos que pudessem beneficiar todo o império.
Embora seu projeto atual, Morpheu, tivesse começado como uma forma de ajudar Cesare, suas aspirações haviam crescido além disso. Ela queria que este medicamento fosse sua contribuição para o povo.
Ao retornar, Eileen foi direto para seu laboratório. Sonio, assustado com seu comportamento apressado, chamou por ela, mas ela rapidamente o tranquilizou.
— Vou ficar no laboratório até a hora do jantar! Provavelmente comerei tarde, então não se preocupe comigo!
Ela correu para o laboratório, trocou de roupa por algo confortável, prendeu o cabelo e vestiu o avental e as luvas. Pegando o Morpheu guardado com segurança, examinou o pó cristalino.
Seu olhar pairou momentaneamente sobre os vasos de papoulas vermelhas perto da janela, suas pétalas do mesmo tom vívido dos olhos de Cesare. Fechando os olhos brevemente para se recompor, abriu-os com determinação renovada.
Ela mediu cuidadosamente uma dose menor, inferior aos 30 mg anteriores. Observando o pó branco cintilante, Eileen fortaleceu sua coragem.
Não havia tempo para hesitar. Mesmo naquele momento, a Condessa Domenico estava sofrendo dores inimagináveis.
Com esse pensamento em mente, Eileen inclinou a cabeça para trás e engoliu a primeira dose de Morpheu.
Ela mesma seria sua primeira cobaia humana.
Continua…
Tradução: Elisa Erzet