Capítulo 26
A Honra de Johannes
Eram claramente duas pessoas, mas, de alguma forma, acabaram se tornando três.
Isso aconteceu porque encontraram Louise no caminho para a sala de recepção, onde tomariam chá. Louise, que parecia ter acabado de terminar seu treinamento e estava reunida com outros cavaleiros, avistou aquela combinação inusitada e acenou vigorosamente para elas.
Abandonando casualmente os companheiros, se juntou à hora do chá.
— Por que a Dame Louise está se intrometendo?
Avril resmungou, fazendo beicinho a alguns metros de distância. Louise, por sua vez, apoiou tranquilamente o braço sobre a cadeira de Avril e respondeu como se aquilo fosse óbvio.
— Estou aqui para ficar de olho, caso nossa Senhora Avril assedie Vossa Majestade, a Rainha. Ah, quero dizer, para escoltá-la.
Ao pronunciar as últimas palavras, ela piscou para Eunice.
Ao ver aquilo, Avril franziu a testa, sentindo-se injustiçada.
— Quem está assediando quem? Aff.
Seus lábios contraídos lembravam o bico de um pintinho. Achando adorável, Eunice decidiu defendê-la.
— É verdade. Conversar com Lady Avril me faz bem. Eu vim por vontade própria.
Sem esperar pelo elogio, as íris roxas de Avril se arregalaram. Logo depois, ela estufou os ombros e lançou um olhar triunfante para Louise, como se dissesse: “Viu?”
Louise coçou a bochecha com o dedo indicador.
— Você não está sendo boazinha demais? Essa aqui é famosa por agir como uma criança. Não precisa defendê-la desse jeito.
— Dame Louise não me conhece bem o suficiente para dizer isso.
A voz de Avril ficou mais alta, agora que havia conquistado uma aliada.
— E não sou eu quem está assediando a Rainha. É Sua Majestade Johannes.
— Do que você está falando?
— Não consegue perceber só de olhar?
Apesar da explicação bastante superficial, Louise pareceu entender alguma coisa. Ela olhou para Eunice com uma expressão estranha, depois olhou para o teto e soltou um suspiro.
— Não me diga que ele está tratando a senhora da mesma maneira que tratou ela?
Avril assentiu com convicção. E não deixou de acrescentar mais uma coisa:
— Um completo lixo.
— …
Eunice, que estivera ouvindo em silêncio, abriu os lábios.
Ele era o rei, chamá-lo de lixo…
Era uma sorte enorme que Johannes não estivesse presente.
Aliás, Louise não era sua cavaleira leal? Certamente não iria contar aquela fofoca exatamente como havia sido dita…
— Não é nenhuma surpresa.
— …
Olhando para Louise, que apoiava o queixo em uma das mãos enquanto assentia, Eunice simplesmente ficou sem palavras.
Que tipo de existência Johannes era para aquelas pessoas?
De certa forma, ele parecia ser uma figura temida. Mas, em momentos como aquele, também parecia uma presença infinitamente confortável.
Tendo conseguido a concordância de Louise, Avril começou a tagarelar animadamente.
— Dame, você sabia? Há alguns meses, Sua Majestade correu para Evangel por causa de uma única carta minha?
— Isso é novidade para mim. Ele não estava indo explorar a região ártica?
— Hah. As pessoas não sabem disso, mas ele veio porque eu escrevi dizendo que estava com medo. O momento coincide, entende?
— …Acho que foi apenas uma coincidência de datas.
As duas mulheres pareciam ter interpretações completamente diferentes para as mesmas palavras.
À medida que a conversa ficava cada vez mais confusa, Eunice tomou um gole de chá para se recompor. A fragrância suave pareceu acalmar seu corpo.
— Onde fica a região ártica?
Ela pretendia mudar de assunto, afastando do que parecia ser uma fofoca sobre Johannes. Embora tivesse um mapa geral de Nordish na cabeça, a região ártica era um nome de lugar novo para ela.
Se o próprio rei foi fazer um reconhecimento, devia ser uma região importante…
— Ah, eu falei demais.
Louise pareceu aflita, como se tivesse percebido seu erro.
Avril, que vinha conversando sem se dar conta de nada, estalou a língua tardiamente.
Depois de lançar um olhar de reprovação, Louise sorriu gentilmente e pediu:
— Por favor, esqueça o que acabou de ouvir, Vossa Majestade. É confidencial.
— Confidencial?
— Sim. Apenas os cavaleiros das regiões envolvidas e alguns superiores sabem disso.
— Ah, entendo.
Enquanto assentia, uma amargura inevitável se espalhou por sua boca.
Eunice foi lembrada mais uma vez de que era uma rainha apenas no nome.
Porque era estrangeira. Eles não queriam envolvê-la nos assuntos de Nordish.
Talvez sua posição permanecesse no nível de uma cidadã comum do reino pelo resto da vida.
Essa percepção doía.
Uma existência semelhante à de um espantalho.
Alguém que poderia ser descartado a qualquer momento.
Uma existência inútil…
— Enfim, Sua Majestade, o Rei, não deveria tratar Vossa Majestade, a Rainha, de maneira tão casual, dependendo do humor dele.
Louise, voltando ao assunto original para disfarçar seu deslize, balançou a cabeça.
— Que homem terrível.
— Ele me trata bem. É carinhoso.
Eunice sorriu, ao mesmo tempo doce e amargamente.
Não era totalmente mentira.
Havia momentos de ternura que ela guardava na memória. É claro, também tomava cuidado para não cair no mesmo pântano de ilusões que Avril.
— Você não precisa defendê-lo. Todos nós sabemos. Aquele homem trata as mulheres como pedras.
Foi então que Avril se intrometeu.
— O fato dele nem sequer olhar para uma mulher bonita como eu mostra que deve haver algo de errado.
— Hmm. Embora eu não concorde completamente, já cheguei a questionar essa parte.
Avril, que levantara uma suspeita com aquilo que considerava uma justificativa perfeitamente válida, e Louise, que levava aquela dúvida a sério, viraram simultaneamente a cabeça para Eunice.
Dois pares de olhos a questionavam.
Sobre o possível problema de Johannes.
As bochechas de Eunice ficaram vermelhas.
Era uma infelicidade ou uma sorte ela não ter uma resposta para aquela pergunta?
Como não conseguia dizer nada com o rosto vermelho como um tomate, Louise interpretou o silêncio à sua maneira. Cruzou os braços, assumiu uma expressão solene e assentiu.
— Parece que ele é bom nisso.
— Que irritante.
Avril chegou à mesma conclusão, franziu a testa e começou a mexer vigorosamente o chá com uma colher.
O chá amarelo espirrou para todos os lados.
— …
Será que é melhor deixá-las continuar acreditando nisso?
Eunice engoliu em seco, sem saber o que fazer.
Tudo o que conseguiu foi aliviar desajeitadamente a culpa pensando que, pelo menos, não havia mentido diretamente.
De várias maneiras, parecia uma escolha não tão ruim para a honra de Johannes.
De repente, sentiu o hálito ficar quente e a garganta arder. Eunice tomou um gole de chá para matar a sede.
— Já que o casamento foi fácil, o divórcio também será fácil. Para aquele homem.
— Cof, cof!
Com aquelas palavras repentinas e certeiras, ela acabou cuspindo o chá.
Enquanto tossia para acalmar a garganta, olhou para Avril com incredulidade.
Como ela podia dizer uma coisa dessas…?
Louise também encarava Avril com uma expressão chocada.
O engraçado era que as duas estavam igualmente chocadas, mas nenhuma conseguia negar aquilo.
Johannes Reinhardt seria capaz de fazer isso.
Essa certeza evidente a atingiu impiedosamente como uma adaga.
Ele era o homem que havia derretido seu coração com palavras calorosas, dizendo para manter os ombros erguidos, apenas para deixá-la sozinha na cama no dia seguinte.
O que ele não seria capaz de fazer com aquele temperamento tão imprevisível?
O medo a dominou.
Ela não queria voltar para Tranche.
Só de pensar em se tornar motivo de risadas, seu coração disparava e sua respiração acelerava.
— Pare com isso, pequena. Isso não vai acontecer.
— Hyaaaak!
Foi então que a voz de um homem surgiu de repente.
Avril gritou, Louise soltou um suspiro surpreso, e Eunice ficou tão assustada que parou de tossir.
— …Senhor Rowell?
Que andar era aquele mesmo?
Ao virar a cabeça na direção da voz, Eunice se assustou novamente.
A voz vinha do lado de fora da janela.
Apesar de ter assustado as três mulheres, Rowell abriu a janela calmamente e entrou.
Aproximando delas, lançou um sorriso de escárnio para Avril.
— Você ainda não desistiu? O reino inteiro sabe que Sua Majestade a rejeitou oficialmente.
— Aaaí! Cale a boca, seu vilão!
As palavras, que esfregavam sal em sua ferida, fizeram os grandes olhos de Avril imediatamente se encherem de lágrimas.
Surpreendentemente, Rowell não se abalou nem um pouco.
— Por quê? É fácil quando se trata do divórcio de outra pessoa, mas não quando é você quem é rejeitada?
— O-O que você disse?
— Senhor Rowell, por favor, pare.
Eunice interveio para apartar os dois, que pareciam prestes a começar uma briga.
Avril também não havia agido muito bem, mas Rowell não precisava descer ao nível dela.
Acima de tudo, talvez porque Avril passasse uma impressão muito infantil, apesar de ser, na realidade, apenas um ano mais nova que Eunice, sua percepção sobre ela era de alguém cerca de dez anos mais jovem.
— Você está sendo severo demais com ela.
Ao repreendê-lo gentilmente, a expressão de Rowell ficou estranha.
Logo depois, com o rosto constrangido, ele coçou a cabeça e murmurou sem jeito:
— Bem… ser repreendido por Vossa Majestade, a Rainha, é estranho.
— …
Para Eunice também era estranho.
Como explicar?
Parecia que Rowell era particularmente gentil apenas com ela.
— O que você faz aqui?
Foi então que Louise se intrometeu.
Os dois pareciam ter uma amizade bastante próxima, mas, de qualquer forma, a expressão de Rowell imediatamente se tornou feroz.
— Vim te buscar.
— Eu?
Louise piscou e apontou para si mesma com o dedo indicador.
Aquela expressão inocente pareceu fazer a pressão de Rowell subir instantaneamente.
— Sim, você! Por causa da sua incompetência, eu fui colocado no comando da Terra da Morte!
— Uau, sério?
Louise, que havia ficado animada, logo perdeu o sorriso quando Rowell estalou os dedos.
Seu corpo flutuou no ar.
— Aaaaaah!
Com um grito, o corpo de Louise foi levado para fora da janela.
Vendo magia pela primeira vez, os olhos verdes de Eunice se arregalaram.
— Ah.
Rowell pulou pela janela atrás de Louise, mas pareceu se lembrar de algo que havia esquecido e voltou.
Então, ofereceu uma consolação indiferente:
— Não se preocupe. Você nunca vai se divorciar.
Continua…
Tradução: Elisa Erzet