Capítulo 285 - Extra 59
Sugar Baby
‘Seria muito mais fácil se ele despertasse logo.’
Haveria algo mais doloroso do que nascer com uma natureza e uma predisposição que não combinavam entre si? Todos os outros filhos haviam manifestado sua característica genética ao nascer ou antes mesmo dos cinco anos. Mas, por algum motivo, Chase estava prestes a completar dez anos e continuava exatamente igual.
‘Será que Koy estava certo? Será que a característica genética de Chase era diferente da dos irmãos?’
De vez em quando, essa dúvida surgia em sua mente. Mas Ashley logo a descartava.
‘Impossível.’
Ele apenas teve o azar de se manifestar mais tarde do que os irmãos. Além disso, considerando que, normalmente, as características só se manifestavam entre o meio e o fim da adolescência, nem se podia dizer que Chase estivesse realmente atrasado.
— Então, Chase… o que aconteceu hoje?
Ao ouvir a pergunta de Ashley, o menino caminhou até ele e estendeu as mãos. Sobre as pequenas palmas cuidadosamente unidas repousava um pássaro morto.
— Meu pássaro morreu, papai…
Parecia que ele já tinha conseguido parar de chorar. Mas, no instante em que falou, grossas lágrimas voltaram a escorrer, molhando seu rosto avermelhado. A criança, sem conter a tristeza, soluçou e desabafou:
— O Grayson jogou meu pássaro no lixo. E ele disse que eu sou estranho. Stacey e Nathaniel também disseram que eu sou estranho.
Com os olhos vermelhos, ainda cheios de lágrimas, o menino perguntou:
— Papai, eu sou estranho? Eu sou uma criança estranha?
Ashley continuou olhando em silêncio para o filho, muito menor do que ele.
‘Preciso dizer alguma coisa para confortá-lo.’
Um pensamento lhe veio de maneira automática.
— Pássaros não servem para nada.
Chase parou de chorar por um instante e ergueu os olhos para o pai. Com uma expressão claramente confusa, respondeu com a voz ainda embargada pelo choro:
— Mas… eles são bonitos… e cantam.
Ashley realmente não conseguia entender o que o filho queria dizer com aquilo.
— E daí?
A criança voltou a ficar em silêncio. Apenas olhava para o pai. Diante daquela reação, Ashley apresentou a solução que lhe pareceu mais adequada.
— Eu compro outro para você.
A expressão de Chase mudou.
‘Ele ficou feliz?’
Ashley pensou. Já fazia muito tempo que ele perdera a capacidade de distinguir as expressões das pessoas. A única pessoa cujas emoções ainda conseguia compreender era Koy. Convencido de que havia resolvido o problema, Ashley afagou a cabeça do filho e seguiu para o quarto.
***
Foi quando Koy voltou, depois de se encontrar com Ariel, que Ashley lhe contou o que havia acontecido. Ele arregalou os olhos, chocado.
— Sério? O passarinho do Chase morreu?
Seu rosto imediatamente se encheu de tristeza. A ideia de dar animais de estimação às crianças tinha sido de Koy. Ele acreditava que criar um bichinho de estimação ajudaria a desenvolver a sensibilidade delas e que assumir a responsabilidade de cuidar de outro ser vivo também seria uma boa forma de educação.
Quando pediu que cada um escolhesse o animal que quisesse criar, Chase havia escolhido um pequeno e frágil canário. Desde então, cuidava dele todos os dias com todo o carinho, tratando-o como seu único amigo. E agora… Aquele passarinho havia morrido.
— Como assim…? Ele chorou muito?
Só de imaginar, Koy sentia os olhos arderem. Preocupado, perguntou às pressas. Ashley respondeu com indiferença:
— Quando eu o vi, ele já tinha parado de chorar.
— Entendo…
A voz de Koy saiu fraca e abatida. Sem dar muita importância ao assunto, Ashley apresentou sua solução.
— Não se preocupe. É só comprar outro pássaro.
Por um instante, Koy ficou sem palavras, hesitante. Ashley o encarava com uma expressão que deixava claro que não fazia ideia do que havia de errado em sua resposta. Mas, naquela família, Koy era o único com uma característica genética diferente. O caçula ainda não havia despertado, então ninguém sabia como seria no futuro.
Por enquanto, porém, era praticamente impossível para Koy compreender a forma como eles pensavam. Havia uma grande chance de Ashley estar sendo lógico, dentro da maneira como enxergava o mundo. Mesmo assim… Koy não conseguia simplesmente fingir que estava tudo bem
— Vou dar uma passada lá.
Koy aguardou a resposta de Ashley com o coração ansioso. Afinal, haviam combinado que Ashley ficaria responsável por toda a educação das crianças. Se Koy aparecesse de repente dizendo algo diferente do que Ashley lhes ensinava, só acabaria confundindo ainda mais os filhos.
— Faça como quiser.
Felizmente, Ashley concordou sem hesitar. Assim que ouviu a resposta, Koy correu em direção ao quarto de Chase. Parecia que o menino já havia ido dormir. Do outro lado da porta não se ouvia o menor sinal de movimento. Koy encostou o ouvido na porta por um instante e depois se afastou, respirando fundo.
Toc, toc.
Com a mão trêmula, bateu de leve antes de abrir a porta. Chase já estava deitado na cama, pronto para dormir.
— Chase… posso entrar um instante?
Perguntou com cuidado, mas o menino apenas olhou para ele em silêncio. Reunindo coragem, Koy aproximou-se e sentou-se ao lado da cama. Deitado, Chase ergueu os olhos para encará-lo.
— Chase… eu soube que o seu passarinho morreu. Você deve ter ficado muito triste.
Tentou confortá-lo da melhor maneira que conseguiu. Mas Chase não demonstrou reação alguma. Permaneceu apenas deitado, piscando lentamente, sem dizer uma palavra. Talvez porque tivesse dito algo óbvio demais. Koy perdeu a confiança e não conseguiu continuar.
‘Será que o Ash estava certo…?’
Quis observar um pouco mais a reação do filho, mas continuava impossível entender o que ele estava pensando. Seus olhos ainda estavam avermelhados. Mesmo assim, Chase não chorava nem se agarrava a Koy procurando consolo. Por isso, Koy ficou sem saber o que deveria dizer.
— Chase…
Foi então que, quando chamou cuidadosamente, o menino que permanecera calado até aquele momento, finalmente moveu os lábios.
— Está tudo bem. Não precisa se preocupar.
Finalmente ouvira a voz do filho. Mas, naquele instante, Koy sentiu uma barreira ainda maior e mais sólida do que quando Chase estava em silêncio. E não terminou aí.
— Vou dormir.
Virando completamente o corpo de costas para ele, Chase deixou claro que não queria mais conversar. Diante disso, Koy não teve outra escolha a não ser desistir.
— Durma bem, Chase.
Depois de dar um beijo na cabeça do filho, Koy acrescentou antes de sair:
— Se precisar de mim, pode me procurar a qualquer momento. Eu vou esperar. Eu te amo, Chase.
Reprimindo a vontade de abraçá-lo, limitou-se a acariciar seu ombro e levantou-se. Mesmo quando fechou a porta, Chase continuava obstinadamente de costas para ele. Ainda assim, Koy não conseguia ir embora.
— Hum… Chase…
Hesitou por um instante antes de falar com cuidado. ‘Será que ele vai aceitar minhas palavras?’ Não tinha confiança alguma, mas mesmo assim continuou:
— Me desculpe… Talvez eu não consiga te ajudar muito… mas, um dia, com certeza vai aparecer alguém que consiga te compreender.
Depois de um breve silêncio, a única resposta foi um som baixo de desagrado.
— Hm.
Koy ficou sem graça. Fechou a porta e caminhou de volta para o quarto.
‘Faz sentido… Deve ter achado ridículo eu dizer uma coisa dessas. Talvez tenha pensado: “O que você sabe para falar isso?”‘
‘Como eu poderia entendê-lo? Somos de naturezas diferentes… Provavelmente Chase sabe disso, por isso nunca me conta nada.’
***
Ao vê-lo voltar com uma expressão abatida, Ashley aproximou-se imediatamente e o envolveu em um abraço reconfortante.
— Está tudo bem. Apenas estamos passando por algo que todas as famílias acabam enfrentando… só que um pouco mais cedo.
Ele continuou:
— Também não precisa se preocupar com as crianças. Vou fazer o meu melhor para que elas cresçam da maneira certa. Você confia em mim, não confia?
Koy assentiu obedientemente e retribuiu o abraço.
— Sim…
‘Vai ficar tudo bem.’
Era nisso que Koy acreditava.
‘Eu conheço bem os nossos filhos. Todos eles são crianças boas e adoráveis. Só são um pouco diferentes das outras famílias por causa da natureza deles. Não há nada que possamos fazer quanto a isso.’
Ele acreditava sinceramente nisso.
Fechando os olhos, apoiou a cabeça no peito de Ashley. Então, de repente, uma lembrança há muito esquecida voltou à sua mente. O momento em que seu primeiro filho lhe mostrou um milagre.
— Nathaniel falou!
Koy exclamou, completamente eufórico, com o rosto corado de tanta animação.
— Você ouviu? Ele disse “papai” e “papa”! É incrível! Como ele conseguiu crescer tão rápido?
Assim que Ashley voltou do trabalho, Koy correu até ele, falando sem conseguir conter a empolgação. Ashley permaneceu em silêncio, apenas observando o bebê deitado no berço, que o encarava de volta. Sem fazer ideia do que ele estava pensando, Koy continuou, radiante:
— É porque ele puxou você! Eu já tinha dito, não tinha? Quanto mais filhos parecidos com você tivermos, melhor!
‘O que o fato de crescer rápido tem a ver com ser parecido comigo?’
Ashley pensou, mas não quis estragar a felicidade de Koy.
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Continua….
Tradução: Ana Luiza
Revisão: Thaís