Capítulo 155
— …E o que exatamente tem de errado nisso? Você sabe muito bem que não há nenhum problema com as minhas funções.
O silêncio pesado entre eles pareceu durar muito mais do que realmente durou — mal chegou a um minuto — até que Ashley finalmente abriu a boca. Ele não tentou ganhar tempo com desculpas do tipo “como você sabe disso?” ou “isso não é verdade”. A fonte da informação era óbvia demais.
— É exatamente isso que é estranho.
Ariel não hesitou em apresentar a base de seu pensamento.
— Do jeito que você disse, quando estava comigo, você nunca teve nenhuma inibição. Se eu fosse tão tímida quanto o Koy, você nem teria começado a namorar comigo. Estou errada? Seu tipo sempre foi uma garota descolada em todos os sentidos. Como eu.
Ela não estava errada. Na verdade, estava completamente certa. Antes de Ashley se apaixonar por Koy, entre todas as pessoas com quem tinha se relacionado, Ariel era a parceira ideal. Sabia manter a distância certa, tinha liderança suficiente para ser chefe da equipe de líderes de torcida, era ativa, excelente nos esportes e nos estudos, além de ter uma beleza marcante — e ainda por cima tinha pernas incríveis.
Resumindo, Ariel era a namorada perfeita. Ashley nunca teve uma única queixa sobre ela e sua afeição por ela sempre foi profunda. Por isso, apaixonar-se por Koy foi algo totalmente inesperado em todos os aspectos.
Mas Ashley não tinha intenção nenhuma de admitir isso tão facilmente.
— Já pensou na hipótese de que talvez não fosse simples para mim dormir com um homem?
Ele disparou num tom sarcástico. Porém, Ariel esmagou essa resistência frágil como quem esmaga um inseto com o salto.
— Ash, mesmo que o Koy tivesse se manifestado como ômega, você não teria dormido com ele. Se aquele garoto olhasse para você com aqueles olhos enormes, cheios de lágrimas, dizendo que não conseguiria, você teria ido direto para o banheiro e… se masturbado até ficar em carne viva.
— E como você pode afirmar isso?
Diferente do rosto claramente irritado de Ashley, Ariel falou com um sorriso radiante:
— Porque mesmo sem conseguir transar, você não terminou com o Koy. Continuou com ele.
O que ela recebeu de volta foi uma risada irônica.
— Pelo visto, na sua memória eu era alguém obcecado por sexo.
Diante do cinismo explícito, Ariel não se abalou nem por um segundo.
— Não, na minha memória você era um garoto perfeitamente comum nesse aspecto.
Ela olhou diretamente para Ashley e continuou:
— Você não era alguém que vivia desesperado por isso, mas também não era do tipo que se sacrificava por outra pessoa. O Ashley que eu conhecia… mesmo que gostasse de alguém, se aquilo não funcionasse, você simplesmente procuraria outro parceiro. Mas com o Koy você esperou mais de um ano? E mesmo depois de se manifestar, você não terminou? Se você cuidou tanto dele assim, então Koy nunca foi apenas um namoro comum que acabou. Ele era especial ao ponto disso.
Ariel analisou ponto por ponto, escavando a verdade sem piedade. Após o fim de suas palavras, Ashley permaneceu em silêncio por um longo tempo antes de finalmente quebrá-lo.
— É só isso? Que eu não dormi com uma beta?
— Não. Ainda tem mais uma coisa.
Com a voz baixa e calma, Ariel continuou como se estivesse esperando exatamente esse momento.
— Você sempre foi generoso com os seus amigos, mas havia um limite muito claro. Às vezes você pagava uma refeição, mas era coisa do nível do Greenbell, e mesmo quando dava um presente de aniversário, era sempre algo dentro do valor adequado ao nosso nível, nunca exagerando. Mas com Koy, tudo é uma exceção, não é?
Ela era como um carro esportivo com o freio quebrado. Só acelerava e seguia em disparada.
— Já faz mais de dez anos que vocês terminaram e ainda assim você compra uma roupa caríssima pra ele? Só porque quer apoiar o encontro de um amigo? Uma desculpa absurda. Isso não é você, Ashley Miller. O que nunca mudou, nem naquela época nem agora, é que o Koy sempre foi a exceção, em todas as situações.
Depois de balançar a cabeça, Ariel fixou o olhar diretamente em Ashley.
— Vamos lá, fala a verdade. Se ainda tem sentimentos pelo Koy, qual é o motivo desse joguinho ridículo? Essa história de “somos só amigos” e o resto?
Se a resposta não agradasse, Ariel parecia pronta para espancar Ashley até ele confessar o que ela queria — agora não com os punhos, mas com as palavras.
Ashley não respondeu de imediato. Tragou profundamente a fumaça do cigarro. Ariel, rápida, espiou o relógio no pulso. Ainda restavam uns 3 minutos. Tempo mais que suficiente para ele tentar escapar dando respostas vazias.
‘Aposto que no tribunal ele irrita os adversários exatamente desse jeito.’
Só de imaginar isso, Ariel sentiu o punho se fechar. Para não cometer o erro imperdoável de partir pra violência dentro de um escritório de advocacia, ela abriu e fechou a mão algumas vezes, tentando aliviar a tensão. E sem dar a mínima para o estado emocional dela, Ashley soltou a fumaça e finalmente falou:
— Você acha mesmo que eu faria algum mal ao Koy?
— Claro. O Koy pode até cair nos seus papos furados, mas eu não.
Diante da resposta imediata de Ariel, Ashley inesperadamente sorriu levemente. Vendo-a hesitar por um instante, ele disse:
— Sua desconfiança em relação a mim é realmente impressionante.
Com a mesma calma irritante de sempre, Ashley continuou:
— Eu quero que o Koy seja feliz. Essa é a verdade.
Ariel franziu o cenho. Ele deu um sorriso amargo, erguendo as duas mãos num gesto leve.
— Por que não iria desejar isso? Como você sabe, nosso caso acabou há dez anos, e posso mostrar essa boa vontade a um colega que encontro depois de tanto tempo.
O comportamento dele era surpreendentemente relaxado, quase impossível de acreditar.
— O Koy é… como posso dizer? O Koy sempre foi muito inocente. Se ele for tentar um encontro e acabar estragando tudo, eu fico preocupado, sabe?
A entonação parecia de alguém que se importava, mas o veneno na voz deixava tudo insuportável. Se o Koy tivesse ouvido aquilo, provavelmente teria acreditado em cada palavra, mas, felizmente, era Ariel quem estava ali. E ela o encarava com o olhar cheio de desconfiança.
— Então você quer dizer que fez tudo isso pelo bem do Koy?
— Sim.
A resposta veio sem hesitação. Ariel rebateu na hora:
— Por quê?
Ashley respondeu com a mesma tranquilidade que usava para irritar qualquer um:
— Eu já disse. Quero que o Koy seja feliz.
Ele levou o cigarro de volta à boca, os olhos semicerrados.
— O Koy não te contou isso?
— Contou. Por isso mesmo eu vim até aqui correndo.
Ariel retrucou de imediato. E, antes que ele soltasse mais uma mentira revoltante, ela disparou:
— Eu não acredito nem um pouco que você está desejando a felicidade do Koy. É sério? Você realmente diz que, se o Koy amar outra pessoa, beijar outra pessoa, se casar com outra pessoa, ter filhos com outra pessoa… você vai ficar feliz por ele?
— Claro, se isso fizer Koy feliz.
A resposta de Ashley veio em um momento nem muito rápido nem muito lento, perfeitamente calculado. Ele até sorriu com tranquilidade, como se já estivesse acostumado a esse tipo de interrogatório. E isso deixou Ariel ainda mais desconfiada.
— Qual é o motivo? Você não é do tipo que deseja a felicidade dos outros com tanta vontade assim.
Talvez não fosse ouvir uma resposta verdadeira. Observando o rosto cínico de Ashley, foi isso que Ariel pensou. Mas pouco importava. Não era para isso que ela havia invadido o escritório dele naquele dia.
Como esperado, Ashley não respondeu. Apenas olhou o relógio no pulso. O tempo restante estava acabando. Só então Ariel trouxe à tona o real motivo de estar ali.
— Então, para você, não importa com quem o Koy se envolva, ou o que ele faça. Certo?
— Desde que ele fique feliz.
Ashley respondeu, ainda com um sorriso falso. Talvez ele estivesse confiante de que Koy nunca conseguiria ter um relacionamento adequado. Ariel não podia permitir que ele soubesse que Koy ainda gostava dele, que Ashley era a única pessoa com quem Koy já se relacionara. Koy provavelmente nem pensaria em esconder, mas Ariel não permitiria que isso acontecesse.
— Pelo visto, você acha que ele ainda é tímido demais para sequer conseguir ter um encontro decente.
Ariel rapidamente recuperou a dignidade que Koy havia jogado fora.
— As mulheres são incrivelmente boas em identificar bons rapazes. Além disso, Koy cresceu e agora até o consideram bastante bonito. Você entende o que eu quero dizer?
Ela continuou com calma:
— Estou dizendo que você não é o único que não consegue tirar os olhos dele. O Koy viveu coisas, ganhou experiência e o olhar dele também deve ter desenvolvido um certo critério.
Ariel terminou deixando um sorriso leve no rosto. Ashley ainda sorria para ela, mas havia algo de falso ali, quase como uma máscara.
— …Ganhou experiência?
— Isso mesmo.
Ariel assentiu enfaticamente e perguntou:
— Do mesmo jeito que o Koy não sabe o que aconteceu com você nesses dez anos separados, você também não sabe nada sobre a vida dele. Estou errada?
Ashley permaneceu em silêncio. Ariel checou o próprio relógio de forma bem visível, depois virou o mostrador na direção dele.
— Três segundos.
Depois de recitar a contagem de propósito, ela sorriu.
— Terminei dentro do prazo, não foi?
Ela se levantou sem hesitar. Antes de caminhar até a porta, olhou uma última vez para Ashley.
— Então vou confiar que, aconteça o que acontecer, você não vai perturbar o Koy. Já terminei por aqui. Obrigada por me ceder o seu precioso tempo.
Depois de uma despedida polida, ela se virou e começou a caminhar. O silêncio do escritório foi preenchido apenas pelos passos ritmados dela. Ariel já estava com a mão na maçaneta quando a voz de Ashley soou, depois de todo aquele tempo calado:
— Você perguntou por que eu desejaria a felicidade do Koy, não foi?
A voz baixa a fez se virar devagar. Um pressentimento ruim subiu pela espinha dela. Então Ashley, com um sorriso frio, disse:
— Quanto mais alto alguém sobe, maior é o impacto quando cai.
Por um instante raro, Ariel não conseguiu reagir. Primeiro, achou que não tinha entendido direito. Depois, não teve certeza se tinha ouvido aquilo realmente. Mas o sorriso no rosto de Ashley era real demais. E naquele momento, ela confirmou que Ashley Miller era um grandíssimo canalha.
— É… verdade.
Ariel só conseguiu recobrar o fôlego depois de alguns instantes; então, ela sorriu para ele e respondeu com o mesmo tom provocativo:
— Cair dessa altura deve doer de verdade, não acha? Você deve ter feito o seguro mais caro que existe.
Falando como se estivesse realmente preocupada, ela acrescentou com uma voz suave — delicada até demais para o conteúdo que veio em seguida:
— Escuta bem, Ashley Dominique Miller. Se você fizer o Koy chorar mais uma vez, eu arranco os seus preciosos olhos roxos.
O contraste entre o tom gentil e a ameaça brutal fez Ashley soltar uma risada descarada.
— Nossa, estou apavorado.
Ariel sorriu para ele mais uma vez — um sorriso radiante, como se dissesse sem palavras que o transformaria em pó se ele ousasse desobedecê-la.
— Ah, e mais uma coisa.
Quando ela parecia prestes a sair, virou-se como se tivesse lembrado de algo que propositalmente esquecera:
— Você não acha que, só porque o Koy é beta, os homens não ficarão bem com ele, né? Ele já namorou você antes.
— …O que você está querendo dizer?
Ashley perguntou com a fala lenta. Ariel respondeu sem perder o sorriso:
— O parceiro do Koy pode ser uma mulher ou pode ser um homem.
— …
— Parece que você não percebeu isso ainda. …Ah, nosso tempo acabou. Desculpe, vou indo.
Ela acrescentou com vivacidade:
— Espero que você continue ganhando muito dinheiro sugando o sangue de muitas pessoas inocentes hoje, Advogado Miller.
Logo ela abriu a porta e saiu do escritório. E Ashley finalmente ficou sozinho.
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Continua….
Tradução: Ana Luiza
Revisão: Thaís