Capítulo 30

⚝ Capítulo 30
Por um instante, tive a impressão de que os olhos do homem tinham revirado, brancos e sem vida, antes de ele desabar. Enquanto eu continuava ali, paralisado em choque, Camar me agarrou pelos ombros e me sacudiu.
— Yohan, volta pra mim! Yohan!
Só despertei do meu transe com os gritos desesperados dele. Camar estava encharcado de sangue, mas, ao olhar de perto, vi que não tinha nenhum ferimento nele. Assim que percebi isso, a tensão no meu peito cedeu e soltei um suspiro trêmulo. Vendo que eu tinha voltado a mim, Camar se levantou na mesma hora, me erguendo nos braços.
— Vem, vamos sair daqui.
Levou menos de um minuto para ele me pegar no colo e me tirar daquele quarto. Mesmo assim, a imagem daqueles homens caídos na poça de sangue ficou gravada a fogo na minha mente.
Assim que saímos no corredor, ouvi um miado. Fiquei tão aliviado ao escutar aquele som familiar que não contive a voz.
— Rikal!
Na mesma hora, o gato correu, escalou as pernas do Camar, se acomodou no meu peito e começou a esfregar a cabecinha em mim.
“Rikal…”
Enquanto meus olhos se enchiam de lágrimas, Camar comentou:
— Eu não teria conseguido te achar sem o Rikal.
Ele falou baixo, apressando o passo para fora da mansão e vigiando os arredores. Havia rastros de sangue pelo caminho, mas fechei os olhos com força, fingindo não ver nada.
Um jipe estava estacionado bem onde Camar nos levou. Entrei com cuidado no banco do passageiro. Camar sentou no banco do motorista e ligou o motor. Fiquei encarando o sangue seco manchando a chave do carro.
— Vou cruzar o deserto direto. A gente para em um oásis no meio do caminho pra se lavar, e depois sumimos daqui.
Como se ele já tivesse preparado tudo, havia garrafas de água e comida no banco de trás. Pouco depois de o carro dar a partida, a mansão ficou para trás.
— Como assim, você me achou por causa do Rikal? — perguntei, quando a casa já tinha sumido de vista.
Camar me olhou de soslaio e deu um sorriso amargo.
— Me prenderam num canto lá. Foi fácil me soltar, mas eu precisava te achar rápido e não dava pra sair abrindo porta por porta. Eu tava perdido, até que vi o gato arranhando uma porta desesperado e miando alto.
— Ah.
Ouvir aquilo fez meu coração apertar de novo.
— Obrigado, Rikal.
Sussurrei com a voz embargada e deixei um beijo no focinho dele. O gato ronronou e se aninhou mais em mim. De repente, todo o cansaço do mundo desabou sobre meus ombros.
Encostei a cabeça no banco e fiquei olhando o vazio pela janela. Aos poucos, a paisagem da cidade foi ficando para trás. As casas sumiram, a grama desapareceu e o verde deu lugar à areia, até que o deserto imenso engoliu nossa visão.
A noite caiu rápido. Levamos menos de uma hora para chegar ao oásis, limpar o sangue dos nossos corpos, pegar o que precisávamos e cair na estrada de novo. Saímos de lá antes do amanhecer e dirigimos sem parar. Fugimos sem descanso, com o medo constante de que alguém estivesse na nossa cola.
Passou um bom tempo até que Camar, que continuou dirigindo horas a fio pelo escuro, finalmente parasse o jipe.
Nesse meio tempo, eu tinha pegado no sono. Quando senti o carro diminuir a velocidade devagar, abri os olhos. O Rikal dormia pesado no meu colo. Pisquei para espantar o sono, olhei para o lado e vi o perfil do Camar. Antes que eu pudesse abrir a boca, ele falou:
— Vou descer pra gente dormir um pouco e volto a dirigir de manhã. Precisamos ir o mais longe possível antes do meio-dia.
Camar desligou o carro e desceu. Ele abriu a porta de trás, pegou as coisas e montou uma barraca com uma facilidade impressionante. Segurando o Rikal, desci do jipe com cuidado. Parei por um instante, olhando para o céu noturno do deserto, maravilhado.
Parecia que as estrelas iam chover em cima da gente. O céu azul-escuro tocava o horizonte de areia, parecendo o fim do mundo. Enquanto eu encarava aquela imensidão, a voz dele veio de trás.
— Tá pronto. Vem pra cá, Yohan.
Virei o rosto e vi o Camar me chamando. De repente, senti um calafrio e dei uma leve tremida. Na mesma hora, ele se aproximou e me pegou nos braços.
— Ah…
Um pequeno gemido de surpresa escapou da minha boca. Camar me carregou para dentro da barraca com a maior naturalidade, me deitou no colchonete e se sentou do meu lado.
Fiquei olhando para ele, que agora acariciava meu cabelo de um jeito tão suave, com um sorriso fraco no rosto.
“O mundo está tão silencioso lá fora que tenho medo de que até o som da minha respiração ecoe até os confins da terra.”
Camar me tirou dos pensamentos, notando que eu prendia o fôlego.
— O que foi?
Abri a boca, hesitante.
— Você não tem medo?
— De quê?
Minha voz tinha saído tão alta que abaixei o tom para um sussurro.
— Do que vai acontecer com a gente daqui pra frente.
— Eu não sei o que vai acontecer.
Ele murmurou com a voz tão calma quanto a própria respiração.
— É por isso que dá medo.
Camar olhou para os meus ombros encolhidos e abaixou o rosto. Lábios macios tocaram minha têmpora e logo se afastaram.
— Vai ficar tudo bem, eu vou estar com você.
Fiquei olhando nos olhos dele em silêncio. Como se pedisse para eu confiar, ele sorriu de leve.
— Tá bom — falei, concordando com a cabeça e abrindo os braços devagar, chamando-o para perto.
Camar me olhou meio confuso.
— Como assim, Yohan? — ele sussurrou, a voz quase falhando.
— Você também… vem deitar.
Ele sorriu, disse que sim e se acomodou ao meu lado. Então, Camar abriu os braços largos e me envolveu num abraço protetor.
— …
Ele afundou o nariz no meu cabelo e ouvi quando ele puxou o ar profundamente. Fiquei deitado, bem quieto. Com o ouvido encostado nele, escutei o tum, tum forte batendo dentro daquele peito largo.
Por algum motivo, as pontas dos meus dedos formigaram e um calor estranho subiu pelo meu corpo. Puxei o ar devagar, e o cheiro fraco de areia e poeira misturado ao perfume natural dele entrou pelo meu nariz. Como eu fiquei ali sem me mexer, Camar quebrou o silêncio.
— Eu gosto muito do seu cheiro.
Ele respirou fundo, soltou o ar devagar e murmurou contra os meus fios:
— Queria que eu fosse um alfa.
Prendi a respiração.
— …Eu também. — murmurei baixinho. — Eu gosto do seu cheiro.
— Do meu cheiro? De mim?
Camar pareceu surpreso. A voz grave dele vibrou contra mim. Concordei com a cabeça, com o rosto ainda afundado no peito dele.
— Às vezes tem um cheiro muito doce. Quando sinto esse perfume, eu… minha mente fica em branco.
Fiquei com tanta vergonha que não consegui admitir que a parte de baixo do meu corpo latejava tanto a ponto de doer.
“Cio de ômega.”
Esse pensamento me atingiu em cheio, e meu corpo ficou tenso na mesma hora. Nisso, Camar apertou o braço que estava frouxo na minha cintura. Ele me abraçou mais forte e falou, apoiando o queixo na minha cabeça:
— Se eu fosse um alfa… — ele continuou com a voz rouca. — Eu teria te marcado. E aí você seria todo meu… Eu te trancaria em algum lugar no fim do mundo pra que ninguém nunca mais pudesse olhar pra você. Pra que só eu pudesse sentir o seu cheiro e te ter.
Ele puxou o ar fundo de novo. Sentindo Camar absorvendo meu feromônio ali tão perto, perguntei:
— Com quem você aprendeu sobre marca?
— Com aquele cara, o Gurab — respondeu. — Ele disse que tava na cara que a gente não tinha nada um com o outro, já que nenhum de nós tinha marca. Ele falou que você devia estar esperando um alfa de verdade, deu risada e perguntou se eu tava só brincando com você.
— Como ele percebeu isso…?
— Pois é — ele murmurou, tranquilo.
Não havia um pingo de mágoa na voz dele. Foi um momento em que percebi que, para o Camar, aquele tipo de tratamento para ômegas talvez fosse só mais uma constatação normal.
— Mas não se preocupa. Eu quebrei o pescoço dele.
Fiquei chocado por um segundo, mas a expressão do Camar continuava suave, sem remorso nenhum. Sem saber muito o que comentar sobre aquilo, mudei de assunto.
— Sabe… Mesmo que você não seja um alfa, você pode…
Na mesma hora, Camar travou. Eu também processei o que tinha acabado de falar e arregalei os olhos.
“O que foi que eu acabei de dizer?!”
Camar perguntou, notando meu desespero e minha confusão:
— Só alfas e ômegas podem deixar marcas.
— Sim, é verdade!
O que eu queria dizer era que, mesmo que ele não fosse alfa, ele podia me “trancar e me ter só pra ele”, como ele mesmo tinha brincado antes, mas a frase saiu parecendo que eu estava pedindo outra coisa.
“Ainda bem que ele não entendeu errado”, pensei, mas, lá no fundo, uma parte do meu coração ficou meio frustrada.
“Ele não devia estar chateado por não poder me marcar?” Camar deu uns tapinhas nas minhas costas, como se o assunto estivesse encerrado, me deixando cheio de inquietação.
— Esquece essas coisas, vamos dormir. Você deve estar exausto.
Como ele bem disse, tinha sido um dia infernal. Eu ainda estava com dificuldade de processar as atrocidades que aconteceram diante dos meus olhos.
Talvez por isso eu não conseguisse pegar no sono fácil. Não era por causa do som do coração dele batendo tranquilo no meu ouvido, não era por causa do calor do corpo dele colado ao meu, e, com certeza, não era pelo braço pesado que me apertava pela cintura.
É, com certeza não era por isso.
Mesmo tentando me convencer, Yohan não conseguiu pregar os olhos por um bom tempo.
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jor&Belladonna