Capítulo 28
⚝ Capítulo 28
“O que aconteceu?”
Fiquei confuso por um momento, mas logo entendi o motivo ao olhar em volta da gaiola. Assim que me virei, soltei uma exclamação de choque. As grossas barras de ferro estavam completamente tortas. Ficava claro que alguém as tinha amassado e escapado. E essa pessoa só podia ser o Camar. O cheiro doce que pairava no ar era a maior prova disso.
A ideia do Camar ter fugido me deu um alívio enorme, mas logo trouxe outra preocupação. Teria sido melhor se ele tivesse fugido sozinho para longe. “Você não devia estar vagando pela mansão caso esteja me procurando.”
Me apressei e voltei rapidamente para pegar o Rikal. Aquela não era hora para ficar parado. Eu precisava achar o Camar.
Enquanto subia as escadas, tropecei e caí. Bati com força e minha cabeça girou. Mas não tinha tempo para sentir dor. Levantei de novo e forcei minhas pernas a andarem mais rápido.
Camar.
Estendi a mão e segurei a maçaneta. Abri a porta do porão, e uma luz forte invadiu minha visão.
— …!
Não consegui abrir os olhos na mesma hora, então cobri o rosto com as mãos. Fiquei tonto por um momento com aquela claridade, que parecia que ia me cegar.
Quando finalmente parei para me acostumar, ouvi a voz de alguém.
— Para onde você está correndo desse jeito?
A voz que soava tão mansa era conhecida demais para mim. Era o meu tio.
Enquanto eu abaixava a mão devagar, a figura familiar dele apareceu na minha frente. Engoli em seco, sem querer.
— …Tio.
Ele estendeu a mão com um sorriso no rosto. Ouvi um estalo alto e minha visão piscou. Só quando caí no chão é que percebi que tinha levado um tapa. Também percebi que tinha soltado o Rikal, mas a coisa não parou por aí.
Eu estava caído, meio atordoado, quando meu tio se abaixou, agarrou o colarinho da minha blusa com uma mão e me puxou para cima.
Ele escorregou o braço e, dessa vez, bateu na minha outra bochecha. O desgraçado me segurou pelo pescoço e me deu outro tapa, e mais outro, um atrás do outro.
— Ah, ótimo.
Ele finalmente parou de bater quando o sangue da minha boca já espirrava para todos os lados. Como se estivesse jogando fora um colar velho que segurava, ele me jogou no chão.
— Uh, uh…
Meu tio se agachou na minha frente. Tudo o que eu conseguia fazer era gemer de dor.
— Então, por que você está vagando pela casa dos outros como um rato, hein?
“A casa dos outros.”
Aquelas palavras grudaram na minha cabeça antes mesmo da dor. Meu tio, que olhava inexpressivo para a minha testa, empurrou minha cabeça com o dedo indicador. Quando minha cabeça voltava para o lugar por causa do impacto, ele a empurrava de novo, e de novo. Movendo minha cabeça para frente e para trás sem a menor dificuldade, ele abriu a boca.
— Ei.
Ele me olhou como se eu fosse patético.
— Se eu cuidei de você por sete anos, você não precisaria nem retribuir o favor. Tudo o que você tem que fazer é ficar quieto e fazer o que mandam. Por que dar trabalho desse jeito? Hein?
Eu não respondi, apenas olhei para ele. Então, o canalha estalou a língua e disse:
— Parece que você não entende o que eu digo.
Meu tio se levantou e, de repente, chutou a minha cabeça.
— …!
Depois, ele começou a chutar e pisar no meu ombro, no meu peito e no meu estômago. Minha respiração travou na garganta. Minha visão piscava a cada onda de dor. O único pensamento na minha cabeça era a dor e a vontade de implorar para que ele parasse. Juntei as mãos às pressas e implorei sem fôlego:
— P-pare… me desculpe… Eu não vou fazer de novo, juro!
Enquanto eu pedia desculpas sem parar, ele chutou minha barriga sem pena, me fazendo morder a própria língua. Minha boca se encheu de sangue e carne machucada. Quando as lágrimas escorreram e eu soltei um engasgo, meu tio de repente gritou.
— Ugh, mas o que é isso?!
Assim que levantei os olhos, vi Rikal correndo na direção dele. Rikal, que tinha pulado do nada e deixado uma marca funda de garras nele, avançou de novo.
— Não, Rikal!
Gritei desesperado, mas meu tio cuspiu um palavrão, torcendo o rosto com o arranhão sangrando.
— Esse gato maldito!
Ele imediatamente ergueu a mão e deu um tapa forte no gato. Gritei em pânico.
— Rikal!
O gato bateu contra a parede soltando um ganido baixo. Na mesma hora, me agarrei rapidamente à perna do meu tio, que já ia bater no gato de novo, e implorei aos prantos.
— Me desculpe, me desculpe, tio! Eu errei, por favor, me perdoe! Eu faço qualquer coisa! Por favor, não bate no Rikal. Por favor!
— Seu desgraçado, você não vai largar? Esse bastardo ainda tá louco!
Diante do meu apelo, meu tio começou a gritar com ainda mais raiva e voltou a me chutar.
— É, morre logo, seu inútil desgraçado! Por que você tinha que entrar no meu caminho? Você devia ter morrido junto com seu irmão, mas eu tive pena e te deixei vivo até agora!
— Bastardo, vai ver sua mãe no inferno junto com esse gato maldito hoje mesmo!
Eu já estava perdendo os sentidos com as pancadas contínuas. Eu queria mandar o Rikal fugir, mas não conseguia soltar uma palavra. A última coisa que vi foi a imagem borrada do Rikal fugindo assustado, antes de tudo ficar escuro.
“Ah, que bom…”, perdi a consciência com esse último pensamento.
***
Minha cabeça latejava e meus ouvidos zumbiam. Só depois de levar mais alguns tapas é que percebi que meu tio estava me batendo de novo para me acordar.
— Uh, para…
Enquanto eu mal conseguia murmurar, meu tio me olhou tremendo de raiva e disse:
— Se você sair vagando por aí de novo e não fizer o que mandam, saiba que não vai acabar só nisso. Você vai apanhar até seus tímpanos estourarem. Entendeu?
Eu estava com tanto medo que nem consegui responder direito, apenas concordei com a cabeça apressadamente. Ele levantou a mão de novo. Puxei o ar com força e cobri a cabeça na mesma hora. Enquanto eu me encolhia no chão e rezava, tremendo o corpo todo, meu tio ficou em silêncio por um momento. Abrindo os olhos devagar, ele abaixou a mão e falou:
— Certo, vou deixar passar dessa vez. Mas você não pode sair daqui de jeito nenhum a partir de agora, ouviu bem?
Fiquei surpreso, mas não ousei perguntar o que ele queria dizer com aquilo. Só de lembrar da mão pesada dele voando na minha cara, eu engasgava e não conseguia falar. Vendo que eu tremia, ele levantou a mão de novo.
— Me responde logo!
— Sim, sim! Eu não vou sair daqui, vou fazer tudo o que o senhor mandar… P-por favor, não me bata mais.
Gritei apressado e me encolhi ainda mais. Meu tio, me olhando de cima para baixo, disse:
— É assim que tem que ser. Só enrola até a hora certa. Fique sabendo que na próxima não vai acabar só com uns tapas na cara.
— Sim, sim.
Respondi depressa. Senti que meu tio tinha se virado. Olhei com cuidado e vi as costas dele se afastando. Foi aí que percebi que minha tia estava com ele. Ela falou enquanto andava ao lado do meu tio:
— Mas e se você bater forte demais nele assim? O comprador vem amanhã, o que ele vai achar se vir o garoto nesse estado?
— …Eu não aguentei, me irritei.
Meu tio olhou feio para mim, rangendo os dentes. Vendo meu estado encolhido e aterrorizado, ele xingou baixo e virou o rosto para frente.
Abaixei a cabeça rápido para evitar o olhar deles. Eles saíram do quarto, me deixando tremendo no chão. Ouvi o som da porta batendo, seguido do barulho da chave girando na fechadura. Eu estava trancado. O silêncio tomou conta. Só depois de ter certeza de que estava sozinho é que hesitei e tentei me levantar com dificuldade.
— …Ah!
Minha vista piscou e caí sentado de novo. A tontura de antes, somada ao choque da surra, dominavam meu corpo.
Enquanto eu ficava ali, encostado na parede tentando recuperar o fôlego, os lugares onde apanhei começaram a doer cada vez mais.
“O que aconteceu com o Camar?”
Eu estava preocupado, mas não perguntei ao meu tio de propósito. Se o Camar conseguiu fugir, seria pior para ele se eu perguntasse e levantasse suspeitas. Já estava bom assim.
“Eu te disse para ir embora mais cedo. Se você estiver a salvo, já é o suficiente para mim.”
“Será que o Rikal conseguiu fugir bem? Será que ele se machucou? Rikal, a culpa é minha…”
Quando lembrei do gatinho batendo com força contra a parede, meu coração doeu de novo e meus olhos arderam. Na mesma hora, uma dor aguda na costela me atingiu e eu não consegui nem chorar.
— Suspiro…
Era a hora de soltar um suspiro no escuro. De repente, ouvi passos vindo do outro lado do corredor. Como minha visão estava ruim, minha audição tinha ficado mais sensível, e eu conseguia ouvir claramente até os menores sons. Com os ouvidos atentos, tive certeza de que o barulho dos passos estava se aproximando devagar.
Eram os passos de pelo menos três ou quatro pessoas, não de uma só. De repente, um calafrio desceu pela minha espinha quando os passos pararam na frente da porta. Enquanto eu olhava, a fechadura chacoalhou, a chave girou e a porta se abriu.
— Viu só, eu te falei que seria fácil.
Era o Salman, entrando e dando risada. Alguns homens vinham logo atrás dele. Um deles olhou para mim, que estava sentado perto da parede em choque, e perguntou:
— Esse é o ômega de quem você falou?
O Salman sorriu e confirmou com a cabeça.
— É. É uma pena, ele é um garoto muito bom, mas deixou o meu pai irritado.
Ele olhou para mim e deu um sorriso relaxado.
— Mas não importa, o buraco dele ainda serve.
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Jor&Belladonna