Capítulo 12
Capítulo 12.1
Depois do trabalho, Keith me deixou na mansão e foi direto para o hotel. Isso acontecia com frequência, mas vê-lo se afastar de carro sempre me deixava amargurado e tornava difícil simplesmente dar as costas e entrar. Minha rotina depois disso foi a mesma de sempre. Comi o jantar que Charles havia preparado e tive uma consulta com Steward, que tinha vindo me visitar.
– Agora nós podemos ajustar essas sessões para cerca de duas vezes por semana e colocar você com estes remédios – disse ele, tirando o medicamento do bolso. Eram do tipo que ele me dava sempre que eu perdia o controle. – Se você sentir que vai ter um ataque de pânico, tome este aqui. Se ainda assim não ajudar, você pode tomar uma dose adicional deste outro.
O segundo medicamento que ele me entregou era desconhecido para mim. Examinei curiosamente todos os lados da embalagem.
– Tome estes apenas quando os primeiros remédios parecerem não fazer efeito – explicou ele. – Mesmo assim, é melhor não tomá-los se for possível. Por mais eficaz que seja, ele vem com efeitos colaterais maiores. Tome os primeiros medicamentos para começar e, se você realmente achar que não está funcionando, tome o segundo. Mas o importante é você tentar se acalmar. Se você acabar tomando o segundo medicamento, me ligue. Preciso verificar como você está se sentindo e como os efeitos se manifestam.
Assenti concordando com os conselhos de Steward e chequei novamente a ordem dos remédios.
– Ufa. – Quando mexi os ombros de forma exagerada e respirei fundo, Steward sorriu de forma amarga e deu um tapinha nos meus ombros. Encolhi-me por instinto, mas não fiquei rígido como costumava ficar. Steward assentiu, orgulhoso.
Acompanhei Steward até a saída e voltei para a sala de recepção. Assim que me vi sozinho, um suspiro escapou automaticamente da minha boca. Enquanto estava ali sentado, sem pensar em nada, ouvi uma música vindo de longe. A princípio, não percebi o que era, mas logo reconheci como o meu toque de celular e comecei a procurar o aparelho freneticamente para ver quem estava ligando. Era a empresária do Chase.
Rapidamente levei o celular ao ouvido e pedi desculpas.
– Sim, desculpe por atender tarde. O que houve?
– Não, eu é que deveria pedir desculpas por ligar tão tarde – respondeu a empresária do Chase. – No entanto, achei que seria melhor transmitir a mensagem do Chase o mais rápido possível.
– Sim, claro. Sem problemas. – Preparei-me rapidamente para fazer anotações. A empresária prosseguiu com um suspiro que me deu um mau pressentimento.
– Ele disse que não gostou das condições.
Quase soltei um gemido sem perceber. Eu havia esquecido que Chase Miller não era um homem tão fácil de lidar. Mudar de papel não deve ser uma linha de ação simples do ponto de vista de um ator, mas havia algumas pessoas com quem se podia negociar e outras com quem não dava. Chase era definitivamente o segundo caso.
– Ele não gostou das condições? – perguntei de novo.
A empresária parecia estar se justificando.
– Sim. Chase disse que gostaria de anular totalmente este contrato. Como o contrato foi alterado primeiro pelo lado de vocês, deve ser possível fazer isso sem qualquer penalidade para o nosso…
– Espere, por favor, espere! – interrompi-o desesperadamente. – Achei que vocês tivessem aceitado quando liguei hoje à tarde. Dei o aviso de que o papel seria alterado e decidimos que reajustaríamos os detalhes do contrato depois que eu enviasse as mudanças exatas por documento…
– Nós dissemos isso, mas o que posso fazer? Chase diz que não gosta do que está escrito no contrato. – Mais uma vez, seu suspiro profundo ecoou do outro lado da linha.
Por um momento, fiquei travado e sem saber o que dizer. O que diabos ele não tinha gostado naquilo? Nós tínhamos dado a ele condições ainda melhores do que as oferecidas antes. Fizemos uma reunião especificamente para o novo papel de Chase e reescrevemos o contrato por meio de uma advogada.
As alterações no contrato foram feitas de forma correspondente para combinar com a mudança de papel e, felizmente, foram aceitas sem muitas objeções na época. No entanto, os membros da diretoria ainda pareciam não aceitar o motivo de Chase ter sido escalado para o papel coadjuvante em vez do principal. Contudo, como haviam sido criticados recentemente sobre múltiplos detalhes envolvendo ocasiões passadas, ninguém se atreveu a perguntar o porquê a Keith.
Além disso, as decisões de Keith sempre se mostravam corretas. O final de um filme que todos se recusaram a aceitar e votaram contra foi, certa vez, elogiado como a melhor cena de encerramento daquele ano. Também houve ocasiões em que ele escalou atores sem nome e os transformou em estrelas em um único salto. Será que a decisão de Keith estaria correta desta vez também? Todos tinham suas dúvidas, mas não tinham outra escolha a não ser segui-lo.
Para completar, ele providenciou para que Chase recebesse várias vezes a compensação esperada pelo novo papel. Eu conseguia até me lembrar da trilha interminável de zeros que vi impressa no contrato.
– Então, por favor, me diga o que ele queria fazer, do que ele não gostou ou o que ele queria consertar – implorei.
A empresária não respondeu. Esperei pacientemente.
– Bem, er… – Ela lutou para falar, tentando relutantemente descobrir como dar a notícia. – Ele disse que queria falar tudo diretamente para você e pediu para decidirem uma data para se encontrarem.
Não consegui mais segurar e suspirei alto. Profundamente. Era algo comum neste meio que estrelas populares inventassem suas próprias condições e dessem trabalho às produtoras, mas ser tão orgulhoso diante de Keith Knight Pittman era algo inédito. Será que esse tipo de atitude selvagem só era possível porque Chase era um dos Miller?
– Entendido. Vou relatar isso ao Sr. Pittman, mas não posso garantir que ele vá aceitar.
– Claro – respondeu ela, também sem entusiasmo diante do meu aviso. Quando percebi que a posição daquela mulher não era melhor que a minha, senti empatia. Como podia essa linhagem de alfas dominantes ser tão desprovida de compaixão pelos outros?
Suspirei profundamente mais uma vez.
Justo então, ouvi o som fraco de um carro entrando vindo lá de fora. Keith estava voltando. Tendo encerrado a ligação, levantei-me rapidamente e saí da sala de recepção.
Quando abri a porta da frente, vi Charles de pé na base da escada, preparando-se para receber Keith. O carro, que se aproximava a uma distância não muito distante de nós, desenhou um grande círculo ao redor do pequeno jardim no meio. Conforme ele parou e Keith começou a sair, fiquei ao lado de Charles e esperei.
Whittaker saiu primeiro e imediatamente caminhou, basicamente correu, até a porta de Keith para abri-la para ele. Keith saiu do carro por último e ergueu a cabeça. Ele me avistou e deu um sobressalto. Eu entendia; provavelmente era uma resposta razoável a uma situação inesperada, mas ainda assim me perguntei se havia realmente necessidade de ele pular daquele jeito só porque me viu. Deixei para lá sem pensar muito profundamente a respeito, esperando que Charles falasse primeiro.
– Bem-vindo de volta – disse ele. – Devo preparar seu banho?
Keith passou com indiferença pelo mordomo e respondeu com um simples, mas totalmente esperado:
– Não. – Em dias como este, ele costumava tomar banho no hotel e não se incomodava com isso em casa. – Está tudo bem – disse ele em seguida. – Está dispensado.
Charles assentiu brevemente e virou-se. Keith deu as costas para ele e caminhou direto em minha direção. Bem, para ser mais exato, eu apenas por acaso estava parado em seu caminho, muito provavelmente.
Ele tinha um cigarro preso entre os lábios. Provavelmente tinha vindo fumando durante todo o trajeto. Conforme ele se aproximou, senti um leve aroma de seus feromônios misturado com seu habitual toque de tabaco. Tentei especificamente não cheirar o sabonete líquido que também devia estar misturado ali em algum lugar, mesmo sabendo que não conseguia me conter de fazer isso apenas por força de vontade.
Continuei a olhar para ele e a esperá-lo até que ele finalmente pisou no mesmo degrau em que eu estava.
– O que foi? – perguntou ele, com o cigarro ainda alojado entre os lábios. Toda vez que ele os movia, o cigarro balançava para cima e para baixo. Por um momento, desejei em vão ser aquele cigarro.
No entanto, quando me lembrei de que assim que a utilidade dele terminasse, ele simplesmente o jogaria no chão sem a menor hesitação, voltei para a realidade.
Ele ainda me observava. Mal contendo os clamores do meu coração acelerado sob a pressão de seu olhar frio, fiz meu relatório o mais composto possível.
– Eu estava em uma ligação com a empresária do Sr. Chase Miller. Ele não gostou das novas condições e gostaria de falar com o senhor pessoalmente.
A sobrancelha de Keith franziu de leve. Ele tirou o cigarro da boca.
– O Chase quer me ver?
– Sim.
Tentei adivinhar como ele estava se sentindo, com meu interior todo nervoso e agitado. E se ele ficasse irritado? Era possível, já que estávamos falando de Keith. Tentei desesperadamente pensar em como reagiria se isso acontecesse. Como Charles estava aqui, felizmente, eu seria capaz de receber alguma ajuda. Em vez de explodir, porém, Keith inesperadamente soltou um suspiro de exasperação, e senti o alívio se instalar em mim.
Ele mordeu o cigarro que pendia de seus dedos longos e o puxou para fora mais uma vez antes de abrir a boca.
– Quando?
Acabei reagindo de forma estúpida.
– Ahn?
Desta vez, o rosto de Keith realmente se contraiu em uma carranca. Antes que eu acendesse o pavio de seu temperamento novamente, juntei meus pensamentos rapidamente.
– Eles não especificaram uma data ou horário exatos, mas quanto ao senhor… o senhor está livre na próxima terça-feira para o almoço.
– Então agende para esse horário.
– …Entendido.
Fiquei realmente atordoado ali, por um momento. A conversa havia terminado com tanta facilidade quando eu tinha certeza de que ele estaria extremamente irritado ou algo assim. Como terminou de forma tão anticlimática, será que Keith já esperava que algo assim acontecesse?
Enquanto nossa conversa ocorria, Charles segurava a porta aberta e esperava por Keith. Keith passou por Charles como se fosse a coisa mais natural do mundo e entrou. Segui-o com um leve atraso. Ele então começou a subir uma longa fileira de escadas para se dirigir ao seu quarto no segundo andar. Como o meu próprio quarto não ficava longe do dele, sem querer parecia quase que eu o estava seguindo. Enquanto eu continuava a caminhar atrás dele, ele deu um estalo e virou-se em minha direção.
– Tem algo mais a dizer?
Estávamos apenas indo na mesma direção, mas em vez de dizer a ele essa verdade, decidi perguntar o que me deixava curioso.
– Er, que tipo de condição o senhor acha que o Sr. Miller quer propor? – perguntei. Em seguida, mudei rapidamente para justificar minha indagação. – Se houver algo que o senhor tenha em mente, eu gostaria de ao menos me preparar. Dessa forma, o contrato pode ser assinado sem problemas.
Sem sequer piscar, Keith disse nonchalantemente:
– Nada demais.
Consegui me conter para não soltar outro “Ahn?”. Meus olhos se arregalaram, porém.
Keith continuou, ainda irritado.
– Ele só quer me dar trabalho. Ele é assim mesmo.
– Entendo… – Deixei a frase morrer, inclinando a cabeça em confusão.
Keith puxou outro cigarro.
– Diga ao Grayson… – começou ele, mas interrompeu-se no meio da frase. Quando ouvi o nome de Grayson, encolhi-me, mas isso era sobre trabalho, então silenciosamente esperei que Keith continuasse de qualquer forma. Após um curto silêncio, ele disse: – Esquece. Está tudo bem.
– …Entendido. – Como eu não tinha mais nada a dizer, fechei a boca.
O som dos passos dele e dos meus era o único som que ecoava baixinho em meio ao silêncio. Assim que chegamos ao corredor do segundo andar, Keith liberou uma longa lufada de fumaça.
– O senhor está cansado? – soltei, falando antes que pudesse pensar melhor.
Ele olhou por cima dos ombros. Sentindo que havia feito uma pergunta intrusiva, tentei pensar rapidamente em outra coisa para mudar de assunto, mas, para minha surpresa, ele respondeu.
– Um pouco.
Ele voltou a caminhar e, enquanto observava suas costas, ponderei. Ele teve muito trabalho recentemente?
Agora que parava para pensar, ele não parecia estar se sentindo muito bem ultimamente. Sempre que eu dizia algo para ele, ele só reagia depois de perder o tempo da resposta e frequentemente parecia estar olhando para o vazio. Era difícil precisar, mas até o próprio Keith havia admitido seu cansaço. Perguntei-me o que poderia ter sido a causa, mas nada me veio à mente.
Então, os comentários de Steward sobre a fisiologia dos alfas dominantes de repente surgiram na minha cabeça, mas desconsiderei a possibilidade de serem relevantes. Não havia a menor chance de ser porque seus feromônios estavam se acumulando e mexendo com a cabeça dele. Afinal, Keith estava vendo Naomi com ainda mais frequência do que antes. Ele tinha acabado de voltar de uma estadia no hotel hoje, inclusive.
Senti uma pontada de amargura desolada. Então, tive uma ideia, mas estava relutante em propô-la. No fim, cedi.
– Er… – comecei – o senhor gostaria que eu lhe fizesse uma massagem rápida?
Keith parou de repente. Tão de repente, de fato, que quase me fez sentir desnorteado. Ele virou a cabeça lentamente para me encarar no rosto.
Meu rosto corou de vergonha. De alguma forma, senti que precisava me explicar.
– Bem… eu aprendi isso para um trabalho de meio período…
Keith tirou o cigarro dos lábios. Ele parou brevemente para expirar a fumaça.
– Você aprendeu a fazer massagens?
– Sim – assenti. – Eu costumava fazer trabalhos de meio período para ajudar com meus custos de vida… Ah, eu sou certificado, se as minhas habilidades forem o que o preocupa.
Ele colocou o cigarro de volta. O silêncio durante os poucos segundos que ele levou para tomar uma decisão pesou severamente sobre os meus ombros. Então, ele expirou mais um pouco de fumaça.
– Vá ao meu quarto em dez minutos.
Apesar de ter ouvido claramente o que Keith dissera, duvidei dos meus ouvidos. Só recobrei os sentidos quando a porta se fechou silenciosamente atrás dele.
Em dez minutos.
Esfreguei a mão sobre a boca para abafar o meu grito.
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↫─☫ Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Jør