₊ Capítulo 03.2
𓂃˖˳·₊˚.𔓎 Capítulo 03.2: Uma Noite Infernal ⋆⁺₊
De acordo com Xiong Qi, a melhor maneira de atravessar a noite era dormir quieto e em paz. No entanto, a mente de Lin Qiushi estava cheia de inúmeros pensamentos, e ele não conseguia de jeito nenhum adormecer naquele momento. Atrás dele, Ruan Baijie roncava feito um porco; no exato instante em que fechou os olhos, ela adormeceu. Lin Qiushi ficou tão irritado que seus dentes doeram de tanto rangê-los.
Conforme a noite avançava, a temperatura caía ainda mais. Felizmente, o cobertor era grosso, e uma pessoa quente e viva dormia às suas costas, então não era excessivamente insuportável.
Lin Qiushi fechou os olhos e organizou as pistas que obtivera durante o dia. Sua consciência começou a se embaçar aos poucos, e ele não estava longe de cochilar. Mas, justo quando estava prestes a mergulhar em sono profundo, percebeu um ruído estranho e vago. Ao contrário das batidas do dia anterior, esse ruído vinha do teto acima deles. Soava como se algo viscoso e pesado estivesse se arrastando lentamente pelo telhado do terceiro andar. A audição de Lin Qiushi era excepcionalmente aguçada, e sua sonolência desapareceu no mesmo instante. Sua respiração falhou, e ele abriu os olhos com cautela, espiando lentamente para o teto.
Não havia nada, apenas madeira envelhecida.
Mesmo assim, um frio penetrante logo assaltou o corpo de Lin Qiushi, pois ouviu claramente os movimentos pararem bem em cima de sua cabeça.
“Toc, toc.” As vibrações daquelas batidas viscosas estimularam seus tímpanos, e os sons das pancadas foram aumentando constantemente, ficando cada vez mais altos, fazendo com que todos os pelos do corpo de Lin Qiushi se arrepiarem. Ele cerrou os dentes e estava prestes a se sentar, mas, justo naquele momento, uma mão se estendeu do seu lado e agarrou sua cintura.
— O que você está fazendo? — Era a voz letárgica de Ruan Baijie.
— Você ouviu aquele barulho estranho? — Lin Qiushi baixou a voz. — Vindo do telhado?
— Barulho? Que barulho. — Ruan Baijie resmungou: — Eu não ouvi nada. Pare de se mexer, estou congelando.
Ela soprou suavemente ar em seu ouvido, sua respiração tênue carregava o cheiro de gelo e neve.
— Você… — Lin Qiushi ainda queria dizer algo, mas então sentiu Ruan Baijie puxá-lo em sua direção e se agarrar a ele com força.
— Durma. — Ruan Baijie ordenou.
Lin Qiushi não teve escolha a não ser fechar os olhos.
Ruan Baijie enganchou suavemente os dedos ao redor da cintura de Lin Qiushi e a acariciou de forma tranquilizadora. Suas ações eram provavelmente ambíguas e questionáveis, mas, naquele momento, eram apenas relaxantes, reconfortantes.
O tamborilar acima continuou, mas Lin Qiushi não estava tão assustado quanto antes. Mais uma vez, a sonolência desceu sobre ele, e finalmente sucumbiu a ela.
Na manhã seguinte.
Lin Qiushi acordou nos braços de Ruan Baijie.
Ruan Baijie esticou os braços e puxou o corpo inteiro dele ainda mais para perto do seu abraço; seu queixo repousava no topo da cabeça dele. Ela ficou levemente irritada por ter sido acordada e resmungou preguiçosamente:
— Pare de dar trabalho. Durma mais um pouco.
Lin Qiushi: …
Mas que porra.
Ele ficou deitado na cama por um instante. Vendo que Ruan Baijie não tinha a menor intenção de se levantar, precisou lembrá-la:
— Eu quero levantar.
Ruan Baijie:
— Hum…
Lin Qiushi:
— Ruan Baijie?
Ruan Baijie:
— Ontem à noite você chamava esta aqui¹ de querida, amorzinho, mas hoje você me chama de Ruan Baijie.
Lin Qiushi: …
Mas, apesar de dizer tudo isso, Ruan Baijie mesmo assim afrouxou o aperto e então se recostou na cabeceira para ficar cobiçando Lin Qiushi enquanto ele vestia as roupas. Enquanto se vestia, ele ficava com a sensação de que a atmosfera estava um pouco esquisita. Depois de remoer isso por um tempo, finalmente se virou e olhou para Ruan Baijie.
— Você pode parar de me encarar com esses olhos?
Ruan Baijie:
— Que olhos? O dinheiro está em cima da mesa. Pegue e me passe os cigarros, eu quero um.
Lin Qiushi: …
Ela fumou alguma coisa estranha ou o quê?
Ruan Baijie:
— O que foi? Ainda se recusa a ir embora, ah? A gente combinou exatamente quinhentos ontem. Nem pense em querer mais.
Lin Qiushi ficou sem palavras. Depois de se vestir, desceu as escadas pisando duro.
Os outros já estavam sentados na sala de estar, comendo o café da manhã que os aldeões entregaram. Como de costume, Lin Qiushi contou o número de pessoas. Descobriu que, excluindo Ruan Baijie, faltavam mais três pessoas no cômodo.
Xiong Qi o avistou e fez sinal para que ele se sentasse.
— Não aconteceu nada ontem? — Lin Qiushi perguntou.
— Nada. — Xiong Qi respondeu. — Ninguém morreu.
Bem, ainda bem que ninguém morreu. Lin Qiushi relaxou, suspirando de alívio.
Na verdade, a noite passada foi tão calma que nem mesmo os outros ouviram quaisquer ruídos adicionais. Lin Qiushi questionou, de forma tímida, se eles haviam ouvido algum sinal de movimento lá de cima, mas as respostas dos outros foram consistentes — a noite foi extremamente silenciosa; não houve outros sons além do vento lá fora.
— Depois que terminarmos de comer, vamos sair para cortar algumas árvores e levar a madeira para o carpinteiro. Temos que acelerar. — Xiong Qi enfatizou. — Olhem o tempo, só vai ficar mais frio a cada minuto; se ao menos não houve nenhum incidente ontem à noite…
Suas palavras pareciam conter desconfianças e dúvidas.
— Bem, é. — Lin Qiushi soltou.
Uma após a outra, as três pessoas restantes desceram as escadas; Ruan Baijie foi a última a descer. Ela ainda estava usando aquele adorável vestido dela, mas acrescentou dois casacos relativamente grossos por cima e vestiu calças de inverno largas e espessas por baixo. Como sua saia era bastante comprida, ela caminhava extremamente devagar, mas sua postura era, ainda assim, incomparavelmente elegante.
Quando Lin Qiushi notou que ela chegava, desviou o olhar, constrangido.
— Qiushi. — Ruan Baijie chamou seu nome.
Lin Qiushi murmurou de volta, sem jeito.
— Por que você ignora esta aqui? — Ruan Baijie clamou. — Está aqui deseja comer o seu macarrão cozido.
Lin Qiushi:
— Eu faço para você ao meio-dia. Agora é tarde demais.
Ruan Baijie:
— Não foi isso que você disse na cama ontem à noite.
Ao ouvir aquilo, Xiao Ke, que estava sorvendo seu mingau, engasgou, quase morrendo sufocada. A expressão de Xiong Qi também estava complexa e indescritível. Consciente ou inconscientemente, seus olhos se alternavam rapidamente entre Lin Qiushi e Ruan Baijie.
Lin Qiushi não sabia se ria ou se chorava.
— Está bem, pare com isso agora mesmo. Eu realmente agradeço por ontem à noite. Vou cozinhar um macarrão para você ao meio-dia, e ainda frito mais dois ovos pra você.
— Certo. — Ruan Baijie cedeu. — Ah, e seria ainda melhor se tivesse um pouco de cebolinha picada.
Já é uma bênção ter legumes verdes para comer em um dia tão frio. Quanto àquela cebolinha picada ou sei lá o quê, esqueça.
Depois de terminarem o café da manhã e vestirem roupas quentes, o grupo pegou seus machados e ficou pronto para partir.
Eles planejavam derrubar árvores na mata da montanha localizada nos arredores da aldeia. Havia apenas uma única trilha que levava até aquela área. Por causa da neve, o caminho ficou mais estreito, permitindo que apenas uma pessoa passasse por vez.
Era razoavelmente fácil subir a ladeira, mas ele calculou que seria cada vez mais desafiador descer as montanhas arrastando madeira pesada atrás de si. Lin Qiushi refletiu sobre isso enquanto caminhava pela trilha estreita.
Entre os onze deles, havia uma pessoa que já havia feito algum trabalho em madeira. Era um homem de meia-idade, por volta dos trinta anos. Ele afirmava ser carpinteiro e disse que era capaz de cortar árvores para criar móveis simples. No entanto, construir um caixão não era algo em que tivesse conhecimento. Ele caminhou à frente, selecionou algumas árvores e começou a ensinar a todos como derrubar uma árvore.
A maioria das pessoas ali nunca havia feito esse tipo de coisa antes. Embora fossem orientados por alguém, ainda estavam bastante desacostumados com aquilo e não conseguiram dominar a técnica de primeira.
Lin Qiushi ergueu seu machado e golpeou a árvore duas vezes. Sua primeira tentativa de derrubar uma árvore deixou apenas uma marca tênue no tronco.
— A sua técnica ainda está errada, ah. — Ruan Baijie estava parada tranquilamente ao lado dele. Suas mãos estavam enfiadas nos bolsos, e sua respiração ficava branca no ar frio. — Você tem que usar a sua força para trazê-lo para baixo; senão, como é que você espera erguer um machado tão pesado?
Lin Qiushi:
— Você já cortou alguma árvore?
Ruan Baijie:
— Eu já vi gente derrubando árvores.
Lin Qiushi soltou:
— Ah.
Ruan Baijie acrescentou:
— Tome cuidado, tá. Não se machuque.
Lin Qiushi assentiu com a cabeça e continuou golpeando a árvore com o machado. Aquilo era ainda mais trabalhoso do que originalmente presumiram. Durante toda aquela manhã, vários homens grandes ficaram se revezando para derrubar as árvores; enquanto alguns descansavam, os outros davam o melhor de si para derrubar a árvore.
— O que a gente vai fazer, Xiong gege? — Alguém perguntou. — O que é que a gente vai fazer?
Xiong Qi olhou para o tempo e rangeu os dentes.
— Vamos. Vamos levar esta árvore de volta e continuamos com isso amanhã.
Embora fossem apenas três horas da tarde, a escuridão já havia pintado o céu de preto; além disso, grandes camadas de neve começaram a cair. Parecia que a noite seria assolada por uma forte nevasca.
Lin Qiushi:
— De quantos troncos no total precisamos para um caixão?
— O chefe da aldeia disse que uns três. — Xiong Qi respondeu. — Dois dias de trabalho duro devem bastar. Agora venham, alguém dê uma mão aqui.
Lin Qiushi tinha acabado de dar um passo à frente para carregar a árvore quando ouviu Ruan Baijie exclamar:
— Aiya, parece que eu torci o pé. Me carregue montanha abaixo, Qiushi.
Lin Qiushi:
— Hein?
Ruan Baijie:
— Como assim “hein”? Ora, ande logo, não tem muita gente aqui. Por que você está fazendo alarde?
Lin Qiushi quis retrucar, mas Xiong Qi lhe deu um tapinha no ombro e o encorajou:
— Vá lá.
Lin Qiushi: …
Ele olhou de relance para a expressão de Ruan Baijie, mas não conseguiu decifrar nada por trás de sua aparência delicada e digna de pena. No entanto, seu faro sensível farejou uma pista; sua intuição aguçada lhe dizia que o pedido repentino e inexplicável de Ruan Baijie não era tão simples quanto ele imaginara.
꒷꒦︶꒷꒦︶꒷꒦ NOTA: ꒷꒦︶꒷꒦︶꒷꒦
¹人家 — Uma forma fofa/infantil/provocante de se referir a si mesma, usada estritamente por garotas. Significa apenas “eu” ou “mim”; também poderia ser escrito como “as pessoas” ou “esta aqui”.
╋━ Continua….
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Belladonna, Othello&Yuki