Capítulo 04.3
4. Wolfie, The Bunny
—Yurij, eu me sinto tão… bem porque está fresquinho.
«Será que é porque a gente não se tocou por mais de meio dia?» Embora fosse um ato caprichoso, não lhe deu raiva. Ao deixar por isso mesmo, o comportamento de Cheriot foi ficando cada vez mais estranho.
Não satisfeito em só encostar a bochecha na mão de Yurijj como um gato, ele também roçou os lábios. Ao sentir a temperatura corporal muito mais quente que a da testa, Yurij mexeu os dedos sobressaltado e a força que segurava seu pulso se intensificou de repente. Diante da ação bestial de prendê-lo para que não escapasse, a espinha de Yurijj se arrepiou.
—Você…
Ele imaginava.
—Entrou no rut.
O feromônio de Cheriot tinha ficado descaradamente intenso. Como alfa, era impossível que ele não reconhecesse o cheiro de um alfa que tinha entrado no rut.
Quanto mais atraente e forte era um alfa, mais intenso era seu feromônio, e ele cumpria o papel de enxotar outros alfas que entrassem em seu território e enfeitiçar os ômegas. O feromônio de Cheriot era tão intenso que a pele de Yurijj formigava.
«Embora tivesse me chamado a atenção desde de manhã, como ele tomou inibidores, não achei que fosse entrar no rut.» Além disso, seu próprio estado, ao perceber só agora que o rut de Cheriot já tinha começado, também era estranho. «Como eu não notei, estando ao lado dele a noite toda, se era tão óbvio?»
«Mas não me deu rejeição.»
«Será que é porque o Cheriot já costumava se encontrar com outros alfas?» Embora fosse o feromônio de um alfa que reclamava território, ele não sentia hostilidade em particular. «Se é rut, o feromônio do outro deveria ser incômodo a ponto de dar nojo.»
—Hã…?
Ao ouvir que tinha entrado no rut, Cheriot olhou para ele com os olhos meio turvos. No instante em que viu aqueles olhos verdes ligeiramente desfocados, uma sensação estranha roçou sua nuca. Como se tivesse presenciado uma cena íntima, Yurij desviou o olhar.
—Isso agora é febre de rut. Quando o rut começa, queima seu corpo continuamente até ser aliviado. Parece que você realmente nunca passou pelo rut sem fazer nada.
Os olhos de Cheriot piscaram, perdendo e recuperando o foco repetidamente até que enfim voltaram ao normal. Soltando um fôlego entrecortado, ele disse como se realmente não soubesse:
—Isso vai continuar?
—Vai.
—Está doendo pra valer.
—Logo vai doer mais.
A febre de rut no começo parece um mal-estar corporal causado pela febre, mas em vez de sentir frio, provoca uma sede ardente e um calor intenso que fazem o corpo sofrer. A razão humana desaparece e só se sente um desejo intenso, obcecado pela ideia de que, se não satisfizer essa necessidade imediatamente, vai enlouquecer. A masturbação só alivia por um instante. Resta apenas um instinto primitivo e violento, como o de uma fera que entrou na época de acasalamento, com vontade de fazer qualquer coisa se com isso conseguir alívio.
O rut de um alfa era muito mais prejudicial que o ciclo de cio de um ômega e, para evitar cometer atos vergonhosos com a mente perdida, a regra era se encarregar de tomar inibidores por conta própria ou não sair de casa durante esse período. Era uma lei estabelecida em todos os países e, mesmo que não fosse, havia se firmado como uma norma social. Talvez num passado distante de era bárbara fosse diferente, mas na atualidade a maioria dos países regulava estritamente o rut.
Yurij normalmente não queria gastar dinheiro comprando inibidores desnecessários, então costumava procurar um ômega cujo ciclo coincidisse com o dele ou se trancar em casa e aguentar. Até Igor, que sugava as pessoas até a medula, mandava cumprir o período do rut e só depois voltar ao trabalho. Um alfa com a mente nublada pelo desejo sexual era propenso a cometer erros, e ter alguém assim em campo não acrescentava nada.
Enfim, por causa dessa experiência, Yurij sabia bem o quanto a febre de rut deixava uma pessoa dolorida e miserável. Embora o rapaz jovem e bonito diante dele parecesse não fazer a menor ideia de como era.
—Mas você tomou inibidores?
—Talvez eu tenha comprado errado.
—Isso é impossível. Você não perguntou pra farmacêutica?
Enquanto encarava fixamente Cheriot, que protestava com a voz ofendida como se quisesse se explicar, Cheriot o puxou para dentro de casa. Yurij, que fazia um tempo não fazia nenhum esforço para soltar o pulso que Cheriot segurava com firmeza, pensou, enquanto voltava para casa, que talvez fosse isso que ele tivesse desejado.
Não lhe desagradava tanto. Aquele comportamento completamente caprichoso e sem modos.
Ao entrar em casa, Cheriot correu para a cozinha e começou a revirar os armários. Yurij, que o seguiu devagar, trancou a porta da frente no lugar dele, já que Cheriot tinha esquecido outra vez de colocar a tranca.
Enquanto ouvia o som do mecanismo de segurança girando e se encaixando, ruminou por dentro a conversa que tinha tido com Alexei. Embora agora mesmo não fosse acontecer de alguém derrubar aquela porta e entrar, se algo assim acontecesse em breve, perguntou-se em silêncio até que ponto seria capaz de ir.
Cheriot tinha procurado um “mercenário bom”, que quisesse evitar ao máximo que as pessoas se machucassem. Mas o método de proteção que Cheriot desejava não passava de uma fantasia idealista. A situação de Cheriot ia além de simplesmente resolver disputas; só existiam opções em que, se não matasse, morreria sem remédio.
As pessoas que tentam matar outras para seus próprios fins não mudam. Yurij tinha aprendido através de múltiplas experiências que, mesmo que em situações desfavoráveis fingissem recuar, no fim cravavam uma faca nas costas. Quanto mais cicatrizes eram gravadas em seu corpo, mais aumentavam as lições que ele desconhecia.
«Mas o importante vai ser seguir a vontade do Cheriot. Lutar de um jeito que evite matar exige muito esforço e existe a possibilidade de até o Cheriot se machucar, mas se isso tranquiliza o coração dele…»
—Olha, Yurij. Aqui está escrito claramente “inibidores”, tá vendo?
Yurij, que estava ponderando entre o método dele e o de Cheriot, virou o corpo ao ouvir a voz que o chamava. Cheriot balançava os inibidores que tinha acabado de encontrar, como se os mostrasse. Yurij, que observava em silêncio suas bochechas brancas mais coradas do que o habitual por causa da febre, desviou lentamente o olhar e examinou a caixa do remédio. As farmacêuticas que fabricavam inibidores eram um número limitado, e Cheriot tinha comprado de uma delas.
Yurij, emitindo um leve rosnado, atravessou a sala em direção à cozinha. Como alguém que não tinha aprendido a conter o próprio feromônio, Cheriot estava espalhando o dele por todos os lados.
Ao avançar passo a passo através do feromônio que enchia o ar como fumaça transparente, aos poucos seu corpo começou a ficar tenso. Era como se aproximar de um leão sentado quieto. Embora soubesse perfeitamente que um homem bonito com um rosto tão inocente não o machucaria, a sensação opressiva típica de um alfa em rut o pressionava. Não, mais do que opressão…
…despertava também nele um estranho impulso.
Finalmente chegou diante de Cheriot, que estava junto à pia do outro lado do balcão-ilha, e Yurij se posicionou deliberadamente do lado oposto. Seguindo a intuição de que, se chegasse perto demais, algo aconteceria, guardou certa distância.
Cheriot lhe estendeu o remédio. Embora ele não fosse farmacêutico e ver aquilo não fosse mudar nada, Cheriot tinha um olhar como se acreditasse que Yurij resolveria tudo.
Ao tentar pegar a caixa do remédio, Yurij tocou sem querer os dedos de Cheriot. Ao roçar suas unhas redondas e macias, o rosto de Cheriot, que tinha feito uma expressão inocente, mudou em um instante. As pupilas no centro de seus olhos verdes escurecidos se contraíram, negras e pequenas, enquanto em seu rosto pálido, que o encarava fixamente, floresceu como fogo um desejo impossível de esconder. No momento em que viu aquilo, foi como se tivesse voltado à tarde junto ao lago onde, perdendo os sentidos, tinham desejado um ao outro.
Pelo olhar fixo nele como se estivesse colado com cola, a boca de Yurijj secou por completo. O ato de se olhar nos olhos era tão intenso e estranho assim? Só estavam se olhando, mas sua saliva já secava e um calor subia por seu ventre. Até respirar lhe parecia tenso e, quando ficou parado e rígido, Cheriot inclinou lentamente o tronco.
O homem, que era mais de meio palmo mais alto que Yurij, também tinha um tronco largo e longo em proporção, então bastava deslocar o equilíbrio para a frente que alcançava Yurij facilmente. A largura do balcão-ilha mal dava para colocar dois pratos e, quando Cheriot inclinou o corpo, chegaram tão perto que roçar os lábios não teria sido estranho.
Como uma fera com a presa diante de si, Cheriot aproximou muito o rosto e inclinou a cabeça de lado. Suas sobrancelhas douradas, curvadas e altas, tremularam, e ele percorreu descaradamente os lábios de Yurijj com o olhar. Olhando para baixo, para aqueles olhos verdes em movimento, Yurij apertou com força a caixa do remédio.
«Eu deveria empurrar ele…»
Esse pensamento surgiu e depois se desfez como uma bolha. A distância mínima que ele tinha tentado manter como uma linha vermelha agora não fazia sentido. Se Cheriot quisesse, poderia se aproximar de Yurijj em uma passada, como agora, e Yurij não podia impedir.
—…Desculpa.
No instante em que a intuição de que algo aconteceria lhe cruzou a mente, Cheriot sussurrou com a voz apertada. Soltando um longo suspiro de pesar, negou com a cabeça e recuou.
—Ah, droga. Parece que é o rut mesmo.
Cheriot, bagunçando o cabelo, murmurou como se fosse enlouquecer e depois se apressou em criar distância de Yurijj. Depois, indo e vindo desordenadamente diante da mesa, fechou os olhos.
—O que eles pretendem vendendo isso como inibidor se nem faz efeito? Eu deveria processar essa gente.
Yurij, que, em silêncio, observava Cheriot tentando se agarrar à sanidade de qualquer jeito, também conseguiu finalmente mover o corpo rígido e abriu a caixa do remédio. Tirou a bula de dentro e a percorreu com o dedo procurando o modo de administração e os efeitos colaterais, até que encontrou a frase escrita ali.
[Tomar a partir de 7 dias antes do ciclo. A administração imediatamente antes do ciclo pode provocar efeitos colaterais.]
Ou seja… o remédio que Cheriot tinha comprado era destinado a inibir o rut de maneira periódica. Os inibidores se dividiam em dois tipos principais: os de uso prolongado, como o que Cheriot tinha agora, e os de uso curto. Eram inibidores, mas não se adequavam à situação de Cheriot.
Embora fosse um erro bobo, Yurij não achou que fosse lamentável ou descuidado. Só tinha pena de vê-lo desconcertado e agitado. Se ele realmente nunca tinha passado pelo rut com inibidores, era natural se confundir. Embora tivesse a opção de pesquisar na internet antes de comprar…
—Já não adianta nada se começou, né?
Cheriot, se aproximando de repente de novo de Yurijj, perguntou. Yurij baixou um pouco a bula, olhou nos olhos dele e depois assentiu com a cabeça.
—Não.
—Então… eu tenho que continuar sofrendo assim?
—Você vai se sentir muito pior do que agora.
Yurij explicou lembrando da própria experiência, e o semblante de Cheriot empalideceu a ponto de dar pena. A febre de rut era uma dor que surgia de dentro, algo diferente de suportar ferimentos externos, e para alguém sem resistência como Cheriot, sem dúvida seria bem duro.
E no que dizia respeito a essa parte, Yurij não podia ajudá-lo em nada.
Pelo que ele sabia, o rut só era aliviado ao ser passado com um ômega. Quando os feromônios diferentes se entrelaçavam e preenchiam as carências mútuas, neutralizando-se, o corpo que enfim tinha cumprido seu propósito se acalmava. Por isso, o fato de pessoas do mesmo traço saírem juntas sempre tinha parecido estranho a Yurij. Tendo nascido como alfa e ômega, com gênero, o ciclo era uma maldição que se repetia sem parar até a velhice, quando a função
reprodutiva parava.
Yurij desejava que Cheriot não sofresse. Teria sido bom se os inibidores tivessem funcionado, mas essa já era uma opção passada, então só restava uma.
«Acho que ele deixou a bolsa por aqui.»
Yurij virou a cabeça e olhou na direção do sofá da sala. Lembrava de ter visto Cheriot jogar a bolsa perto do sofá ao voltarem para casa. Como ele supôs, a bolsa de Cheriot estava jogada no chão.
Deixando por ora Cheriot de lado, confuso como estava, Yurij se dirigiu à sala. Sentiu que Cheriot, que vagava pela cozinha como um menino perdido, parou de se mexer e olhava para ele. Ignorando o olhar que se cravava em suas costas, aproximou-se do sofá, agachou-se e pegou a bolsa de Cheriot.
«Tenho certeza de que coloquei aqui o porta-copos com o número do barista.»
—Yurij, espera!
Mas assim que Yurij agarrou a bolsa, Cheriot se aproximou num salto e pegou a outra ponta. Cada um segurou um lado da bolsa esportiva, fechada de maneira frouxa com cordões e com o interior meio exposto.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna