Capítulo 04.1
4. Wolfie, The Bunny
A ligação de Alexei chegou em plena madrugada, quando todos já estavam dormindo. A pequena aldeia sem nenhuma área de entretenimento ficava silenciosa como um túmulo depois das dez da noite, e quando Yurij recebeu a ligação de Alexei nem sequer se ouvia o pio das corujas. Ao ver o nome de Alexei na tela, Yurij largou o livro que estava lendo e observou por um instante o quarto do outro lado da sala. Lá dentro estava Cheriot, exausto depois do longo tempo na água e dormindo.
Tinham voltado para a casa quando a escuridão começava a se fechar por todos os lados. Enquanto atravessavam a rua ao anoitecer, não tiveram nenhuma conversa em particular. Só caminharam lado a lado, mantendo uma distância de dois palmos. Sem dúvida estavam mais afastados do que quando saíram, mas ainda assim uma brisa sutil passou pelo espaço estreito entre eles, esfriando o calor.
Embora o silêncio e a quietude fossem algo com que Yurij sempre tivesse convivido, naquele dia pareciam incômodos. Como estava consciente demais de Cheriot ao seu lado, Yurij tentou deliberadamente olhar para a frente. Mas toda vez que ouvia o som das sandálias molhadas de Cheriot tocando e soltando o chão, seu olhar se voltava vez após vez para o lado, e ele teve que forçar o pescoço várias vezes.
Um Cheriot calado lhe parecia estranho.
«Sem perceber, me acostumei com as palavras sem sentido dele e com aquele contato que não me deixa quieto nem um instante, então não consigo acreditar que este momento de caminhar em silêncio seja a situação que eu tanto queria há alguns dias.» Parecia que, se ficasse parado, Cheriot o agarraria de repente e puxaria algum assunto inesperado.
Apesar de seu interior revirado, a paisagem do entardecer que ele presenciou no caminho de casa era linda. As famílias que voltavam para casa para jantar, as meninas que corriam rindo, a superfície do lago tingida por um arrebol vermelho incandescente; eram cenas acolhedoras que Yurij só via em quadros.
«Será que Cheriot também está aproveitando este momento?»
Yurij ficou curioso para saber o que ele pensava. Era frustrante não conseguir nem sequer avaliar os sentimentos da pessoa ao seu lado, mesmo estando no mesmo espaço. Mas não perguntou. Se suas palavras tivessem feito com que Cheriot não se sentisse mais atraído por ele, manter esse estado seria o melhor para os dois.
Depois de caminhar um bom tempo e voltar para casa, tiveram uma conversa trivial. Cheriot sugeriu que Yurij tomasse banho primeiro, e por alguma razão a proposta o alegrou, então Yurij aceitou docilmente e tomou banho como Cheriot indicou. Não ficou muito tempo no banheiro como no dia anterior. Ao lembrar de Cheriot em pé diante da porta com um olhar ansioso, Yurij terminou o banho mais rápido que o habitual e saiu. Foi então que viu Cheriot preparando o jantar.
Os ingredientes que Cheriot tinha separado eram para um bife. Ao ver o filé vermelho já temperado com sal e pimenta e os legumes que ele estava cortando, Yurij disse que faria ele mesmo. Diante do argumento de que não podia deixar seu empregador preparar a comida dele três vezes, Cheriot deu de ombros e cedeu o lugar. Ao ver Cheriot avisando-o várias vezes, como se estivesse preocupado, o clima incômodo que ele carregava a noite toda melhorou um pouco.
Enquanto Cheriot tomava banho, Yurij terminou de cozinhar, e quando acabaram o jantar, que pelos critérios dele tinha ficado bastante bom, eram nove da noite. Era um horário meio cedo para dormir, mas Cheriot começou a se preparar para deitar. Era diferente de ontem, quando ficou rondando ao lado dele, entediado.
Embora não pudesse ter certeza do que era “típico de Cheriot” tendo passado apenas três dias juntos, Yurij sentia que ele definitivamente agia de um jeito diferente do até ontem. Yurij costumava reagir com sensibilidade à hostilidade, mas era muito desajeitado com outras emoções. A expressão de Cheriot era difícil de ler, e para Yurijj era estranho ter de ficar atento ao humor dele. Tinha esquecido o quanto era cansativo avaliar o estado de espírito do outro através de gestos e expressões mínimas.
Depois que Cheriot entrou no quarto dizendo que ia dormir, Yurij verificou os arredores da casa e deixou uma mensagem para Alexei pedindo que ligasse. Embora já tivesse se preparado para deitar, não tinha ânimo para se estirar no quarto. Hesitante, Yurij pôs água na chaleira e examinou o armário. Ao abrir a tampa de cerâmica do pote de biscoitos, encontrou vários tipos de chá. Ao tocar os saquinhos de chá, todos reunidos apenas em tons amarelos e vermelhos, viu que só havia sabores que Cheriot provavelmente tomaria.
Sunny orange ginger, salted caramel, camomile, lemon ginger, vanilla chai, peach, mango passion fruit, wild raspberry hibiscus…
Yurij, que leu lentamente aquelas palavras fofinhas, pegou o sunny orange ginger. Não foi tanto porque tivesse curiosidade pelo sabor, mas porque a cor da embalagem do saquinho era a que mais lembrava o cabelo de Cheriot. Embora nenhum pigmento pudesse capturar devidamente aquela cabeleira avermelhada que brilhava esplendidamente, agora, ao ver tons dourados e avermelhados, Cheriot lhe vinha à mente.
O chá infusionado se mostrou mais bebível do que ele imaginava. Não era excessivamente doce e tinha uma acidez moderada, um sabor que dava para continuar bebendo. Pegou o livro de Tolstói que tinha deixado pela metade ontem, sentou-se no sofá e esperou a ligação de Alexei.
O livro era tão fino que, mesmo lendo bem devagar, terminaria em uma hora. Sabia que o grande literato russo tinha escrito vários livros, mas a única coisa que Yurij conhecia era esse famoso conto. Como já não acreditava em Deus, passou por cima do conteúdo que não o alcançava e parou na parte final, que sempre capturava seu olhar.
O anjo que desobedeceu à palavra de Deus foi castigado e abandonado na terra e, ao viver com a família que o acolheu, no fim obteve o ensinamento final. “Compreendeu que o ser humano vive não por se preocupar consigo mesmo, mas por amor.” O anjo chamado Mikhail, o mesmo nome do pai de Alexei, disse isso e depois voltou ao céu.
Yurij encarou fixamente o nome Mikhail e fechou o livro. Quando Alexei perdeu os pais de maneira terrível com apenas doze anos, antes de dormir, rezava por eles e acreditava que aquele homem e aquela mulher teriam ido para o lado de Deus.
Naquela época, ele acreditava que, se a pessoa se esforçasse de qualquer maneira para viver corretamente, isso, por si só, teria sentido.
Bem no momento em que estava fechando a porta para um passado que só lhe deixava um gosto amargo, seu telefone tocou. Falando no diabo, aparece o rabo. Diante da ligação que chegou justo quando ele pensava em Alexei, Yurij sorriu de leve e se levantou. Depois de conferir o quarto onde Cheriot, exausto, devia estar dormindo, abafou os passos e saiu em silêncio.
Depois de segurar firme a maçaneta para que o som da porta ao fechar não acordasse Cheriot, atendeu a ligação, e do outro lado do fone ressoou a voz manhosa de Alexei.
[—O que você tava fazendo pra atender tão tarde?]
—Me preparei psicologicamente achando que você ia agir feito um pirralho mimado de novo.
[—Ha, besteira.]
Como se a expressão “pirralho” o tivesse incomodado, Alexei soltou um palavrão. Yurij riu com indiferença e deixou passar.
—Alguma ferida?
[—Comparado a enfrentar a gangue do Volkov, isso não é nada. Se eu tivesse nível pra lidar com esses peixinhos, nem teria começado a trabalhar como solucionador.]
Podia parecer uma confiança arrogante, mas considerando o que Alexei tinha superado, não era exagero. Os Guardiões do Inferno estavam espalhados por toda a América do Norte e sua escala era grande, mas comparados com a máfia russa ou siciliana, sua história e crueldade eram menores. Isso não significava que não houvesse monstros entre eles, mas aos olhos de Alexei, comparados com Igor, pareceriam fichinha.
[—Mas realmente vai ser preciso ter muito cuidado, Yurij.]
O tom debochado logo ficou sério e Alexei baixou a voz. Não era comum que ele, que dizia que em situações normais era melhor pagar mico do que ficar sério, agisse com seriedade. A mão que segurava o telefone se apertou. Yurij fechou com força os lábios secos, ficou em silêncio por um instante e depois perguntou.
—Me conta.
[—Como a gente desconfiou ontem, o fato de esses caras estarem atrás do Goodnight não é por uma simples relação amorosa. Yurij, isso é um contrato de assassinato.]
Ao ouvir a palavra “assassinato”, Yurij lembrou do homem no elevador. Ficou confirmado que ter como alvo Cheriot com precisão não tinha sido um erro. Ele tinha considerado a possibilidade de sequestro e extorsão porque o homem que entrou no quarto de Cheriot carregava uma pistola de choque, mas infelizmente não era isso.
—Como você soube?
[—Nos Guardiões do Inferno, além dos atiradores deles, também estão procurando mercenários. Me apresentei através de um conhecido, entrei e recebi a ordem de matar o Goodnight.]
O ar da noite, que estivera fresco, ficou abruptamente gelado. Yurij, que apertava o telefone com a mão congelada, ergueu a cabeça e verificou os arredores mais uma vez. Colocou toda a sua atenção em alerta, pensando se haveria algum rastro que tivesse deixado passar. Ao ouvir Alexei, foi tomado pela ansiedade de que algo poderia acontecer a qualquer momento.
«Se acalma.»
Yurij repetiu isso para si mesmo diante da emoção momentaneamente exacerbada. Quanto mais perigosa era a situação, manter a cabeça fria era o caminho para aumentar as chances de sobreviver.
—Não há mais detalhes?
[—Nossa, você fazer essa pergunta… por acaso esqueceu quem eu sou? Claro que descobri mais. Escuta bem. Umas duas semanas atrás começou a circular de algum lugar dentro da organização o boato de que o amante do chefe da filial de Vancouver um esportista famoso estavam tendo um caso, e depois o chefe da filial ameaçou o cara pra tirar dinheiro dele. No começo, o plano era sequestrá-lo, tirar o dinheiro e soltá-lo, mas de quatro dias para cá foi emitida uma ordem de busca em toda a organização. Oferecem recompensa a quem descobrir a localização dele, e o rastreamento e a eliminação ficam por conta de matadores de aluguel.]
—O que esses caras ganham fazendo isso? Não é uma decisão grande demais para ser tomada apenas por um chefe de filial?
[—Concordo. Então eu fucei um pouco mais e, surpresa! Por trás de tudo isso tem um cliente. Alguém com recursos suficientes para passar dinheiro por baixo do pano para uma gangue sem que a identidade dele seja descoberta.]
Era um desenrolar exasperantemente familiar. Igor Volkov subornou muita gente com dinheiro sujo para matar agentes da divisão antidrogas que o pressionavam. Recompensava com segurança os “familiares” dos valentes que matavam policiais. Quanto mais ele oferecia recompensas, mais voluntários apareciam, e quanto mais participantes, mais a loucura se intensificava.
Uma vez que a caçada começava, só terminava quando alguém morria. Fosse o alvo, Cheriot, ou as muitas mariposas que o perseguiam, no fim haveria derramamento de sangue.
«Eu tinha pensado que poderia ser algo difícil… mas não queria que fosse tão difícil assim.» Não era pela situação que ele mesmo enfrentaria, mas pelo futuro que Cheriot teria de encarar, que por um momento sentiu angústia.
«Cheriot não é alguém que devia passar por isso.»
«Ele não é um cara ingênuo que abre o coração fácil até pra lixo como eu? Se sente repulsa por gente criminosa, deve estar longe de coisas sujas, e eu nem consigo imaginar o quanto vai atormentá-lo a situação de se esconder de gente que quer matá-lo sem razão nenhuma.»
—…É impossível que Cheriot solicite uma negociação, como no plano inicial?
Perguntou com a esperança de terminar sem derramamento de sangue, mas Alexei estalou a língua.
[—Yurij, a gente sabe bem como esses caras são. A probabilidade de fingirem aceitar e depois te darem uma facada pelas costas é dez vezes maior.]
Sim, claro. Fazer essa pergunta em si já era burrice.
[—Todo mundo ia gostar que terminasse assim, mas pela situação é impossível. Alguém tão famoso quanto o Goodnight deve ter bastante patrimônio, mas se tem alguma coisa muito
maior em jogo do que o dinheiro que ele pode dar, não iriam atrás dele com tanta sede.]
—E a identidade do cliente?
[—Da escória lá de baixo só dá para descobrir até aqui. Pra descobrir mais tem que chegar perto de um dos cabeças.]
—E para isso vai ter que pagar um preço, né?
Para entrar numa gangue e ganhar o reconhecimento dos superiores, era preciso realizar um ritual de iniciação que sempre podia se tornar um ponto fraco. A única forma de confiarem em Alexei, contratado como mercenário, era que ele cumprisse bem a tarefa designada. Mas Cheriot, a quem Alexei supostamente deveria matar, continuava vivo… então isso significava que havia mais uma tarefa.
🍒。・゚♡゚・。🎂。・゚♡゚・。🍒
Continua….
⌀ ⌀ ⌀
✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna