Capítulo 03.21
3. Cherry and Smoke
Naqueles olhos verdes claros como folhas frescas que florescem ao receber o verão, leu desejo. Não era simples luxúria, mas uma mistura de calor e anseio que parecia incrustada nas pupilas de Cheriot. No instante em que o presenciou, o corpo de Yurij também se acendeu. Um calor enlouquecedor se expandiu por suas veias e o incitou.
A beijá-lo.
A segurar com força aquela bonita mandíbula que olha para baixo, juntar os lábios e depois misturar as línguas como antes.
Um grito se expandiu em sua mente. Não havia espaço para outros pensamentos. Uma força sem forma o empurrava com força por trás. Queria morder os lábios de Cheriot assim e sentir de novo o doce êxtase que acabava de provar.
Que, sem trocar palavras, pudesse perceber o que o outro desejava era algo assustadoramente estranho.
“Não.”
Yurij mal sussurrou a si mesmo, mas Cheriot foi mais rápido. Como se soubesse claramente o que queria, Cheriot o agarrou. Em vez de rejeitar aquele contato que tinha afastado uma e outra vez como antes, Yurij soltou um suspiro que era quase uma maldição e estendeu a mão para o queixo de Cheriot.
Assim que segurou a bochecha de Cheriot, Cheriot também rodeou a cintura de Yurij com o braço. Grudados num instante, como se tivessem esperado só este momento, giraram a cabeça e juntaram os lábios. Mordiscaram e chuparam os lábios do outro e logo as línguas se misturaram. A saliva de Cheriot que engoliu era doce como seu nome.
Só quando chegaram ao limite do limite após trocar alentos inúmeras vezes, ambos exalaram um fôlego áspero. Cheriot deslizou os dedos pelas costas ofegantes de Yurij. Diante do formigamento que fluía pela coluna, Yurij jogou a cabeça para trás e Cheriot cravou os dentes em seu pomo deixando uma marca.
— Uhh, ah…!
Diante do prazer pungente, Yurij soltou um suspiro baixo. Abraçando-o enquanto franzia os olhos e retorcia o queixo, Cheriot sussurrou:
— O que faço com você?
Yurij acreditava saber a resposta que ele queria. Não saber era mais difícil. Por cima da calça molhada e grudada, o membro de Cheriot se marcava com clareza criando sombras. “Com certeza eu também estou igual.” Como suas partes inferiores estavam se roçando perigosamente, se Cheriot movesse só um pouco a cintura, era seguro que seus sexos sob a roupa se esfregariam. E era seguro que Cheriot faria esse ato de maneira extraordinária.
— Você também está no mesmo estado que eu agora.
Lembrando seus comentários descarados, que dizia como se fosse uma brincadeira, sem dúvida.
Yurij costumava tratar as palavras com que os alfas se elogiavam como exageros, mas com Cheriot era distinto. Este homem grande, era desnecessariamente sincero, então certamente dizia tal qual o que lhe ocorria.
Como nunca tinha se excitado tanto sem estar no rut, Yurij se agitou muito diante do sussurro de Cheriot. Com só o beijo já sentia que enlouqueceria, e era inevitável que por instinto lhe picasse a curiosidade pelo que viria depois. Mas…
Por sua mente passaram todo tipo de pensamentos. Desde que se enredar no pessoal com a pessoa a custodiar lhe impediria de fazer bem seu trabalho, até o fato evidente de que alguém como Cheriot não encaixava com ele.
No entanto, o que mais fez hesitar Yurij entre tudo isso foi não poder sequer calibrar como mudaria seu coração se fizesse algo além de beijar. “Se nesta situação em que já me deixo levar pelo que Cheriot faz, além disso nos misturamos fisicamente…”
— Com certeza seríamos bons companheiros.
O que fez recobrar o sentido a Yurij, mergulhado numa ansiosa angústia, foram as seguintes palavras de Cheriot. Como para fazer com que a cuidadosa reflexão de Yurij parecesse ridícula, Cheriot resumiu limparmente o resultado que seguiria com a palavra “companheiros”. Recobrou o sentido como se lhe tivessem jogado água fria.
“Ah, hahaha. Companheiros…”
Embora não soubesse o que tinha esperado, um amargor indefinível o roçou. Então seu corpo esfriou. Como a água do lago secava com o vento e lhe roubava a temperatura corporal, a temperatura de Yurij estava baixando. Cada vez que soprava o vento, seu coração se afundava com frieza. Yurij baixou lentamente o olhar e observou o bonito rosto que tinha os lábios colados em seu pescoço. As pálpebras que piscavam eram irritantemente adoráveis.
— Paremos por aqui.
Tentou dizer o mais friamente possível, mas foi difícil. Ao ver-lhe o rosto, não queria ser cruel.
— …O quê?
Como se realmente quisesse avançar, Cheriot se surpreendeu muito e abriu os olhos de par em par. Embora não fosse responsabilidade de Yurij se o outro se decepcionava ou não, incomodou-o sem motivo. Como lhe resultava difícil falar olhando-lhe para a cara, Yurij endireitou o corpo e depois empurrou Cheriot com uma força adequada.
— Isso foi um erro. Como disse desde o início, não me interessam os alfas.
Cheriot franziu o cenho com expressão de incredulidade. Seu rosto branco, molhado e brilhante, reluzia sob a luz do sol, o que o fazia se ver ainda mais bonito.
— Diz que não se interessa por alfas e me beijou?
Ao ouvir as palavras de Cheriot, que apontavam com exatidão o ato que tinham cometido, o coração de Yurij se oprimiu com força. Como expressar? Era uma sensação como se um fato que tinha ocorrido em segredo fosse proclamado publicamente como uma verdade irrefutável.
“Com certeza para Cheriot tem havido dezenas de momentos assim, e comparado com seus companheiros passados este beijo não será nada…” Mesmo assim, ao pensar que ficaria na memória, sentiu um pouco de consolo.
“Embora ainda, não sei o que esperava.”
“De qualquer modo, um homem como eu não tem direito a esperar nada.”
— Por isso disse que foi um erro.
Yurij moveu brevemente a cabeça e passou por Cheriot. Cheriot o seguiu rapidamente atrás dele, enquanto Yurij caminhava para onde tinha deixado sua camisa e suas botas de combate. Enquanto pensava que Cheriot, que não se afastava não importa o que dissesse, era como um cachorro grande, Yurij apagou sua expressão.
“Que ridículo.”
Deixando escapar uma risada irônica misturada com autocrítica, repassou como tinha chegado a esta situação. “Que vento soprou para que eu, que vivi toda minha vida acreditando que é natural que um alfa esteja com um ômega, de repente terminasse beijando um alfa? Quando o vi pela primeira vez, pareceu-me um tipo tão inesperado e superficial que pensei que estaria louco.”
“Em que momento começou a se ver tão bonito este intruso que entrou na minha vida de repente, sem aviso prévio?”
“Será pela solidão?”
Mas Yurij até agora tinha cortado sem rodeios os que se tinham aproximado dele. Nem sequer sentia pesar. Cheriot também era claramente só esse tipo de existência, então por que…?
— Yuri.
“Será que quando aquele homem chama, no final acabo virando?”
Diante da voz que o chamava por trás, Yurij não pôde evitar deter seus passos. Não podia deixar Cheriot para trás e além disso era difícil ignorar aquela voz. Os olhos verdes assustados que sussurravam pedindo tratamento carinhoso e o riso claro dirigido para ele cruzaram naturalmente por sua mente e o enfraqueceram.
Yurij, que girou lentamente o corpo para olhar para trás, apertou a comissura dos lábios para manter a expressão impassível. “Só faça como sempre. Como sempre, ponha cara de não se interessar por nada.”
— Olhe para mim.
Mas assim que viu o rosto molhado de Cheriot, que o olhava de baixo, o rosto tenso de Yurij se tornou carinhoso em silêncio. Suas pupilas azuis, que por fora pareciam frias, observavam unicamente Cheriot com fixação. Usando todos os seus sentidos, a audição, o olfato, a visão, Yurij contemplou Cheriot.
Sua expressão, à primeira vista, era como sempre, mas por dentro não. Diante de Cheriot era impossível agir “como antes”. Porque o coração de Yurij já não era como antes. Não podia ignorar Cheriot ou pensar que lhe irritava como quando o viu pela primeira vez.
Tinha mudado em algum momento. Em apenas três dias.
Embora seu próprio estado, que não conseguia entender, fosse confuso, ao ler o calor no rosto de Cheriot, suas reflexões anteriores se tornaram inúteis. O ocorrido não podia ser mudado. Enquanto o tempo não se mostre caprichoso, Yurij já não poderia rejeitar Cheriot com dureza.
— A partir da segunda vez já não pode considerar-se um erro.
Cheriot tinha expressão de certeza. Mas Yurij leu sob seu olhar sério a ansiedade que vinha do medo a ser rejeitado. Embora conhecesse seu próprio atrativo e se aproximasse com descaramento, parecia que esta situação, que nunca antes tinha experimentado, lhe era estranha. Ao ver Cheriot, que mordia ligeiramente o lábio inferior e depois o soltava, Yurij, após um breve silêncio, separou os lábios.
— Sim, é um erro.
Como não era verdade, as palavras de Yurij careciam de convicção, e Cheriot aproveitou essa brecha para atacar com agudeza.
— Então, o que é essa expressão que está pondo agora?
Sem lhe dar oportunidade de recuar, Cheriot acuou Yurij. Estendendo o braço, se aproximou e cobriu as duas bochechas de Yurij com suas mãos grandes. A força que segurava seu queixo com suavidade mas firmeza fez com que o queixo de Yurij se erguesse um pouco. Assim ficou descoberto o pálido pescoço, onde apareceu a marca vermelha que Cheriot tinha feito antes.
Cheriot, ao descobrir a marca do beijo que tinha deixado, percorreu a zona com olhos ardentes. O olhar que observava descaradamente o pescoço de Yurij voltou a subir. Os lábios de Yurij, diferente do habitual, estavam úmidos pela água e o calor e tinham um tom rosado avermelhado.
— É um rosto que, quem o vê, sabe que me deseja.
Cheriot moveu a mão direita que segurava sua bochecha e pressionou o lábio de Yurij com o polegar. Diante da força que apertava a carne tenra, as pálpebras de Yurij piscaram sobressaltadas. Antes mesmo de pensar que era irritante, lhe veio à mente o beijo sensual que tinha começado no lago.
Então sentiu vontade de ignorar todos os princípios que tinha mantido até agora.
Talvez porque se tinha encharcado na água, Yurij sentia como se ainda estivesse dentro do lago. Que alguém criado com amor desejasse um tipo como ele também era irreal, e o feromônio de Cheriot que se estendia como névoa lhe mareava a cabeça. Parecia embriagar-se com sua presença.
“Será intenso, com certeza. Se eu chegar a presenciar um momento íntimo de Cheriot, algo que não qualquer um pode ver, se nos enredarmos um pouco mais no pessoal, sinto que se desdobrará um mundo novo que nunca experimentei.”
Mas Yurij era alguém que devia pensar no que viria depois. Cheriot logo se iria e voltaria a seu mundo original, enchendo o vazio com outra pessoa, mas seu mundo, depois de se despedir de Cheriot…
Ficará estagnado, sem poder voltar atrás como antes nem avançar.
Já tinha experimentado até a saciedade quão grande se sente o lugar onde o amor esteve e se foi, quão vazio e desolador é aquele vazio impossível de preencher. Não tinha força para suportar de novo aquela dor em que todo o corpo se retorce e o coração se faz em pedaços como se o empurrassem por um precipício e caísse contra um chão surdo.
“Preferiria que me torturassem e me batessem. Seria muito mais fácil de suportar. Melhor que me arranquem as unhas e voltem a mexer com uma faca nas feridas abertas na carne, que enfrentar de novo o momento de ficar sozinho.”
“Então é correto parar enquanto ainda posso suportar.”
— Você sem dúvida é bonito, Cheriot.
Olhando fixamente os fascinantes olhos verdes, Yurij reconheceu com honestidade. A orelha de Cheriot, que o ouvia, se tingiu de vermelho no instante. Yurij pensou que o corpo de Cheriot era sincero, como seu dono.
— Qualquer um que passe tempo com você não poderá evitar se apaixonar.
— …O que é isso de repente? Mudou de estratégia?
Ao ver que Yurij, diferente de até agora, continuava com calma dizendo coisas embaraçosas sobre ele, Cheriot respondeu atordoado. Além da vergonha, era adorável como tentava reprimir a comissura dos lábios que se erguia levemente de bom humor.
— Mas eu tenho uma regra. Só me relaciono com pessoas do mesmo tipo.
A comissura que se tinha erguido se endureceu pela decepção. Cheriot ergueu as sobrancelhas e perguntou de novo.
— Onde há uma regra assim?
— Ora. Você não tinha uma regra? Acho que disse que não sai com ninguém, que só tem companheiros.
O último era algo que não precisava mencionar. Ao soltar sem querer essas palavras, Yurij apertou o cenho e calou, e Cheriot, como se lhe tivessem dado no ponto fraco, piscou e soltou a força da mão que segurava sua bochecha. Mas ainda não a retirava totalmente.
— Não pensei que ouviria isso de você.
Enquanto o olhava fixamente com olhos cheios de desconcerto, Cheriot rapidamente acrescentou algo que não era uma desculpa.
— Ou seja, você tem razão, Wolfie. Mas eu também tenho minhas circunstâncias.
Eram palavras que tinha ouvido muito. Embora Cheriot fosse adorável, ao ouvi-lo falar assim, se via como tinha vivido. O que dizia era a desculpa que costumavam usar quem só mantinha relações superficiais. Especialmente se era um homem alfa jovem e sem carências.
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Continua….
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✦ Tradução, revisão e Raws: Faby&Belladonna