Capítulo 107
—Ainda não vai embora, promotor?
Diante da promotora-assistente que colocou a cabeça para dentro da sala para perguntar, Chrissy sorriu amargamente, com um ar cansado.
—Ainda tenho alguns documentos para revisar. Pode ir na frente.
—Ah, então tá.
A assistente sorriu, aparentemente de bom humor, e se virou com passos leves.
—Até amanhã, promotor. Não se esforce demais.
—Até amanhã.
Depois da despedida, Chrissy ficou sozinho novamente e voltou o olhar para os papéis. Agora, restavam apenas aqueles. Ele estava prestes a avisar Nathaniel que iria para casa de táxi. Por causa do novo caso que assumira, haviam documentos demais para analisar.
Não podia levá-los para um lugar que não era sua casa. Por isso, decidiu ficar no escritório e fazer o máximo possível. Táxi não faltava.
Olhou as horas. Já era quase o horário de Nathaniel sair do trabalho. Chrissy procurou o número no celular e ligou para ele.
—O que foi?
Nathaniel atendeu de repente, sem que parecesse ter esperado muito tempo. Surpreso com a rapidez, Chrissy soltou um breve suspiro.
—Ah… você já saiu?
—Estou a caminho.
Ao ouvir a resposta do outro lado, Chrissy respondeu com um simples “tá” e continuou:
—Eu devia ter ligado mais cedo, foi mal. Hoje vou me atrasar, então pode ir na frente.
Nathaniel não reagiu imediatamente. Como se estivesse ponderando suas palavras, ficou em silêncio por um momento e então falou em um tom mais lento que o normal:
—Ir na frente… o que você quer dizer com isso?
Chrissy inclinou a cabeça, sem entender, e respondeu novamente:
— Exatamente o que eu disse. Vá na frente. Eu vou sozinho para a sua casa.
—…Por quê?
Mais uma vez, a pergunta veio com uma pausa. Folheando os documentos à sua frente, Chrissy respondeu:
—Tenho muitos documentos para revisar. Peguei um caso novo.
— Pode trazê-los.
— Agradeço, mas recuso.
Recusando gentilmente a oferta, Chrissy acrescentou:
—É documento demais, e também não faz sentido levar tudo isso pra sua casa, que nem tem relação com o caso. Vou demorar umas duas ou três horas. Pode ir na frente. Nem vai ficar tão tarde assim.
—Vai passar da meia-noite.
Nathaniel insistiu mais uma vez. Chrissy já esperava alguma resistência, mas ele estava mais teimoso do que imaginava tentando persuadi-lo. Sentindo-se um pouco desconcertado, ele encerrou o assunto com firmeza:
— Isso acontece com frequência, então não tem problema. Desculpe avisar em cima da hora. A gente se vê depois.
Sem dar mais espaço pra conversa, desligou a chamada. O silêncio repentino ao redor o deixou estranhamente desconfortável.
Será que falei com muita firmeza…?
O pensamento surgiu de repente, mas ele logo balançou a cabeça, confuso consigo mesmo.
Que besteira… eu só falei a verdade.
Era melhor se concentrar no trabalho. Queria terminar logo e ir descansar. A cama que Nathaniel lhe ofereceu era, sinceramente, macia e confortável demais — não tinha nem comparação com o seu colchão barato, que rangia a cada movimento. Só o fato de não fazer barulho já era um alívio, mas ainda por cima envolvia o corpo de um jeito tão aconchegante…
Deve ter sido cara, com certeza.
Depois que aquela semana prometida passasse, ela não dormiria mais naquela cama. Era uma pena, mas não havia jeito. Então, precisava terminar o trabalho rápido e aproveitar bem o tempo que restava. Reorganizando os pensamentos, voltou a se concentrar nos documentos.
—Haa…
Tinha acabado de finalizar uma pasta grossa e massageava o ombro com uma das mãos quando, de repente, ouviu passos no corredor.
Quem…? Tem mais alguém aqui a essa hora?
Talvez fosse o segurança. Sem pensar muito, Chrissy pegou a caneca — só para perceber que estava vazia.
Tsk.
Estalou a língua e se levantou para fazer mais café, mas então percebeu que os passos estavam se aproximando.
Ele parou no lugar e ficou atento. Não era impressão. Aqueles passos vinham claramente em direção ao escritório onde ele estava sozinho. Silenciosos, mas firmes, ecoando pelo corredor vazio.
A cor sumiu do rosto de Chrissy.
Não… se acalme. Isso não vai acontecer de novo.
Ele fechou os olhos com força, depois os abriu, encarando a porta.
Aquele homem não viria me procurar. Já faz muito tempo. Eu lembro do que ele disse… que eu já era grande demais. Não sou mais alguém com quem ele possa fazer aquilo. Então se acalma… não é ele. Esses passos devem ser…
…Hã?
De repente, sua mente pareceu clarear. Sentiu que reconhecia aquele som — não, tinha certeza de quem eram aqueles passos. Como se a névoa se dissipasse, tudo ficou nítido, e o desconforto desapareceu por completo.
Não havia dúvida. Não tinha como se enganar. Porque aqueles passos eram…
Sem hesitar, Chrissy caminhou até a porta e a abriu de uma vez.
Do lado de fora, um homem estava parado com a mão erguida, prestes a bater. Surpreso, ele interrompeu o movimento e olhou para Chrissy.
Ao ver quem era, Chrissy não pôde deixar de sorrir, curvando levemente os olhos — exatamente como esperava.
Esses passos só podiam ser daquele homem.
— Entre, seu manco.
Diante da provocação de Chrissy, Nathaniel ficou parado por um instante antes de rir baixinho.
—Que recepção calorosa.
Dizendo isso, Nathaniel estendeu para ele um grande saco de papel que estava apoiado no braço que segurava a bengala.
—O que é isso?
Sem entender, Chrissy recebeu o pacote e abriu. Dentro, havia vários sanduíches embalados. Sem fazer a menor ideia do motivo daquilo, ele levantou o olhar novamente, e Nathaniel explicou:
—Pensei em perguntar o que você queria comer… mas deu preguiça.
Então ele simplesmente comprou de todos os tipos. Surpreso com a situação inesperada, Chrissy piscou os olhos, atordoado, até que, tardiamente, se recompôs e deu um passo para trás.
—Primeiro entra.
—Com licença.
Cumprimentando-o brevemente, Nathaniel inclinou a cabeça e entrou no escritório de Chrissy. O som ritmado da bengala ecoou no ambiente silencioso. O homem apoiado na bengala parou em frente à mesa de Chrissy após alguns passos e lentamente observou o local. Chrissy colocou o saco de sanduíches sobre a mesa e se virou.
—Quer café? Não é dos melhores, mas…
Não se comparava com aquele café sofisticado que Nathaniel costumava beber — cujo nome ele nem sabia. Mas era o que tinha. Diante da pergunta, Nathaniel assentiu levemente.
Sem saber se era por falta de vontade ou se ele era sempre assim, Chrissy apenas se virou e foi até a copa preparar o café. A assistente normalmente não gostava que usassem aquele espaço, mas dessa vez não havia escolha.
Procurando os grãos, colocou-os na máquina e ficou esperando o café sair. Enquanto isso, foi organizando os pensamentos.
Por que aquele homem veio até aqui?
Claro, apenas Nathaniel Miller poderia responder a essa pergunta. Chrissy voltou para o escritório segurando dois copos de café, um em cada mão.
Nathaniel Miller ainda estava exatamente no mesmo lugar de antes. Aquela sensação quase irreal continuava ali. Quando o conheceu pela primeira vez, ele também estava parado naquele mesmo ponto… E, ao lembrar disso, uma lembrança nada agradável atravessou sua mente de repente.
Camisinha…!
Lembrando-se daquele objeto atrevido que ela guardava por hábito na gaveta, seu coração começou a bater descontroladamente. Quando sentiu um suor frio nas têmporas, Nathaniel de repente deu um passo largo em sua direção. Como uma cobra pendurada em uma árvore se aproximando da presa, suavemente, mas com um propósito claro.
—Obrigado.
Nathaniel falou em seu tom grave característico, quase como um sussurro, enquanto pegava o café das mãos de Chrissy. No instante em que seus dedos longos e firmes roçaram os de Chrissy, como se os acariciasse, ele prendeu a respiração.
°
°
Continua…