Capítulo 40
Xiao Congjian era seguido por um jovem servo, enquanto Li Yu estava acompanhado por dois atendentes do palácio e dois guardas pessoais. Os demais guardas vestiam roupas casuais, misturando-se à multidão. Caminhando entre os participantes do festival, não pareciam deslocados – exceto pelo fato de que tanto Xiao Congjian quanto Li Yu eram extremamente bonitos, atraindo olhares frequentes e risinhos discretos das jovens.
Em sua vida passada, Li Yu fora uma celebridade, então estava acostumado à atenção das moças. Quanto a Xiao Congjian, ele permanecia igualmente impassível. Ser observado não o incomodava nem um pouco. Continuava contemplando as lanternas quando queria, a lua quando lhe dava prazer. Li Yu refletiu sobre isso e compreendeu: quando Xiao Congjian completou dezoito anos, seu nome já era renomado em toda a capital, e quando retornou vitorioso da batalha, certamente teria conquistado o coração de inúmeras moças.
Li Yu sentiu um certo desgosto. Por que ele não podia ter transmigrado uns dez anos antes? Naquela época, Xiao Congjian estava apenas começando a se destacar, ainda um jovem herói. Ele realmente queria ver como Xiao Congjian tinha sido na juventude. As pessoas diziam que Xiao Congjian havia amadurecido com o passar dos anos, mas para Li Yu, ele continuava tão afiado quanto sempre. Ele mal conseguia imaginar como ele era antes de aprender a controlar sua aspereza.
“Puzhi!” Li Yu chamou Xiao Congjian pelo nome de cortesia. Na multidão barulhenta do festival, era preciso falar alto, e não era apropriado que se tratassem por Primeiro-Ministro e Imperador.
Xiao Congjian se virou para olhá-lo. Li Yu apontou para um suporte de flores coberto de enigmas em lanternas. De pé sob as lanternas, Xiao Congjian resolveu sem esforço mais de dez enigmas seguidos. Desta vez, não eram apenas moças que olhavam para ele – até mesmo alguns rapazes de aparência erudita haviam notado. Um deles já o chamara de ‘ge’, aparentemente ansioso para puxar conversa.
Li Yu deu uma risadinha e lançou um olhar ao seu guarda. O jovem ansioso foi prontamente expulso por um grupo de atendentes corpulentos.
O vendedor idoso da barraca de lanternas simpatizou com Xiao Congjian e lhe presenteou com uma lanterna em forma de peixinho dourado. Xiao Congjian a aceitou com um sorriso e a entregou ao seu assistente. Ele continuou segurando sua própria lanterna de gaze. Li Yu, por outro lado, comprou uma pilha de bugigangas para os assistentes do palácio carregarem – apenas pela novidade.
Embora os objetos provenientes de fora do palácio não fossem tão luxuosos quanto os produzidos em seu interior, ainda assim exibiam um trabalho artesanal requintado, o que era bastante admirável.
O olhar de Li Yu se voltou para a lanterna que Xiao Congjian segurava. Não era nova nem velha, com poesia bordada na gaze. Parecia o tipo de lanterna que uma jovem dama, quieta e graciosa, carregaria. Combinava com um temperamento refinado. Contudo, nas mãos de Xiao Congjian, carregava um ar sutil de sentimentalismo, aguçando a imaginação.
Eles passeavam pela Rua Zhuque. De vez em quando paravam antes de irem a um restaurante à beira do lago. O último andar havia sido reservado para eles, e se sentaram perto da janela. Naquele ano, a capital sofreu um grande incêndio, então os espetáculos de fogos de artifício foram estritamente limitados. Além dos fogos de artifício no palácio, os maiores da capital eram lançados do Lago Yan.
Chegaram cedo – os grandes fogos ainda não haviam começado. Olhando do restaurante, a margem do lago já estava lotada de gente.
Os barcos no lago também estavam iluminados. Vozes, música e fogos de artifício se misturavam, acompanhados por aplausos e vivas.
Li Yu e Xiao Congjian conversavam descontraidamente enquanto bebiam um vinho leve. Li Yu perguntou sobre a lâmpada de Xiao Congjian – Xiao Congjian a pendurara assim que entrara na sala particular, e Li Yu sempre achara que Xiao Congjian a estimava excessivamente.
De fato, Xiao Congjian disse: “Esta pertenceu à minha falecida esposa. O poema inscrito nela foi bordado por ela mesma.”
Li Yu desanimou instantaneamente.
Ele podia fingir que havia esquecido que Xiao Congjian era seu Primeiro-Ministro, mas não podia esquecer que Xiao Congjian era um homem íntegro. E mesmo que esquecesse, a realidade o lembraria prontamente.
Ele já tinha ouvido falar da vida pessoal de Xiao Congjian. Xiao Congjian e sua esposa eram namorados de infância, profundamente devotados um ao outro.
Infelizmente, ela faleceu devido a uma doença seis anos atrás. Xiao Congjian lamentou tanto a sua morte que chegou a se recusar a se casar novamente. Sempre que a história era contada, o narrador suspirava: “Será que ainda existe um homem tão devotado neste mundo?”
Mas Li Yu nunca acreditou nisso. Ele não acreditava em histórias tão perfeitas, quase como fórmulas prontas. Secretamente, suspeitava que aquilo era apenas um exagero dos admiradores de Xiao Congjian, uma fantasia criada por aqueles que queriam ver um ídolo impecável, porém trágico.
Mas agora, o próprio Xiao Congjian havia dito: Pertencia à minha falecida esposa.
“…Ela era uma pessoa tranquila e não gostava de festas barulhentas. Mas o dia quinze do primeiro mês era uma exceção. Nesse dia, ela sempre saía para ver as lanternas.”
Xiao Congjian falou com clareza, como se estivesse relembrando um velho amigo em vez de um amor perdido.
Lá fora, um clarão de luz vermelha iluminou o céu quando os grandiosos fogos de artifício começaram. Após a explosão ensurdecedora, aplausos e exclamações ecoaram pela multidão. Xiao Congjian se virou para observar. Ele inclinou levemente a cabeça para admirar o espetáculo deslumbrante.
Mas Li Yu não olhou. Ele olhou apenas para Xiao Congjian.
O que havia de tão especial nos fogos de artifício? Ele já vira espetáculos mil vezes mais magníficos do que aquele. Mas nunca vira outro Xiao Congjian. No brilho bruxuleante, Li Yu o encarou, completamente incerto do que estava pensando.
Ele se perguntava: para um homem como Xiao Congjian – alguém que havia alcançado o ápice do poder — não seria estranho que ele ainda nutrisse tanto carinho por uma mulher comum? Ela nunca fora descrita como excepcionalmente bela ou talentosa, mas Xiao Congjian a guardava em seu coração. Não era isso estranho?
Ha. Li Yu deu uma risadinha para si mesmo.
Ele estava com ciúmes – ciúmes de uma mulher morta. Presumia que Xiao Congjian jamais poderia amar verdadeiramente alguém. Que ele deveria amar o poder – isso sim seria apropriado para um Primeiro-Ministro.
No caminho de volta de carruagem, Li Yu estava muito mais quieto.
Quando retornaram ao palácio, as festividades estavam chegando ao fim. As servas que haviam saído voltaram apressadas antes do toque de recolher. Suas risadas eram tingidas de urgência e relutância.
Li Yu distribuiu as bugigangas que trouxera de volta aos seus assistentes e, em seguida, recolheu-se para dormir sem dizer mais nada.
m(_ _)m
No dia seguinte, Han Wangzong o foi visitar. Li Yu perguntou se ele havia saído para ver as lanternas na noite anterior. Han Wangzong, cujo casamento com a Srta. He estava marcado para março, não se esquivou do assunto.
“Fui com Fengniang. Foi a primeira vez que nós dois víamos as lanternas na capital.” Ele sorriu ao falar e, em seguida, agradeceu sinceramente ao Imperador mais uma vez.
Li Yu respondeu: “Que bom. Pelo menos ontem à noite havia um casal que estava verdadeiramente feliz – verdadeiramente apaixonado.”