Deseje-me se puder - Capítulo 124
…Hã?
Um cheiro forte de fumaça invadiu seus sentidos. Era familiar. Demorou um segundo para perceber que era o cheiro do cigarro que o homem costumava fumar. Com a consciência ainda embaçada, ele levantou as pálpebras devagar e viu aquela pessoa sentada bem ao seu lado.
Dane…?
Grayson piscou algumas vezes, com os olhos ainda meio fechados.
Foi um sonho? …Ou foi real?
Ele precisava se concentrar para confirmar, mas não conseguia acordar direito. Ainda meio adormecido, apenas piscava devagar, sem reação. Foi quando Dane percebeu sua movimentação e virou o rosto em sua direção. Quando seus olhos se encontraram, vendo a expressão sonolenta e vaga de Grayson, Dane sorriu de leve.
— Dormiu bem, bonitão?
‘…É um sonho.’
Assim que ouviu a voz dele, Grayson teve certeza. Dane nunca falaria com ele assim, nunca usaria um tom tão carinhoso.
‘Um ótimo sonho…’
Grayson fechou os olhos de novo. Não queria acordar, sua consciência começou a escorregar de volta para a escuridão, mas sua mão, como se tivesse vontade própria, começou a se mover sobre o colchão, subindo até encontrar o corpo de Dane. O objetivo era óbvio. Mesmo ainda dormindo, seus dedos encontraram o peito de Dane e o apertaram, exatamente como fizeram durante todo o rut.
Um sorriso bobo surgiu em seu rosto.
Dane suspirou, incrédulo.
— Ahhh, pelo amor de Deus…
Ele levantou a mão, estava pronto para dar um leve peteleco na testa de Grayson, mas parou no ar ao notar algo. As orelhas do outro se mexeram de leve, como se estivessem reagindo a algo no sonho. Dane ficou ali, parado por um instante, apenas observando. Por fim, baixou a mão sem fazer nada.
E Grayson, mais uma vez, caiu num sono pesado, como se tivesse desmaiado.
***
— Huh? Isso é verdade?
A voz de Koy saiu mais alta do que pretendia. Do outro lado da linha, uma voz familiar continuou falando. Ele prendeu a respiração, ouvindo atentamente, e de vez em quando respondia com um: “Sim,” “Entendo…” Ele repetiu a mesma resposta.
Quando a conversa finalmente terminou, ele suspirou e assentiu, mesmo que ninguém pudesse ver.
— Ótimo, entendi. Obrigado por me contar… Sim…
Depois de trocar as despedidas habituais, desligou. Um silêncio repentino tomou conta do ambiente. Koy ficou andando de um lado para o outro na sala de visitas, com uma expressão séria no rosto. A enorme janela revelava uma vista panorâmica da Torre Eiffel. Ele estava em Paris, acompanhando Ashley em uma viagem de negócios. Agora, longe dos EUA por um tempo, receber aquele relato o deixou com o coração apertado.
Enquanto caminhava devagar, de um extremo ao outro da sala, com uma expressão preocupada, o som da fechadura sendo destravada chamou sua atenção. Ele parou e virou a cabeça bem na hora em que a porta se abriu e Ashley entrou.
— Ash.
Como se o esperasse ansiosamente, Koy sorriu e caminhou até ele. Com a maior naturalidade do mundo, eles se abraçaram e trocaram um beijo, e, no instante seguinte, Ashley inspirou fundo, absorvendo o cheiro dos feromônios de Koy. Ele sempre fazia isso. Depois de um momento parados, deixando aquele instante fluir, Koy quebrou o silêncio.
— E aí, deu tudo certo no trabalho?
— Mais ou menos.
Ashley respondeu sem muito entusiasmo, com o rosto ainda encostado no pescoço de Koy.
Koy riu de leve e o repreendeu com suavidade:
— Como assim “mais ou menos”?
— Porque só falam as mesmas bobagens de sempre. É sempre uma chatice.
O tom de Ashley continuava desinteressado.
Koy apenas balançou a cabeça com um sorriso, desistindo da discussão. Mas, de repente, Ashley esfregou o nariz contra seu pescoço, e ele se encolheu, soltando uma risada.
— Ei, para! Isso faz cócegas.
Com um sorriso ainda no rosto, Koy segurou o rosto de Ashley e o beijou nos lábios. Ashley também sorriu e mordeu levemente o nariz dele. Como não parecia que ele iria soltar sua cintura tão cedo, Koy aproveitou para trazer um assunto delicado.
— Olha, tem uma coisa que eu preciso te contar.
— Fale.
Sempre que uma conversa começava assim, geralmente não era uma boa notícia. Mas Ashley não demonstrou reação alguma e apenas esperou. Koy hesitou por um momento, mas logo criou coragem e falou:
— A Sra Bernice entrou em contato.
— Bernice.
— É.
Ashley repetiu o nome baixinho, e Koy confirmou com um aceno de cabeça.
Bernice tinha sido a assistente de Dominic Miller, o pai de Ashley. Ela sempre reportava para ele sobre Ashley e resolvia qualquer assunto relacionado a ele. Mas, desde a morte de Dominic, ela passou a trabalhar diretamente para Ashley, agora como sua assistente pessoal. Atualmente, ela cuidava de tudo que envolvia as crianças.
Então, se Bernice havia ligado, significava que algo tinha acontecido com um dos seus filhos. Ashley não disse nada. Apenas esperou Koy continuar.
— É sobre o Grayson…
Mesmo vendo que Koy hesitava, Ashley não o pressionou para falar mais rápido. Por mais que sua mente já estivesse tomada de pensamentos cheios de preocupação, ele se manteve paciente.
Finalmente, Koy tomou fôlego e disse:
— Ele foi a uma festa.
Pela primeira vez, Ashley franziu o cenho.
‘E isso é um problema porquê? Na verdade, ele já tinha passado da hora de ir. Fazia quanto tempo desde que havia dito para Grayson retirar os feromônios?’
Percebendo a confusão no rosto de Ashley, Koy continuou:
— Ele tirou os feromônios com injeção.
Os braços que o abraçavam se contraíram levemente. Koy fez uma expressão preocupada e prosseguiu.
— A Sra Bernice disse que ele foi na festa, mas em vez de liberar os feromônios como costuma fazer, ele só usou a injeção e foi embora. Ela o seguiu e viu que ele chegou bem em casa. Mas, pelo jeito, entrou no rut. Desde então, já fazem três dias que ele não sai de casa…. Ah, e a Bernice também avisou a base do corpo de bombeiros, dizendo que ele precisaria de alguns dias de folga por causa das consequências do rut.
Quando Koy terminou de falar, Ashley não reagiu de imediato. Não piscou, não moveu um músculo. Apenas ficou ali, encarando Koy em silêncio. Depois de um longo tempo, ele finalmente abriu a boca:
— …Por quê?
Só depois de um longo tempo ele moveu os lábios. Logo depois, franziu ainda mais a testa, claramente sem entender nada.
— Por que ele faria isso?
Koy respirou fundo antes de responder. Então, trouxe à tona a conclusão que ele e Bernice haviam chegado.
— Porque ele encontrou alguém que realmente ama.
Ashley não reagiu imediatamente. Ele ficou olhando para Koy sem se mover por um tempo, até soltar um longo suspiro.
— O Chase recusou tanto dormir com alguém naquela época, e agora o Grayson está fazendo isso? Justo ele, que tentou forçar o Chase a acasalar com um cachorro porque não entendia o irmão?
Ashley soltou um comentário sarcástico, e Koy se apressou em dar uma explicação.
— Agora o Grayson também parece ter entendido… o que significa gostar de alguém.
O rosto de Ashley estava cheio de descrença. Koy continuou, tentando convencê-lo com urgência.
— Você sabe, Ash. O Grayson tem um problema com sentimentos. Mas não sabemos se ele realmente não consegue sentir nada ou se sente, mas não percebe. Se for esse o caso… Se ele simplesmente não percebeu até agora… Então, dessa vez, ele pode realmente mudar.
— Isso não faz sentido.
— Ash, por favor, me escute.
Koy segurou o braço dele, suplicando.
— Ele está fazendo exatamente o que você fez quando era mais novo. Você não lembra? Depois que nos separamos, você começou a tomar injeções para suprimir os feromônios.
Ashley fechou a boca, sem dizer nada.
Koy aproveitou o silêncio para insistir ainda mais.
— Nós nunca falamos sobre isso com ele, mas, mesmo assim, ele está fazendo a mesma coisa por conta própria. Ele descobriu sozinho! Isso não é impressionante? Você não acha que isso significa alguma coisa?
Ele não conseguiu esconder a empolgação e ergueu a voz.
— O Grayson está sentindo alguma coisa pelo Dane!
— Koy, se acalme.
A voz de Ashley foi fria e firme, interrompendo-o.
— Eu conheço o Grayson melhor do que você. Não existe um hospital para onde eu não tenha levado aquele garoto, nem um médico que eu não tenha consultado sobre o assunto. O Grayson não tem sentimentos, Koy. Ele simplesmente não sente nada.
— Podemos estar errados!
O grito de Koy fez Ashley arregalar os olhos, surpreso. Koy, estava rebatendo suas palavras? Ashley ficou tão surpreso que ficou sem reação. Enquanto Ashley ficava paralisado, Koy insistiu, desesperado:
— Por favor, Ash. Pense de novo. Eu sei que você fez o seu melhor. Mas e se nós tentamos ajudar ele da maneira errada esse tempo todo?
Seus olhos começaram a brilhar com lágrimas. Koy, com a voz embargada, perguntou:
— Não é mil vezes melhor admitir que estávamos errados do que concluir que nosso filho tem algum problema?
Ashley ficou em silêncio por um momento, apenas observando o rosto contorcido de Koy, que lutava para segurar o choro.
— …Ahh.
Depois de um longo tempo, suspirou profundamente. E então, sem aviso, puxou Koy para um abraço apertado.
Sua voz saiu num sussurro grave:
— Eu não posso te perder.
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°
Continua…